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Entre os muitos ídolos que o esporte já produziu e continuará produzindo, raríssimos são aqueles que efetivamente ascendem à condição de imortais, quer seja pela dimensão de seus feitos, quer seja pelo simbolismo que estes adquirem.

Imortais, diferentemente de ídolos, estão acima da esfera das opiniões. Podemos gostar ou não deles, concordar ou discordar, mas seria puro fanatismo negar sua importância e influência. Não basta ser bom, portanto, para se tornar um imortal. É preciso fazer parte de algo maior, que pode perfeitamente ser uma história dramática, uma disputa desfavorável, ou um diálogo com outras atividades humanas, preferencialmente públicas. É importante, ainda, que exista uma imagem emblemática, uma marca registrada, ou algum ‘milagre’ na fronteira do humanamente possível.

Em suas respectivas arenas, para além de subjetivismos e simpatias pessoais, é inegável que os nomes de Diego Armando Maradona e Ayrton Senna da Silva tenham atingido este patamar mítico. Contudo, esta provavelmente seria a única coincidência em suas trajetórias, não fosse por um curioso detalhe: ambos escolheram exatamente a mesma hora, do mesmo dia, para eternizarem suas passagens terrenas.

Há exatos 24 anos, naquele domingo, 22 de junho de 1986, alguma mágica conjuntura astrológica se encarregou de transformar dois grandes ídolos do esporte em algo muito maior. O relato que se segue conta a história de uma grande vitória brasileira nas pistas, que o espectador brasileiro não viu pela tevê. Simplesmente porque na mesma hora, alguns quilômetros mais ao sul, um baixinho argentino estava resgatando, de maneira definitiva, toda a estima de um país massacrado emocionalmente.

Sábado, dia 21 de junho. Exatos 16 anos após o tri do futebol no México, e aniversário de Michel Platini (31 anos). Logo depois de estabelecer uma pole position fantástica em Detroit, Ayrton Senna deixa o circuito para acompanhar do hotel a dramática partida entre Brasil e França pelas quartas de final da Copa do Mundo. Para ele, um jogo ainda mais importante do que o normal, uma vez que graças à utilização dos motores Renault, boa parte da equipe Lotus era formada por franceses.

Ao fim do primeiro tempo o Brasil vencia por 1 a 0, gol de Careca. No segundo tempo, porém, Michel Platini empatou, Zico perdeu um pênalti, e a disputa foi para a prorrogação. Como ninguém mais marcou, o jogo seria decidido nos pênaltis. Platini desperdiçou sua chance pelo lado francês, enquanto Júlio César e Sócrates não marcaram pela equipe brasileira. Resultado: França nas semifinais, e o Brasil, pela quarta Copa consecutiva, voltava para casa sem ao menos disputar a final.

O resultado do jogo foi a senha para que Ayrton fosse vítima de cuidadosas e inevitáveis brincadeiras por parte da equipe. Competitivo que era, Senna estava evidentemente ainda mais motivado a buscar a vitória no domingo. Além disso, ele sabia muito bem que os circuitos de rua representavam sua melhor oportunidade de brigar por vitórias, e que um triunfo brasileiro naquele momento teria um significado muito especial junto à população de seu país.

Domingo, 22 de junho de 1986. Dada a largada Mansell pulou melhor que Senna, e ambos dividiram a primeira curva. Senna confirmou a liderança, mas durante as duas primeiras voltas sofreu um assédio constante por parte do inglês. Piquet, enquanto isso, mais uma vez havia largado mal, perdendo a terceira posição no grid para a surpreendente Ligier de René Arnoux.

Ao abrir a terceira volta Senna não conseguiu engatar uma marcha, e acabou sendo superado por Mansell. O inglês vinha de duas vitórias seguidas, e estava com a motivação nas alturas. Tão alta, na verdade, que tratou de impor um ritmo de prova suicida nas primeiras voltas, forçando demais os freios do Williams. Senna, por sua vez, era duramente pressionado por Arnoux – ambos chegaram a ficar lado a lado na freada que segue ao Cobo Hall –, de forma que a distância para Mansell chegou à casa dos quatro segundos.

Ayrton logo percebeu que precisaria forçar um pouco o ritmo para se ver livre da terrível pressão de Arnoux, e não perder contato com Mansell. O inglês, de sua parte, nitidamente perdia rendimento em virtude de problemas com seus freios, de forma que ao fim da oitava volta o Lotus já estava embutido na traseira do Williams.

Diversas vezes ao longo da nona volta Senna ameaça a ultrapassagem, sempre sendo bloqueado vigorosamente por Mansell. Então, na freada da chicane após o túnel, o brasileiro mergulha de forma inapelável pelo lado de dentro, não dando qualquer chance de reação ao inglês. Uma manobra que curiosamente só foi possível graças ao fato de Senna não estar assim tão perto da Williams quando retardou a freada, de tal forma que Mansell simplesmente considerou impossível qualquer tentativa e se permitiu buscar o melhor traçado. Arnoux aproveitou o momento para também superar o inglês, por fora, na abertura da 10ª volta.

Mansell agora era o terceiro, com problemas de freios, seguido de perto por Piquet e Laffite. O natural, a essa altura, seria que ambos também superassem o inglês. Todavia, é Piquet quem perde a posição para o segundo carro da Ligier, enquanto Mansell volta a girar num ritmo razoável.

Mais algumas curvas e Laffite também supera o inglês, confirmando o excelente dia da Ligier. Equipados com motores Renault e pneus Pirelli, os carros franceses tinham uma menor distância entre os eixos e mostravam grande adaptação à pista estadunidense. Piquet voltava assim a estar posicionado logo atrás de seu companheiro de equipe.

Na 15ª volta Senna é obrigado a ir aos boxes com o pneu traseiro direito furado. A troca é demorada, e o brasileiro retorna à pista apenas na oitava colocação, 19 segundos atrás do líder Arnoux. Neste momento a Ligier tinha seus dois carros em 1º e 2º, com Laffite – do alto de seus 42 anos – pressionando duramente o compatriota e companheiro de equipe.

Sem a chance de controlar a corrida a partir da liderança, Senna parte para o plano “B”. Guiando como nos tempos da Fórmula 3, ele aperta o ritmo e começa a escalar o pelotão. Na 17ª volta supera facilmente a Ferrari de Johansson, e logo a seguir também deixa Alboreto para trás, assumindo assim a sexta colocação. É chegado então um dos momentos mais reveladores desta fase da Fórmula 1.

O quinto colocado era Nelson Piquet, que vinha fazendo uma corrida sonolenta e há pouco havia sido superado também por Prost. Alguém poderia pensar que Nelson tinha problemas em seu carro, mas os acontecimentos tratam de derrubar qualquer tese a este respeito. Mais que isso, as voltas seguintes iriam evidenciar a profundidade da rivalidade que o então bicampeão já nutria em relação à nova estrela brasileira.

Avisado sobre a aproximação de Ayrton, Nelson desperta. De imediato faz a volta mais rápida da corrida até então, e em instantes devora a distância que já o separava de Prost. O francês também aperta o ritmo, tentando defender a posição, e com isso se aproxima de Mansell. Como num efeito-dominó é a vez de Mansell partir para cima de Arnoux – que voltas antes havia cedido a liderança a Laffite. A presença de Senna em sexto, portanto, havia motivado a formação de um pelotão compacto que ia do segundo ao sexto colocados.

E é nesse momento que Piquet deixa claro todo o potencial de que dispunha para estar liderando aquela prova com facilidade. Tão logo o Lotus de Senna cresceu em seus retrovisores, Nelson mergulhou por dentro na freada após o Cobo Hall, superando Prost com constrangedora facilidade. Ayrton não deixa por menos, e supera o francês ainda na mesma volta, logo após o túnel. O Lotus novamente crescia nos retrovisores do Williams.

Metros à frente, Arnoux entrava nos boxes para trocar os pneus. A ordem então passava a ser: Laffite, Mansell, Piquet, Senna e Prost. Piquet então parte para cima de Mansell, e supera o inglês novamente com facilidade. Senna tenta aproveitar o embalo, mas mais uma vez é duramente fechado por Nigel. No fim da mesma volta, porém, Senna consegue a ultrapassagem, e vale a pena descrevê-la. Assim como na nona volta, Ayrton entrava no túnel em condições de superar a Williams de Mansell. Desta vez, porém, o Lotus está bem mais próximo, de forma que o inglês antecipa a manobra e toma a linha de dentro. Senna então aplica um rápido drible a Mansell, mergulhando por fora na freada da chicane. Uma manobra exuberante.

Ao completarem a volta Prost vai para os boxes, enquanto Piquet e Senna seguem na caça da Ligier de Laffite. Metros à frente, no miolo do circuito, Piquet assume a ponta com incrível naturalidade. Três curvas depois foi a vez de Senna superar o francês para assumir a segunda posição.

Em questão de quatro voltas, quando se sentiu impelido a andar mais forte, Piquet havia pulado de quinto para primeiro, herdando apenas uma posição. Ficava claro como água que o bicampeão tinha meios de liderar a prova com facilidade, e que seus maiores limitadores, naquela altura da carreira, eram emocionais. Numa equipe nova, com Frank Williams acidentado e Patrick Head dando tratamento privilegiado a Mansell, Nelson simplesmente estava desanimado. O mais revelador, todavia, foi ver a forma como o bicampeão já se mostrava incomodado com a presença de Senna.

Por algumas voltas os dois brasileiros aceleraram o máximo que puderam, sempre com Piquet sustentando uma vantagem na casa dos 3 segundos em relação a Ayrton. Nelson então parou para trocar os pneus, perdendo longos 19 segundos nos boxes. Na volta seguinte foi a vez de Senna fazer sua segunda troca, gastando apenas 9,2 segundos no processo. Quando retornou à pista, Ayrton tinha uma confortável vantagem para Piquet, o segundo.

Com pneus novos Nelson fez uma volta incrível, na casa de 1min41s23, dando a exata medida do quanto estava determinado a superar Senna. Ayrton tentou responder na volta seguinte, virando em 1min41s98, quando foi informado de que Piquet havia se chocado contra o muro na saída da chicane após o túnel. Com isso Senna reduziu seu ritmo, e essas duas acabaram sendo as voltas mais rápidas da prova. A vantagem de 7 décimos em favor de Piquet revela a briga pela liderança que se poderia esperar para o final da prova, da mesma forma que o acidente revela o quanto Senna tirava Nelson do sério. O cenário que explodiria na mítica ultrapassagem em Hungaroring, meses mais tarde, aos poucos ia se desenhando.

A partir de então Senna apenas levou o carro até o fim, terminando a corrida mais de 30 segundos à frente de Laffite e Prost. Na Fórmula 1, ao menos, o Brasil havia goleado a França.

E então, na volta de consagração, o ato que terminaria por elevar Senna a um novo patamar em sua condição de ídolo nacional. Avistando um torcedor com uma bandeira brasileira, Senna encosta a Lotus, estica o braço e aguarda até que esta lhe seja entregue. Um dia após a eliminação na Copa do Mundo, Ayrton iniciava sua tradição pessoal de comemorar as vitórias carregando a bandeira nacional.

Tudo isso, o Brasil viu apenas sob a forma de um rápido e insuficiente compacto, entre uma e outra partida das quartas de final. Felizmente, Diego Maradona tratou de justificar plenamente nosso sacrifício, ao escrever naquele dia uma das páginas mais arrepiantes de toda a história do esporte. Dois gols emblemáticos contra a Inglaterra, apenas 4 anos após o trauma das Malvinas.

Num mesmo dia, e na mesma hora, dois imortais do esporte mundial viveram os momentos que os tornaram eternos. Há exatos 24 anos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

2 Comments

  1. […] anos atrás, li este texto do Márcio Madeira aqui no site. Era bem na época da Copa do Mundo, junho, com Maradona como […]

  2. […] e creio que isso fizesse sentido tendo em vista quão ídolo ambos são em seus países e até por coincidências incríveis – mas vejo que é com outro argentino que seu papel mais se assemelha: Alfredo Di […]

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