Equação resolvida?

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A Fórmula 1 prende a respiração e se pergunta: Adrian Newey e seus colegas da RBR já enquadraram as incógnitas da equação pneumo-lotérica proposta pela Pirelli?

A Fórmula 1 prende a respiração e se pergunta: Adrian Newey e seus colegas da RBR já enquadraram as incógnitas da equação pneumo-lotérica proposta pela Pirelli?

No ano passado, o problema começou a ser dominado pela melhor equipe de engenheiros da categoria a partir da sétima corrida do ano mas a solução plena e absoluta da equação só se materializou na altura da 14ª prova, em Cingapura. A partir daí, só deu RBR.

Neste ano, já vimos um amplo domínio da equipe na Malásia e no Bahrein, segunda e quarta provas do ano, enquanto que a terceira, na China, pode ser considerada um ponto fora da curva, dados os percalços de Mark Webber e a opção exótica de Sebastian Vettel nos treinos – e menos mal que ela não tenha sido premiada pois teríamos de conviver até o final dos tempos com a esdrúxula situação de ver um vencedor de GP largar para a corrida sem ter feito tempo nos treinos…

Enquanto isso, Lotus, Ferrari, Mercedes e McLaren não evoluíram na mesma velocidade, seus engenheiros provavelmente ainda correndo atrás de respostas ao desempenho errático dos Pirelli.

O que acontecerá na Espanha daqui quinze dias? Achei sintomáticas as declarações de Vettel, alegando surpresa com seu fácil domínio no Bahrein, como se já esperasse por isso – mas não tão cedo.

Se ele e Newey de fato já tiverem desvendado a equação, adeus campeonato, muito antes do que todos esperavam, mesmo porque as demais equipes não têm demonstrado competência para descontar a vantagem conquistada pela RBR. Foi assim em 2010, 2011 e 2012.

Mas, esperem! A Pirelli anuncia que vai mexer nos compostos dos seus pneus já na Espanha.

De repente, a equação pode ter ido por água abaixo – ou não se a fábrica italiana simplesmente ressuscitar compostos já usados no ano passado, que as equipes já conhecem…

Pensando bem, aquela minha sugestão de tornar o desempenho do combustível usado nos carros tão imprevisível quanto os pneus pode não ser tão louca assim.

Por que Newey é assim tão bom? Por que ele e seus colegas da RBR emendam carros imbatíveis um atrás do outro desde o final de 2009, carros que, associados a um serial killer como Vettel, ameaçam cada vez mais o feito de Michael Schumacher e da Ferrari, de vencerem cinco títulos consecutivos?

Estamos condenados a ver domínios técnico-esportivos esmagadores tornarem-se uma rotina?

Este, meus amigos, me parece ser um perigo real, dado o extraordinário talento de Newey e sua equipe, a forma como a RBR se organizou em torno dele (escrevi um pouco sobre isso em minha coluna “Adrian Chapman, Jim Vettel”, de 20/12/2012), e também de toda uma condição própria dos dias de hoje e que tende a se tornar ainda mais predominante no futuro.

Em março do ano passado, Nuno Ramos publicou um belo artigo na revista Piauí (vale a leitura: clique aqui). Seu tema era a condição atual do futebol brasileiro, tendo como ponto de partida o confronto entre Santos e Barcelona que, por motivos óbvios, não gosto nada nada de lembrar.

Trecho importante do texto versa sobre a melhora geral dos fundamentos do esporte nos tempos atuais. Para tanto, Nuno cita análise do cientista Stephen Jay Gould a partir de uma questão prosaica: por que é menor atualmente o número de rebatidas e home runs no beisebol americano? Para Gould, trata-se simplesmente de “uma genérica melhora do padrão de jogo, distribuída milimetricamente pelo conjunto de seus aspectos e circunstâncias”. Todos os fundamentos são mais bem executados, hoje, graças a “métodos ótimos”, levando a uma “diminuição da variação conforme o sistema se regulariza”. A conclusão de Gould, a partir da sua experiência como biólogo e paleontólogo: “a vida, ao testar e selecionar seus modelos, vai ganhando monotonia”.

Cito este trecho do artigo de Nuno para definir melhor o que tenho chamado de mecanização do esporte e da Fórmula 1 em especial (o termo “mecanização” nunca me agradou mas não achei outro melhor…).

Aplicado à Fórmula 1, significa que a curva de conhecimento dos engenheiros vai crescendo e se disseminando e, com isso, reduzindo o espaço para o diferente. A monotonia técnica de que costumamos reclamar é menos decorrência de regulamentos caretas e mais do conhecimento cada vez maior e melhor distribuído dos engenheiros. A inovação radical tornou-se muito mais difícil, quase impossível. Os ganhos são milimétricos e sistemáticos, produto de uma seleção natural que vai se acumulando, impávida e sem possibilidades de ser detida, muito menos revertida.

O mesmo vale para a condução dos pilotos, formados a partir de bases cada vez melhor definidas. Condições físicas, técnicas e mentais dos pilotos vão sendo moldadas desde muito cedo – vide os casos de Lewis Hamilton e Vettel, por exemplo, preparados para as pistas desde a mais tenra infância.

O que acontece de especial na RBR é que a par do estabelecimento de “métodos ótimos”, temos um engenheiro diferenciado, especialista em conseguir “melhoras milimétricas” de forma mais regular do que seus concorrentes.

Enquanto esse ciclo não for quebrado, por uma crise institucional na RBR ou pela saída de Newey da equipe, dificilmente teremos um cenário técnico diferente na F1.

O feitor de turbante e cavanhaque que comanda na ponta do relho essa diverticulite supurada do Golfo Pérsico chamada Bahrein, esse mesmo que apareceu no pódio ao lado de Vettel & Cia, me enoja especialmente pelo sorrisinho mofino, próprio dos tiranos.

Bernie Ecclestone, fã declarado de Adolf Hitler, deve dar boas gargalhas com ele, quando se trancam numa sala. Muito provavelmente o inglês aproveitou-se da desgraça que se abate sobre o Bahrein para tirar mais dinheiro do tirano, certamente alegando que a presença da Fórmula 1 no “país” lhe empresta um ar de normalidade, além de permitir ao feitor debochar dos seus opositores lá do alto do pódio.

E me pergunto se aquele mausoléu dado como sendo um autódromo não tem em seus porões alguma sala de tortura, como havia no Estádio Nacional de Santiago do Chile.

O especial do GPTotal no FaceBook sobre as vitórias de Ayrton Senna na Fórmula 1 chega ao seu final – o post sobre o GP da Austrália de 93 vai ao ar amanhã –, superando todas as nossas expectativas: chegamos a onze mil fãs e as interações dos leitores com os posts (entre “curtir”, compartilhar e comentar) já são perto de doze mil.

Pra nós, do GPTotal, foi um enorme prazer pesquisar e editar o especial. E vocês, leitores, nos retribuíram de sobra!

Muito obrigado e boa semana a todos.

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

6 Comments

  1. Mauro Santana disse:

    Olá amigos do Gepeto!

    Hoje completamos 19 anos do acidente fatal do austríaco Roland Ratzenberger, e que sempre é quase nunca lembrado.

    Como o tempo passa rápido!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Allan disse:

    Edu, não bastasse a excelência da matéria, ainda aprimorei meu vocabulário! 🙂

  3. Fernando MArques disse:

    Não existe melhor significado para evolução do mundo do que a monotonia … vide os carros de rua atuais cheios de tecnologia e coisa e tal mas longe de se ter o charme e a imponência de antigamente … os carros atuais não são tão prazerosos se em comparação aos mais antigos …
    O que vejo na Formula 1 atual é que os pilotos são apenas pau mandados dos engenheiros e projetistas da equipe … o melhor é aquele que melhor cumpra as ordens … não demora muito pilotos bons vão ser aqueles que tocam bem um joystick … a importancia deles no conjunto carro/piloto diminui a cada ano que se passa …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Mário Salustiano disse:

    é amigos essa história tende a ir longe….

    Edu junte aos seus argumentos o fato de Vettel estar amadurecendo como piloto e sendo menos afoito e mais cerebral que em outras ocasiões, o que deve fazer com que ele potencialize ainda mais suas conquistas, eu particularmente acho isso bom para deixar o tio Bernie fulo da vida, afinal se ele quer manipular as cartas do jogo nada melhor que um time sendo quase invencível para estragar a pseudo-competitividade que ele quer implantar,

    abraços

    Mário

  5. Mauro Santana disse:

    Cada vez mais o time de engenheiros se destacam, e sou sincero em dizer, que pra me convencer, Vettel terá que andar num carro de 2° escalão pra mostrar se é tudo isso mesmo, da mesma forma que aconteceu com Piquet 1990, Senna 1993, e nos últimos anos vem acontecendo com Alonso.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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