É o dinheiro, estúpido I

Monza, 73
13/09/2013
É o dinheiro, estúpido II
17/09/2013

Intriga, ambição, honra, vingança? Nada disso. Me parece haver algo mais pragmático na volta de Kimi Raikkonen para a Ferrari.

Tire sua paixão do caminho, que eu quero passar com a minha razão. Desculpem. Eu adoraria engolir a versão de que Luca di Montezemolo contratou Kimi Raikkonen para o lugar de Felipe Massa a fim de se vingar de Fernando Alonso. Primeiro, o espanhol se oferece para a Red Bull – além de fazer críticas públicas ao time italiano. Enciumado e humilhado, o presidente da equipe se enche de brio e contrata outro campeão mundial para fazer sombra ao asturiano. Se fosse roteiro para cinema, teria futuro: intriga, ambição, honra, vingança. Mas me parece haver algo mais pragmático na volta do finlandês para Maranello.

Assim que Raikkonen foi confirmado pela Ferrari, logo os estudiosos da Fórmula 1 lembraram que se trata da primeira vez, desde 1953, que a equipe italiana coloca dois campeões mundiais para conviver no mesmo box. No passado, foram Nino Farina e Alberto Ascari. Ao longo dos anos, a Ferrari notabilizou-se por concentrar esforços em um dos pilotos, destinando ao outro um papel de escudeiro.

Mas é falaciosa a ideia de que só os resultados do chamado primeiro piloto interessam à equipe italiana. Maior vencedora do Mundial de Construtores, com 16 títulos, a Ferrari tem tradição em compor duplas extremamente fortes, nas quais os papéis podem até estar claros – líder e escudeiro – o que não significa que um está lá para disputar o título e o outro, para embelezar o cenário. É a história que conta, não sou eu. Apenas alguns exemplos:

1961 – A Ferrari corre com Phil Hill, dos Estados Unidos, e com o alemão Wolfgang von Trips. O campeonato tinha apenas oito corridas na época. Começou com vitória de Stirling Moss, da Lotus, pelas ruas de Monte Carlo. A dupla da Ferrari termina em terceiro (Hill) e quarto (von Trips). Segunda prova, na Holanda: vitória de von Trips, secundado por Hill. Na Bélgica, Hill em primeiro, von Trips em segundo. Nenhum dos dois pontua na França e a vitória fica com Giancarlo Baghetti. Na Inglaterra, nova conquista de von Trips, com Hill em segundo. A Holanda proporciona a segunda vitória de Moss na temporada, tendo von Trips em segundo e Hill, em terceiro. Chega o GP da Itália e a grande tragédia de Monza, com o acidente que matou von Trips e mais catorze pessoas. Hill vence a prova e termina a temporada como campeão, com apenas um ponto de vantagem sobre o companheiro morto. Final do Mundial de Construtores: Ferrari, 40; Lotus, 32.

1977 – Depois de já ter sido campeão em 1975 pela Ferrari e de se recuperar do acidente que quase o matou em 1976, Niki Lauda chegaria ao segundo título tendo como companheiro o argentino Carlos Reutemann, que terminou a temporada em quarto lugar. Embora Lauda tenha vencido três corridas no campeonato e Reutemann, apenas uma, o argentino desempenhou papel decisivo na conquista de pontos que poderiam ter engordado a classificação de rivais. No embate com Jody Scheckter, vice-campeão do ano pela Wolf, Reutemann ajudou Lauda no Brasil, na Espanha, na Suécia, na França, na Áustria e no Japão, quando ficou à frente do sul-africano. No Mundial, a Ferrari somou 95 pontos, contra 62 da Lotus, em plena ascensão.

1979 – Contratado pela Ferrari, Jody Scheckter chegaria ao título escoltado pelo canadense Gilles Villeneuve. Ambos conquistaram três vitórias ao longo do ano, menos que o australiano Alan Jones, que venceu quatro GPs, mas não pontuou em nove, em ano que sua Williams apenas começava a se consolidar para o título que viria no campeonato seguinte. Ao contrário de Gilles, que também deixou de somar pontos em sete provas, Scheckter não pontuou apenas três vezes. Apesar da irregularidade na tabela, Gilles conseguiu ser melhor que Jones em seis corridas, ajudando a pavimentar o caminho do companheiro rumo ao título. Além de fazerem dobradinha no Mundial de Pilotos – 51 pontos para Scheckter, 47 para Gilles –, garantiram o de Construtores para a Ferrari com enorme vantagem: 113 pontos, contra 75 da Williams.

Só mais um, prometo.

2003 – Quarto título conquistado por Michael Schumacher pela Ferrari, com dois pontos de vantagem sobre Kimi Raikkonen, então na McLaren. Rubens Barrichello, que corria ao lado do alemão desde 2000, termina em quarto. Ao longo do ano, Schumacher conquista seis vitórias e Barrichello, duas. Tão importante quanto vencer essas provas, para a Ferrari, foi o papel do brasileiro de tirar pontos de Raikkonen em seis das dezesseis corridas. Outro postulante ao título, o colombiano Juan-Pablo Montoya, foi incomodado por Barrichello também em seis ocasiões, permitindo o avanço do alemão em direção ao seu sexto título. No Mundial, Ferrari 158 pontos, Williams, 144.

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Hill e von Trips. Lauda e Reutemann. Scheckter e Villeneuve. Schumacher e Barrichello. Duplas fortes, mas nenhuma formada por dois campeões do mundo. Ao supor que a Ferrari está fazendo algo de muito revolucionário ao alinhar Alonso e Raikkonen no mesmo time, talvez caiba a comparação com aquela que talvez seja a dupla mais competitiva da história da Fórmula 1: Ayrton Senna e Alain Prost, McLaren, 1988-1989. Sem problema.

Vamos examinar também esse cenário – mas só na próxima 4ª-feira, quando concluo esta coluna.

Boa semana a todos

Alessandra Alves

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

9 Comments

  1. […] Veja a primeira parte dessa história em É o dinheiro, estúpido I. […]

  2. JONAS disse:

    Tem ainda a dupla Giles e Pironi, que não chegaram ao título, mas não tinham uma definição de primeiro e segundo pilotos. Mesmo a dupla Massa-Kimi…ambos venciam corridas.

  3. Fernando MArques disse:

    A Ferrari, por ser a equipe com mais titulos de construtores na Formula 1 e alem de ser a mais antiga, certamente é a que tem mais exemplos de como se deve fazer para ser uma equipe campeã … só que a politica interna dela nesse sentido a meu ver é anti esportiva … é uma pena que os brasileiros só tenham sido escudeiros …

    fernando Marques
    Niterói RJ

    • Lucas disse:

      Bom, há uma exceção em 2008, ano em que o Massa foi promovido a primeiro piloto e chegou até a ganhar posição de graça do Kimi…

      • Fernando Marques disse:

        Lucas,

        em 2008 o Kimi abriu espaço para o Massa em retribuição a ajuda recebida para ser campeão em 2007 … a priori o Massa foi escudeiro do Kimi …

        Fernando Marques

  4. Lucas disse:

    No que se refere a 2003, vale lembrar que Kimi corria completamente por fora, já que com a exceção do GP da Europa (justamente onde o motor dele estourou estourou) o carro mais rápido do grid era sempre uma Ferrari ou uma Williams. Quem realmente aparecia como ameaça ao domínio ferrarista era o Montoya, que saiu da briga em um episódio em que o Barrichello fez bem mais que “incomodar” o colombiano: em Indianápolis ele estava deliberadamente trancando o Pablito, o que acabou resultando num acidente seguido de punição… para o Montoya! Isso arruinou completamente a corrida do colombiano, além de tirá-lo matematicamente da luta pelo título. Foi uma corrida em que Barrichello teve um dia de Irvine.

  5. Ronaldo disse:

    Dá até pra concordar, mas os casos que você citou, com excessão de Barrichelo, foi com cavalheiros que sabiam o papel que cumpriam. O comportamento da escuderia é escolher e endossar um dos lados da disputa, como em 1990, por exemplo, quando foi permitido a Prost – a exemplo do que ocorre hoje – esmagar o espírito de Mansell. Diria ainda que o mesmo comportamento se viu em 52, 53, 56 e 64.
    Como você colocou, um deles não está lá apenas para “embelezar”. Mas campeão, só pode haver um. Nada me tira da cabeça que aquela roda do Irvine foi “esquecida” de propósito em 1999.

  6. Mauro Santana disse:

    Vamos aguardar Alessandra!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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