É uma luta por espaço

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2019 Hungarian GP

Não estamos falando do campeonato, dos números frios, das estatísticas ou de simplesmente vencer o GP. O incrível embate entre Lewis Hamilton e Max Verstappen no GP da Hungria transcende motivos corriqueiros e nos transporta para o âmago do esporte a motor, que em seu alicerce tem como objetivo a superação de limites.

Estamos falando de status.

Tivemos o privilégio de assistir dois pilotos que estavam hipermotivados pelo simples motivo de sobrepujar o rival, de ser o melhor do dia, de ser o melhor do momento. Lewis e Max sobraram tanto que abriram um minuto inteiro para as Ferraris de Sebastian Vettel, que completou o pódio, e de Charles Leclerc.

Ora, Hamilton largou com 41 pontos de vantagem para seu companheiro Valtteri Bottas, que teve o azar de ser atingido duas vezes no mesmo ponto da asa dianteira, dando adeus a qualquer resultado bom logo nas primeiras curvas. E a diferença para Max, o terceiro da tabela, era de intermináveis 63 pontos. Daria para deixar Max ganhar todas as provas restantes, menos uma, só chegando em segundo, para ser campeão de novo.

Mas o ponto é exatamente este: não deixar Max avançar. Despertou em Hamilton um irrefreável sentimento de defesa de território. Existem basicamente dois efeitos possíveis quando as rivalidades se afloram. Uma é o cidadão perder a cabeça, deixar o emocional se sobrepor ao racional e suas habilidades de condução do carro. Mas o outro efeito – e é este que testemunhamos – é o de uso daquela “reserva técnica” que apenas os grandes pilotos possuem e que nos deixam boquiabertos.

Lewis Hamilton pode estar devorando recordes, inclusive a mirar em números “impossíveis” conquistados por Michael Schumacher – que sempre considerei piloto de excelência, mas que também encerrou a carreira como uma aberração estatística. Mirar os números de Schumacher (sendo que alguns já foram superados) não é pouco. Mas, ao mesmo tempo, Lewis não é uma unanimidade, nem mesmo em sua Inglaterra natal, tão nacionalista quando o assunto é esporte a motor.

E hoje existe em seu caminho um piloto chamado Max Verstappen, notadamente com talento e cada vez mais maduro em sua pilotagem, a despeito de tão pouca idade. Ele é tão bom que seu alvo não é a nova promessa Charles Leclerc (ao qual volto a morrer de medo de se tornar um novo Jean Alesi). Max está mirando pra cima, ele quer tirar Hamilton do topo da montanha. É, como eu disse no título deste texto, uma luta por espaço.

Verstappen foi escolhido pelo público como o piloto do dia. É algo ligeiramente injusto, já que claramente tivemos dois melhores pilotos que todo o resto. Mas se formos pensar, a escolha do público tem um fundamento exato como pano de fundo: Max não tinha uma Mercedes nas mãos.

A corrida pode ser resumida a uma caçada feroz de Hamilton ao pole Max até o momento em que a Mercedes pegou a Red Bull de surpresa, promovendo num pit stop surpresa o famigerado undercut em Verstappen, que ficou sem alternativa senão permanecer na pista, a fim de tentar levar a corrida com os pneus que já estava calçando.

Faltou pouquinho. Hamilton fez linda manobra passando por fora, mas fica o gostinho amargo de ter visto o quanto o DRS, essa catástrofe contra a isonomia esportiva, agiu. Seria espetacular ver o que Hamilton teria que fazer para conseguir passar um carro que era aproximadamente 1,2s por volta mais lento.

Posso dizer que gosto da pista da Hungria. Sim, o desenho é apertado, quase um kartódromo com fermento. Sua sucessão rápida de curvas, frenagens e retomadas, no entanto, oferecem uma incrível sensação de velocidade. Eu não gostava de Jerez de la Frontera até ver vídeos de câmeras onboards lá. A sensação de velocidade é incrível, exige reflexos e um grau considerável de coragem, mesmo diante de uma F1 tão segura.

Sim, várias das edições foram monótonas, mas tivemos também alguns épicos, a começar, claro, por 86, mas também com boas edições em 88, 89, 90, 91, 92, 97, 98, 2006…

Só lamento terem modificado a primeira curva, que era numa descida clássica, para aumentar em alguns metros a reta, e assim aumentarem as possibilidades de ultrapassagem. Ora, pelo que Piquet fez em 1986 aquele trecho deveria ser tombado pelo patrimônio histórico!

Adorei ver Simon Pagenaud escolhido para dar a bandeirada da corrida.

A Red Bull não passou a Ferrari ainda nos construtores porque Pierre Gasly não entrega resultado. Não teve até agora nenhuma performance digna de nota, não passando de um 4º lugar que ele já tinha conseguido de Toro Rosso ano passado. Talvez esteja na hora da Red Bull repensar seu programa de talentos, pois ao que tudo indica, Daniil Kviatt, que foi demitido e recontratado por falta de opção, pode voltar para a Red Bull.

Já a Ferrari está cada vez mais lembrando seu ano de 1991. Grande favorita da pré-temporada, com os melhores tempos dos testes de inverno, a escuderia passaria o ano sem vitórias. Um grande campeão, Alain Prost, não conseguia fazer o time crescer e passava por alguns momentos constrangedores (Imola…). Esse clima também afetava a jovem contratação Jean Alesi, tido como um futuro campeão. Além de um carro abaixo da concorrência, a Ferrari sofria com problema de comando, tendo demitido Cesare Fiorio.

Agora faça: 642/643 = SF90; Prost = Vettel; Alesi = Leclerc; Fiorio = Arrivabene. Ou seja, pra tirar 10, só falta a Ferrari usar Vettel como bode expiatório e demiti-lo ao fim do ano! Bom, se a Ferrari do ano que vem não repetir o ano de 1992 já está valendo…

Abração!

Lucas Giavoni

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

3 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    muito legal a sua coluna e a sua visão sobre a corrida. Você toca em alguns pontos da qual eu não tinha pensado como exemplo a existência do DRS .
    “Faltou pouquinho. Hamilton fez linda manobra passando por fora, mas fica o gostinho amargo de ter visto o quanto o DRS, essa catástrofe contra a isonomia esportiva, agiu. Seria espetacular ver o que Hamilton teria que fazer para conseguir passar um carro que era aproximadamente 1,2s por volta mais lento.” Fiquei imaginando que show teríamos visto.
    Mas creio que devemos reconhecer dois fatores a meu ver cruciais nesta corrida. O pit surpresa da Mercedes, que permitiu ao Hamilton uma reação sensacional e que elevou a adrenalina à piques máximos de emoção com todos que viam a corrida. Há quanto tempo não vemos uma situação destas na Formula 1. Grande estratégia da Mercedes, grande pilotagem do Hamilton.
    Um outro fator a meu ver importante foi como Verstappen se defendeu dos ataques do Hamilton de forma limpa. Na primeira tentativa do Hamilton, saiu da pista, não foi jogado pra fora. Andaram por duas ou três curvas lado a lado cada um respeitando o seu espaço. Entre Verstappen e C. Clerck isso não aconteceu. O mesmo vale pra sua tentativa de defesa quando foi finalmente ultrapassado pelo inglês. O jogar limpo do holandês foi uma surpresa até agradável.
    Vou discordar da escolha do “piloto do dia”. Para mim este cara foi o L.Hamilton. Fazer o que ele fez na pista para tirar a diferença e ganhar a posição do Verstappen só mesmo os grandes campeões sabem fazer. Muito podem pensar. Hamilton tem uma Mercedes. E daí, Bottas tem e não faz nada. Hamilton fez e trouxe uma bela pitada de emoção a corrida.
    M. Verstappen é muito bom demais da conta e é, com certeza, o piloto que pode fazer frente ao Hamilton. Só que atualmente ele ainda tem muito o que aprender com o inglês em termos de pilotagem. Na Hungria ele teve uma bela aula e espero que tenha aprendido.
    Para finalizar a Ferrari se não reagir vai comer poeira da RBR também. Como bem disse o Lucas a coincidência com a temporada de 1991 é grande.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Gus disse:

    Acho merecida a votação como melhor piloto para o Max; quando estavam em condições muito parecidas (de pneus principalmente), ele soube se defender com galhardia do ímpeto de Hamilton, que realmente se arriscou para passar o guri, tanto que chegou a sair da pista. O recado foi bem claro e o inglês viu que não daria para passar em condições normais. Apesar do show das voltas ultra rápidas depois, não é errado imaginarmos que se fosse O Leclerc atrás da caixa de câmbio da RBR, este tentaria mais vezes a ultrapassagem, mesmo que não fosse a decisão mais inteligente a tomar…
    Então, vejo como obrigação de Hamilton se aproveitar da ótima decisão da Mercedes para chegar em Max novamente, mas é o tipo de obrigação que estaria fora das capacidades de Bottas, por exemplo – rsrsrsrs

  3. Mauro Santana disse:

    Excelente Lucas!

    Concordo contigo, a primeira curva do autódromo húngaro nunca deveria ter sido modificada, e o Piquet merecia ter uma placa naquele local.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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