E vamos a Baku!

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Quando o calendário da F1 era menor e com boa parte de suas corridas na Europa, dizia-se que o campeonato realmente começava quando a F1 voltava ao seu ‘berço’ no Velho Continente e as equipes poderiam colocar em práticas algumas atualizações estudadas enquanto se corria na Austrália, América do Sul ou África do Sul. Alguns times até promoviam a estreia dos seus novos carros na primeira corrida europeia! Com a corrida de desenvolvimento travado pelas equipes, principalmente as grandes, não se espera mais chegar à Europa para termos novidades nos carros e por isso a F1 chega à Europa sem grandes novidades. Na primeira visita da F1 em Baku no ano de 2016, a corrida era denominada ‘Grande Prêmio da Europa’, mesmo o Azerbaijão sendo um país transcontinental, situado entre o Leste Europeu e o Sudoeste Asiático.

Antiga república soviética, o Azerbaijão é um país rico em petróleo e como fazem seus coirmãos árabes com muitos petrodólares no bolso, os dirigentes azeris perceberam que investimento em infraestrutura e propaganda poderia atrair ainda mais capital para o pequeno país de dez milhões de habitantes. Banhado pelo Mar Cáspio, a capital Baku vai tendo sua paisagem mudada com novos shoppings, museus e hotéis. Como não poderia deixar de ser, o Azerbaijão passou a investir no esporte, patrocinando o Atlético de Madri e trazendo jogos de futebol importantes da Uefa. Desde 1991, quando adquiriu a independência com a queda da União Soviética, o Azerbaijão é governado pela família Aliyev. Uma ditadura familiar bem ao gosto de Bernie Ecclestone, que não se importou muito em levar à F1 a um país sem mínima tradição no automobilismo, mas com bastante vontade de gastar.

O que Bernie talvez não esperasse era que o circuito de rua de Baku rapidamente se tornasse popular entre os fãs da F1, mesmo que à distância, já que as arquibancadas azeris não ficam muito habitadas durante o final de semana. Como sempre projetado por Hermann Tilke, o circuito tem suas particularidades que fizeram das duas últimas edições corridas cheias de alternativas e excelentes para se assistir. Surpresas já aconteceram aos montes. Ou alguém poderia imaginar Lance Stroll no pódio?

Como todo circuito de rua, a presença do Safety Car é praticamente obrigatória, podendo mudar a estratégia dos pilotos. Em 2017, Valtteri Bottas teve um pneu furado na primeira volta, caiu para as últimas posições, mas numa corrida de recuperação baseada na estratégia, conseguiu o segundo lugar, enquanto Vettel e Hamilton batiam entre si durante uma entrada do Safety Car. Quando pilotos de equipes diferentes não batem, companheiros de equipe fazem o serviço, como foi o caso da dupla da Red Bull (Verstappen e Ricciardo) ano passado.

Com um trecho de altíssima velocidade esperando os pilotos, os motores farão bastante diferença e isso pode ser um fator de vantagem para a Ferrari, ainda lambendo as feridas de um final de semana decepcionante na China. No meio do olho do furacão das seguidas ordens de equipe emitidas para que o atrevido Charles Leclerc não se meta com a ‘prima donna’ Sebastian Vettel, a Ferrari ainda se encontra meio perdida em seus problemas internos, enquanto a Mercedes vai de vento em popa rumo a mais um título. Bottas sempre andou bem em Baku e sua performance no circuito de rua de Melbourne pode ser um bom handicap para o finlandês na corrida desse domingo, mesmo que ter Lewis Hamilton como companheiro de equipe seja sempre uma dificuldade para qualquer piloto.

Mesmo com a força do motor Ferrari, a Mercedes aparece em vantagem num circuito onde um setor bastante travado ocupa maior parte do circuito, inclusive a famosa passagem estreita ao lado de um castelo antigo no centro da cidade. A Mercedes acertou seu carro para ter uma boa velocidade nas curvas, algo importante num circuito com vinte curvas. A Ferrari levará um pacote de atualizações para Baku na tentativa de diminuir o prejuízo de três dobradinhas da Mercedes nas três primeiras corridas. Fica a expectativa se a Ferrari novamente interferirá na corrida de Leclerc se ele estiver próximo de Vettel, mesmo o alemão estando numa péssima fase.

Apesar da boa performance histórica da Red Bull em circuitos de rua e Daniel Ricciardo tendo vencido em 2017, a parte rápida do circuito pode mostrar com ainda mais clareza que o motor Honda ainda deve para os propulsores de Mercedes e Ferrari. Max Verstappen é o óbvio principal piloto da Red Bull, com o holandês fazendo um início de campeonato bem forte e não se metendo em incidentes bestas, como era sua característica nos campeonatos anteriores. Resta saber quando Pierre Gasly finalmente irá ter um desempenho minimamente digno de um piloto de ponta, enquanto Alexander Albon, que foi contratado pela Toro Rosso nos últimos momentos, vai conseguindo resultados sólidos e superando Daniil Kvyat no confronto interno. Apesar de superar Kvyat não seja um cartão de visitas dos mais empolgantes…

A Renault luta para não ficar muito para trás em relação às suas rivais, mesmo essa tarefa sendo muito difícil a curto prazo. O carro da Renault continua com a mesma (longa) distância para as equipes top do ano passado e o time gaulês ainda não conseguiu melhorar a parca confiabilidade dos carros. O motor, muito exigido em Baku, ainda é o calcanhar de Aquiles da Renault. Mesmo agora contando com Ricciardo, que já venceu em Baku, as chances da Renault nesse momento é se consolidar como a melhor do resto, em briga com Haas, McLaren, Toro Rosso (Albon), Racing Point (Sérgio Pérez) e Alfa Romeo (Kimi Raikkonen). Enquanto Renault, McLaren e Haas têm duplas de pilotos confiáveis e que marcam pontos quando tem a oportunidade, Racing Point e Alfa Romeo vão se sustentando apenas com seus principais e experientes pilotos, enquanto a Toro Rosso ainda segue sem entender quem desenterrou Kvyat para o time esse ano. Em 2016 a Williams conseguiu a maior velocidade do circuito de Baku, com Bottas chegando aos 380 km/h. Com o carro que tem e com uma gestão falha, pouco se pode esperar da Williams.

Mesmo tendo apenas três corridas no currículo, Baku já mostrou imagens incríveis de suas provas: briga entre campeões mundiais, briga entre companheiros de equipe e resultados improváveis. O Safety Car pode ser um fator primordial na estratégia das equipes numa cidade onde não se chove muito e com clima ameno, ajudando bastante a gestão de pneus durante a corrida.

Se a milésima corrida da F1 decepcionou na China, no imprevisível circuito de Baku, é esperada uma corrida bem melhor de se assistir.

Abraço!

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

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