Eles virão

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Com mais de 120 colunas publicadas no GPTotal nos últimos 12 anos, jamais havia escrito sobre a Stock Car. Chegou a hora!

Com mais de 120 colunas publicadas aqui no GPtotal ao longo dos últimos 12 anos, não consigo me lembrar de nenhuma que tenha sido dedicada à Stock Car. E olha que não costumo me esquecer de nenhum texto que leio, menos ainda quando eu próprio o escrevi. No fim é aquela velha história: contra fatos não há argumentos. A verdade é que, há muitos anos, perdi completamente o interesse pela principal categoria de nosso automobilismo de velocidade.

Mas nem sempre foi assim. Quando moleque tinha enorme prazer em ler e aprender qualquer coisa que falasse sobre os saudosos e poderosos Opalas, da mesma forma como parava tudo para ver as provas que eventualmente eram transmitidas pela tevê. Já adolescente costumava ir a Jacarepaguá ver os belos omegões, e também estava por lá quando os primeiros Vectras surgiram. Era especialmente interessante imaginar quais daquelas adaptações poderiam ser levadas para um carro de rua, melhorando seu desempenho.

Olhando agora, não sei dizer ao certo qual o momento em que essa relação esfriou. A questão é que não houve um trauma específico, um ponto de ruptura. Houve, isso sim, seguidas decepções e um processo de crescente indiferença, a rigor tão legítima e profunda que nem mesmo ganhou minha atenção. Simplesmente deixei de pensar na Stock, apesar de ter coberto in loco algumas etapas, nos tempos do Última Volta.

Ainda assim, posso afirmar com certeza que as tentativas marqueteiras de “tornar a categoria mais interessante” certamente acrescentaram muitos tijolos a esse muro que se ergueu entre nós. Falo de regras chorumescas como a dos playoffs, ou a qualificação decidida através de pequenas corridas eliminatórias. Para um fundamentalista como eu, aquilo era uma profanação, uma desvalorização inaceitável dos atrativos inerentes ao esporte que amo. Paralelamente, a agonia de Jacarepaguá e expedientes como a utilização de bolhas forçando uma falsa aparência multimarcas definitivamente não ajudaram a nos reconciliar.

Mas então veio a etapa inicial de 2015, na renovada pista de Goiânia, e pela primeira vez em muitos anos senti vontade de ver uma corrida da Stock Car. Mais que isso, lamentei o fato de não poder estar lá, cobrindo a prova e entrevistando os pilotos – ainda que o motivo seja o melhor possível e atenda pelo nome de Francisco, no barrigão de minha esposa.

E o interesse se justifica, cá entre nós. Entre tantas iniciativas infelizes, a corrida de duplas foi uma tremenda bola dentro por parte da Vicar, que em sua segunda edição já goza de grande credibilidade junto à comunidade automobilística internacional. Uma constatação que fica evidente, por exemplo, ao se analisar a qualidade do impressionante grid composto por 66 pilotos. Ao todo foram nada menos que 14 nomes com passagens pela Fórmula 1 – e poderiam ter sido mais, uma vez que Scott Speed demonstrou interesse tardio em participar da prova, e Roberto Moreno só não formou dupla com Pedro Barbosa, da ProGP, porque este teve sua licença negada na quinta-feira, 19.

Além da F1, categorias como o Super TC 2000, a V8 autraliana e os campeonatos mundiais de Turismo, Endurance e GT estiveram representadas com alguns de seus nomes mais proeminentes. Basicamente isso significa dizer que, neste fim de semana específico, quem quisesse ver corridas do mais alto nível ao redor do mundo teria suas melhores opções em Buriram, na Tailândia, onde foi disputada a segunda etapa do mundial de Superbike; em Seebring, na Flórida, onde Christian Fittipaldi conquistou a primeira vitória brasileira na tradicionalíssima prova de 12 horas; e em Goiânia.

E que bom que tenha sido em Goiânia!

Numa época em que diversas de nossas principais pistas sofrem com a falta de manutenção e vivem sob a constante ameaça da especulação imobiliária, a cidade que um dia ousou trazer o Mundial de Motovelocidade para terras brasileiras deu exemplo mais uma vez ao recuperar sua tradicional pista, e agora apenas começa a colher os benefícios turísticos diretos e indiretos deste investimento.

Muito mais do que se o evento acontecesse em São Paulo ou no Rio de Janeiro, a imagem de um campeão mundial de Fórmula 1 aguardando na fila para o bandejão do autódromo goiano – oportunamente registrada pelo amigo Alexander Grünwald, do SporTV – traz à mente uma verdade expressa na obscura comédia “Quanto Mais idiota Melhor 2”, quando em sonho o personagem principal tem a visão de um índio que o instiga a organizar a segunda edição do festival de Woodstock dizendo a seguinte frase: “se você fizer, eles virão”.

Vale para Goiânia, e vale para qualquer cidade que tenha condições de reformar ou construir uma pista. Se bons eventos forem organizados de maneira correta, eles – os melhores pilotos do mundo – virão. Sempre.

Claro que o evento e a categoria ainda têm muito onde melhorar.

Cenas como o atropelamento do repórter cinematográfico – felizmente sem maiores consequências – mostram que ainda existe muito amadorismo a ser trabalhado. Da mesma maneira o formato atual, no qual os pilotos regulares obrigatoriamente vão para a pista antes, acaba expondo os convidados ao risco de nem ao menos participarem da corrida, na eventualidade de um abandono prematuro. Considerando que alguns desses pilotos vieram de muito longe – como é o caso de Mark Winterbottom, que compete na Austrália – essa parece ser uma situação a ser revista para as próximas edições.

Em relação à continuidade do campeonato, também foi acertada a decisão de agrupar todas as categorias administradas pela Vicar num só evento. Afinal, além de poupar custos, a iniciativa proporciona bastante ação a quem paga ingresso para ver tudo das arquibancadas, e isso é mais importante do que pode parecer.

Não é segredo nenhum que o esporte a motor brasileiro respira com a ajuda de aparelhos, e precisa urgentemente de renovação de público. E quem já viveu a experiência de ver ao vivo alguma corrida interessante, sabe que não existe caminho melhor para contrair o vírus da velocidade do que vendo e experimentando tudo que a tevê não mostra. A Stock, nesse sentido, pode sim desempenhar um papel importantíssimo, desde que direcionada aos pilares que sustentam sua longevidade.

Talvez seja muito cedo para empolgação, mas o fato é que o evento em Goiânia me devolveu a esperança de dias melhores em nossas pistas. Espero, de coração, que esta possa ser a primeira de outras colunas positivas dedicadas às corridas locais. E, muito mais do que isso, torço para ter a chance de, daqui a poucos anos, levar meu filho para ver boas corridas em arquibancadas e boxes, sem ter que sair do Brasil para fazer isso.

Uma ótima semana a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

5 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Pela TV sempre gosto de ver qualquer que seja a corrida … … tem corrida, se for então no domingo a TV fica ligada nela … é o que me resta já que não existe mais autódromo aqui no Rio …
    No inicio dos anos 80 , era ter corrida em Jacarepaguá e eu estava lá … a maiorias das feras citadas pelo Mauro eu vi correr, e em especial era fã do Paulão Gomes principalmente quando ele resolvia não levar desaforo pra casa e resolvia as pendengas dentro da pista … hehehehehe … me lembro do Reinaldo Campello ter jogado o Ingo Hoffman de propósito para fora da pista ao fim do retão … o Opalão dele capotou varias vezes mas ele saiu inteiro e tudo foi resolvido na base da porrada nos boxes ao fim da corrida … dava para ver tudo lá da arquibancada … a porrada comendo e o publico delirando … hehehehe
    Vi a corrida de Goiania. Foi uma bela corrida, principalmente do 2ª colocado pra tráz … com belas disputas e destaque para o Villenueve, que bateu,rodou, ultrapassou e foi ultrapassado enquanto esteve na corrida. Teve também Ingo Hoffman e seus 62/63 anos mandando ver na pista. Valeu a pena mesmo ver a corrida.
    Reginaldo Leme elogiou muito a reforma do circuito, citando que ele deveria servir de exemplo para outros autodromos … parece que o custo da reforma não foi astronômica …
    Acho que a categoria conseguiu enfim acertar a mão no seu regulamento … 2014 já tivemos um excelente campeonato … existe equilibrio tecnico entre as equipes … e não tem mais essa de só dar Cacá (muito bom piloto por sinal) … aliás ele foi mero coadjuvante em Goiania.

    Marcio,
    que o Francisco seja muito bem vindo, com muita saude, flamenguista e trazendo muitas alegrias para voce e sua esposa

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Obrigado pelo retorno de sempre e pelos votos ao Francisco, meu amigo.
      Sendo eu um tricolor inveterado, o único voto que espero não ver realizado é em relação a ser flamenguista, rs.
      Abraço, e tudo de bom.

  2. Marcio,

    O seu sentimento é exatamente igual ao meu. Quando a Stock era mais ‘pura’, era uma categoria muito interessante de se acompanhar, mas no momento em que ações como você mesmo falou (um falso multimarcas, playoffs e por aí vai…), a Stock caiu muito em meu conceito, mas essa ideia da corrida de duplas é excelente!
    Abraços!

  3. Mauro Santana disse:

    Grande coluna Márcio.

    Meu amor pela F1 começou na sua saudosa Era Turbo, e meu amor pela Stock Car começou na saudosa Era dos Opala.

    Mas já faz alguns anos que tanto eu como meu pai perdemos o tesão pela Stock, muito devido a bagunça de regulamento que a categoria enfrentou nos últimos anos.

    Pra você ter uma ideia, estivemos eu e meu pai na decisão do título do Barrichello aqui em Curitiba no ano passado, e puxando na memória sem olhar o meu arquivo com ingressos e credenciais guardadas, acho que a ultima vez que fui ao AIC assistir uma etapa da Stock, foi em 2009.

    Abençoado fui de ter tido o privilégio de assistir os Opalas e Omegas rugindo alto, com pilotos como Ingo Hoffman, Paulão Gomes, Chico Serra, Xandy Negrão, Raul Boesel, Paulo de Tarso, Adalberto Jardim, Ariel Barranco, Wilsinho Fittipaldi, Fabio Sotto Mayor, Angelo Gionbelli, e tantas outras feras que passaram pela categoria e deixaram saudades.

    Mas que realmente esta etapa de Goiânia trouxe um ar nostálgico e uma reanimada no público, ahhh isso trouxe.

    Espero que o campeonato seja super bom, e que a Stock retome o rumo certo.

    E que belezura esta o autódromo de Goiânia, um show!!!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  4. Lucas dos Santos disse:

    A Stock Car nunca me atraiu, mas confesso que fiquei com vontade de assistir essa corrida de Goiânia. Só não assisti porque não consegui acordar a tempo!

    E, pelo que essa corrida está dando o que falar, deve ter sido muito boa! Estou revirando a internet atrás de um vídeo com a corrida completa! Uma hora eu acho!

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