Em defesa de Mônaco

Mais um fim de semana dos sonhos…
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Aprendeu!
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“Procissão”, “como acelerar uma moto possante dentro de um apartamento”, “previsível”… Desde que me entendo por gente ouço descrições a respeito do Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1 que inevitavelmente remetem a uma corrida enfadonha e anacrônica, que sustenta-se no calendário muito mais pelo glamour, pela tradição, pelos encontros e eventos que promove nos bastidores e pela pujança financeira do local do que pelo aspecto esportivo em si.

Mas, falando sério, será que é só isso mesmo?

Levanto a questão porque, em minha opinião, existe uma incompreensão histórica a respeito dessa prova. Se olharmos com atenção para a chamada tríplice coroa do automobilismo, veremos nitidamente que cada uma das três corridas radicaliza na exploração de uma das três principais grandezas do esporte a motor: Le Mans é vencida na base da resistência e do ritmo; Indianápolis é uma prova de velocidade, sobretudo nas voltas finais; e Monte Carlo é aceleração e precisão levados ao limite, especialmente na classificação. Este é o primeiro ponto.

Basta olhar para os carros para compreender que a diferença na natureza de tais demandas exige características igualmente distintas de projeto. Nada que conheçamos, dentro dos limites estabelecidos pelos regulamentos, pode percorrer mais de 5 mil km em 24h em ritmo superior aos protótipos da LMP1, e o mesmo vale para os Indy em relação aos 800km de Indianápolis e os F1 e no que se refere aos 260km de Mônaco.

Citei a distância a ser percorrida porque ela é crucial para a compreensão do que cada desafio propõe. Numa analogia com o atletismo, à qual já recorri noutras oportunidades, Le Mans seria como uma maratona, ou até mais do que isso. Uma prova na qual se busca o maior ritmo sustentável possível. Correr mas sem quebrar, sem desgaste, sem bater.

Já Indianápolis seria como uma prova de 800 metros, na qual o ritmo é mais forte do que na maratona, mas também envolve uma dose interessante de administração das próprias forças. Muitas vezes os principais competidores preferem poupar energias correndo no meio do pelotão, de maneira que possam chegar em melhores condições ao chamado sprint final, onde a prova efetivamente se decide. Em Indy isso equivaleria às voltas finais, nas quais o automobilismo vive seu ápice em termos de velocidade.
Certo, mas e Mônaco?

Bom, Mônaco não fica nem um pouco atrás de suas companheiras em termos de desafio ou riqueza esportiva. Em especial na classificação, onde grande parte do resultado final é decidido, nenhuma outra pista é capaz de premiar tanto a coragem e a precisão de um piloto. Chegar a um segundo da volta ideal pode ser relativamente fácil, mas se quiser avançar por esse último segundo então o piloto terá de estar disposto a assumir riscos absolutamente inacessíveis à maioria dos seres humanos.

Porque essa pequena margem de tempo, que em última análise faz toda a diferença, encontra-se justamente na capacidade de andar a 200km/h por hora a centímetros – por vezes milímetros – dos guard rails. E não há qualquer exagero de minha parte aqui.

Existe um bom acervo de imagens na internet que mostram os melhores pilotos no principado passando a menos de um dedo das lâminas, muitas das vezes com os olhos já voltados na direção oposta, mirando o momento exato de iniciar a próxima tomada. Pare para pensar a esse respeito, e verá que estamos falando de habilidades no limite da capacidade humana.

Atrasar ou antecipar tais movimentos um centésimo que seja, frear com intensidade um pouco diferente ou ainda virar o volante um grau a mais ou a menos, trabalhando com margem de segurança tão mínima, certamente significaria sofrer um acidente e fazer papel de idiota. Repito e insisto: andar rápido é uma coisa; levar um Fórmula 1 ao seu limite num cenário como Monte Carlo é outra completamente diferente.

Mesmo entre os melhores do mundo, é coisa para poucos.

Ainda que muitos comentários digam o contrário, Mônaco é o habitat perfeito para explorar as principais qualidades de um Fórmula 1.

Como já escrevi noutras oportunidades, a categoria não projeta seus carros visando velocidade máxima ou durabilidade máxima, mas sim rapidez máxima. A diferença parece sutil, mas estamos falando de um cálculo diferencial aqui: o que realmente importa não é a razão máxima de deslocamento espaço\tempo, mas a capacidade de variação deste deslocamento, de tal modo que o carro esteja sempre o mais próximo possível da máxima velocidade admitida por cada ponto da pista. Ou, colocando em termos mais simples, o que interessa não é a velocidade máxima ao fim da reta, mas a mais alta velocidade média possível.

Puxando a teoria para prática, isso significa ganhar velocidade o mais rápido possível (tração, aderência mecânica) quando o piloto dá motor, isso significa frear o mais tarde possível, e significa carregar o máximo de velocidade para as curvas, gerando o máximo de carga aerodinâmica possível, apesar da suspensão relativamente alta. Analisando sob este aspecto, os carros estão muito mais à vontade por lá do que em Monza, consolidando o privilégio que é ver os melhores carros e pilotos do mundo numa disputa literalmente de rua, onde tantos carros de passeio (se é que Rolls Royces, Bentleys e Ferraris merecem tal descrição) circulam ao longo do ano.

Dito tudo isso, os diferentes formatos favorecem Indianápolis no que se refere a corridas emocionantes, entre as principais provas do mundo. Mônaco também já sediou provas interessantes, mas na atualidade elas são muito mais exceção do que regra, e em 2018 não foi diferente.

Bastaria dizer que os cinco primeiros colocados – Ricciardo, Vettel, Hamilton, Räikkönen e Bottas – repetiram o posicionamento obtido nos treinos, e nem mesmo o problema no sistema de recuperação de energia que no terço final da corrida roubava de Daniel cerca de meio segundo nas zonas de aceleração mais longas bastou para que perdesse uma vitória que já deveria ter conquistado dois anos atrás.

Sim, a corrida foi um porre, chata mesmo para os padrões monegascos. Mas talvez esteja na hora de começarmos a apreciar a Fórmula 1 em Mônaco sob uma perspectiva um pouco diferente.

Um espetáculo de habilidade coletiva, ao volante e nas pranchetas, envolvendo a distribuição de pontos para o campeonato mundial para quem se sair melhor na combinação entre os riscos que assume na classificação, a forma como larga e mais tarde executa a estratégia de trocar os pneus, ou reage a variações como intervenções do carro de segurança.

Vendo por este ângulo, o espectador ainda corre o risco de ser premiado por uma corrida com chuva, ou, vez por outra, com alguma ultrapassagem no fio da navalha. Em resumo: zerando as expectativas, fica mais fácil apreciar o espetáculo.

Uma ótima semana a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

9 Comentários

  1. Carlos Chiesa disse:

    Concordo integralmente com sua tese, Márcio. Monaco é para conhecedores, para quem distingue sutilezas. A maior prova do valor desta tese está no erro, repetido, de um talento inegavelmente fora de serie, na classificação. Ou seja, mesmo um Max Verstappen pode pagar um preço alto por imprecisões. O que me leva a exaltar ainda mais os grandes vencedores nessa pista, desde Graham Hill até Ricciardo, que teve um fim de semana impecável, tirando máximo proveito da melhor adaptação de seu carro aos hipersofts da Pirelli.

  2. Lucas dos Santos disse:

    Márcio,

    Esse ano não achei a corrida chata. E isso se deveu, principalmente à atuação da Red Bull. Os touros vermelhos roubaram a cena desse fim de semana todo! Mercedes e Ferrari ficaram em segundo plano.

    Uma coisa que eu aprendi com vocês aqui do GPTotal foi dar atenção aos recordes de volta. Lembro que, no passado, era comum vocês reclamarem de que os carros estavam ficando cada vez mais lentos. Mas, ultimamente, recordes vem sendo quebrados e quando soube que viriam os pneus hipermacios, já comecei a contar com mais uma quebra de recordes.

    A minha diversão durante os treinos livres foi ver quem conseguiria bater o recorde e o quanto conseguiria abaixar. E, logo nos primeiros treinos ficou claro que as Red Bulls estavam muito rápidas, com os dois pilotos “disputando” entre si quem baixava mais o tempo. Foi fantástico! Só achei uma pena o Versrtappen ter batido durante o terceiro treino e ficado de fora do Qualify. Eu eslava torcendo para uma primeira fila de Red Bulls.

    Com a ausência de Max, só restou torcer para que o Ricciardo conseguisse a pole e o recorde. Acho que nunca fiquei tão aflito com uma classificação como fiquei enquanto assistia a disputa pela pole! Vibrei quando o Ricciardo finalmente conseguiu romper a barreira dos 1min10s e completar a classificação com o carro “ileso”. Depois eu assisti no YouTube a comparação entre a volta dele e do Vettel. É insano o quanto de terreno ele consegue ganhar no terceiro setor! Veja o vídeo abaixo, vai pausando ele e usando sombras e linhas da pista como ponto de referência para comparação:

    https://youtu.be/gZfGIQARr3Q

    Depois dessa, tive a certeza que o Ricciardo merecia ganhar essa prova – e lamentei ainda mais o fato do outro carro da Red Bull não estar ali do lado, dividindo a primeira fila. Começou corrida e eu fiquei na expectativa que o recorde de volta mais rápida também fosse quebrado. Quando o Ricciardo disse no rádio que estava perdendo potência, fiquei muito desapontado. Mas, felizmente, ele pôde continuar a corrida e o ritmo alucinante dele no terceiro setor não deixava o Vettel se aproximar. Mas o drama continuava, pois o motor poderia quebrar a qualquer momento. A essa altura, já descartei a possibilidade dele quebrar o recorde e passei a torcer para o Versrtappen conseguir isso. Infelizmente ele largou lá atrás e só teve uma oportunidade de andar com pista livre, que foi quando ele marcou a volta mais rápida da corrida, mas insuficiente para quebrar o recorde. Depois ele alcançou outros oponentes e a oportunidade de andar mais rápido se foi. No final, Ricciardo merecidamente vence a corrida mesmo com problemas no carro e faz a festa! E o Versrtappen também foi o único a arriscar fazer ultrapassagens na pista e ter sucesso – exceto pela última, que foi bastante desajeitada.

    Dessa forma, no meu ponto de vista, a corrida não foi tão chata assim para quem se ateve a esses detalhes. Para os padrões de Mônaco, foi excelente!

  3. Rubergil Jr. disse:

    Preciso fazer um outro comentário aqui sobre Lewis Hamilton.

    É possível que, se tivéssemos como ouvir os rádios dos pilotos nos anos 80 e 90, provavelmente ouviríamos reclamações, choros, etc, faz parte do caráter de todo piloto competitivo, em maior ou menor grau.

    Mas como é triste ouvir o constante choro de Lewis quando as coisas pra ele dão menos que 95% certo. Primeiro no Bahrein já tivemos uma amostra. Agora em Monaco, foi simplesmente ridículo, reclamando que os pneus estavam ruins e pedindo uma troca. Se ele trocasse, teria arruinado sua corrida, coisa que a Mercedes sabidamente recusou. Afinal, todos estavam ali nas mesmas condições.

    Será que Senna faria isso? Será que ele se queixou com a equipe quando teve que adotar táticas quase impossíveis de fazer corridas sem trocas, como Hungria 91 e 92 (nesta ultima parou só quando tinha a corrida sob absoluto controle com quase um minuto de vantagem). Será que Piquet fez isso quando estava difícil segurar Nigel vindo babando com uma Ferrari de pneus novos em Australia 90?

    Deixo as respostas aos amigos leitores e colunistas.

    Rubergil Jr.

  4. Rubergil Jr. disse:

    Marcio, seu ponto de vista é interessante, e concordo plenamente. Por mais que corridas em Monaco sejam tediosas, acho um tremendo desafio levar estes carros monstruosos a andar tão rápido em ruas tão estreitas, desniveladas e de topografia acidentada.

    A corrida foi chata? Sim, mas eu a assisti o tempo todo, grudado na tela, sem vontade de cochilar ou mudar de canal. Não posso dizer o mesmo da Indy 500… Incrível, mas acho que foi a única vez que eu me lembre de ter achado Monaco levemente mais interessante que a Indy do mesmo dia.

    E a Australia mandou neste fim de semana automobilístico. Pela primeira vez na história dois pilotos do mesmo país ganharam Monaco e Indy no mesmo dia. Porém, se contar os anos em que estas corridas não aconteceram no mesmo dia, o Brasil fez o mesmo em 1989 e 1993 – em 1989 inclusive tivemos GP do México no mesmo dia da Indy 500, e Senna venceu, coroando um dia maravilhoso da história do nosso automobilismo.

  5. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    As corridas em Mônaco sempre foram caracterizados por dois únicos pontos, definidos em 5 palavras: ter imprevistos ou não ter imprevistos. Neste domingo a corrida se deu sem imprevistos e como consequência a corrida foi chata. Se ocorreu algum imprevisto neste fim de semana,foi o acidente o Verstappen no 3º treino livre que o tirou dos treinos que definiam o grid de largada. Só que este é um imprevisto mais previsto do que nunca. Talvez com Max mais a frente no grid, poderíamos ter uma dinâmica diferente na corrida. Digo isso pois a passividade de Vettel e Hamilton foi gritante, o que não tira os méritos da vitoria do Ricciardo.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Lucas dos Santos disse:

      Fernando,

      Na minha visão, houve pelo menos dois imprevistos nessa corrida: (1) Versrtappen não fez nenhuma bobagem no domingo e ainda conseguiu fazer várias ultrapassagens na pista; (2) A perda de potência no carro do Ricciardo, ainda no início da prova, o que trouxe contornos dramáticos para a corrida. Ele conseguiu contornar esse problema, mas o medo de o motor do carro pifar de vez no meio da corrida era constante.

  6. Mauro Santana disse:

    Grande Márcio!

    Lembro da edição de 86, em que já se falava que Mônaco não tinha mais condições de realizar corridas de F1.

    Ou seja, o blá blá blá já é bem antigo a respeito das provas em Mônaco.

    Claro que, com a sequência de vitórias que o Senna emplacou, a prova era sempre esperada de uma maneira especial.

    Sempre gostei de Mônaco, principalmente da localização dos Box antigos.

    Mas, de uns anos pra cá, o traçado ficou mais “arredondado”, digamos assim, como a Rascasse, e os S da piscina e a chicane do porto, tiveram os guard rail afastados, e isso parece ter deixado a pista mais suave.

    Enfim, Mônaco é especial, sem dúvida, e sempre vamos aguardar ansiosos a próxima edição.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

    • Lucas dos Santos disse:

      Mauro,

      Concordo totalmente contigo no tocante ao atual traçado de Mônaco. Com as mudanças ocorridas em 2003 e 2004, vários “pontos cegos” da pista foram eliminados. Se, por um lado, isso tirou um pouco o “desafio” trazido pelas curvas cegas, por outro lado permitiu aos pilotos ganharem confiança para se arriscarem mais e andarem mais rápido, o que deixa tudo muito mais interessante.

  7. Guilherme Berriel Cardoso disse:

    Excelente texto. Análise perfeita. Parabéns.

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