“Durar não é estar vivo”

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Dezenove anos já se passaram. Você acredita?

por Marcel Pilatti

– Então fazemos assim: no dia 1°, como é feriado, ficamos sem coluna.
– Não, acho que vale publicar, pela data. Deixa que eu faço.

De fato não era pra haver coluna no GPTo hoje, mas a ocasião pede. Diz uma música (“Corazón Libre”) que “durar não é ‘estar vivo’: viver é outra coisa“. O tema fala sobre as agruras da terrível ditadura argentina. Pra mim, porém, esse belíssimo verso pode ser traduzido em duas palavras: Ayrton Senna.

19 anos! Dezenove longos anos se passaram desde o fatídico GP de San Marino de 1994. Dezenove, como aquela Toleman… E o que ficou? Um vazio imenso, preenchido por ‘E se…’, palavrões, lágrimas e teorias… Mas o que fica mesmo é um profundo lamento: mais do que não termos as famigeradas “manhãs de domingo”, parece que uma parte de nós lamenta a chance de não ter vivido mais.

Não adianta: a gente segue vendo corridas, e amando-as; seguimos lendo notícias todos os dias sobre a F1; continuamos ansiosos a cada GP (e que nada atrapalhe a largada!); ainda comentamos e debatemos quem é o melhor piloto, quem merece o título, onde fulano e ciclano deveriam estar…

É bom nem pensar muito, porque você fica maluco” dizem, sobre as notícias de corrupção, sobre as loucuras no trânsito, e sobre tudo que nos atordoa no dia-a-dia. É mesmo, é bom nem lembrar. O melhor seria se aquele fim-de-semana não tivesse existido.

E depois dele, quando a categoria chegasse ao GP de Mônaco de 1994, Bernie Ecclestone convocaria uma conferência e diria: “Ayrton Senna resolveu ir viver no Tibet, não quis mais saber da Fórmula 1”. Quem sabe não seria melhor?…

Sempre evitei falar de Ayrton Senna de modo emocional, especialmente neste espaço.

Confesso que o maior motivo para tal era um julgamento de parte dos leitores: aquela coisa de atacar o autor pelo simples fato de ele estar falando de Senna – e junto surgem alguns apelidos maldosos propagados por uma parcela da nossa ‘mídia especializada’.

Bem, resolvi escrever, mesmo assim.

Ainda que fosse muito novo à época, lembro-me fotograficamente de tudo que vivi naquele dia: desde o habitual café da manhã pré-corrida, passando pelo churrasco mais sem gosto de minha vida, até a noite de sono, puramente vencido pelo cansaço.

Lembro-me do silêncio: que silêncio!

Me recordo também dos dias que se seguiram, e inclusive das interrupções das atividades esportivas na escola quando, na manhã de 03 de maio, todas as turmas do período se dirigiram ao auditório, para acompanhar a chegada do corpo.

Falar sobre isso, 19 anos depois, parece ser o momento ideal para equilibrar razão e emoção.

httpv://youtu.be/Vvq4ldp0K-0

No último dia 21 de março, realizei junto ao meu pai uma exposição (confiram fotos acima) na Escola onde ele trabalha. O tema foi, é claro, Ayrton Senna: seria o 53° aniversário do piloto.

Tudo que expusemos foi material que adquirimos ao longo do tempo: miniaturas (carros e capacete), produtos da marca, dvds e cds tributos, dezenas de livros e uma infinidade de jornais e revistas. Meu pai, como professor de história, viu na data uma boa oportunidade de se unir o útil ao agradável: reavivar a memória do ídolo, e ainda trabalhar conteúdo relacionado à sua disciplina.

Alunos do 1º ao 9º anos  passearam pelo salão nobre da escola visitando todos os seis stands montados. Havia ainda cadeiras para que os visitantes assistissem os documentários  “Senna” e “Uma Estrela chamada Senna“.

Ao final, um espaço para que assinassem e deixassem algum recado num chamado “risque-rabisque“, também produto da marca Senna.

Algumas mensagens foram tocantes, não há como melhor definí-las: “Queria te conhecer pessoalmente. Adeus Ayrton“, assinou Diego, um menino de 9 anos.

“Durar não é ‘estar vivo'”!

Um dos materiais que foram expostos é o artigo escrito por meu pai e publicado em um jornal paranaense, no dia 02 de maio.

Um trecho: “Quando meu filho do meio, Marcel, perguntou-se ‘por que ele?’ ao ver o acidente de Senna pela televisão, imediatamente ocorreu em minha mente: ‘para servir de exemplo’ (…) Com certeza seu carro já está consertado, em perfeitas condições de correr o próximo Grande Prêmio, pois as peças estragadas já foram substituídas. E Senna, infelizmente não conseguiram salvar, pois não existem peças de reposição humana.”

Ao final da exposição, distribuímos aos alunos um pequeno cartão – desses, de visita – do piloto: à frente, uma imagem dele junto ao McLaren MP4/5; atrás, uma pequena lista, contendo seus principais números na F1.

Recentemente, junto a um amigo, escrevi esse artigo na wikipedia: na página ‘original’ do  site, percebi que a citação de seus recordes e estatísticas era quase nula. Seus feitos mereciam, pois, uma menção especial. Agradeço, inclusive, se os amigos leitores tiverem quaisquer sugestões para alterações ou inserções no texto ali presente.

Quando saiu a Revista ALFA de maio/2012, celebrando Senna e todos os seus possíveis títulos e vitórias, escrevi que havia gostado do material.

Meu caro amigo Lucas Giavoni discordou, dizendo: “No fim das contas, acaba sendo um tremendo desrespeito com a memória do Ayrton (…) Não é desse jeito que devemos preservar a presença do Ayrton no imaginário do povo brasileiro”.

Hoje, vejo como e quanto ele estava certo: o que Senna fez nas pistas, tudo que conquistou e o legado que deixou já são mais que suficientes para ele ser lembrado para sempre na história da Fórmula 1, do esporte em geral, e do Brasil.

httpv://youtu.be/n9qZu7h5ys0

Também não gosto que digam que Senna foi um ser humano perfeito; Também fico “p” quando o chamam de “Airton Sena”; Também me irrita quando buscam transformar alguns de seus feitos em milagre; E também acho o fim da picada quererem santificá-lo em episódios como Suzuka-90.

Mas aí eu me lembro: Pelé e Michael Jordan também são “hipervalorizados”. E, como diz a banda Public Enemy: “Don’t believe the hype!” (“Não acredite nos exageros!“).

Só que esses exageros todos não o(s) diminui(em). Nem um pouco.

Terminamos ontem o especial que relembrou as 41 vitórias de Senna. Começamos exatamente em seu aniversário. Coube a mim falar sobre 10 GPs: Espanha-1986, San Marino e Alemanha, 1988, San Marino e Bélgica, 1989, Canadá-1990, EUA e Austrália, 1991, Hungria-1992, e Mônaco-1993.

Todas essas foram vitórias marcantes, algumas delas pela superação, outras pelo significado histórico, outras por grandes desempenhos do piloto.

Revendo uma a uma, de fato percebe-se que Senna na maioria dos casos brindou-nos com performances especiais. E é por isso – e não por alguma ‘santidade’ – que ele é e será lembrado. Para sempre.

Creio que o meu maior lamento, na verdade, é saber que Senna não poderá ler essa coluna, nem nenhuma outra que já escrevi: é que, lá no Tibet, ele está sem internet.

Abraços a todos!

Especial Ayrton Senna
Especial Ayrton Senna
Por ocasião dos 21 anos da morte de Ayrton Senna, os colunistas do GPTotal dedicam uma série de textos ao tricampeão.

15 Comentários

  1. Rafael Carvalho disse:

    No dia 3 de Maio, de uma segunda feira fizemos um trabalho na escola. Eu estava na 2ª ou 3ª série e a professora pediu para que fizemos um trabalho em homenagem a Senna. E todos fizeram e fiquei com a melhor nota da sala! fiz uma pista com as cores dos carros da época e o Senna cruzando a linha de chegada em 1º!

  2. Mauro Santana disse:

    Senhores, já que o assunto é o Senna, tenho uma pergunta:

    Quando o Berger foi para a Mclaren em 1990, Senna teve ou não alguma participação nesta contratação!?

    Pergunto, pois ambos eram muito amigos, e também nunca li nada a respeito.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Marcel Pilatti disse:

      Salve, Mauro.

      Não creio que ele tenha sido o pivô da contratação, não.

      Precisaria rever o relato do próprio Berger no livro “Na reta de chegada”, mas me recordo de ele dizendo que chegou lá até mesmo duvidando da capacidade de Senna, crendo que poderia batê-lo.

      No primeiro GP (EUA-90), Berger se classifica na pole, e Senna apenas 5º. Mas, na corrida…

      Abraço!

      • Mauro Santana disse:

        Obrigado o retorno Marcel, mas no livro “Na reta de chegada” não descreve se o Senna foi o não o pivô desta contratação.

        Realmente o Berger achou que poderia bater o Senna na Mclaren, prova disso foi o trabalho duro que fez no inverno europeu de 1991.

        Abraço!

        Mauro

  3. Mauro Santana disse:

    Belo Texto Marcel, belo texto!

    Todos sabem do meu amor pelo automobilismo e pela F1, mas se eu pudesse não ter vivido aquele fim de semana(em especial aquele domingo), ahh eu o pularia.

    Tenho um sobrinho que hoje esta com 7 aninhos, e um dia ele me perguntou como foi o dia em que o Senna morreu, e eu simplesmente não consegui responde-lo.

    tudo na vida é passageiro, mas a saudade é algo que infelizmente(ou felizmente) nos acompanha pela vida inteira.

    Abraço a todos!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Marcel Pilatti disse:

      Grande Mauro,
      É de fato inexplicável, não é mesmo?
      Só quem viveu sabe. Foi uma situação atípica em todos os sentidos.
      Mas… seguimos em frente! E Senna segue inspirando.
      Abraço

      • Mauro Santana disse:

        Verdade Marcel!

        O meu ritual naquele domingo foi muito parecido com o seu, eu e meu pai sentamos para tomar o café e vermos a corrida juntos, como sempre, e aí aconteceu o acidente.

        Naquele domingo iriamos fazer um churrasco, e como minha mãe estava na feira do Largo da Ordem de Artesanato(ela trabalha lá até hoje), só ficou sabendo do acidente pelos clientes que por ali passavem, mas não sabia da gravidade, só foi saber quando meu pai foi busca-la.

        Quando o Roberto Cabrini entrou ao vivo informando a morte de Senna, foi aquela tristeza e choradeira, ninguém conseguiu almoçar, e foi o pior domingo que já passei.

        Parabéns pela exposição que você e seu pai fizeram, e tenho guardado o exemplar do jornal em que seu pai publicou, nesta época meus pais tinham uma banca de revista, e aí guardamos um exemplar de cada reportagem tanto de Senna quanto do Tetra da Seleção..

        Você esta certo, Senna sempre seguirá inspirando, e tomara que a internet chegue logo no Tibet(rsrs).

        Abraço!

        Mauro

        • Marcel Pilatti disse:

          Impressionante, Mauro, quanta gente não viveu a mesma coisa? É de cinema, mesmo.

          Hehehe, tomara mesmo, aí ele poderá ler e saber do GPTotal e seus leitores 🙂

  4. Marcel Pilatti disse:

    Oi Fernando.
    Sábias palavras.
    Todos nós trmos preferências, mas acima de tudo deve haver respeito.
    Abração!

  5. Guilherme disse:

    Sensacional!

  6. Augusto Leal disse:

    Emocionante. Belo texto pra ler nesse primeiro de maio, amanhã, semana que vem, sempre que sentir vontade de lembrar desse homem. O quão grande foram seus feitos e exemplo que deixou pra posteridade. Realmente durar não é estar vivo.
    Parabéns, abraços.
    Augusto Leal.

  7. Oh Marcel, assim você me quebra, rapaz.

  8. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    um ídolo sempre deixa a sua marca registrada dentro e fora do oficio que o fez famoso. Uns buscam ser bons exemplos outro não ligam para isso … Acho que o Senna no somatorio de tudo o que fez dentro e fora das pistas deixou um belo exemplo … aquele domingo em Imola jamais será esquecido por quem vivenciou tudo aquilo e todo aquele sofrimento … foi uma comoção nacional jamais vista aqui no Brasil … nunca neguei aqui neste espaço minha predileção pelo Piquet mas nunca deixei de vibrar com as vitorias do Senna nas pistas … tirando aquela forra que ele deu no Prost no Japão, quando conquistou seu bi campeonato (não aprovo e jamais aprovarei aquela atitude) não nego que seu desempenho nas pistas sempre foram maravilhosos … a vitoria que mais vibrei dele foi quando ele venceu pela primeira vez o GP do Brasil … achava injusto o Senna não conseguir vencer em casa … ainda mais sendo já ele um campeão mundial da Formula 1 e brasileiro …
    A trajetoria do Senna aqui na terra foi marcante e jamais será esquecida. Pensando bem ele deve estar descansando em paz pois fez tudo aquilo que ele queria na vida.
    Continuo fã do automobilismo. Continuo fã da Formula 1. E continuo na esperança de poder ter um novo fã na F-1 … deu certo com o Emerson, Pace, Piquet, Senna, Barrichello e com Massa que venceram corridas e quem sabe pode dar certo com novos nomes no futuro.
    Nada de um novo idolo como foram os citados acima mas uma nova marca e novas emoções …
    O Senna deixou saudades e boas lembranças … meu pai também … e é assim que nós ainda vivos aqui na Terra devemos sempre agir … a morte faz parte da vida …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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