Denorex

Fim… de férias!
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Pneus e estouros, parte 1
26/08/2015

O GP da Bélgica de 2015 trouxe a lembrança os gloriosos anos 80.

Para um entusiasta veterano, como eu, o GP da Bélgica de 2015 apresentou vários ingredientes próprios de tempos idos, remetendo a corridas que alimentaram a paixão de boa parte dos fãs do esporte a motor com mais de 35 anos de idade. Largada abortada em Spa, e, depois outra, propiciando inúmeras trocas de posições; diversos abandonos por falhas mecânicas; carro turbinados andando com pneus diferentes em rodas específicas; muitas ultrapassagens; pneu explodindo em altíssima velocidade, McLaren-Honda sendo guiada por dois campeões mundiais, a equipe Williams se atrapalhando nos boxes…

A interrupção da transmissão para mostrar a final dos 100 metros no mundial de atletismo, no entanto, trouxe à lembrança a época em que a transmissão das corridas era interrompida por comerciais aqui no Brasil – os amigos me corrijam se estiver errado, mas creio que isso aconteceu até o GP da Austrália de 1987, confere? Em especial fez lembrar um anunciante, o Denorex, cujo slogan era o famoso “parece, mas não é”, e cujos filmes eram estrelados por uma atriz adolescente chamada Sandra Annenberg.

Inevitável. Afinal, os motores turbinados parecem, mas não são, aquelas monstruosidades fratricidas de 30 anos atrás. Os pneus diferentes num mesmo carro também não foram uma opção estratégica, como acontecia antigamente, mas sim um erro besta, merecedor de punição no contexto de um regulamento igualmente besta.  As ultrapassagens parecem indicar um cenário de grande competitividade, mas na verdade foram, em sua maioria, reflexo do DRS e do encontro artificial entre conjuntos de competitividade bastante diferentes. Em algumas das principais disputas diretas, vale registrar, nem mesmo a maquiagem da asa móvel bastou para concretizar as ultrapassagens. Por sua vez a McLaren-Honda parece, mas também não é mais a McLaren-Honda que conhecemos nos anos 80/90, e mesmo as maravilhosas curvas de Spa já não são o que foram no passado.

Imagine, por exemplo, o que era mergulhar na Eau Rouge – o trecho mais inspirado de que qualquer autódromo já concebido – debaixo de muita chuva e spray, ao volante de carros sem qualquer suporte aerodinâmico ou aparatos mínimos de segurança, mas que ainda assim andavam a 300Km/h. Ou então o que terá sido encarar tais curvas ao volante dos poderosos e instáveis carros dos anos 80, montando o touro pelos chifres, como Keke Rosberg fez de forma assustadora em 1983 e o youtube teve a bondade de registrar para a posteridade.

httpv://youtu.be/8a0eZvfwEp8
Keke Rosberg desafiando a Eau Rouge em 1983 

Tecnicamente, a rigor, uma curva deixa de ser uma curva no esporte a motor a partir do momento em que todos os conjuntos percorrem o setor em aceleração plena – e isso acontece hoje em boa parte da pista de Spa, onde os ases do passado tinham de escolher com coragem e colhões a velocidade de ataque. É claro que o traçado continua a ser desafiador – como bem nos lembrou Daniel Ricciardo duas vezes durante o fim de semana –, e que ainda é possível ganhar ou perder alguns décimos em tais trechos. Não dá para negar, no entanto, que a relação entre Spa e os carros mais rápidos do mundo é hoje muito mais civilizada do que já foi.

Entre todas as ressalvas, sobrevive a boa novidade da largada sem auxílio, que logo também deve ser contornada pelos engenheiros, e a plasticidade assustadora do pneu traseiro direito de Vettel indo pelos ares a menos de duas volta da bandeirada. Uma cena assustadora, mas poderosa e verdadeira.

Sobre o vencedor não há muito que ser dito. Hamilton fez valer sua 10ª pole na temporada e sustentou a ponta em meio ao ataque inicial de Sergio Pérez. A partir daí, com pista livre, aproveitou-se da presença de conjuntos mais lentos entre ele e seu único adversário real, o companheiro Nico Rosberg, para construir uma distância segura de 8s que jamais seria descontada por completo. Livre das pressões que tantas vezes o levam a erros, Lewis fez uma corrida normal, e atualmente isso basta para que ele suba ao degrau mais alto do pódio.

Já para Rosberg, o caminho até a segunda colocação foi mais acidentado, a partir da largada latrinária, pegando emprestado a expressão que Edu consagrou. O alemão recuperou as posições guiando com a cabeça, e tirando proveito do desgaste prematuro dos pneus Pirelli que levou alguns concorrentes a buscarem os boxes após oito voltas de corrida. O momento decisivo, para ele, foi quando conseguiu se sustentar à frente de Pérez após efetuar a primeira troca de pneus.

O interesse ficou mesmo concentrado na disputa pelas outras posições, com destaque para as atuações de Sebastian Vettel e Romain Grosjean. O primeiro pilotou com a competência habitual, conservando um ritmo forte ao mesmo tempo em que prolongava a vida útil dos pneus a patamares que flertavam seriamente com os limites da borracha italiana. Grosjean, por sua vez, tirou proveito da melhor Lotus que guiou desde o fim de 2013, lembrando a todos que ainda está vivo e sabe andar forte de maneira consistente, se tiver a chance. Uma pena que a explosão do pneu na Ferrari tenha nos privado de ver qual teria sido o desfecho da batalha entre os dois.

O alto índice de abandonos e também as características peculiares da pista geraram resultados tão distintos do restante da temporada, que no fim a opaca sexta posição de Felipe Massa acabou lhe valendo a quarta posição na tabela de pontos, superando os finlandeses Räikkönen e Bottas.

Evidente que a vantagem em relação ao companheiro tem relação direta com o erro absurdo cometido pela equipe Williams, devolvendo o finlandês à pista com três pneus macios e um médio após sua primeira troca. Como bem lembrou Marcel Pilatti, a trapalhada fez lembrar o erro cometido pela equipe Renault no GP da China de 2006 com o carro de Fernando Alonso, custando cerca de 40s (e a vitória) ao asturiano, naquela que seria a última vitória de Michael Schumacher na F1.

Com o resultado deste domingo Hamilton igualou Ayrton Senna em número de pódios, tendo demorado uma corrida a mais que o brasileiro para atingir tal marca. O inglês chegou também à 39ª vitória e, considerando que ainda restam oito etapas até o fim da temporada, é de se esperar que ele supere tanto Senna quanto Sebastian Vettel até o fim do ano nesta estatística, tornando-se o terceiro maior vencedor na história da F1. Em poles – Lewis assinalou 10 em 11 oportunidades este ano – ele já é o terceiro, e está agora a 17 de alcançar Senna, e 20 de igualar o recorde absoluto, de Michael Schumacher. Também é bem possível que ele marque novo recorde de poles numa só temporada. A conferir.

Por fim, impossível encerrar a coluna sem dedicar algumas palavras ao grande Guy Ligier, que nos deixou poucas horas depois da corrida, e também a Justin Wilson, que sofreu acidente fortíssimo em Pocono e luta pela vida no momento em que escrevo estas palavras.

Ao primeiro, nossas maiores reverências por uma trajetória de muita bravura, retidão e teimosia. Ao segundo, nossas orações e melhores energias para que recupere-se da melhor maneira possível.

Uma ótima semana a todos

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

10 Comentários

  1. Humberto Luís Mendes disse:

    Márcio, velho amigo! Quanto tempo!
    Pois é, a Fórmula 1 se mantém para nós, veteranos, mais por conta da tradição do que pelo seu apelo atual. Corridas modorrentas, não pode isso, não pode aquilo… regulamente besta (como você bem disse), punição besta (em decorrência de um regulamento besta)…
    E tanto o cenário quanto as perspectivas futuras não são as melhores. Equipes sendo penhoradas (aliás, o que deu no caso da Lotus?), outras manchando sua honrosa história e tradição (McLaren)… Red Bull/Toro Rosso em vias de definições quanto à permanência…
    A crise mundial se fazendo presente, o que deve levar a Mercedes, após mais uma vitória acachapante neste 2015, pensar se vale a pena continuar a investir numa categoria onde só ela ganha…
    Enfim. Nós, saudosistas de plantão, dos fantásticos anos 70 e dos bons anos 80, continuamos a insistir nos domingos de manhã…
    E vamos em frente.
    Forte abraço,

    Humberto Luís Mendes
    São Paulo/SP

  2. Mauro Santana disse:

    Belo texto, amigo Márcio!

    Corrida morna esta em Spa, e mesmo que o pneu traseiro de Vettel não tivesse estourado, eu tenho minhas duvidas se o Groja iria conseguir ultrapassa-lo, pois faltavam apenas duas voltas, e a vantagem era de mais de um segundo.

    Pois é, até a temporada de 1987 as transmissões eram interrompidas para propaganda dos patrocinadores, algo que a partir da temporada de 1988 não mais ocorreu.

    E infelizmente tivemos a perda do Guy Ligier e do Justin Wilson.

    O mundo do automobilismo volta a ficar triste, e o tema cockpit fechado volta a ganhar força.

    Porem, a unica certeza que podemos ter é, quando a morte quiser aparecer nas pistas , infelizmente ela vai aparecer, seja com cockpit fechado ou aberto.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Fabiano Bastos disse:

      Mauro Santana,

      Sempre que uma necessidade de mudança aparece, junto com ela vem o instinto de busca por estabilidade e, consequentemente, repulsa a mudanças.
      Estava assistindo a corrida da Indy domingo e pude testemunhar o acidente que vitimou JW no momento em que aconteceu.
      Logo após o acidente, durante a bandeira amarela e ainda sem saber do destino fatal que o piloto teria, o comentarista da Band, Felipe Giaffone, teceu algumas considerações sobre a possibilidade de fechar os cockpits dos carros de fórmula, mas não conseguiu expor uma opinião clara. Os intere$$e$ comerciais e incertezas sobre a reação do público ao novo visual são (realmente) as maiores barreiras para a mudança.
      Há um temor de que o público se volte contra e deixe de dar audiência aos campeonatos.
      Mesmo tendo saudade de outros tempos onde as corridas eram mais interessantes, tento ser pragmático quanto ao automobilismo, e não acredito que os fãs deixariam de acompanhar as corridas por conta de uma mudança no visual dos carros.
      Quando se fala da permanência da exposição da cabeça do piloto muitos defensores da ideia dizem que faz parte do modelo “open wheel” (mesmo que a tradução literal do termo fale apenas das rodas) e que o perigo sempre vai existir.
      Mas a este pensamento conservador tenho algumas questões:
      1) Por que historicamente o modelo “open wheel” foi adotado para a competição automobilística?
      2) Por que a vitória de um veículo fechado teria menos valor que a vitória de um veículo aberto?
      3) Corridas de automóvel existem para testar a coragem dos pilotos ou isso é apenas consequência da exposição as altíssimas velocidades obtidas?
      A primeira questão acredito que tem resposta exata (ou quase isso): necessidade de baixar o peso do carro em uma época onde se conhecia pouco os efeitos e ganhos aerodinâmicos. Sendo que o modelo permaneceu apenas por tradição e medo de mudança.
      Para as demais perguntas não tenho uma resposta certa, apenas uma opinião pessoal.
      Fico pensando quantos pilotos mais terão que morrer até que os “tradicionalistas” tentem abrir suas mentes para algum tipo de mudança?
      Para Ayrton Senna, Henry Surtees, Felipe Massa(único vivo), Dan wheldon, Jules Bianchi e Justin Wilson (dos que me lembro de cabeça) a mudança já deveria ter ocorrido há muito tempo.

      • Mauro Santana disse:

        Pois é Fabiano

        Também estava assistindo a corrida, e no momento em que a câmera focou o carro do JW e sua cabeça estava imóvel, comentei de imediato com a minha esposa que o piloto poderia estar desacordado dentro do carro.

        Não sou contra se fechar o cockpit, e certamente ele ajudaria em muitos casos em que tivemos acidentes fatais.

        Só acho que no automobilismo por ser um esporte de alto risco, acidentes fatais nunca serão totalmente driblados, sejam eles em fórmulas com cockipit fechados, ou em carros de turismo.

        E no caso das motos, por exemplo, que é muito mais perigoso!?

        É um assunto muito complicado.

        Abraço!

        • Fabiano Bastos disse:

          Concordo que aos acidentes fatais nunca serão totalmente eliminados, só acho que as “desculpas” usadas para a não adoção de outras medidas de segurança para reduzir os riscos soam como desculpas usadas por fumantes, do tipo: “não tenho pressa de morrer! (porque o cigarro mata aos poucos)”; ou “minha avó nunca fumou e morreu de câncer no pulmão!”; ou ainda “meu tio fumou até os 50 anos, foi só parar de fumar que ele morreu!”.
          O perigo faz parte da vida, dentro ou ou fora das pistas, para morrer basta estar vivo, mas nem por isto vejo as pessoas atravessando as ruas de olhos fechados ou ensinando seus filhos a brincar de roleta russa.
          Abraço!

  3. Fernando Marques disse:

    Infelizmente Justin Wilson veio a falecer.
    De novo o mundo do automobilismo volta a ficar triste.

    Fernando Marques

  4. Arlindo Silva disse:

    Ia morrer sem saber que aquela menina do denorex era a Sandra Annenberg (mas a Lilia Cabral no comercial do BIC Chama eu sabia).

    No GP da China a Renault e o Alonso optaram por colocar pneus intermediários novos nas rodas dianteiras e manter os usados na traseiras (a equipe achou que o espanhol tinha desgastado demais os dianteiros devido a seu estilo de pilotagem). Logo depois da parada começou a ocorrer o famoso grainning (explica essa Burti, diria Galvão Bueno) nos pneus dianteiros de Alonso e a vantagem dele para Fisichella e Schumacher (em torno de 12 segundos) desapareceu, sendo superado por ambos.

  5. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    gostei muito da sua visão e comentários a respeito do GP da Belgica de 2015.
    Mas penso que se comparado ao GP da Hungria e da Inglaterra deste ano, a corrida foi mais morna, o que não significa que não tenha sido uma bela carrera …
    Com relação ao Guy Ligier, fica na memória a sua bela historia na Formula 1 o que demonstra o quanto tão bom era a sua competência a frente da equipe. Mesmo sendo uma equipe pequena/media, teve seus momentos de glórias como vencedora de corridas e lutando por títulos numa temporada … que ele descanse em paz …
    Quanto ao Justin Wilson, sem duvidas ele teve muito azar num acidente em que sequer ele estava diretamente envolvido … creio que vale muitas reflexões no quesito segurança por parte da Indy Car para que tais incidentes não voltem a se repetir … e aí fica uma pergunta: será que os pilotos da Indy usam capacetes tão seguros quanto aos da Formula 1? … é só lembrar do acidente do Massa e ver como seu capacete lhe salvou a vida … boa sorte ao Justin que está hospitalizado em coma …

    Voltando a Formula 1 queria tirar uma duvida: a Mclaren ao fim do GP da Belgica acumula 105 punições em razão de ter estourado a cota por troca de seus propulsores o que significa por exemplo que se ela conquistar a pole nas próximas 5 ou 6 etapas teria que largar na ultima fila para pagar as punições, o que certamente não irá acontecer, pois a tendência é estes números de punições certamente aumentarem nas próximas etapas. Ao fim da temporada o que acontece: as punições são acumulativas para 2016 ou , elas são zeradas no termino da temporada e /ou transformadas em multas?

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  6. Lucas dos Santos disse:

    GP da Bélgica muito interessante, como sempre.

    Então quer dizer que interromperam a transmissão? Não pude ver ao vivo, tentei assistir pelo site da Globo, mas estava travando muito. Aí acabei optando pelo sempre excelente trabalho dos ingleses da Sky Sports F1. Vi que fiz um ótimo negócio, mas é lamentável que uma TV trate seu telespectador dessa forma.

    Nesse fim de semana não pude colocar aqui o cenário da batalha entre companheiros de equipe, mas vamos aos resultados porque está interessante! Felipe Massa finalmente conseguiu voltar à frente de seu companheiro de equipe na tabela de pontos e Kimi Raikkonen finalmente conseguiu reagir e não deixou os pilotos da Williams lhe superarem. Kvyat e Perez conseguiram tirar proveito dos problemas dos seus companheiros de equipe para descontar uma desvantagem improvável, enquanto Grosjean só fez aumentar sua vantagem. Por fim, Hamilton ampliou sua vantagem de modo que seu companheiro de equipe não poderá superá-lo na próxima corrida. Já Felipe Nasr andou atrás de seu companheiro de equipe de novo!

    O erro da Williams foi épico! Mas não lembro o que a Renault fizera ma China em 2006 – e eu assisti essa corrida! Alguém pode refrescar a minha memória?

    Enfim, uma excelente corrida que só Spa é capaz de proporcionar. Que venha Monza!

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