Disputa territorial

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Hamilton contra Rosberg, Hülkenberg contra Pérez, Massa contra Bottas, Vettel contra Ricciardo, Alonso contra Räikkönen...

Hamilton contra Rosberg, Hülkenberg contra Pérez, Massa contra Bottas, Vettel contra Ricciardo, Alonso contra Räikkönen. O GP de nº 900 na história do Campeonato Mundial de Pilotos foi digno da ocasião, e teve a propriedade de lembrar a todos que, em meio a tanta tecnologia e tantas regras concebidas por engenharia reversa a partir daquilo que se considera “emocionante”, a batalha humana, em especial aquela envolvendo companheiros de equipe, continua a ser um dos maiores e mais indispensáveis atrativos numa corrida de automóveis.

A julgar por suas provas iniciais, 2014 parece ter saído do mesmo caderno de receitas utilizado para criar a inesquecível temporada de 1988. Uma equipe claramente acima das demais, composta por um piloto rapidíssimo e outro muito consistente, andando à frente de diversos conjuntos próximos entre si e em batalha direta. Num cenário como este, o emprego de ordens de equipe não apenas tem o poder de secar a legítima fonte de interesses esportivos, como também se torna deboche inadmissível quando consideradas todas as medidas artificiais tomadas em nome dessa mesma busca por emoções.

Não. Se nós já engolimos asas móveis para que existam ultrapassagens, então não podemos tolerar intervenções que impeçam a disputa direta entre companheiros de equipe. Que seja seguido, portanto, o exemplo da Mercedes, que limitou-se a pedir que os pilotos tivessem o cuidado de levar os dois carros de volta aos boxes, quando se deram conta de que, ao menos para Lewis Hamilton, uma batida que levasse as duas Flechas Prateadas ao abandono seria resultado melhor do que uma vitória do companheiro de equipe, calçado com pneus muito mais rápidos durante o stint final.

Dentro da Mercedes a tendência é a disputa só se acirrar até o fim do ano, uma vez que tanto Lewis quanto Rosberg já sentem cheiro de título no ar, e sabem que este é um daqueles anos em que a chance não pode ser perdida. As batalhas internas de Force India, Williams e Red Bull, no entanto, foram gratas surpresas em times de menores ambições imediatas, manifestando a previsível disputa territorial entre pilotos que apenas este ano começaram a dividir os mesmos boxes. O mesmo ainda pode acontecer na Ferrari, a partir do momento em que os dois carros vermelhos conseguirem alguns fins de semana mais convencionais.

Aliás, que corrida foi essa!

Estratégias diferentes, ritmos variados se encontrando pela pista, disputas liberadas entre carros pintados nas mesmas cores, e tudo isso num cenário tornado ainda mais bonito quando visto ao anoitecer.

Minhas anotações feitas durante a prova ultrapassaram uma página inteira de caderno e, se não perdi nada em meio à agitação, os pilotos da Mercedes trocaram brevemente de posições pelo menos cinco vezes. Tudo contribuindo para valorizar ainda mais a grandiosa vitória de Lewis Hamilton, mantendo-se à frente contra todas as possibilidades, e mostrando que, mesmo com asa móvel e todos os aparatos de favorecimento a ultrapassagens, o talento dos melhores pilotos descendentes para se manterem na ponta ainda é capaz de preservar a última palavra.

No duro, foi uma aula de pilotagem. Desde a largada certinha até a resistência no final, sempre guiando com a cabeça, não se deixando levar por disputas inúteis quanto a frear mais tarde, protegendo a tração e o direito de acelerar mais cedo. Destaque-se também a postura de Rosberg, pole position e forte durante todo o fim de semana, mas maduro o suficiente para saber os momentos de recolher e, ao fim da prova, afirmar ter sido essa a prova mais emocionante de sua vida, apesar de detestar ter perdido para o companheiro de equipe. A forma como cumprimentou Hamilton ao saltar do carro, aliás, foi uma das mais belas imagens do fim de semana.

Se é possível argumentar que em alguns aspectos a disputa atual fica a dever aos protagonistas de 1988, ao menos pode-se torcer para que, no lado humano da coisa, a história não venha a se repetir.

Entre as estratégias, o grande desgaste observado nos pneus da maioria das equipes terminou por premiar quem foi mais cedo para os boxes. Exceto, é claro, quando o atraso nas paradas significaria fazer uma troca a menos no fim da corrida, como foi o caso de Mercedes e Force India.

Em momentos distintos, tanto Hamilton quanto Bottas foram beneficiados por fazerem paradas prematuras, e a entrada do safety car tornou especulativa qualquer ponderação a respeito das possibilidades de recuperação por parte de quem preservou compostos mais novos para o ataque final. A mais nova lambança de Maldonado, aliás, poderia muito bem se revelar decisiva para os rumos do mundial, não fosse pela determinação de Hamilton ao defender sua liderança.

Todo esse cenário, no entanto, esteve longe de afetar a prova de Felipe Massa, da forma como vem sendo noticiado. Fazendo uma parada a mais que Pérez e Hülkenberg, Massa não tinha meios de almejar nada melhor que a quinta colocação na corrida. E, mesmo ela, dificilmente teria sido sustentada contra o avanço final das Red Bull. Especialmente a de Ricciardo que, ao contrário de Vettel, não enfrentou problemas aparentes durante a corrida. A posição perdida para o tetracampeão, que durante certa parte da corrida ficou sem a asa móvel, e mais tarde perdeu velocidade final quando seu carro começou a tocar o chão, talvez tenha sido o único prejuízo imposto pelo venezuelano da Lotus ao piloto brasileiro. E, mesmo esse, esteve ao alcance de ser descontado na pista.

Ainda assim, uma atuação de destaque por parte de Massa, especialmente no que se refere à largada villeneuviana. Menção honrosa também a Sergio Pérez, que desde os treinos mostrou o potencial do carro e conquistou um resultado que promete colocar sua carreira de volta ao trilho certo.

Começam a aflorar situações preocupantes ligadas aos pilotos mais pesados do grid atual.

Com todo o aparato de recuperação de energia, os carros tornaram-se muito mais pesados que em anos anteriores. E, até este momento, diversos conjuntos ainda superam o valor mínimo de 692 Kg. Com isso, especula-se que a vantagem de pilotos baixos e mais leves seja atualmente maior do que nunca, chegando a meio segundo por volta em casos extremos. Um contexto que vem levando diversos times a pressionarem seus pilotos para que reduzam suas massas corporais.

Durante o fim de semana, Adrian Sutil declarou que iria correr sem a garrafa de repositor, para eliminar um pouco de peso num dos conjuntos sabidamente mais pesados do grid. O mesmo piloto, em entrevista, afirmou que já se encontra num limite perigoso, fazendo hipoglicemia ao fim das provas. Da mesma forma, foi divulgado esta semana que entre os GPs da Austrália e da Malásia, Jean-Éric Vergne chegou a ser hospitalizado por ter emagrecido demais em decorrência de uma dieta excessivamente severa.

A medida vem dividindo opiniões entre os pilotos, os posicionamentos variando conforme as indicações de cada balança. Ainda assim, a princípio, as equipes concordaram em elevar o peso mínimo dos carros em mais 10 kg para o ano que vem.

Em condições normais, a morte de um ator não se enquadraria no tipo de notícia abraçada pelo agenda-setting de um site de análises automobilísticas. Todavia, a passagem de José Wilker traz algumas lembranças a todos que, cerca de vinte anos atrás, foram de alguma forma afetados pelos acontecimentos daquele triste 1º de maio.

Adolescente que era, fiquei durante dias me torturando em frente à televisão e gravando tudo que era dito a respeito da morte de Ayrton Senna, e jamais poderei me esquecer da presença do mesmo Wilker no Domingão do Faustão, chamado às pressas sem qualquer familiaridade com o esporte, apenas por ser, reconhecidamente, um sujeito sensato e sábio, num momento em que boa parte do País precisava de algumas palavras de conforto.

httpv://youtu.be/3L0zQO1J2Is

Curiosamente, Wilker também empresta sua voz a parte da narração do especial exibido pela mesma emissora em homenagem a Senna, tornando a associação ainda mais atual, e a lembrança daqueles dias, vinte anos atrás, ainda mais vivas.

Mas… Para encerrar a coluna com o clima positivo, registro aqui o feito do amigo e leitor Mário Salustiano, parceiro de todos no GPTotal, que participou de uma corrida em Interlagos no simulador instalado no Velocult e, dias depois, foi informado por profissionais da Petrobras de que havia cravado o melhor tempo entre todas as atividades do dia, e iria receber um troféu.

Pelo belo desempenho em seu dia de piloto, e por ter representado tão bem o Gepeto na hora de enfiar o pé no acelerador, fica aqui a congratulação em nome de toda a família GPTotal.

Uma ótima semana a todos.

 

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

8 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    O que vimos neste domingo foi uma corrida de verdade e com um detalhe importante que foi não haver interferência dos rádios nos duelos caseiros no decorrer da corrida. Aliás seria interessante nestes mestres de regulamento que conseguissem proibir alguma ordem deste tipo. Creio que somente por isso tivemos como disse a cima uma corrida de verdade.
    O domínio das Mercedes está gritante mas ainda acredito numa reação das RBR’s.
    A largada do Massa foi sensacional e acho que seu desempenho nesta corrida foi muito boa. Agora que fechada foi aquela que Vettel deu em cima dele, a meu ver caberia alguma punição nos moldes que levou o Maldonado. O Vettel exagerou naquela manobra de espremer o Massa. Foi anti esportivo.
    Também gostaria de saber por que o Alonso vibrou tanto por chegar em nono lugar. Parecia que tinha vencido a corrida. Não acredito que chegar na frente do Raikonen tenha sido o motivo, a não ser que tenha rolado uma aposta entre eles.
    Uma coisa que não estou entendendo é por que o segundo carro da Ferrari não anda no mesmo nível do primeiro. O Raikkonen está vendo as coisas tão pretas quanto MAssa via quando estava lá.

    Legal a tocada do Mario Salustiano. Vamos propor um duelo com o Massa … pelo menos no simulador …

    Se tenho um pedido que poderia fazer agora é que todas as corridas que ainda restam em 2104 sejam daqui para frente iguais a que vimos neste domingo. Muita disputa nas pistas e nada de rádio enchendo o saco …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Fernando Marques disse:

      Com relação ao Jose Wilker, creio que a classe artística brasileira perdeu um verdadeiro campeão na arte de interpretar. O cara era muito bom.

      Fernando Marques

    • Mauro Santana disse:

      Pois é Fernando, também já notei que o Raikkonen esta muito apático neste início de ano.

      De uma ou duas:

      Ou ele já esta sacudo de toda a burocracia que envolve um piloto Ferrari e o carro não é bem nascido.

      Ou

      Ele esta tendo que correr com certas restrições contra o Alonso, o que eu acho difícil de um piloto do calibre de Raikkonen aceitar tal situação.

      Mas, que passa esta segunda impressão, isso passa, e ficou ainda mais claro nesta ultima etapa quando ele esteve atrás do Alonso e não o atacou.

      Vamos aguardar as próximas pra ver o que vai dar.

      Abraço!

  2. Tiago Freitas disse:

    Excelente texto, como sempre… Quanto a corrida, não via uma tão emocionante desde Interlagos 2008! Isso é automobilismo de verdade!!!

  3. Mauro Santana disse:

    Agora sim eu quero ver se o Vettel é digno de ser tetra campeão, pois com o melhor carro do grid, até o Button conseguiu ser campeão, mas sem o melhor carro do grid é que eu quero ver se o Vettel é tudo isso mesmo.

    Senna e Alonso mostraram ser campeões de verdade quando mostraram grandes forças com carros que eram muitas vezes o terceiro melhor do grid.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  4. Robinson disse:

    Amigos do GPTotal

    Estamos em 2014 e a mais aclamada alteração no regulamento que rege a F1 é o retorno dos propulsores turbo. Pois bem, estes foram motivo de desconfiança quando a Renault resolveu adotá-los em 1977, passou a ser referência no início dos anos 80 e em 1988 teve sua temporada de despedida das pistas. Nesta oportunidade tínhamos um exponente (o Honda) empurrando McLaren e Lotus. Com um chassi impressionante desenvolvido por Gordon Murray baseando-se em sua tentativa frustada com a Brabham em 1986 a equipe de Prost e Senna viu um domínio impressionante nas pistas, sobrando uma briga equilibrada em outro patamar entre três ou quatro equipes por postos secundários. Nesta temporada, como bem sabemos, Senna levantou o caneco no Japão, penúltima corrida do campeonato, após uma aclamada recuperação, somando assim sua oitava vitória. Prost obteve mais pontos na temporada mas, com uma vitória a menos, teve que se consolar com o vice e um novo modo de lidar com aquele brasileiro endiabrado. 15 vitórias em 16 corridas na temporada, com a Ferrari agarrando esta única sobra com uma dobradinha Berger/Alboretto, em ano de Luto pela morte do comendador e com aquela ajudinha do Schlesser jogando Senna para fora da pista.

    Este ano vem se caminhando a isso, a cada GP mais claramente, que o campeonato fica entre Hamilton e Rosberg , o qual tende a ser decidido pelo número de abandonos (quem tiver menos leva). Pena o GP da Índia não estar no calendário, pois, quem sabe, seria neste GP que uma conhecidência de fatores negativos a Mercedes levaria a Force India a uma vitória em seu território.

    Rosberg pareceu bem abatido após o GP, talvez sentindo o baque do talento do Hamilton a sua frente ou da obediência às determinações da equipe. Hamilton é só alegria e parece focado este ano. Peres gosta de brilhar longe dos holofotes. A Williams tem potencial, mas peca pela eterna ingerência. Alonso, Kimi, Button e Vettel parecem fadados a catar pontinhos aqui e ali, de modo a desmotiva-los até a metade do certame.

    Hamilton mantendo o foco não será batido por Rosberg, mas bem sabemos do seu destempero em momentos decisivos.

    Que venha a China e mais um daqueles GP´s feitos para TV.

    Boa semana a todos!

    Robinson de Carvalho Araujo – Cuiabá

  5. Mauro Santana disse:

    Olá Amigos do Gepeto!

    Belo texto amigo Márcio, e realmente este falecimento meio que “precoce” do Grande José Wilker pegou a todos de surpresa e também deixou um país mais triste.

    Uma grande pessoa, e um grande ator, e que com certeza irá deixar saudades e um buraco gigantesco aberto no ramo artístico.

    Meus sentimentos aos familiares e amigos próximos.

    Falemos da F1.

    Apesar de ser somente a terceira etapa, já também me peguei pensando que a Mercedes pode igualar o feito da Mclaren em 88.

    Porem, Hamilton e Rosberg são muito fracos em comparados a Senna e Prost.

    Alias, nem tem como comparar.

    E a respeito do GP de nº 900 da história, foi sim uma prova muito boa e interessante, o que no Bahrein é raro, mas, poderia ser melhor, e digo o porque:

    Porque esta regra BESTA de ter que usar por obrigatoriedade os dois compostos de pneus só atrapalha as disputas na pista, como era no tempo do reabastecimento.

    Imaginem esta prova em condições normais, sem diferença de compostos se o Rosberg não teria atacado o Hamilton até a ultima curva.

    Esta é minha opinião.

    E Rosberg, acho que você vai precisar de umas aulas com o seu pai, pois o cara tinha um pé pesadíssimo e um grande controle do carro.

    http://www.youtube.com/watch?v=sWTbd1LeES0

    O cara era uma FERA!!!!

    E deixo os meus parabéns ao amigo Mário Salustiano!!

    Abraço a todos!!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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