Dançando na chuva

Pneus e estouros, parte 1
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Exatamente 20 anos atrás acontecia o GP da Bélgica de 1995, aquela que considero a obra-prima de Schumacher na Fórmula 1.

Está escrito nos livros de história: os grandes campeões deixam suas assinaturas artísticas em Spa-Francorchamps. Em 1995 não foi diferente, com Michael Schumacher realizando aquela que considero sua obra de arte mais impressionante, uma vitória antológica no Grande Prêmio da Bélgica, largando da 16º posição.

Quando a Fórmula 1 chegou à região das Ardenas, a bola da vez era seu maior adversário, Damon Hill, vencedor da última etapa, na Hungria. Schumacher, por outro lado, era alvo de especulações de que correria na Ferrari no ano seguinte, por estratosféricos 48 milhões de dólares em dois anos de contrato. Também havia sido anunciado que David Coulthard não correria pela Williams em 1996 e em seu lugar entraria o filho de Gilles Villeneuve, Jacques, recém-coroado vencedor das 500 Milhas de Indianápolis.

Mas, ao deixar a Hungria com sol e calor, o circo da Fórmula 1 se deparou com uma Bélgica mais fria e chuvosa do que o habitual. Nos treinos, apenas uma sessão foi de pista seca. Ainda na sexta-feira, Johnny Herbert, então companheiro de Schumacher na Benetton bateu forte, destruindo o seu belo B195. Seu chefe, o execrável Flavio Briatore simplesmente resolveu que não iria lhe emprestar o carro do colega e o inglês acabou ficando de fora, esperando seus mecânicos reconstruírem seu único chassi.

Williams e Benetton eram as principais equipes da época e haviam monopolizado praticamente todas as vitórias de 1994 e 1995. Em Spa, no entanto, elas pareciam meio perdidas no acerto do carro, confusas com as condições atmosféricas. A Ferrari, sob a batuta de Jean Todt progredia lentamente em seu plano de renascimento na Fórmula 1, mas ainda não estava no mesmo nível dos times ingleses. Contudo, o lindíssimo modelo 412T2 se adaptou maravilhosamente ao circuito belga, fazendo com que Gerhard Berger e Jean Alesi terminassem a sexta-feira de treinos livres em primeiro e segundo lugares.

O sábado amanheceu seco, mas a previsão indicava que mais chuva viria a seguir. Por isso, Schumacher não queria perder tempo  quando bateu forte na curva Malmedy, ainda pela manhã. Herbert, que a essa altura já sabia estar descartado na Benetton para o ano seguinte deve ter adorado, porque, dessa vez foi o alemão quem ficou sem carro para o treino de classificação, à tarde.

Quando a sessão classificatória começou, Todt mandou Berger e Alesi para a saída dos boxes, pois era questão de tempo até a chuva aparecer. Foi uma sábia decisão, pois eles foram os únicos pilotos a conseguirem marcar tempo em pista seca. Hill e Coulthard não saíram na hora certa e ficaram para trás.

Assim, Berger ficou com a pole position, um presente para o seu 36º aniversário. Alesi se colocou em segundo, com Mika Hakkinen em terceiro e Herbert em quarto. Coulthard vinha em quinto e Hill apenas em oitavo. Schumacher, com o tempo marcado na sexta-feira ficou lá atrás, em 16º, ao lado de Ukyo Katayama. Herbert deve ter dado gargalhadas depois dessa classificação…

O domingo teve a mesma tônica dos dias anteriores, ou seja, com nuvens intimidantes no horizonte. No Warm Up choveu novamente, mas no momento em que os carros alinharam no grid, a pista estava seca. Berger patina e larga mal, perdendo posições para Alesi e Herbert, que descem a antiga linha de chegada lado a lado. O francês conseguiu manter-se a frente até a Eau Rouge, mas no fim da reta oposta, o britânico da Benetton assumiu a ponta. Hill pulou para sexto atrás de Coulthard e Hakkinen.

Ao final da primeira volta Schumacher já havia superado Rubens Barrichello e vinha em 10º. Hakkinen rodou ao contornar a La Source e abandonou ali mesmo. Alesi, como sempre um puro racer ainda não havia desistido e foi para cima de Herbert na volta seguinte, recuperando a liderança do mesmo jeito que perdera. Enquanto o francês abria vantagem e fazia a melhor volta, Coulthard e Hill superavam Berger, subindo para terceiro e quarto, respectivamente. Na terceira volta Schumacher já era oitavo e estava a apenas nove segundos do líder!

Eis que na 4º passagem, Alesi surpreendentemente entra nos boxes. A equipe não estava preparada, mas havia algo errado com sua suspensão traseira esquerda. Eles trocaram os pneus e o francês retornou, abandonando poucos metros após deixar o pit-lane. A sorte, como sempre, não estava ao seu lado.

Herbert, então assumiu a ponta, mas esse também não era seu dia: pressionando por Coulthard, o simpático britânico rodou miseravelmente na chicane Les Combes. Hill também passou, deixando a Williams em primeiro e segundo.

Pressionado agora por Berger, Herbert erra de novo e roda na Bus Stop. Ele voltaria atrás de… Schumacher, que já vinha na quinta posição. Coulthard, na liderança pilotava com muita vontade e não parecia disposto a deixar Hill passar. Provavelmente a notícia de que estava sendo dispensado deve ter lhe dado um estímulo extra. Contudo, o câmbio do Williams FW17 quebrou, deixando o escocês a pé, naquela que poderia ter sido a primeira vitória de sua carreira.

Começam as trocas de pneus. Hill fez seu pit-stop, assim como Berger e Irvine. Schumacher assumiu a liderança, com a Williams número 5 apenas quatro segundos atrás. O alemão foi o último dos líderes a parar, na volta 17. Berger, a essa altura, já estava fora, com problemas elétricos. O final de semana, que havia começado tão promissor para a Ferrari, mais uma vez resultava em nada. Era assim a vida dos italianos naqueles tempos.

De repente, começa a chover e Hill vem imediatamente aos boxes para colocar os pneus de pista molhada, apostando que a chuva fosse permanecer. Schumacher resolveu ficar na pista mais um pouco. A princípio, a Williams parecia estar certa, pois quando voltou o britânico descontou toda a diferença que o separava do campeão em apenas uma volta. O espetáculo ia começar!

Os dois contornaram Eau Rouge, Les Combes e Malmedy colados, com Schumacher ainda à frente. Ao chegarem a chicane Fagnes, Hill novamente colocou o carro de lado, furioso por não conseguir passar, mesmo com pneus de chuva. O alemão bloqueava descaradamente o inglês, que era nitidamente mais veloz.

httpv://youtu.be/ZXRfq4PgYH0

Schumacher e Hill viviam, nessa época, o auge de uma rivalidade amarga, com trocas de farpas pela imprensa. Mas, no glorioso Spa-Francorchamps, esses dois personagens tão antagônicos estavam fazendo um show fantástico, principalmente o alemão, com pneus lisos em uma pista completamente molhada.

Ao chegarem novamente na reta oposta, Hill, vem na posição certa, por dentro e finalmente realiza a ultrapassagem. Schumacher tentou resistir até as últimas consequências e acabou fora da pista, retornando em seguida.

Exatamente enquanto isso acontecia, a chuva dava uma trégua. Irvine parou nos boxes para reabastecer e viu seu Jordan envolto numa bola de fogo! Uma das presilhas de engate da mangueira falhou, jorrando gasolina pura nos escapamentos incandescentes. O resultado foi muito parecido com visto com Jos Verstappen na Alemanha em 1994. E, assim como naquela ocasião, a ação dos mecânicos foi rápida, fazendo com que o irlandês malucão pulasse fora sem maiores problemas.

Com a pista secando novamente, os pneus biscoito de Hill começaram a aquecer demais pela falta d’água. Precisou ir aos boxes deixando Schumacher retomar a liderança. Mas, na Bélgica o clima parece debochar de todos. Sem mais nem menos, a chuva volta com força, levando o pessoal da Williams a loucura.

A pista, agora estava escorregadia como sabão. O desastrado Katayama bateu seu Tyrrell na Malmedy, forçando a entrada do safety-car. Schumacher aproveitou para finalmente colocar os pneus de chuva enquanto Hill entra pela terceira vez nos boxes para recolocá-los. Mas, como sempre a Williams se atrapalha toda e um problema com a roda dianteira direita o prende por 13 segundos parado.

Além do atraso, Hill ainda seria punido pela direção da prova por ter excedido o limite de velocidade nos boxes, precisando cumprir uma punição de 10 segundos. O inglês voltou atrás de Martin Brundle, ficando completamente fora da briga pela vitória. E tem mais: tentando recuperar o prejuízo, acabou rodando na La Source! Por sorte, conseguiu voltar, sem perder a terceira posição.

Restando quatro voltas, a chuva finalmente havia parado. Schumacher corria folgado na frente, enquanto Brundle vinha em segundo, também realizando uma bela corrida. Hill, no entanto tirava de três a quatro segundos por volta e, pilotando com a faca entre os dentes conseguiu a ultrapassagem na última volta. O mesmo fez o então promissor Heinz-Harald Frentzen, que roubou o quarto lugar de Mark Blundell.

Assim, Schumacher cruzou orgulhosamente a linha de chegada em primeiro lugar, sua segunda vitória (válida) no Grande Prêmio da Bélgica. Hill, apesar de todos os problemas, ainda conseguiu ficar em segundo, com Brundle em terceiro e Frentzen, muito próximo, na quarta posição. Blundell salvou o dia da Mclaren com o quinto lugar enquanto que Barrichello fez o mesmo pela Jordan cruzando em sexto.

Os mecânicos e chefes da Benetton pareciam não acreditar no que estavam vendo. Na verdade ninguém acreditava que Schumacher pudesse ganhar uma corrida tão confusa, largando da décima sexta posição, tendo concorrentes tão fortes a sua frente. Nesse dia, o futuro heptacampeão já assinava seu nome na história como um dos melhores pilotos de todos os tempos.

Lucas Carioli
Lucas Carioli
Publicitário de formação, mas jornalista de coração. Sua primeira grande lembrança da F1 é o acidente de Gerhard Berger em Imola 1989.

6 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    O GP da Bélgica de 95 foi sem duvidas nenhuma uma grande corrida … mas cá entre nós o Damil Hill como piloto era muito bonzinho demais ainda perto do Dick Vigarista … fico imaginando aquele duelo lado a lado que eles fizeram, onde Hill por dentro e com pneus de chuva não levou a melhor sobre Schumacher com pneus lisos por fora, se a situação fosse inversa ou seja Schumi por dentro e Hill por fora … certamente o alemão ia deixar seu carro esparramar na curva e Hill ia comer grama fora da pista …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Leandro Duarte disse:

    Eu fiquei é curioso pra saber o que eles conversaram ali rs

  3. Mauro Santana disse:

    Bela coluna Lucas!

    Realmente foi uma corridaça esta de Spa 1995.

    Como lá em casa ninguém gostava do Dick Vigarista, óbvio que torcemos muito pro Hill vencer nas temporadas de 94(pós Imola), 95 e 96.

    Mas também era óbvio que nós ficávamos muito putos da vida com a quantidade de erros bobos que o inglês cometia.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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