É assim mesmo! – parte 2

É assim mesmo!
05/03/2014
Fernando Reutemann
10/03/2014

Não sei o que se pretende com tantos castigos, pois não produzem nenhuma melhora na competição nem no espetáculo.

*Leia a primeira parte desta coluna clicando aqui.

Não sei o que se pretende com tantos castigos, pois não produzem nenhuma melhora na competição nem no espetáculo. Porém, resulta curioso o dato de que, apesar de que os pilotos se encontram sob a pesada espada de Damocles de serem castigados na mais mínima oportunidade, na temporada 2003 tivéssemos 303 ultrapassagens e que na de 2012 estas subissem a 1.135. Se a ameaça de ser castigado aumentou nesse período, como é que há mais ultrapassagens?

Bom, a resposta é obvia: eram ultrapassagens “artificiais” devidas ao KERS e/ou ao DRS. O pior é que se continua insistindo em aumentar o protagonismo desses artefatos em detrimento do piloto, o que produz uma formula um mais segura mas também mais “esterilizada”.

Não há dúvida que as ultrapassagens “naturais” se tornaram algo escasso e numa fonte de incidentes. No entanto, na minha modesta opinião, me parece que a FIA, em grande medida, é a responsável disso. Em sua cruzada por conter a velocidade dos carros em prol da segurança, a FIA foi modificando os circuitos com a inclusão de toda classe de chicanes e cotovelos e, pela sua parte, as equipes, em ocasiões obrigadas pelo regulamente e, em outras, em busca de melhorar a eficiência aerodinâmica, foram aumentando a distância entre eixos dos carros (possivelmente, esta temporada ainda aumente mais).

A combinação destes dois fatores aumenta as probabilidades de contato durante as ultrapassagens pois, quanta maior a distância entre eixos, menor será o radio de giro do eixo traseiro respeito ao dianteiro, portanto nessas curvas com radio reduzido a trajetória descrita pelo carro, logicamente, abrangerá uma área maior.

Assim, quando um piloto enfia o bico para iniciar a ultrapassagem na entrada de uma curva (recordemos que os aerofólios dianteiros são mais largos desde a temporada 2009), é muito provável que haja contato entre os dois carros (a presença de enormes quantidades de borracha fora da trajetória natural, piora ainda mais a situação).

Então… se devem os pilotos inibir e depender, unicamente, dos artificialismos para ultrapassar? Essa… parece a tendência que se impõe. Um caso muito ilustrativo dessa tendência a “domesticar” os pilotos, castigando qualquer contato, foi o de Narain Karthikeyan e Sebastian Vettel no GP da Malásia de 2012.

Não foi um caso de flagrante erro ou que pusesse o rival numa situação de perigo. Foi um simples incidente de corrida que, possivelmente, teria passado despercebido não fosse o pneu furado de Vettel, o que nos leva a pensar que, em ocasiões, os castigos dependem mais das consequências da ação do que da ação em si mesma.

Outro exemplo poderia ser o incidente entre Hulkenberg e Hamilton essa mesma temporada no Brasil As decisões inconsistentes, tampouco ajudam: No GP da Hungria de 2006, Schumacher corta uma chicane quando Pedro de la Rosa iniciava a ultrapassagem, mantendo assim a posição e não foi punido.

No GP de Mônaco de 2013, Alonso corta uma chicane para evitar bater em Perez, quando este havia iniciado a ultrapassagem, e também mantem a posição. Porém, pouco depois o espanhol é obrigado a ceder tal posição ao mexicano.

Hoje, qualquer simples contato entre os pilotos é suficiente para que logo apareça a correspondente nota na TV dizendo que “tal incidente está sob investigação“. Atualmente, por exemplo, o incidente entre Peterson e Stewart no GP britânico de 1973, muito provavelmente, lhe houvesse custado algum castigo ao sueco:

httpv://youtu.be/W-YcrwkwwWM

Caso parecido ao citado de Hulkenberg foi o acontecido entre Prost e Piquet em 1983 na Holanda, mas, nesta ocasião, o francês não recebeu nenhum castigo:

httpv://youtu.be/XZMKgT5tDPw

Muhammad Ali em certa ocasião disse que os campeões não se forjam no ginásio. Segundo Ali, os campeões se forjam em base a algo profundamente arraigado em seu interior, como um desejo, um sonho ou uma visão. Campeões precisam ter habilidade e determinação, mas a determinação deve prevalecer sobre a habilidade.

Essa determinação e forte desejo de vencer é comum em toda competição e, no fragor da mesma, é lógico que, esporadicamente, haja algum incidente. No entanto, castigar sistematicamente qualquer contato entre os pilotos, não me parece o meio mais razoável de impor cordura.

Isso não há nenhum regulamento que o consiga. Porém, esse mesmo regulamento pode acabar desnaturalizando a formula 1. Os pilotos estiveram disputando posições durante 50 anos sem que os fiscais interferissem, e os castigos eram reservados unicamente àquelas ações que não deixavam nenhuma dúvida respeito ao pouco cuidado ou à malícia mostrada por algum piloto em alguma ação concreta.

Perante aquela contundente e irrefutável resposta de Robinson, o juiz compreendeu que o boxe era e é assim mesmo, exonerando Ray de toda responsabilidade naquele caso. Me parece que na Fórmula Um atual falta gente com o bom senso daquele juiz!

Abraços e boa temporada a todos.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

5 Comments

  1. Mauro Santana disse:

    Belíssimo Manuel, Belíssimo!!!

    Eu não sou engenheiro mecânico e muito menos estudei engenharia, mas, como amante e estudioso da F1, sempre achei que com as mudanças do regulamento a partir da temporada de 1998, aonde os carros passaram a ser mais estreitos, pneus frisados, e que ao logos dos anos seguintes foram se tornando mais longos em comprimento, isso foi deixando as ultrapassagens cada vez mais difíceis, e claro, com a maioria destas novas pistas regadas a cotovelos e curvas de baixas, o espetáculo passou a ser feitos nas paradas de box.

    Um único exemplo:

    Vocês acham que Interlagos precisa de zona para DRS?!

    Na minha opinião, NUNCA!

    E à alguns anos que eu venho falando, em tom de zoação, que com os F1 cada vez mais longos em comprimentos, chegara um dia em que todos eles terão de manobrar para poderem passar pela curva Lowes em Mônaco.

    Parece loucura minha, mas, na F1, tudo é possível…

    Abraço!!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Lucas disse:

      Não precisamos nem voltar tanto. No Bahrain em 2006 o Kimi foi pro pódio começando de vigésimo segundo, numa corrida sem safety-car. No ano anterior o Montoya foi de vigésimo pra segundo na alemanha, o Barrichello foi de vigésimo pra terceiro no Canadá e lá pro final da temporada houve meu exemplo preferido de que na F1 moderna é perfeitamente possível que pilotos de qualidade sejam capazes de fazer ultrapassagens de cair o queixo sem DRS e sem apelar: Alonso e Räikkönen saindo lá do fundo do grid, ultrapassando o grid inteiro de forma limpa e bela, com a cereja do bolo do Kimi conseguir a vitória na última volta…

  2. Arlindo Silva disse:

    Creio que conforme os riscos foram diminuindo as manobras de ataque e de defesa foram ficando mais e mais perigosas. Não se deve somente as melhorias de segurança pós 1994.

    Tomemos o triênio 1988-1990 como referência e vemos uma série de acidentes em disputas (em alguns casos nem isso) por posição.

    Portugal 1988 – Senna espremendo Prost no muro dos boxes de Estoril
    Japão 1988 – Mansell quase passando por cima de Piquet numa manobra desastrada
    Adelaide 1988 – Berger forjando um acidente com René Arnoux simplesmente porque tinha vôo marcado para antes do fim da corrida.
    Portugal 1989 – Mansell já desclassificado disputando uma posição com Senna e este fechando a porta quando já não dava mais.
    Suzuka 1989 – Prost jogando o carro pra cima de Senna para conquistar o campeonato.
    Ímola 1990 – Berger jogando Mansell pra fora da pista (a 315 km/h) na saída da Tamburello.
    Hungria 1990 – Os dois pilotos da McLaren usando seus carros como catapulta para ganharem posições de Nannini e Mansell.
    Suzuka 1990 – o famigerado acidente de Senna e Prost.

    Conforme os anos foram passando, a coisa gradativamente foi aumentando…

    A posição da FIA é meio complicada. Se por um lado a política de seguir o jogo seria (numa primeira análise) a mais adequada, quando vemos o que ocorria antes dessas punições, aliado a pilotos problemáticos como Maldonado e Grosjean e a sensação de segurança generalizada entre os pilotos, dá até concordar com as motivações da Federação.

    • Lucas disse:

      Sim, quando falei no “pós-94” foi em relação a F1 ter deixado de matar pilotos. Mas de fato é notório que isso vinha acontecendo desde décadas anteriores, e na década de 80, como você citou, Mansell e Senna tiveram muitos momentos desse naipe. Por outro lado, Prost era um piloto extremamente limpo em disputas de posição e daria muito trabalho tentar enumerar maus momentos do francês além de Suzuka 89, que por ter ficado famoso, acabou criando, pros seus detratores, aquela ideia de que ele era “um piloto sujo” (!). Já o Senna acumulou alguns momentos lamentáveis na sua carreira, culminando com Suzuka 90, mas tem o mérito de ter sido um desses pilotos que aprendeu a dominar esse lado. E ao contrário dos que defendem a ideia de que “piloto bom é piloto raçudo” (leia-se aquele que nunca hesita em jogar o adversário pra fora da pista), isso de forma alguma o tornou menos exuberante, tanto é que 9 entre 10 entusiastas consideram 93 sua melhor temporada.

      Ah, e se hoje em dia dá medo imaginar o que aconteceria se a FIA deixasse sempre “seguir o jogo”, imagine com a presença cada vez maior de pagantes de qualidade duvidosa, o que parece ser um caminho sem volta devido aos altos custos da categoria. Sei não, ainda acho que o melhor a fazer é tentar melhorar o processo de fiscalização, que, aliás, já foi muito pior do que é hoje, vide a época do Alan Donnelly.

  3. Lucas disse:

    Vale lembrar que há uma diferença a mais entre a atualidade e a F1 de outrora: como dizia um amigo meu, “naqueles tempos, uma ultrapassagem desprovida de arte era rara, pois um movimento errado poderia ser o seu último”.

    O risco iminente da morte era algo que fazia que pilotos dados a manobras irresponsáveis quase sempre tinham dois caminhos – ou refinavam suas técnicas de ultrapassagem, ou eram forçados a lidar com o peso de causar ou sofrer acidentes gravíssimos. As alterações pós-94, se por um lado deixou completamente no passado a ideia de F1 como um esporte assassino, por outro encorajou pilotos a não ter muito respeito pelos seus adversários e não deu grandes incentivos para que eles se tornassem melhores “ultrapassadores”. Schumacher é um ícone dessa geração, e tornou-se o mais bem-sucedido piloto da história do esporte sem jamais ter se preocupado em eliminar esse seu grave defeito. Essa corrida de 2006 citada no texto foi um típico exemplo da “falta de arte” em disputar posições – não só suas defesas envolveram manobras questionáveis e saídas de pistas para não diminuir nas chicanes, mas depois disso a corrida encerrou pra ele com aquela lamentável manobra em cima do Heidfeld.

    Talvez seja esse um dos motivos para tantas punições: é que apesar de quase todos os fãs do esporte concordarem que não tem nada mais sacal que corrida sem disputa de posições (ou apenas com “ultrapassagens nos boxes”, na época em que o reabastecimento fazia o papel atual do DRS), também há muitos deles que acham que deve haver um limite para os pilotos que faltaram às aulas de ultrapassagens, mas querem passar na marra. Eu sinceramente não acho que “liberar geral” seja uma boa ideia em um esporte onde corre um Maldonado ou um Grosjean.

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