Confronto de gerações

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Chegando lá
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Em uma exibição primorosa saindo do oitavo lugar para vencer o Grande Prêmio da Argentina de MotoGP, Valentino Rossi deu uma lição na jovem, ansiosa e afobada geração atual, mostrando que envelhecer não é tão ruim assim.

Não é que ele aprontou outra vez? Menos de um mês atrás, escrevi para o Gepeto sobre a extraordinária vitória de Valentino Rossi na etapa de abertura da MotoGP 2015, em Losail, no Catar. Agora, no belíssimo circuito argentino de Termas de Rio Hondo, o italiano mais uma vez venceu em condições que pareciam impossíveis.

O que dizer a mais sobre esse mito? Faltam-me palavras para descrever o que Rossi está fazendo na MotoGP. No outro artigo, comparei sua vitória no Catar à de Ayrton Senna em Interlagos 1993. Essa, então seria como aquela de Donnington Park? De certa forma sim, mas não quero insistir nessa comparação. Senna é Senna. Rossi é Rossi. Gostaria de mudar o foco para o seu rival, o jovem Marc Márquez.

Pobre Márquez! Por sua ânsia em não entregar o primeiro lugar à Rossi a duas voltas do final da prova, o espanhol virou alvo de todo o tipo de críticas. Em uma sociedade que praticamente te obriga a defender um ponto de vista monocromático, como se tudo se resumisse a um “preto ou branco” sem meio termo, faço questão de dizer que minha admiração por ele continua intacta.

Márquez nada mais é do que o reflexo dessa geração monocromática, tensa, cobradora e impaciente com aquilo que não é imediato e superlativo. Nascido no pequeno município de Cervera, Espanha durante a vertiginosa década de 90, o menino já realizou, com apenas 22 anos, proezas que uma pessoa normal não faria em uma vida inteira.

Quantos de nós já éramos empregados de uma grande corporação antes dos 20 anos? Quantos já tinham viajado pelo mundo inteiro para exercer uma paixão, ficado rico e a mercê do melhor e do pior que as pessoas possam lhe proporcionar? E mesmo tendo sucesso, sua vida é um amontoado de cobranças, dia após dia. Dá um frio na espinha só de pensar, né?

O curioso é que Márquez realizou tudo isso sendo o melhor de sua geração. Entre os inúmeros recordes que já conquistou, destaca-se principalmente ter sido campeão em seu ano de estreia na categoria principal. Um feito que parecia impossível de se repetir, depois de Kenny Roberts em 1978.

Acostumado a somente vencer, Márquez não estava preparado para perder em uma disputa direta, nem mesmo para Rossi, seu grande ídolo. Pode não parecer agora, mas o italiano é o grande ídolo do espanhol e a foto que tiraram juntos quando ainda era apenas uma criança se tornou lendária.

Quando viu o antigo mestre se aproximando, sua atitude foi a de acelerar mais e mais, ignorando os pneus gastos e os sinais de sua Honda, que parecia implorar para que diminuísse o ritmo. Só a vitória interessava. Quando o acidente aconteceu, recebeu as mesmas críticas maldosamente gratuitas que Rossi levou quando sua experiência com a Ducati foi um fracasso.

Rossi, no entanto, pertence à outra época. Nascido na pacata Urbino, uma pequena comuna italiana no finalzinho dos mágicos anos 70, Valentino carrega em sua face a alegria e o descompromisso de sua era. Vencer para ele nunca foi uma obrigação, mas apenas uma consequência de seu enorme talento.

Sua insistência em permanecer no olimpo das duas rodas se dá porque não consegue imaginar sua vida longe desse mundo, na qual convive desde criança, trazido pelas mãos do pai, o também piloto Graziano Rossi. Seu amor pelo motociclismo é tão grande que permite, aos 36 anos de idade, conseguir ser mais rápido que outro de 22 no auge de suas capacidades.

Não que eu o considere “um velho”, como provavelmente os adolescentes de hoje o chamam, longe disso. Estou com 32 e, de certa forma, me sinto como Rossi, aliando uma boa capacidade física com um amadurecimento mental que só o tempo é capaz de proporcionar e só quem está vivendo sabe.

Foi essa maturidade que fez Valentino abrir a mente para os poderes da eletrônica, que começava a dominar a MotoGP. Foi essa maturidade que o fez reconhecer que o casamento com a Ducati não daria certo. Foi essa maturidade que o estimulou a mudar seu estilo de pilotagem para ficar mais parecido com… Márquez!

Também foi graças a essa maturidade que Rossi utilizou o pneu extra duro na Argentina, mesmo sem se sentir confortável com ele. Timing, ritmo, cautela, precisão: Esses foram os ingredientes principais que o fizeram ultrapassar cuidadosamente cada um de seus sete adversários em Termas de Rio Hondo.

Por outro lado, foi a ansiedade em ser o melhor em tudo que fez Márquez dar aquela volta espetacular para conquistar a Pole position em Austin. E foi essa mesma tensão que resultou no acidente na Argentina, mostrando claramente a faca de dois gumes que é agir dessa maneira. Um modo de pilotagem belíssimo, mas também temerário.

Assim, com a vitória Rossi pareceu dizer à Márquez: Vá com calma, aproveite o momento, analise a situação, o mundo não vai terminar amanhã. As críticas vão vir de qualquer maneira então, porque se estressar tentando agradar quem sempre irá cobrar irracionalmente? Foi o que o italiano aprendeu com o tempo e agora demonstra para o rival e para toda à nova geração com seus feitos nas pistas, antes recheados de velocidade e ousadia.  Agora com inteligência e sabedoria.

O bom é constatar que Márquez não parece ter caído nas malhas da fama e está realmente disposto a aprender: “Essas coisas acontecem em corridas, e você tem que aprender com elas, e ainda sou jovem, então eu tenho um monte de lições a aprender”, disse em uma entrevista hoje (22). Márquez é um menino especial, há de se reconhecer.

Assim, vamos seguir o conselho do ‘Doutor Rossi’ e saborear esse momento único no esporte a motor, que colocou frente a frente dois personagens de universos e gerações tão diferentes. Como dizia o cientista Carl Sagan, “Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer dividir um planeta e uma época com você.”

Lucas Carioli

Lucas Carioli
Lucas Carioli
Publicitário de formação, mas jornalista de coração. Sua primeira grande lembrança da F1 é o acidente de Gerhard Berger em Imola 1989.

7 Comentários

  1. Rafael Carvalho disse:

    Primeiramente, um belo texto do Carioli! Rossi é simplesmente genial! Marc Marquez é bom mas Rossi dispensa comentários! Quem é rei nunca perde a majestade!

  2. Mauro Santana disse:

    Bela coluna Lucas!!

    Só digo uma coisa:

    O dia em que o Valentino Rossi se aposentar, certamente vai ficar um buraco gigantesco aberto na Motogp.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Renato disse:

    Show de texto! Ainda fechou com o sempre gigante Carl Sagan. Parabéns.

  4. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    show de bola!!!
    Eu acho que neste ano poderei ver e acompanhar um duelo que imaginei que pudesse acontecer ano passado … Marc Marquez x Valentino Rossi … não aconteceu poisa Yamaha não tinha uma moto como a Honda tinha …
    Este ano, ao contrário, me parece que a Yamaha festá no mesmo patamar da Honda … ou pelo menos o conjunto Rossi/Yamaha estão no mesmo nivel de Marquez/Honda … quem ganha com isso somos nós que certamente veremos neste ano a melhor disputa por um titulo mundial de todos os tempos na motovelocidade … e vai ser certamente uma oportunidade impar em razão da idade do Rossi … se tiver de acontecer, tem que ser neste ano de 2015 …
    Se comparando com o que vemos na Formula 1 , vai ser aquele olé, pois dificilmente trocarei de canal para ver a Formula 1 em detrimento de não ver este duelo Marquez x Rossi.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  5. Manuel disse:

    Belissimo texto, amigo Lucas !!!

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