Desencanto

Ressaca
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Campos de batalha – Parte 2
02/12/2015

A temporada 2015 acabou. Finalmente.

Após 12 anos de colaboração ininterrupta, me sinto no dever de pedir desculpas aos leitores do GPTotal, por não encontrar qualquer motivação para comentar essa Fórmula 1 que acaba de encerrar uma das mais fracas temporadas de sua história. Não posso mais negar que vivo um momento de desencanto com a categoria rainha, a ponto de, pela primeira vez em minha vida, me sentir aliviado com o fim do campeonato. Para mim já deu, 2015 já vai tarde.

E por que digo isso? Ora, porque se eu, que sou apaixonado pela F1 desde minhas primeiras memórias, cheguei a este ponto, então é fácil entender por que já passou da hora de rever tudo, e fazer isso do jeito certo.

Sob vários aspectos, o enfadonho GP de Abu Dhabi resume o que foi este ano. Enormes diferenças de desempenho entre carros e motores, pilotos em atuações opacas, pistas socialites, resultados previsíveis e pouca audiência. E nós, que sempre questionamos o discurso da “falta de emoção”, sob o qual foram cometidos os maiores crimes contra o espírito esportivo, temos hoje que conviver com a falta de emoções provocada justamente pelos efeitos colaterais dos artificialismos introduzidos nos últimos anos. Sobretudo o congelamento das unidades de potência e a limitação (erradicação talvez fosse palavra mais precisa) dos testes.

A bem da verdade, os verdadeiros reflexos das restrições se fizeram sentir de verdade a partir de 2014, com a introdução de uma fórmula inteiramente diferente. Se em 2009 o engessamento evolutivo já havia sido grande o suficiente para que um projeto bem nascido sob novas regras conseguisse assegurar o título apesar de não ter orçamento para sustentar uma estrutura de desenvolvimento, em 2014, com as mudanças atingindo também as unidades de potência, as restrições abriram uma janela para o estabelecimento de uma duradoura hegemonia – curiosamente aproveitada pelo mesmo grupo de trabalho, agora sob a batuta da estrela de três pontas.

Com toda a certeza, tanto Renault quanto Ferrari e Honda possuem hoje conhecimento suficiente para produzir instantaneamente motores muito mais competitivos que os atuais. Mas, em vez disso – sob o pretexto da economia –, tiveram de expor suas respectivas marcas mundialmente numa situação de inferioridade técnica e publicidade negativa durante um ano inteiro. Ora, que espécie de economia é esta? Quer dizer que a proibição deste tipo de investimento tem o objetivo de tornar a F1 mais atraente aos fabricantes? Jura?

Não vou nem abordar aqui o impacto (negativo) deste tipo de opção regulamentar sobre a atratividade em relação a novos fãs, para não me estender demais em assunto já batido. Mas não posso deixar de manifestar meu repúdio à hipocrisia de impor gastos astronômicos ao desenvolvimento de unidades híbridas em nome de uma alegada preocupação ambiental, e, ao mesmo tempo, cortar as verbas de pesquisa que, entre 1991 e 2006, conseguiram elevar a eficiência energética e a potência específica dos motores na F1 em 60%.

O cenário competitivo não seria tão restritivo, caso a construtora do melhor motor – chamemos assim, como nos velhos tempos – não tivesse também equipe própria, tornando praticamente impossíveis as aspirações da concorrência e de seus clientes. O praticamente, claro, fica por conta do caso recente da Red Bull, que conseguiu assinar o feito de ser campeã mundial correndo contra a equipe de fábrica de sua própria fornecedora de motores.

Da mesma forma, a temporada não teria sido tão morna se Nico Rosberg tivesse oferecido mais resistência a seu companheiro de equipe desde o início do ano. Em Abu Dhabi o filho de Keke chegou a três vitórias e seis pole positions consecutivas, deixando no ar ao menos duas perguntas inevitáveis na cabeça dos fãs, para serem marteladas ao longo de toda a “temporada de inverno”. Como explicar seu crescimento na reta final da temporada, e de que forma essa alteração na hierarquia de desempenhos pode – se é que pode – se refletir num campeonato mais equilibrado em 2016?

A primeira pergunta admite diversas hipóteses, e uma não exclui as outras. Hamilton reduziu seu nível de comprometimento após o título? Rosberg passou a guiar mais solto com o campeonato decidido? Os problemas pessoais que enfrentou ao longo do ano roubaram alguns décimos de Nico na fase inicial da disputa? A equipe passou a dar mais atenção ao piloto alemão após concentrar os esforços na conquista do mundial de pilotos? O desenvolvimento do equipamento nas últimas provas caminhou mais em encontro ao estilo de Rosberg que o de Hamilton?

Compreender a importância de cada uma dessas variáveis no resultado final não teria maior importância, não fosse por um detalhe: a resposta ao último destes questionamentos tem sim relação direta com o aquilo que se pode esperar do próximo ano.

O tempo dirá. Pessoalmente, ainda aposto em Hamilton, no frigir dos ovos.

Por falar em Hamilton, é preciso registrar a inconveniência na forma das celebrações pelos 44 anos de nacionalização dos Emirados Árabes Unidos, comemorada no dia 2 de dezembro.

O número 44 dentro de um círculo ficou parecido demais com a identidade algébrica do tricampeão Lewis Hamilton, no que parece ter sido uma insensibilidade dos organizadores.
Não custava, afinal, ter usado uma fonte um pouco diferente, e ter evitado o círculo de contorno.

Quanto aos brasileiros, Felipe Massa encerra 2015 merecidamente atrás de Bottas, e Nasr termina merecidamente à frente de Marcus Ericsson.

Apesar de ter superado o competente companheiro de equipe um número razoável de vezes, Massa ficou um pouco abaixo na média geral. Ainda assim, sua temporada foi bastante digna, especialmente numa área em que Felipe andou pecando muito nos últimos anos: a tabela de classificação. Seus 121 pontos foram importantes para consolidar a terceira posição da equipe entre os construtores, e não dava mesmo para esperar muito mais que isso.

Quanto a Nasr, sua temporada começou muito bem, mas perdeu embalo com a falta de desenvolvimento do carro e com problemas de relacionamento que o isolaram dentro do time durante algumas etapas. No fim o balanço parece tender ao razoável, com atuações sólidas que o tornam digno de se firmar na categoria, mas ainda assim um pouco abaixo do que seria de se esperar de um pretenso futuro campeão mundial.

Forte abraço a todos, e que tenhamos em 2016 um campeonato mais interessante e digno do potencial desta geração de pilotos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

13 Comentários

  1. samuel disse:

    Essa tal de Fórmula Um está muito chata. Tive a idéia de fundar uma categoria melhor e com certeza conseguiremos, más preciso que vocês me ajudem. O ideal é formamos uma sociedade que com certeza colocaremos a F1 no chinelo.

  2. Robinson Araújo disse:

    Colegas do GPto

    Imagino que a grande maioria de vocês começaram a acompanhar a categoria maior do esporte a motor quando a comunicação era lenta, limitada e feita manualmente, por meio de cartas.
    Hoje temos todo este universo comunicativo ao dispor e devemos utiliza-los a nosso favor.
    A alta cúpula do esporte tem que entender que para que exista um rei é necessário muitos súditos a sustentá-lo, porém a classe comum está sendo ignorada neste universo financeiro globalizado.
    Este ano, de modo bem marcado e definitivo, me senti traído pela categoria que me seduziu na infância, criando uma dependência que pouco o nada me satisfaz.
    Não se se Hamilton fosse brasileiro teriamos um fervor tão acima do atual a modo de não enxergar a ruína da categoria.
    O imponderável está distante, criando momentos épicos que estruturaram ano a ano um histórico ímpar na competitividade do esporte.
    Regulamentos limitados, pensamento somente em cifras e pilotos enclausurados em ordens pragmáticas vem, bem rapidamente, apagando a chama de um esporte que já viveu momentos áureos.
    Espero 2016 como todos os outros anos, mas agora com um desejo ainda maior de mudança, pois mais um ano de frustração seria um golpe duro de engolir.

    Que venha a próxima temporada!!!

  3. Juliano Carvalho disse:

    Nos melhores anos da parceria Ferrari-Schumacher (2001, 2002 e 2004), a Fórmula 1 era considerada “chata”.

    Mas as razões eram completamente diferentes das atuais. McLaren, Williams e cia. podiam treinar, melhorar e desbancar a Ferrari. Não foi o que quase aconteceu em 2003?
    Treinar, melhorar… Conceitos alienígenas na F1 de hoje. Existe algum resquício de esporte? Política e interesses comerciais quase sempre mandaram na categoria, mas jamais num nível tão ridículo como o atual.

    Os testes fazem os custos subirem? Quatro motores por carro durante toda a temporada minimizam (!) os custos? Mas e se o carro for mal nascido, ou o motor pouco potente/confiável? Já era, senta e chora? O público que ache outro hobby, a fabricante de motores que conviva com a vergonha, a escuderia que se vire com a fuga de patrocinadores… Parabéns aos envolvidos!

    • Mauro Santana disse:

      Bem colocado Júlio.

      E ai, a velha Raposa quer enfiar guela abaixo 21/22 etapas por ano.

      Pra mim o ideal sempre foram 16 etapas, como era o calendário de F1 dos a os 80 e 90, com a maior concentração de etapas acontece do na Europa, algumas na América, uma na África e duas na Oceania.

      É patético este papo de cortar gastos.

      Abraço

      Mauro

    • Leandro Giannetti disse:

      Compartilho contigo a mesma opinião. Sem os testes a F-1 tem ficado horrível e um carro “mal nascido” acaba com a perspectiva para a temporada toda. Acredito que por exemplo, na temporada 2014, Williams e Ferrari teriam ameaçado muito mais a Mercedes, mudando o campeonato deste ano, isso é uma suposição, mas creio que plausível dados anos em que os testes eram permitidos.

      A F-1 precisa voltar a ser o ponto mais alto do automobilismo mundial, a categoria mais avançada urgentemente.

      Outra coisa que gostaria que voltasse e voltaria com a liberação dos testes, eram os pilotos de testes/reservas verdadeiros, aqueles que conheciam tanto dos carros quanto os pilotos titulares.

      Na minha opinião, uma das piores coisas este ano foi a não utilização da Susie como piloto reserva quando o Bottas não pode correr.

      • Lucas dos Santos disse:

        Essa da Williams, de contratar, de última hora, o Adrian Sutil e “rebaixar” a Susie Wolff a “piloto de desenvolvimento” (basicamente um “cargo decorativo”) foi extremamente injusto!

        Tudo bem que ela não passou pelas categorias de base mais “avançadas” da Fórmula 1, como GP3 e GP2, mas a equipe deveria ter confiado nela. E, mesmo que ela não fosse bem, seria apenas UMA corrida.

        Uma pena que isso tudo a tenha levado a se retirar do automobilismo. Espero que ela repense essa decisão e dê a volta por cima, pois ainda há tempo e, felizmente, não é só de Fórmula 1 que vive o automobilismo. Espero também que a Carmen Jorda não tenho o mesmo destino…

  4. Mauro Santana disse:

    Belo texto Amigo Márcio!

    Olha, nem sei mais o que falar, pois é ficar chovendo no molhado.

    Domingo minha esposa me perguntou enquanto eu assistia aquela corrida chata o por que de eu ainda assistir a F1, já que ela está tão chata e sem graça.

    Eu respondi que sou um apaixonado pelo automobilismo e pela F1.

    Claro que ela sabe disso, mas ai ela me deu está resposta.

    E vale a pena continuar assistindo uma categoria cujo os que mandam estão cagando e andando para os verdadeiros fãs.

    É bem isso, a tempos, nós, o público fiel está sendo deixado de lado, e isso, aos poucos, vai cansando cada vez mais, até chegar a um ponto que não teremos mais este amor.

    E como as novas gerações não tem mais o mesmo apreço das gerações dos anos 70, 80 e 90, a tendência é só piorar.

    Nem tudo na vida é pra sempre, e talvez isso esteja começando a valer pra F1.

    Abraço

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

  5. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    eu já vinha percebendo isso já faz algum tempo mas achava que alguma coisa poderia mudar até o fim da temporada (com exceção do 1-2 da Mercedes).
    Mas nunca teve um desenho tão perfeito como ficou o final da classificação e como bem disse o Mario, valendo até a 10ª colocação

    Fernando Marques

  6. Lucas dos Santos disse:

    A respeito da temporada, resolvi compilar aqui os melhores resultados de cada piloto. Creio que dá para tirar muitas conclusões a partir desses dados. Façam suas análises!

    1. Hamilton (10 vitórias)
    2. Rosberg (6 vitórias)
    3. Vettel (3 vitórias)
    4. Raikkonen (1 segundo lugar, 2 terceiros lugares)
    5. Ricciardo (1 segundo lugar, 1 terceiro lugar)
    6. Kvyat (1 segundo lugar)
    7. Bottas (2 terceiros lugares, 3 quartos lugares, 6 quintos lugares)
    8. Massa (2 terceiros lugares, 3 quartos lugares, 1 quinto lugar)
    9. Perez (1 terceiro lugar, 3 quintos lugares)
    10. Grosjean (1 terceiro lugar)
    11. Verstappen (2 quartos lugares)
    12. Nasr (1 quinto lugar, 1 sexto lugar)
    13. Alonso (1 quinto lugar)
    14. Hulkenberg (3 sextos lugares)
    15. Button (1 sexto lugar)
    16. Maldonado (3 sétimos lugares)
    17. Sainz (1 sétimo lugar)
    18. Ericsson (1 oitavo lugar)
    19. Merhi (1 décimo-segundo lugar, 1 décimo-terceiro lugar)
    20. Rossi (1 décimo-segundo lugar)
    21. Stevens (1 décimo-terceiro lugar)
    22. Magnussen (não largou)

  7. Lucas dos Santos disse:

    Márcio,

    Tenha a certeza que você não foi o único a se sentir aliviado como fim do campeonato. A temporada de 2015 foi extremamente longa. Esse ano, talvez a pontuação dobrada nas três últimas corridas pelo menos teria servido para deixar a disputa pelo campeonato “viva” até a última etapa. Pois, depois que o campeão mundial foi definido, simplesmente “acabou a Fórmula 1”.

    Quanto a corrida, estamos falando de Abu Dhabi. Corridas interessantes por lá somente se for decisão de campeonato, se algum piloto importante largar da última posição ou se alguma “zebra” estiver prestes a ocorrer, como a vitória do Raikkonen pela Lotus. Do contrário, somente corridas desinteressantes. Se bem que, ao menos esse ano, não sei se dá para culpar a pista. Se nem em Interlagos tivemos uma corrida boa, não seria em Abu Dhabi que teríamos.

    Outra coisa que me chamou a atenção, tanto em Abu Dhabi como em Interlagos, foram as diferenças de ritmo entre as equipes: Os dois carros da Mercedes, (abismo), os carros da Ferrari, (abismo) e os carros das outras equipes. Agora que ninguém tinha nada a perder, parece que as equipes de ponta mostraram o seu verdadeiro potencial em relação as demais. Foi simplesmente incrível!

    Concordo a respeito do número 44. Ficou MUITO parecido com o estilo usado pelo Hamilton. E ainda espalharam por toda parte. Teve um que ficou bem na frente do Rosberg enquanto ele se pesava. Foi uma situação estranha. http://i.imgur.com/Rc2zBEP.jpg

  8. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    realmente alguma coisa precisa efetivamente ser feita para que a Formula 1 volte a ser a Formula 1 que todos nós gostamos e tanto admiramos.
    A disparidade de forças foi tão evidente que os numeros da classificação final do mundial de pilotos define claramente o que foi a temporada deste ano …
    1º Hamilton/Mercedes
    2º Rosberg/Mercedes
    3º Vettel/Ferrari
    4º Raikkonen/Ferrari
    5º Bottas/Willians
    6º Massa/Willians
    7º Kvyat/RBR
    8º Ricciardo/RBR
    Precisa dizer mais alguma coisa? … ou é apenas coincidências …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Mário Salustiano disse:

      Fernando

      ontem a noite vi tabela final e percebi o mesmo que você, faltou apenas mencionar que o 9° e o 10° foram respectivamente ,Sergio Perez e Nico Hulkenberg ambos da Force India, essa tabela traduz um campeonato opaco e sem alternativas, pior é que para 2016 não parece que vá haver algo de muito diferente

      abraços

    • Lucas dos Santos disse:

      Fernando,

      Pior que essa classificação dos oito primeiros colocados está assim desde as primeiras corridas, pelo que eu pude observar. Quem chamou a atenção para esse fato foi o comentarista David Croft, da TV britânica Sky Sports F1, que, em uma das corridas da primeira metade do campeonato, descreveu a tabela de pilotos e construtores mais ou menos assim: “dois a dois, a dois, a dois, a dois…”.

      Acho que a única vez que essa sequência foi quebrada foi quando o Raikkonen abandonou duas corridas seguidas, o que fez com que o Bottas se colocasse entre as duas Ferrari.

      Isso mostra também o equilíbrio entre os pilotos de mesma equipe. Podemos ver que as demais equipes (menores) tem pilotos bastante distantes entre si na tabela.

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