Como nossos pais

Wing Wars – Parte 7
14/10/2021
Reta final
21/10/2021

Nossos ídolos ainda são os mesmos, e as aparências não enganam, não.
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém”

Minha primeira coluna nesta versão do GPtotal foi publicada em Agosto de 2011, e nela eu comparava (pensando no desempenho de Schumacher naquele ano) as temporadas de 1994 e 2006: narrei ambas, apontando uma série de coincidências cronológicas e factuais entre os campeonatos: o piloto veterano tendo dificuldades pra se encontrar com o equipamento, e o jovem leão maximizando desempenho logo de início, utilizando táticas surpreendentes e, ao mesmo tempo, dispondo dum carro e uma chefia que lhe davam vantagens. A leitura que fiz, excluídos os juízos diretos sobre cada um dos fatos, foi a de que é um movimento natural na história da F1 (dos esportes em geral e – por que não? – da vida): por maiores e melhores que sejam os pilotos, sempre surge um mais jovem disposto a desafiá-lo, a ir a seus limites e, eventualmente, triunfar.

Como dito, minha preocupação maior ali era fazer uma reparação naquilo que sempre entendi um absurdo: um julgamento sobre as potencialidades, capacidades e limitações de Ayrton Senna e Michael Schumacher observando unicamente os 3 GPs (que a rigor foi um só) que eles dividiram em 1994. Não tive a preocupação em buscar nuances históricas semelhantes, nem a preparar possibilidades futuras nesse sentido. Em alguma medida, é possível ver na temporada de 1968 uma espécie de prólogo — Graham Hill e Jackie Stewart chegando à última corrida com chances de títulos, num GP muito marcante –, mas a ausência de Jim Clark acaba sendo um anticlímax, afinal, não citei 1994 pela “grande disputa” (que jamais existiu!) entre Schumacher e Damon Hill, e sim por tudo que envolvia e poderia envolver Ayrton Senna e Michael Schumacher.

Hoje, eu, certamente, incluiria o ano de 1984 (e este texto do Lucas Giavoni é formidável para compreender o porquê) como a mais marcante dessas disputas de território que seriam “passagens de bastão”: Niki Lauda e Alain Prost travaram um duelo tão feroz dentro das pistas quanto nos bastidores. Gosto de definir tais episódios como “Battle of the ages” – para aqui fazer referência à sensacional luta entre Evander Holyfield (28 anos) e George Foreman (42), em 1991, talvez o mais simbólico confronto de estilos, épocas, virtudes e possibilidades da história dos esportes.

Em alguma medida, as temporadas de 2007 (Alonso x Hamilton), 2010 (Alonso x Vettel) e 2016 (Hamilton x Rosberg) poderiam ser vistas e entendidas como possíveis continuações da saga 1984-1994-2006, mas falham em vários aspectos no comparativo, especialmente pelo fato de a diferença de idade/experiência dos presentes não ser tão marcante quanto Lauda/Prost, Senna/Schumi e Michael/Fernando. A temporada 2021, no entanto, faz justiça e merece ser considerado o quarto capítulo da série.

Mais do que um campeonato disputado, mais do que a presença de dois grandes pilotos na luta pelo título e mais do que a alternância de performances, o que mais une a temporada atual às míticas disputas de 1984, 1994 e 2006 é a certeza de, a cada etapa, estarmos diante da possibilidade de algum turnaround, seja pela disputa nos bastidores, pela tensão entre os postulantes, pelo limite da esportividade ou por aspectos técnicos que possam representar grandes saltos ou retrocessos. Sem contar as punições, o chamado “fator extracampo”.

No que seria um aparente paradoxo, as corridas variam entre muito empolgantes e entediantes, mas o campeonato tem se tornado extremamente imprevisível e, por isso, chama muita atenção. Se acompanhar todas e cada uma volta dos treinos, das classificações, das sprint races e das corridas em si por vezes parece cansativo, olhar a tabela de pontos a cada fim de semana de GP é, por si só, um exercício de mistério e surpresa: não seria exagero dizer que, mesmo sem assistir nenhuma corrida, alguém poderia dizer que o campeonato de 2021 foi um dos mais atraentes de todos os tempos.

Felizmente, não veremos uma repetição de 1994 (graças ao Halo, certo, JC?), mas podemos aguardar possibilidades como as de 1984 e de 2006, ambas imprevisíveis até a etapa final, ainda que se diga que a mais recente delas acabou na penúltima etapa. Se Hamilton repetirá (guardadas as devidas proporções, por favor!) o feito de Lauda ou o filme protagonizado por Schumacher, não sabemos, mas seu lugar na história da categoria é ali, junto dos dois, acima de um ou de ambos, ao lado deles, ou abaixo — você escolhe. E se Verstappen irá perder por meio ponto como Prost ou se mostrar inabalável como Alonso, não sabemos, mas ele vem demonstrando fazer jus à comparação com ambos. Seu primeiro título é mesmo uma questão de tempo.

“Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando, mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    Mar

    mais uma coluna reflexiva …

    – Foi bela a luta entre Evander Holyfield (28 anos) e George Foreman (42), apesar de nunca ter sido fã de boxe.
    – Eu penso que o Prost quando perdeu o titulo pro Lauda em 84, aprendeu mais do que perdeu.
    – L. Haminton x Max Verstappen em 2021. Se tivesse que apostar e tivesse 100 reais para isso, apostava 52 no Hamilton e 48 no Verstappen para ser campeão. A briga está boa. A diferença pró Hamilton é por que estou na torcida para ele faturar seu 8º titulo.

    Fica aqui uma pergunta: Será que o halo salvaria a vida do Senna em 1994? Taí uma boa ideia para uma boa coluna.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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