Dias de Super Nanny

Amigos, irmãos e companheiros de equipe
20/08/2014
Bastardos
27/08/2014

Tudo sobre o GP da Bélgica de 2014: quando a Fórmula 1 viveu dias de Super Nanny.

Caramba! É coluna do GP da Bélgica, uma tremenda corrida com belos pegas no circuito favorito de sempre. Mas nem o permanente sorriso do vencedor Daniel Ricciardo tira meu mau humor pra escrever este texto! Peço desculpas pelas ranzinzices abaixo.

É sério que o vaiado Nico Rosberg admitiu não ter aliviado na Les Combes para “dar uma lição” (prove a point) no companheiro de equipe? Que diabos de lição é essa, Einstein? E o que significa esse comportamento vitimista/coitadista de Lewis Hamilton? Ele sabe a consequência de ter incendiando o ambiente ao espalhar que a batida foi ‘basicamente de propósito’? (Ao que me parece, pilotos não treinam diariamente em simuladores para saber as melhores maneiras de rasgar pneus do adversário.)

Entendo o ponto do diretor Toto Wolff, que classificou o incidente como inaceitável. Não é a questão de quebrar bico – um monte de pilotos já fez isso em tentativas de ultrapassagem. É a questão de que havia ainda 42 de 44 voltas para se tentar superar o rival, sendo que o que a Mercedes quer mesmo é fazer dobradinha.

Nem sempre a impetuosidade é a resposta. De fato, arrojo sem precisão se torna apenas revide infantil. E a coisa só piora com essa confissão (?) de Rosberg de ter forçado a barra e o ambiente azedo que tomou conta do time que vai ser campeão. É inacreditável que dois dos mais competentes profissionais do mundo em suas profissões, com o salário de astronômicos oito (!) dígitos anuais estejam se comportando como dois participantes de reality show.

O que realmente me irrita é que os fatores externos se sobrepõem cada vez mais ao que estes dois estão fazendo dentro de seus carros prateados na luta pelo título. Não são mais os pegas na pista (como no Bahrein) que tomam as manchetes, mas sim o mimimi declaratório e as posturas de mocinho-bandido que flutuam de acordo com os novos acontecimentos do paddock. Nesse ponto, pasmem, Sakhir foi melhor que Spa-Francorchamps!

O ponto fundamental é que nenhum dos futuros campeões de 2014 está se comportando como campeão. Ao que parece, Super Nanny seria mais útil que Niki Lauda num momento desses.

Depois do momento ‘pronto, falei’, vamos à pista.

De modo bastante surpreendente, a chuva do qualify pouco ou nada embaralhou o grid de largada. As forças ficaram bem equilibradas, de modo que qualquer um acreditaria que o treino ocorrera em pista seca.

A partir do apagar das cinco luzes vermelhas, o duelo Mercedes foi indubitavelmente fratricida. O estouro de pneu de Hamilton arrebentou o fundo do carro, que ficou inguiável. A equipe demorou até demais para fazê-lo recolher o carro. Quanto a Rosberg, a demanda por um pit antecipado e demorado para trocar o bico fez o alemão pegar tráfego na saída. Ele arruinou os pneus médios que eram para stint longo e provocou uma mudança de tática para uma parada de box a mais, permitindo a Ricciardo, com um excelente tocada e tática, ter sua chance de vencer novamente.

Méritos totais do australiano. Afinal, ele largou atrás de Sebastian Vettel, e ultrapassou seu companheiro quando este errou na rapidíssima curva Pouhon ainda na volta 4. O desempenho do tetracampeão, que precisou se engalfinhar com as McLarens e Ferraris por todo o GP (em lindos duelos), mais uma vez ficou abaixo da expectativa.

A Red Bull, por sinal, foi para Spa com um acerto bastante agressivo, com asas de muito pouco arrasto, e isso era visível aos olhos. Só um chassi muito equilibrado permitiria tal set-up. E o mais impressionante: as Williams tinham um paredão como asa traseira, mais estavam igualmente rápidas em reta, mostrando quanto o motor Mercedes empurra a mais e quanto o restante do carro é bem esculpido.

A Ferrari mostrou bom ritmo (finalmente vimos Kimi Räikkönen mostrando o que sabe!), mas não tinha velocidade em reta. Este foi o mote para Fernando Alonso não conseguir passar Kevin Magnussen, gerando a reclamação (oh não, mais mimimi!) e consequente punição ao dinamarquês de 20s em seu tempo final de prova.

Aos olhos da FIA, aparentemente é proibido proteger sua posição. Para quem ataca, basta dar algum jeito, independente de velocidade ou trajetória, de enfiar o carro ao lado de seu rival, que este automaticamente perde o direito de se defender. K-Mag não mudou sua trajetória por estar comprometido com ela. Ora, quem fica por dentro costuma dar cartas – cabe ao candidato à ultrapassagem evitar uma colisão, recolhendo-se.

O DRS já é um atentado contra a isonomia esportiva, e isso eu escrevo desde sua invenção. E agora os comissários criam um cenário para não deixar a menor dúvida de que você não deve ter direito de se defender.

Mais elogios a Valtteri Bottas, que conquistou seu quarto pódio em cinco corridas. Ao lado de Ricciardo, tem sido um dos grandes destaques do ano. Está confiante, motivado e, aos que tudo indica, assediado. Quem diria… Antes de sua entrada na F1 ele era rotulado por alguns veículos da mídia apenas como ‘um protegido do Mika Salo’ que não merecia entrar no lugar de Bruno Senna.

Quanto a Felipe Massa, sim, ele teve azar de colher um detrito que se alojou no fundo do carro e ficar dois dos três stints com desempenho comprometido. Mas é excesso de otimismo dizer que só então ele acelerou bem. Ora, Felipe acelerou porque pegou borracha nova no stint final a poucas voltas, quando o carro já está leve. E da maneira que a Williams estava um foguete em reta, era para ele ter ultrapassado vários adversários.

Mas Felipe não ultrapassou ninguém. Zero carros.

Uma última cutucada. Vocês viram Alonso preso no cavalete na saída pra volta de apresentação? Rubens Barrichello foi vítima disso em Magny-Cours 2002. Para mais detalhes, consulte a coluna de meu irmão Marcel Pilatti.

Rubinho disse durante a transmissão que a sensação “não era agradável”. Que pena que só tivemos o áudio. Eu pagava pra ver a cara dele.

Aquele abraço!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

22 Comentários

  1. […] o encontro de Nico e Hamilton na Les Combes, endosso a análise de Lucas Giavoni, em sua coluna Dias de Super Nanny: tratou-se de um acidente de corrida, de certa forma até previsível, principalmente quando se […]

  2. Jay Cutler disse:

    Com relação a punição ao Magnussen, a punição foi correta.

    – Artigo 20.4: Qualquer piloto defendendo sua posição em uma reta e antes das freadas pode usar toda a extensão da pista caso não haja nenhuma parte significativa do carro que está tentando ultrapassá-lo a seu lado. Para não haver dúvida, se qualquer parte da asa dianteira estiver ao lado da roda traseira isso será considerado ‘uma parte significativa’. Enquanto defende a posição, o piloto não pode deixar a pista sem um motivo justificável.

    Pode-se argumentar se é ou não justa, mas uma regra não foi cumprida durante a manobra de defesa da posição.

    http://www.totalrace.com.br/blog/juliannecerasoli/2013/08/12/entendendo-as-regras-para-disputas-de-posicao/

    • Ronaldo disse:

      Mas não era reta, nem antes da freada, muito pelo contrário! Estavam em uma saída de curva, e o dinamarquês estava no traçado ideal. Sob essa ótica, Hamilton também foi culpado pelo choque com Rosberg.

      • Lucas Giavoni disse:

        Sim, amigos Jay Cutler (como vão os Bears este ano?) e Ronaldo,

        O que eu discuto é fundamentalmente a regra esportiva, que praticamente elimina a possibilidade de defesa. Assim como questiono as punições para aquilo que é claramente classificável como incidente de corrida.

        Sou a favor de punições apenas em situações em que torna-se clara a barbeiragem do agressor e este sai ileso, provocando dano ao adversário que estava na frente. Quando ambos batem e saem, o atacante já recebeu a punição ao se ferrar na tentativa mal-sucedida.

        Abração!

        Lucas Giavoni

        • Manuel disse:

          ” Quando ambos batem e saem, o atacante já recebeu a punição ao se ferrar na tentativa mal-sucedida. ”

          Caro Lucas, quando os dois saem, o atacante recebe uma puniçao pelo dano autoinfringido, mas nao pelo causado, que é o que realmente deve ser punido.

          No que à palavras de Wolff se refere, creio que era melhor ter ficado calado ( ou falar com os implicados em privado ). Como critica um piloto por fazer o que se espera que faça : atacar ? Teria dito o mesmo no caso de que a monobra tivesse sido limpa e impecavel ?

          Como você muito bem disse, os pilotos nao treinam a maneira de rasgar o pneu do rival e sair beneficiados do lance.

          Temo que Rosberg esta colocando mais de um numa posiçao incomoda. Trazem Hamilton para ser campeao, pagando-lhe um bom dinheiro, mas resulta que o alemaonzinho que tinham em casa era mais do que suficiente para fazer o trabalho… por muito menos dinheiro.

        • Jay Cutler disse:

          Claro, também acredito que incidentes de corrida jamais deveriam ser punidos. Mas por outro lado, também devemos observar que em casos como ALO x MAG, um acidente muito grave poderia acontecer. Acho a regra é mais no sentido da segurança.

          Sobre os Bears, o ataque será um dos 3 melhores. Mas a defesa… haja coração!

    • Allan disse:

      Concordo. A imagem não é tão clara como eu gostaria, mas Magnunssen fez o mesmo que o Schumacher fez com Barrichello na Hungria em 2010. Fechou a porta e continuou fechando até jogar o outro para fora. Alonso não estava atrás, estava já quase ao lado.

      • Ronaldo disse:

        Continuo discordando, pelo fato de não estarem em uma reta, mas em uma curva seguida de outra, e onde a tangência delas tem uma relação de dependência. Rosberg, tanto quanto Alonso, optaram por ficar em uma posição que SABIAM que o adversário teria NECESSARIAMENTE que ocupar. Pra mim o contexto é o mesmo. A atitude de Schumacher está a anos luz das que estamos julgando agora, já que estavam em uma reta, próximos dos 300 km/h, com a asa dianteira além dos sidepods do carro à frente, e onde o piloto atacante só tinha como opção um muro. Naminha opinião havia espaço para o espanhol. Muito mais condenável, por exemplo, foi o que Hamilton fez com Rosberg na Hungria, na curva três da última volta; esse fato, muito mai que a negativaà ordem da equipe, deve ter sido o que motivou Rosberg a marcar território naquela curva.

        • Jay Cutler disse:

          Ronaldo.

          A punição ao Magnussen foi aplicada pela fechada que jogou o Alonso para a grama na Kemmel, a grande reta após a subida da Eau Rouge.

          http://www.youtube.com/watch?v=v-FQ_uLqfGw

        • Fabiano Bastos disse:

          Muito bem levantada a hipótese da manobra de Hamilton, na volta final do GP da Hungria, ter relação direta com a atitude de Rosberg.
          Não sei se o momento foi o mais adequado para “provar o ponto”, nas palavras de Rosberg, mas ele tem toda razão em reclamar da postura de Hamilton nas disputas com o companheiro de equipe. Assistam novamente as últimas voltas do GP magiar e verão que para a ultrapassagem de Ricciardo o inglês deixa espaço, mas quando o alemão emparelha com ele na curva 3, na última volta do gp, o inglesinho não pensa duas vezes antes de jogar seu carro em cima do companheiro de equipe e empurrá-lo para fora da pista. Pensando bem, acho que toda vez que os pilotos da Mercedes disputam posições o inglês joga “pesado” com o companheiro. Não que ele não deva jogar, estão disputando o título, mas que não reclame se o outro resolver responder a altura.
          Repetindo, talvez Rosberg não tenha escolhido o momento certo para mostrar para o Hamilton que também está disposto a pegar pesado nas disputas, tivesse o toque acontecido numa disputa mais adiante na corrida não seria tão contestado, mas ele precisava mostrar ao Hamilton a quê está disposto para lutar pelo título. Talvez o inglês pense duas vezes antes de jogá-lo para fora da pista da próxima vez.
          Agora, olhando pelos olhos dos patrões deles, não sei se deveriam demitir os dois, ou lhes dar um prêmio. A disputa, ainda que cheia de mimimis, está rendendo muita publicidade gratuita para a Mercedes (não se fala de outra coisa da F1). Mas para o ano que vem, quero ver como vão manter esta dupla de pilotos…

  3. Helton Oliveira disse:

    Excelente Texto !

  4. Allan disse:

    Coisa que ninguém falou por aí (ao menos não vi ninguém apontando o dedo ou reclamando): era situação CLARA para Safety Car. Aquela borracha toda espalhada da Les Combres até praticamente a Bus Stop (Opa, acabaram com ela também, né! Faz tempo! Que saudades…) obviamente iria causar problemas aos pilotos, que andam SEMPRE acima de 250 km/h naquele circuito. Então, de novo a direção de prova deixou de colocar o SC na pista quando se precisava. Agora, queria ver se fosse o inverso, o Nico com pneu furado… Aposto em punição ao Hamilton e SC na pista para diminuir o prejuízo do Rosberg jr. E isso está bem perto de acontecer, daí veremos a proteção dos cupinchas do Bernie ao platinado rapazzz….

    • Lucas Giavoni disse:

      Oi Allan!

      Esses pneus são muito farofentos. Espalham muito detrito fora da linga ideal. Mas eles o fazem de modo que os detritos não demandem SC.

      Está aí um bom ponto a se pensar. Será que o limite operacional dos pneus é determinado pela quantidade máxima de detritos que eles podem espalhar na lista? A se pensar…

      Abração!

      Lucas Giavoni

      • Ronaldo disse:

        Não sei se deveria ou não ter havido Safety car, mas estranhamente temos visto sua utilização por muito menos, mas já é a segunda ocasião esse ano que a ausência dele poderia ajudar Hamilton e ele não foi liberado. A última flagrantemente um abuso da autoridade esportiva, fazendo fiscais atravessarem a pista correndo na Alemanha.

  5. Mauro Santana disse:

    Belo GP, e belo acidente de corrida.

    Eu quero que o circo estrelado da Mercedes pegue fogo!!!

    Abraço

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Lucas Giavoni disse:

      Já pegou fogo, amigo Mauro.

      Mas infelizmente o clima é azedo. Fazendo uma analogia à la Tropa de Elite, Nico e Lewis não estão sendo ‘caveiras’, estão sendo ‘muleques’. Um vai ser campeão, e o outro vai ficar de chorão…

      E espero, espero mesmo que a maldita pontuação dobrada não seja fator decisivo do campeonato. Se isso acontecer, vou entrar numa crise interna e questionar se tudo isso que a gente assiste e gosta demais ainda é esporte ou se virou bingo, roleta russa, jogo do bicho etc.

      Abração!

      Lucas Giavoni

      • Ronaldo disse:

        Concordo Mauro, e queimo a língua em afirmar que estão castrando o ímpeto dos jovens talentos com essas punições estúpidas.

  6. Walter disse:

    Poxa… não dá para ser feliz. Sou anti-Ferrari. Não há brasileiros na Ferrari. E a ferrari não é derrotada pelo brasileiro. Saudade do Rato, do Piquet e do Senna. Estes sim brasileiros que derrotavam Ferraris.

    • Lucas Giavoni disse:

      Caro Walter,

      Como pessoa nascida nos anos 80, cresci assistindo F1 com o conceito de que a Ferrari era o time a se respeitar mais, e de respeitar o fanatismo dos tiffosi. Mas, ao mesmo tempo, sempre considerei que a Ferrari não era um time para se torcer, mas sim o time a ser batido.

      Isso, claro, não é anti-Ferrarismo, ou falta de isenção. É apenas a bagagem de aprendizados que eu venho trazendo desde criança.

      O nacionalismo, este sim eu abandonei. Para mim, torcedor de automobilismo deve, em nome de um “passo à diante”, superar isto e ignorar as bandeiras de piloto e carro. Só assim vai ter a possibilidade de, de fato, admirar os integrantes do esporte. Não importa de onde o piloto venha, o que importa é o quanto ele pilota, e quanto sua personalidade é arrebatadora.

      Ninguém pode em sã consciência deixar de admirar Jackie Stewart ou Ronnie Peterson só porque eles foram rivais do Emerson. É sandice dizer que Alain Prost não era de nada. Ou então diminuir Fangio por ele ser argentino. Nem pensar, né?

      Abração!

      Lucas Giavoni

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