Corridas Esquecidas

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Com as seguidas quedas na audiência e a geralmente sofrível qualidade na transmissão, a discussão a respeito de uma eventual transferência da F-1 para a tevê por assinatura terá de entrar em pauta mais cedo ou mais tarde

Tive o prazer de receber, na semana passada, um dos livros mais raros já escritos a respeito do automobilismo. “The Forgotten Races”, de Chris Ellard, conta em detalhes todas as corridas não-oficiais de Fórmula 1 realizadas no período dos motores de três litros, entre 1966 e 1983, e mesmo na internet raramente é encontrado, exceto por uma ou outra cópia a preços exorbitantes. O livro, pelo pouco que já li, é excelente. Aqui no Brasil, no entanto, seu título bem que poderia se referir a corridas bem diferentes.

Por conta do fuso horário, as provas realizadas na América do Norte sempre representaram dificuldades para a transmissão em tevê aberta por aqui, por frequentemente invadirem o espaço do sagrado ludopédio. A lista de corridas interrompidas ou não transmitidas inclui alguns episódios importantes na história recente da categoria rainha, e neste domingo ganhou mais uma representante.

No que se refere à Rede Globo, essa duplicidade de programas gera o que poderia ser definido como um overbooking involuntário, uma situação em que ela tem compromisso com duas atrações e recebe por dois anunciantes num mesmo horário, precisando escolher uma das opções. E, nesses casos, nós sabemos que o futebol é intocável. Ademais, os índices de audiência, a despeito do desencanto geral em relação à amarelinha, dão total respaldo a tal escolha.

A questão é o que se faz (e o que não se faz) a partir daí. Ano passado, no GP do Texas, o grupo conseguiu a transmissão da corrida ao vivo pelo SporTV, e se encarregou de transmitir o VT em tevê aberta na noite de domingo. Legal. Não é o que gostaríamos, mas é aceitável. Neste domingo, no entanto, não foi oferecida nenhuma dessas opções, e eu só assisti à segunda parte da corrida porque felizmente tenho os amigos certos (valeu, Lucas Giavoni!), e sabia que eles logo iriam descobrir um bom link na internet.

O grande problema em relação a essas provas, é que elas vão continuar acontecendo, e algo precisa ser feito a respeito. Com as seguidas quedas na audiência e a geralmente sofrível qualidade na transmissão, a discussão a respeito de uma eventual transferência da F-1 para a tevê por assinatura terá de entrar em pauta mais cedo ou mais tarde. Atualmente a Inglaterra já passa por isso, e por mais que a ideia da Fórmula 1 num canal de acesso restrito não me agrade, também não me agrada o desrespeito com que o tema vem sendo tratado pela tevê aberta nos últimos anos.

Pessoalmente, se a transferência significasse uma cobertura mais ampla e informativa, não teria qualquer objeção. Automobilismo nunca foi esporte de apelo popular (por mais que tenha produzido ídolos de 1ª grandeza), e acredito que a maior parte de sua audiência já tenha acesso a canais pagos, em casa ou nas residências de amigos e parentes. Concorde-se ou não, ao menos a discussão se mostra pertinente.

Até o momento do fechamento deste texto ainda não havia sido divulgado o nome do fiscal estupidamente morto durante o GP do Canadá, atropelado pelo guindaste móvel que retirava a Sauber de Esteban Gutierrez de uma das áreas de escape do circuito.

A morte deste fiscal – gostaria muito de registrar seu nome aqui – entra tristemente para a lista dos maiores absurdos já ocorridos dentro de uma pista de corridas. Só posso esperar que Deus conforte a família, e que seu passamento sirva para jogar nova luz a respeito dos procedimentos adotados às margens do asfalto, considerando que há tempos morrem mais fiscais do que pilotos na Fórmula 1.

Felipe Massa reclamou do atendimento médico em Mônaco, afirmando que em Montreal tudo correu melhor e ele foi mais bem atendido. A organização há de convir que são críticas respaldadas, vindas da boca de um piloto que sabe o que diz, pois bateu duas vezesem Monte Carlo, e também deixou suas marcas durante os treinos no Canadá.

Em todos os casos, resta a impressão de que Felipe jamais se tornou um piloto refinado, ainda que ocasionalmente seja muito rápido. Sua tocada raramente é limpa ou livre de indesejados movimentos laterais, sugerindo uma progressiva perda de controle quanto mais próxima do limite for sua pilotagem. Creio que os acidentes recentes, e muitos outros que vimos nos últimos anos, podem ser colocados na conta desta falta de harmonia e suavidade ao volante.

Algo que remete ao mesmo GP do Canadá, no distante ano de 1990, quando Jean Alesi impressionava a todos por sua pilotagem exuberante, até rodar numa frenagem fora do trilho seco, em que os dois lados de seu bólido experimentavam aderências diferentes. Ayrton Senna, por sua vez, trabalhava o volante com a mesma agilidade, antecipando, contudo, eventuais escorregadas. Mais de uma vez, ao dobrar retardatários, o mesmo Ayrton teve de frear com duas rodas no molhado, conseguindo dosar de alguma forma a redução de velocidade conforme os limites de seus pneus menos aderentes, mantendo-se na pista.

Suavidade e controle, especialmente quando se guia próximo ao limite, ainda podem fazer a diferença entre uma corrida como a de Alonso, e outra como a de Massa, condenada a uma espetacularidade estéril desde o erro na Q2, no dia anterior.

E já que falamos em Senna, Alesi e corridas do passado, impossível não lembrar as épicas primeiras voltas da corrida canadense de 20 anos atrás. Especialmente da incrível ultrapassagem de Senna sobre Alesi no grampo do circuito, pelo lado de fora, e depois tocando rodas até perto da última chicane. Fernando Alonso, neste domingo, ensaiou manobra semelhante mais de uma vez – primeiro sobre Bottas, destaque dos treinos, e depois sobre Hamilton, na disputa final do GP. Em nenhum dos casos conseguiu concretizar a ultrapassagem, valorizando ainda mais o grau de dificuldade daquele momento histórico.

httpv://youtu.be/ivHrg_S86Ts

Ainda sobre Alonso, ao término da corrida ele fez questão de manifestar sua satisfação por novamente ter corrido em meio a pessoas inteligentes, numa clara referência às manobras de que foi vítima no GP de Mônaco. O que faz lembrar Nelson Piquet, dizendo dos riscos de guiar no pelotão intermediário, em meio a pilotos que “não conseguem nem enxergar o que acontece à frente, imagina aos lados”.

Aos trancos e barrancos, Kimi Räikkönen conseguiu igualar a impressionante marca de 24 corridas seguidas terminadas na zona de pontuação, pertencente a Michael Schumacher. Para a infelicidade do talentoso e irreverente finlandês, no entanto, esse recorde veio com a segunda corrida consecutiva no extremo errado desta zona, afastando-o demais do líder do mundial Sebastian Vettel.

As duas corridas mais atípicas do ano, aliás, foram extremamente favoráveis ao atual tricampeão mundial. Tendo somado 43 pontos em 50 possíveis, Vettel viu a distância crescer 40 pontos em relação a Kimi Räikkönen, e 19 em relação a Alonso apenas em Mônaco e Montreal. O espanhol agora é o vice-líder do campeonato com uma desvantagem de 36 pontos, mas uma análise mais detalhada dos desempenhos indica que ele talvez tenha formado com a Ferrari o conjunto mais forte do ano até agora, considerados os problemas na Malásia e no Bahrein, além das peculiaridades de Monte Carlo.

Por tudo isso, o GP da Grã-Bretanha promete jogar alguma luz a respeito dos rumos desse confuso campeonato. Se voltar a ampliar sua vantagem numa pista mais convencional e que geralmente propicia bons desempenhos às equipes rivais, então talvez Sebastian Vettel e a Red Bull tenham de fato encontrado a tal equação identificada por Eduardo Correa e consigam estabelecer alguma forma de domínio estável até o fim da temporada. Por sua vez, para Mercedes, Lotus e Ferrari, as luzes amarelas estão acesas e é chegada a hora de transformar velocidade em pontos, e rapidez em consistência.

O campeonato, de verdade, está começando agora, e minha opinião é de que as coisas ainda não estão tão definidas quanto podem parecer.

Abraços a todos, e uma ótima semana.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

14 Comments

  1. Rafael Carvalho de Oliveira disse:

    Foi uma sacagem da globo.

    • Fabiano Bastos das Neves disse:

      Também fiquei indignado com o tratamento dado pela Rede Globo aos fãs da F1. Sei que economicamente o futebol deve dar um retorno muito maior à emissora, mas não há como justificar o ocorrido. O grupo possuía meios para oferecer opções melhores ao público fiel da F1 (por exemplo transmitir ao vivo em um de seus canais fechados – Sportv, Globosat, etc.) do que uma transmissão Frankenstein, metade ao vivo, metade compacto (super compactado). Penso que um VT da corrida completa após o Fantástico daria mais audiência do que a programação normal da emissora.
      E para quem também ficou decepcionado com a transmissão deste GP pela RG, melhor não assistir nenhuma corrida pela Fox Sports (a gringa é claro), pois a indignação só aumentará. Lá, são mais de três horas de transmissão de qualidade. Começa uma hora antes com várias entrevistas exclusivas com pilotos, engenheiros, chefes de equipe, etc. Termina após a entrevista dos pilotos no pódio e análise da corrida.
      Sugiro aos insatisfeitos que busquem alternativas à transmissão platinada, pois dela acredito que os apaixonados pela F1 não receberão o tratamento esperado.

  2. calhiandro disse:

    Ainda acho que a globo deveria ter disponibilizado o restante da corrida em um dos seus três canais esportivos(sporttv, sporttv2,sporttv3) fechados. Seria no máximo mais 40 min de corrida.

  3. Rafael Carvalho de Oliveira disse:

    A corrida em si foi morna se comparada a outros anos. Apesar de ter um carro péssimo, um dos meus destaques me surpreendeu não só pela posição do grid mas pela bravura em defender posição: Valteri Bottas! O cara vem desempenhando dentro das limitações do carro um bom desempenho. Ver ne também fez uma boa corrida, na minha opinião o francês é bem melhor que o Ricciardo mas ainda não esta para um dos carros da Red Bull. Massa foi o que deu um pouco mais de emoção na corrida com varias ultrapassagens e um pega com o Sútil. Se o Massa tivesse com pneus médios na 1ª parada, ele poderia ter ido mais a frente mas se pensarmos na posição de largada do piloto está valendo!

    Que Deus tome conta do fiscal atropelado!

  4. Arthur Luz disse:

    Olá,

    O Raikkonen igualou o recorde do Schummy com dois décimos lugares. O Schumacher fez 24 corridas onde os 6 primeiros (ou talevez já estaria na fase dos 8) pontuavam.
    Além do mais, acho errado os comparativos nas estatísticas da F1 não possuírem um padrão de pontuação. Daqui a pouco o Sutil vai ter mais pontos que o Piquet.

    abs

    • Arlindo Silva disse:

      Só que aí Arthur temos de ver também os indices de confiabilidade dos carros. Eles aumentaram muito nos ultimos 20 anos. Do mesmo jeito que era um parto para uma Rial, Osella chegar entre os seis em 1989, hoje é ainda mais dificil pra uma Marussia completar a corrida entre os 10, e eu acho que isso justifica o sistema de pontos atual.

      Sobre essa questão do recorde do Kimi x Schumacher, o que tem de ser visto é que Kimi tem um conjunto que é no máximo a terceira força do grid, enquanto que Schumacher tinha o melhor carro do grid (em 2002 aliás era apelação)

      • Mauro Santana disse:

        Concordo contigo Arlindo!

      • Arthur Luz disse:

        Outras épocas. Nos anos 80 e até o final dos anos 90 a confiabilidade dos carros era duvidosa. A Ferrari de 2002 era ‘tão apelação’ quanto as McLaren/Honda de Senna e Prost. O Alemão trabalhou duro de 1996 até 2000 para garantir um carro confiável. Claro que hoje a ‘zebra’ é muito mais difícil de acontecer, visto que os carros não quebram, o que eu vejo como um processo evolutivo dos anos 80 pra cá. O Mika Hakkinen poderia ter um número maior de corridas em zona de pontuação entre 98 e 99. Visto que a McLaren desses anos também era ‘apelação’.
        Não acho ruim a mudança nos pontos, acho justa, inclusive pela sua citação das quebras dos carros (coisa que o Trulli já reclamava)
        Mas comparar as estatísticas históricas com pontuação do vencedor a 9 pontos pra hoje com 25 pra mim é injusta.

        abraço

        • Mauro Santana disse:

          Também acho uma baita injustiça hoje o vencedor receber 25 pontos pela vitória, pois os 9 pontos estavam mais do que bom!

        • Arlindo Silva disse:

          Arthur,

          Nem estou discutindo o mérito do Schumacher nesse recorde. Apenas apontando que o Kimi também tem os seus e que eles são diferentes dos méritos do Schumacher.

  5. Márcio Madeira admiro o seu conhecimento por corridas, assim como eu expressa seu profundo respeito é admiração por este esporte tão maravilhoso e empolgante, mas não posso me reprimir a não ressaltar o meu repudio a TV Globo pela não transmissão do Grande Prêmio do Canadá, infelizmente só pude apreciar a primeira parte da corrida em virtude do jogo fajuto entre Brasil e França, ridícula a postura da emissora, uma falta de respeito ao público fiel da formula 1 que acompanha corrida por corrida eu em particular torcendo para chegar logo um outro Grande Prêmio.

  6. Lucas Giavoni disse:

    De nada, amigão.

  7. Fernando Marques disse:

    Eu achei o GP do Canadá morno … se em comparação aos GP’s já realizados em 2013 … a vitoria do Vettel foi mais que absoluta … ninguém o ameaçou no decorrer da corrida e sua vantagem era tão grande que mesmo quando cochilou voltou na frente com muitos segundos a frente do Hamilton … o Alonso fez uma bela corrida ainda mais se pensar em termos de campeonato …
    Marcio não concordo que o conjunto Alonso/Ferrari esteja mais forte que Vettel/RBR … a liderança do alemão até agora é fruto da sua maior regularidade … inclusive no quesito vitorias … 3 x 2 no Alonso …
    Agora fico triste em ver a Lotus andando para trás … ou melhor não evoluindo como seus demais adversários … a vantagem de gastar menos pneus já não vale de mais nada … o carro não está rápido nos treinos e nem na corrida … o Raikkonen deve estar decepcionado pois vê seus rivais evoluindo e ele estagnado …
    O Massa fez uma boa corrida e certamente foi quem mais animou a corrida … face a sua situação na largada, chegar em 8º foi muito bom, ainda mais que a maioria das posições ele ganhou na pista … seus pit stops só lhe trouxeram prejuizo na corrida …
    Com relação a esta questão da TV, não podemos reclamar se a Globo transmitiu a seleção brasileira e não a corrida toda … se fosse o dono dela fazia a mesma coisa … acho que temos muitos fãs de automobilismo aqui no Brasil, já demos muitas provas disso, mas o futebol neste quesito é insuperável aqui dentro … no meu caso fiquei na minha e vi a 2ª parte da prova a noite no Sport TV, como se fosse ao vivo pois esperei até o fim para saber realmente quem tinha se dado bem na corrida …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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