Croissant frio e murcho

Rescaldo de Montreal
21/06/2019
Zona de conforto
29/06/2019

O sol do começo de verão do hemisfério norte garante imagens e fotos bonitas, bem coloridas, em Paul Ricard. Do que estou falando? Estou apenas tentando achar algo de bom da corrida do domingo, forte candidata à corrida mais enfadonha não só do ano, mas de toda a década. Não sei de onde eles tiraram 6 minutos pro vídeo de highlights!

A corrida foi definida na largada, em duas curvas estava tudo definido. “Pronto, a corrida acabou, bom domingo a todos!”, bradei pelo whatsapp, seguindo o palpite do amigo Cleiton Daré. A ideia era “queimar a língua”, quase como jogar uma mandinga pra que acontecesse alguma coisa que nos prendesse frente ao televisor.

Claro que não deu em nada. Eu podia ter passado a próxima hora e meia fazendo qualquer outra coisa, lavando louça, limpando as caixas de areia dos gatos, sei lá. Não iria perder nada. Essa corrida francesa foi tão boa quanto um croissant frio e murcho, termo cunhado por outro amigo, o Marcelo Barroso. Foi tão preciso que virou título do texto.

Lewis Hamilton arrancou de sua pole e manteve a mesma posição pelas 53 voltas que se seguiram, ganhando aquele troféu ridículo de gorila – acho que o pior que eu já vi na minha vida, superando aquele troféu cafonérrimo de bota de caubói que os pilotos da Indy ganham no Texas. Segue a passos largos para ganhar mais um título, burocraticamente. Chuto umas duas ou três provas de antecedência.

Valtteri Bottas, Charles Leclerc e Max Verstappen também chegaram nas posições que largaram, logo a seguir. Sebastian Vettel só quebrou essa ordem porque errou nos treinos e largou em sétimo. Como Pierre Gasly fez ainda pior nos treinos e emendou uma corrida horrorosa em casa, sobrou para Vettel aquele abismo para os outros competidores. Ele pôde colocar pneus novos para cravar a melhor volta no último giro e levar um pontinho. Esse tem sido o padrão: o último colocado entre os carros de Mercedes, Ferrari e Red Bull, por terem uma vantagem muito grande para os demais competidores, podem fazer esse pit extra para obter a melhor volta.

A falta de atrativos chegou a tal ponto que um dos principais fatos de pista era o aguardo do pits top de Lance Stroll. É mole? Abandonos? Só um, a Haas de Romain Grosjean – e ele estacionou nos boxes. Aconteceu um Safety Car Virtual relâmpago, porque um cone foi arremessado na pista, não mudou nada. Daniel Ricciardo, horas depois da bandeirada, teve seu 7º lugar transformado em 11º ao tomar duas punições por estar com sua Renault fora da pista em situação de luta por posições.

Sim, a corrida foi ruim até mesmo depois de terminar! Só rindo mesmo!

Podemos dizer que essa versão atual de Paul Ricard é um retrato do que a F1 se transformou – e que agrada tão pouco. A pista tem toda sua extensão ladeada por asfalto, pintado naquele azul medonho que segue os contornos da pista e deixa a paisagem tão confusa. Com tal característica, há forte dependência do julgamento dos comissários de pista para saber se alguém saiu da pista e se beneficiou disso – sim, os mesmos comissários dos quais estamos enfadados e que interferiram diretamente no resultado do vencedor do GP passado no Canadá.

Vou refrescar a memória do leitor. Antigamente existiam umas coisas chamadas “caixa de brita”, “caixa de areia” e uma coisa chamada “grama” que reduzia a velocidade ou tirava a aderência, fazendo com que pilotos que exagerassem saíssem da corrida ou perdessem tempo… naturalmente! Soa bem idiota quando colocamos nessa perspectiva, né?

Mas sempre tem mais. Como a F1 se tornou uma versão medrosa de si mesma, botou uma chicane no meio da lendária reta Mistal, que seria o grande atrativo do retorno de Paul Ricard ao circo. Só nos resta entender o motivo. A Mistral é uma reta MENOR que a de Baku. E os dois pedaços de reta que sobram, fatiados pela tal chicane, são menores que a reta que a F1 usava na versão reduzida de Paul Ricard, de 1986 a 1990. Ou seja, é possível desconfiar que botaram essa chicane só pra sacanear.

O problema não é o domínio da Mercedes, não é Hamilton conquistar mais um título sem rivais. O problema é muito mais abrangente e que se resume em uma palavra. A F1 está chata. Milhões de tweets hoje classificaram a corrida e a categoria como boring. Como lembrou meu cearense favorito, JC Viana, na MotoGP, o domínio é de Marc Márquez, mas as corridas são quase sempre ótimas, com muita competitividade. Não há do que reclamar.

Sabemos como a F1 chegou nisso, com a queda ou desvirtuamento de vários de seus fundamentos. O que não sabemos é como isso vai ser consertado. Os gélidos executivos da Liberty ganham um caminhão de dólares para resolver isso.

Comer sozinho esse croissant frio e murcho seria ruim demais. Ainda bem que tinha a turma do whatsapp. Foi o que salvou, pois demos bastante risada em meio a tanta chatice.

Abração!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

5 Comentários

  1. […] semana atrás, após o enfadonho GP da França, muitas vozes se apressaram a decretar que a F1 estava “morrendo”, ou que os pilotos da […]

  2. Mauro Santana disse:

    Eu temo que o circuito de Paul Ricard acabe pagando o pato pela corrida chata.

    Deixem a Mistral completa, sem esta chicane, e nem de asa móvel será preciso para ver bons pegas na corrida.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    O GP da França foi muito chato.
    E pelo visto a Formula 1 vai continuar chata enquanto perdurar o dominio Hamilton/Mercedes.
    Valteri Bottas é o único que pode mudar alguma coisa nesta temporada de 2019. Afinal tem um equipamento igual ao do Hamilton. Maas pelo visto já perdeu o encanto.

    Obs: Não consegui enviar meu comentário na coluna do Roberto Agresti. Simplesmente não tinha como acessar os comentários.

    no mais vamos que vamos …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Marcelo Barroso disse:

    Mais uma vez preciso e foi a voz de muitos de nós que no whats e outras redes observamos a pior procissão dos últimos tempos. Os pilotos fazem o q podem mas as regras estão matando o esforço de muitos deles.

  5. Mauro Santana disse:

    Excelente Coluna, Lucas!

    Como que uma corrida igual a de ontem, irá atrair novos fãs?!

    Pois é…

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *