Conversa no céu

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Enzo: Alfred, vejo que a tal da Liberty Media criou uma empresa só para cuidar da Formula 1.

Alfred: Como a maioria dos grandes grupos americanos, o foco vai ser sempre o mesmo: retorno para os acionistas.

Enzo: Muito dinheiro, foco em resultados, mesmo no longo termo. Vão fazer de tudo para dar o maior profit possível para os acionistas. Ainda mais agora que o líder da nação é um bilionário, ele no mínimo deve inspirar certa parcela do empresariado.

Alfred: Imagino que foi por razões como essa que você deixou de fechar negócio com a Ford, não? Na época todo mundo ficou do teu lado. Era o combatente solitário que não se rendia `a força bruta…

Enzo sorri, um sorriso misterioso, e continua: Mas olhe, a Liberty tem mais braços que um polvo e todos são longos, investem em Israel, Brasil, por exemplo, com foco em tecnologia.

Alfred: Mas é tecnologia que tem a ver com F1? Parece que eles vão desde gastronomia até esporte, eles tem uma empresa como a da F1 voltada só para aqueles esportes tipicamente americanos, com o nome de uma equipe, Atlanta Braves.

Enzo: Negócios em primeiro lugar. Bernie já tinha feito negócio com aquela empresa do teu país, e era um negócio… bem esquisito, para ser elegante.

Alfred: Bernie levou a F1 longe demais no mundo dos negócios, Enzo.

Enzo: Concordo, Alfred. Americanos, como você sabe, são ótimos em entretenimento mas em automobilismo pensam muito diferente de nós.

Alfred: Eles tem muita experiência com canais de TV voltados para entretenimento mas não sei se vão entender a essência da F1, que vem da época em que nós dois éramos protagonistas.

Enzo: Eles não entendem que a hegemonia de uma equipe é frequente e não é o principal motivo para a queda de audiência. O pessoal que mexe nas regras também tem muita culpa. Parece que esqueceram tudo. Se o excesso de downforce é o principal fator que atrapalha as ultrapassagens, mudam as regras e geram busca por mais downforce? Pazzesco!

Alfred: Ach! Que coisa chata! Tudo indica que os carros de 2017 serão ainda mais lentos nas retas e muito mais rápidos nas curvas. Não parece muito promissor. Com esses motorzinhos de máquina de cortar grama! As pessoas escutam e entendem o ruído de um motor potente, não enxergam e não entendem os efeitos aerodinâmicos. Transformaram a F1 em um território onde os engenheiros aeronáuticos – ingleses – passaram a comandar. Não faz sentido. Agora a Renault acaba de tirar um aerodinamicista da Red Bull, só pra citar um exemplo.

Enzo: Foi outra coisa de americano, aquele Jim Hall começou a experimentar, experimentar, foi buscar apoio na NASA e na GM e de repente estava andando na frente da gente. O Colin gostou e de repente, tive que me adaptar e reformular toda a gestione sportiva, contratando gente que antes não precisava. É muito caro para uma empresa pequena, que produzia quase tudo sozinha.
O Colin não fazia motor e cambio, lembra?

Alfred: Nessa época eu estava distante mas o principal sempre foi a combinação entre a mecânica, incluindo potência de sobra, e o talento dos pilotos. Imagina o Moss e o Fangio lidando com esses motorzinhos inventados para dar uma aparência “verde” para a F1! F1 não tem que ser verde, deixa isso pra F-E. Hoje até os pneus tem influencia grande nos resultados.

Enzo: Quem compra um carro esportivo fica preocupado com os pneus? Pergunta qual a marca e o tipo? Pergunta qual o coeficiente aerodinâmico? Até onde sei todos decidem pelas linhas, se são bonitas e se elas fazem com que o carro pareça ser agressivamente veloz, se o motor é potente, se o cambio engata rápido, se faz curvas sem sustos… Se é bonito e gostoso de dirigir, principalmente em alta velocidade, enfim.

Alfred: Tem toda razão, nós na Mercedes quando decidíamos fazer algum esportivo sabíamos que o desempenho era essencial, exatamente para tornar os carros agradáveis de dirigir. Tinham que ser ótimos em tudo. A versão de competição do “gulfwing” tinha menos motor que os concorrentes, era o que tinhamos depois da guerra, mas andava na frente.

Enzo: Como foi sua experiência nos Estados Unidos antes da guerra? Lembro que vocês e a Auto Union do Ferdinand foram correr lá, não foi? Como eram os competidores americanos?

Alfred: Tinha um ou dois interessantes, com ideias originais, mas a maioria estava tecnologicamente bem atrás de nós, europeus.

Enzo: E eles estavam economicamente melhores que a Europa, depois da Primeira Guerra. Podiam ter se desenvolvido mais.

Alfred: A filosofia deles, baseada em fartura e preço baixo da gasolina, era simplesmente fazer um motor grande, mas simples, e pronto. Cambio de 3 marchas, automático de preferência. Não é para quem gosta de fazer curvas. Imagina o Uhlenhaut como ficaria entediado com um carro desses, num trajeto como o da Targa Florio…

Enzo: Aquele era um homem de respeito. Tão talentoso como engenheiro como piloto.

Alfred: E era um gentleman. Hoje os costumes são outros, inclusive na parte ética. Não me agrada nada esse Toto ser sócio de duas escuderias e ainda manager de pilotos. Como pode não misturar as coisas? Como ninguém fala nada? Será que a ética na F1 sumiu totalmente depois daquele escândalo da McLaren? Que traz de volta o pivô Alonso? ScheiBe!

Enzo: Também não me agrada esse Marchionne! Outro uomo d’affari!!! Não é um racer como nós. Traz um homem de vendas dos Estados Unidos para liderar a equipe e queima o coitado em menos de um ano! Promete coisas que não sabe se a Ferrari vai poder cumprir. Principalmente porque ele mexe no quadro de funcionários como se estivesse na Fiat! A Ferrari não é nem nunca será a Fiat!

Alfred: Pelo jeito a F1 não será nunca mais a F1.

Enzo não responde. Seu olhar se fixa em uma nuvem distante. Alfred abaixa a cabeça e suspira.
Um suspiro longo, vindo lá do fundo do peito.

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

8 Comentários

  1. Paulo Hardt disse:

    Ótima maneira de observar, por outro ângulo, a letargia que tomou conta da F1 nos últimos anos.
    Os grandes serão sempre os grandes. Sem saudosismo, até porque sem eles não existiria F1.

    Abraço

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Chiesa!!

    Realmente, foi uma conversa daquelas de terminar com aquele suspiro de saudades.

    E fico imaginando os que já se foram, olhando lá do céu, o buraco negro em que mergulharam a nossa amada F1.

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Carlos Chiesa disse:

      Grande Mauro! Realmente, fico sempre me perguntando o que a turma que transformou – efetivamente – a F1 na categoria top do mundo do automobilismo acha cada vez que alguém altera a receita. Isso é o que imagino que Enzo e Alfred Neubauer, considerado o melhor chefe de equipe (não-dono) de todos os tempos achariam.

  3. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    show de bola!!!
    Que venha 2017 … quem sabe não teremos algumas surpresas …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Carlos Chiesa disse:

      Oxalá sejam surpresas agradáveis, Fernando, mas como pode ver, não encontrei motivos para otimismo.

  4. MarcioD disse:

    Parabéns Chiesa!!! Dialogo interessante, repleto de verdades e bem divertido entre duas lendas!!!

    Abraços,

    márcio

    • Carlos Chiesa disse:

      Muito obrigado, MárcioD, o objetivo era mesmo abordar esse assunto de uma maneira divertida, embora tenha muito de melancolia.

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