Decepção e euforia

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A história do automobilismo, a F1 em particular, nos mostra muitas histórias nas quais decepção e euforia acontecem como pano de fundo em várias disputas em jogo. Esses sentimentos andam lado a lado com uma linha muitas vezes tênue a separá-las.

O maior dos mestres das pistas, Juan Manuel Fangio, tinha um excelente repertório de frases, uma delas define bem a corrida desse final de semana: “Para ganhar, a primeira coisa que você tem de fazer é chegar lá.”

É uma variação daquele famoso ditado do mundo do esporte a motor, que diz que para chegar em primeiro, primeiro você precisa chegar…

O GP da Alemanha acabou por amplificar os dois principais protagonistas ao título desse ano com situações em que a mudança entre a decepção e a euforia foram a tônica principal.

Esse ano a disputa foi em Hockenheim, circuito encurtado em 2002 para atender os padrões de segurança e televisivos da Fórmula 1 moderna. Mesmo sendo da chamada “velha guarda” e tendo minhas restrições ante os projetos de Hermann Tilke, confesso preferir essa versão do autódromo alemão.

É um sentimento misto, entre lembrar no antigo traçado o trágico acidente de Jim Clark, que esse ano completou 50 anos, e entender que esse traçado é mais apropriado para torcedores de arquibancada, já que a parte do chamado Estádio é o maior destaque da pista. Na versão mais comprida, a floresta sem dúvida se sobressaía e era muito mais aproveitada pelos pilotos, mas nesse contexto sou mais favorável a visão do torcedor.

Sobre decepção e euforia, vamos falar do sábado, no treino classificatório.

Lewis Hamilton prostrado ao lado de seu carro, sabe-se lá o que se passava dentro de seu capacete, certamente era a imagem da decepção, quando seu carro o deixou na mão com problema hidráulico, ainda no Q1. Com seus já famosos maneirismos ante a adversidade, ele ficou um bom tempo ao lado do carro, o infortúnio naquela altura era um duro golpe. Restava a torcida do que jamais aconteceria: Valtteri Bottas não teve forças para impedir a pole do rival direto, Sebastian Vettel, que em sua última tentativa foi 200 milésimos mais rápido.

Vettel tinha todos os motivos para tanta euforia no sábado, já que estava se confirmando que a Ferrari definitivamente tinha um carro superior nessa pista e com Hamilton tão para trás, vencer seria apenas uma questão de cumprir as 67 voltas sem sobressaltos, enquanto o rival teria todo tipo de desafio para escalar o pelotão e minimizar os prejuízos. Um quarto ou quinto lugares era o mais realístico a se pensar.

Reforçando a superioridade, a recente fama das largadas meteóricas das Ferrais, somando a sua melhora de potência que se traduz em velocidade, era muito lógico fazer a previsão, que saindo na ponta Vettel conseguiria uma vitória fácil e assim ampliaria sua vantagem no campeonato.

Vem o domingo e a corrida começa confirmando, como esperado, um Vettel largando melhor e tomando a ponta. Nenhuma intercorrência ocorre nas primeiras voltas, o que reforça a ideia que poderia haver uma procissão monótona até a quadriculada.

Hamilton, como esperado, parte para fazer uma prova de recuperação, até pilotando de forma mais cautelosa que de costume em suas primeiras voltas. Ele vai ultrapassando conjuntos menos poderosos que sua Mercedes, chegando a quinta posição na décima quarta volta. A partir daí sua evolução seria bem menor.

A partir dessa fase da prova a estratégia de trocas de pneus é quem deveria dar a tônica. Todos os ponteiros largaram com compostos ultramacios, mesmo assim o esperado era uma única parada. Hamilton, com compostos duros, tentaria avançar nessa fase, mas os carros da Ferrari estão muito mais rápidos, com Kimi Räikkönen correndo em terceiro, inaugurando a rodada de pits, porém sem perder posição para Hamilton, mais um indicativo que a vida do inglês não estava fácil.

Contrariando o que se esperava, Vettel, Bottas e Verstappen conseguem estender a vida útil dos ultramacios e continuam sem parar até cerca da vigésima quinta volta, sendo que a Pirelli havia sugerido para esse composto uma duração bem menor, entre 15 a 17 giros.

Essa estratégia limitaria ainda mais a recuperação de Hamilton, porque ficava claro que todos fariam uma única parada. Mesmo tendo largado com o composto mais duro do final de semana, para ter pneus macios para atacar no final, a perspectiva de Hamilton naquele momento não passava de obter um quinto lugar, atrás de Vettel, Bottas, Räikkönen e Verstappen.

Mas as coisas então começam a sair do script, e decepção e euforia logo surgiriam de maneira surpreendente.

Quando Vettel resolve fazer sua parada, para surpresa, volta atrás de Räikkönen, mas à frente de Hamilton. Bottas não consegue o mesmo e vai parar atrás de Hamilton, ainda que este precisasse fazer sua parada.

Verstappen fazia uma prova discreta e desde a largada ocupava a quarta posição

A maior reviravolta acontece no terço final da prova. Desde o início se falava em chuva, com previsão que mudou várias vezes ao longo do tempo. Naquela altura, só a chuva poderia adicionar tempero e emoção a uma prova até ali um tanto morna.

Hamilton segurou o quanto pôde para evitar fazer uma parada com tempo seco. Se desse certo, ele teria a chance de fazer uma parada a menos e assim entrar na briga, mas na volta 41 não dá mais, e ele finalmente troca seus pneus… duas voltas antes da água dos céus finalmente chegar!

A chuva chegou atingindo mais a parte contrária aos boxes, próxima a floresta, e a partir dai muda o cenário da prova por completo. A Sauber de Leclerc é a primeira a parar e colocar pneus intermediários. Na sequência, os carros do pelotão intermediário começam a parar e, dos ponteiros, apenas a Red Bull arisca e chama Verstappen. Nem Mercedes, nem Ferrari pensam em parar, até porque naquela altura o uso dos intermediários não estava compensando quanto a velocidade. Era mais uma questão de segurança na condução. Para quem estava de slicks, bastaria ter cuidado nas partes do circuito que estavam molhadas e seguir em frente, tanto que a Red Bull se arrepende, chama Verstappen de volta e coloca pneus ultramacios.

Vettel, que desde a sua troca estava atrás de Räikkönen, começa a falar via rádio e fica claro, pedindo passagem. Está criada a situação novamente da Ferrari, nessa pista, ter que administrar uma situação complicada. Precisava lançar via rádio, de forma enigmática para Räikkönen, uma mensagem para que este abrisse passagem, numa versão mais nova da famosa “Alonso is faster than you” que Felipe Massa ouviu 8 anos atrás. A versão de hoje teve como argumento a degradação prematura dos pneus. Será que um dia o time de Maranello aprende que já conhecemos suas artimanhas para fazer jogo de equipe?

Bem, na volta 39 Räikkönen acata a degradação de pneus e abre, deixando caminho livre para Vettel novamente ser líder e recuperar o script “normal” para a corrida.

A chuva, no entanto, não deixaria de promover a grande reviravolta do fim de semana. Justamente por achar que tudo estava sob controle, Vettel perde o controle.

Numa manobra infeliz, justamente no ponto mais lento do circuito, Vettel entra quente demais, escorrega e vai terminar a trajetória enterrado na barreira de pneus. Imediatamente esmurra o volante, com plena consciência do erro absurdo que acabava de cometer e é impossível não lembrar dos murros no volante que Nigel Mansell dava em situações semelhantes.

Entra o Safety Car e muitos pilotos aproveitam para trocar seus pneus. Quem emerge na liderança? Ele mesmo, Lewis Hamilton, numa manobra que teve seu grau de polêmica. Ele tomou a linha de entrada dos boxes e aborta na última hora, passando pela grama para voltar para a pista. A direção de prova, porém, julgou que não era necessário puni-lo e apenas foi aplicada uma “reprimenda”.

Na relargada, Bottas surpreendeu e atacou Hamilton, com pneus mais combalidos, mas imediatamente recebe ordem da Mercedes para manter a posição. Resta a Bottas o papel de escudeiro, e ele não tem dificuldades de segurar Räikkönen, que mais uma vez não tem o instinto matador de outrora e se acomoda na terceira posição.

Cena final da corrida, um eufórico Hamilton no pódio dá um bom banho de champanhe no presidente da Mercedes. Aonde o mestre Fangio possa estar, deve estar repetindo:

“Para ganhar, a primeira coisa que você tem de fazer é chegar lá.”

Agora o campeonato tem Hamilton novamente líder, com 17 pontos de vantagem sobre Vettel. Os papéis de sábado e domingo de decepção e euforia estavam finalmente trocados. Quem sorriu no sábado, chorou no domingo, e vice-versa.

Semana que vem tem Hungria e a saga desses dois continua. Vale lembrar, um deles vai igualar o mestre Fangio ao final desse campeonato…

Boa semana!

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

7 Comments

  1. Lucas dos Santos disse:

    Eu também prefiro Hockenheim pós-2002. Tem muito mais “cara” de autódromo. Como já ouvi dizerem por aí, “o traçado antigo só era mais interessante para quem estava dentro de um dos carros na corrida”.

    Eu disse aqui na semana do GP da Grã-Bretanha que o Hamilton tinha a “obrigação moral” de vencer na casa do adversário. E ele conseguiu! Aos trancos e barrancos, mas conseguiu. Fez a lição de casa!

    Mais uma vez eu me impressiono com a diferença brutal de Mercedes, Ferrari e Red Bull para os demais construtores. Eles simplesmente SOBRAM na pista! Não é à toa que o Hamilton conseguiu escalar o pelotão com tanta facilidade. O próprio Verstappen pôde se dar ao luxo de experimentar os pneus intermediários, ver que não ficaram bons, voltar para os boxes, colocar de volta os pneus de pista seca sem perder posição, pois estava a mais de 1 minuto na frente do oponente mais próximo!

    Quando começou a chover logo depois do Hamilton ter trocado pneus eu comecei a xingar um monte a Mercedes por não ter esperado mais uma volta para colocar os intermediários e estar jogando a corrida fora! Mas o tempo mostrou que a equipe estava certa. Se a chuva tivesse começado antes do Hamilton fazer a troca, a possibilidade de fazer a escolha errada seria muito maior.

    Agora ficou tudo igual: Hamilton e Vettel têm quatro vitórias e um abandono cada. Assim o campeonato fica equilibrado. Para a Hungria, a minha torcida vai para a Red Bull, que está muito confiante em conseguir um bom resultado por lá.

  2. Roberto Baydum disse:

    Salu 67, meu eterno Amigo, não sabia que você era um poeta…

    Texto belo, histórico e bem escrito…

    Até um leigo como eu em F1, adsorve o âmago escrito…

    Abração,

    Baydum – 253

  3. Baydum disse:

    Salu, meu eterno Amigo, não sabia que você era um poeta…

    Texto bem escrito, até um leigo como eu em F1, adsorve o escrito…

    Parabéns Amigo…

  4. Fernando Marques disse:

    Acho que uma pergunta é bem pertinente neste atual momento da Formula 1 e que pode definir o campeão de 2018: Quem está errando mais: Vettel ou a Mercedes de L.Hamilton?

    Fernando Marques

  5. Maria Gleibe disse:

    Mário, automobilismo não é o meu forte, nem mesmo sei dirigir, mas você escreve com tanta paixão e conhecimento de causa, que é enriquecedor e esclarecedor. Parabéns!

  6. Fernando Marques disse:

    Mario,

    concordo com o Mauro, o texto está belíssimo mesmo.
    O grande legado dessa corrida é que entre decepção e euforia pode existir uma “chuva”.
    Mas a reflexão que faço do resultado dessa corrida é com relação ao que poderia e poderá acontecer na Hungria.
    O travado circuito húngaro favorece totalmente a Ferrari, que tem um carro que se comporta melhor que a Mercedes em curvas de baixa e que também agora conta com forças motrizes a altura ou mais forte até que a da sua maior adversária.
    Se Vettel vencesse na Alemanha, somado o resultado obtido na Inglaterra, uma possível e esperada vitória na Hungria poderia significar um belo nocaute no Hamilton, pois certamente ele abriria uma boa vantagem no campeonato.
    Como a euforia virou decepção para o Vette, quel nem mais líder é do campeonato, creio que poderemos ver o primeiro e verdadeiro duelo “Hamilton x Vettel” nas pistas este ano, já que até agora por vários motivos isso ainda não aconteceu de verdade.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  7. Mauro Santana disse:

    Belíssimo texto, Salu!!

    Eu gostei muito de ver o desempenho do Raikkonen enquanto esteve na ponta, por alguns minutos imaginei que ele poderia vencer.

    Mas, a Ferrari mais uma vez fez das suas, ordenando a troca de posição.

    Aí, como foi comentado ontem, “e se a Ferrari não tivesse inervertido a posição dos seus pilotos?!”.

    Pois é…

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

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