Esporte ou entretenimento

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O esporte a motor em geral passa por uma crise de identidade, mas qual o limite entre esporte e entretenimento?

Abu Dhabi, 27 de Novembro de 2016. Sebastian Vettel e Nico Rosberg se preparam para a última corrida da temporada, em que um dos dois será coroado Campeão Mundial 2016 de F1.

As novas regras de ‘mata-mata’ da F1 tinha alijado Lewis Hamilton da disputa. Na temporada regular, onde os 22 pilotos tentavam um lugar entre os seis que iriam para a primeira fase dos Playoffs, nas quatorze primeiras corridas do ano, Hamilton venceu oito vezes.

Apenas os pilotos de Mercedes e Ferrari conseguiram vaga através de vitória, primeiro requisito para se estar nos Playoffs, enquanto Bottas e Ricciardo conseguiram um lugar entre os seis primeiros por estarem em quinto e sexto na Classificação em Monza, última etapa antes do início da fase decisiva.

A primeira fase dos Playoffs teve duas vitórias de Hamilton em Cingapura e na Malásia e na terceira corrida dessa fase, Hamilton tirou o pé na última volta em Suzuka, à mando da Mercedes, para Rosberg se garantir na fase seguinte.

Porém, se tudo estava dando certo para Hamilton àquela altura do campeonato, a segunda fase dos Playoffs foi terrível para o inglês. Em Austin, Hamilton foi tocado por Räikkönen na primeira curva e com a suspensão quebrada, acabou abandonando.

No México, Lewis sofreu a primeira quebra do motor Mercedes em 2016 quando liderava. Em Interlagos, era tudo ou nada para Lewis, mas a conhecida chuva paulistana deixou o inglês da Mercedes nervoso e Hamilton rodou sozinho, quando novamente liderava.

Mesmo vencendo metade das corridas de 2016, Hamilton não tinha chance de conquistar o sonhado tetracampeonato, enquanto Vettel vencia em São Paulo e decidiria com Rosberg, vencedor nos Estados Unidos e no México, o título de 2016. Quem dos dois chegasse na frente em Abu Dhabi seria declarado campeão.

Contrariado com a sua falta de sorte, Hamilton consegue a pole em Abu Dhabi, tendo Nico Rosberg ao seu lado, cena bastante comum em 2016. Para melhorar a situação do alemão da Mercedes, a nova regra dos pneus deixou Vettel apenas em quinto, na terceira fila.

Decidiu-se antes do campeonato começar que as equipes de fábrica não teriam os pneus mais macios do final de semana e assim, Mercedes, Ferrari, Renault e Honda (McLaren) teriam que escolher os pneus mais duros ofertados pela Pirelli.

Após as duas primeiras provas, Renault e McLaren-Honda reclamaram que estavam muito atrás de Mercedes e Ferrari e a FIA decidiu conceder uma ressalva para que as duas montadoras tivessem a mesma vantagem das equipes independentes, garantindo que Kevin Magnussen conseguisse uma surpreendente terceira posição em Abu Dhabi, enquanto Daniel Ricciardo completava a segunda fila.

Mesmo em quinto lugar, nem tudo estava perdido para Vettel. Enquanto se preparava para a largada, o alemão esperava o resultado da promoção realizada pela FIA com os internautas, através das Redes Sociais, para indicar os três pilotos mais populares do grid e SOMENTE eles, teriam direito a usar o DRS durante a corrida.

Sabendo da força dos tifosi, que com seus votos garantiram Vettel e Räikkönen com essa regalia em praticamente todas as corridas do ano, Sebastian sabia que teria uma chance de ir para cima das Mercedes, mesmo a Ferrari ainda abaixo dos carros alemães.

Ainda mais com a garantia de que os carros ficariam juntos a cada vinte minutos, em outra regra esportiva implantada pela FIA, onde o Safety-Car entrava na pista de forma programada para promover mais relargadas durante a corrida.

Bizarro, não? Essa história fantasiosa, tendo a F1 como pano de fundo, nada mais é do que um apanhado de tudo que os dirigentes de diferentes categorias trouxeram para ‘dar mais emoção’ às corridas mundo afora.

O esporte a motor em geral passa por uma crise de identidade, onde há uma clara linha tênue entre esporte e entretenimento, onde pender mais de um lado produz um claro prejuízo ao outro.

Até quinze anos atrás, a corrida em si já era todo o entretenimento do que se necessitava para um consumidor de corridas se satisfazer. Porém, a arte de um piloto dominar uma corrida de ponta a ponta, onde o mesmo acertava o seu carro durante o final de semana, o transformando no melhor conjunto do dia, e vencendo os adversários sem dó parece não animar mais as pessoas como antigamente.

Fazer um bom trabalho e vencer com seus méritos um campeonato não faz com que as pessoas acompanhem durante dez meses um certame em que apenas uma equipe ou um piloto domine. Isso sempre aconteceu e faz parte do esporte.

Porém, isso não entretém as pessoas como antigamente e faz com que as pessoas se tornem saudosas, relembrando dos ‘bons tempos’, que muitas vezes nem é tão bom assim. Com as Redes Sociais, essa perseguição por ‘mais emoção’ nas corridas fica exacerbada e faz com que os dirigentes procurem meios artificiais para que as corridas fiquem ‘mais emocionantes’ e os campeonatos, ‘menos previsíveis’.

A F1 viu uma nova classificação confusa ser implantada nesse ano, tendo como único pretexto ‘dar mais emoção’ aos treinos de sábado, um grande fracasso.

Contudo, a F1 é a categoria que ainda resiste à grids invertidos, sprinklers na pista e Playoffs no final do campeonato. Outras categorias já tendem muito mais ao entretenimento do que ao esporte e Nascar é o principal exemplo. Quando Matt Kenseth venceu o título de 2003 com apenas uma vitória e por antecipação, a Nascar resolveu criar os Playoffs no ano seguinte, para que o campeonato ficasse ‘menos previsível’.

Neste ano, inventou-se o ‘Clock-Caution’, por enquanto usado apenas na Truck Series, para evitar longas sessões em bandeira verde. A bandeira amarela aparece a cada vinte minutos de forma programada, para dar ‘mais emoção’ às corridas, sendo que as corridas da Nascar já são emocionantes por si só.

Até mesmo a MotoGP, na minha opinião vivendo a sua segunda Era de Ouro, trouxe uma confusa regra de pneus para ajudar as equipes menores (além de Ducati e Suzuki) a enfrentar Honda e Yamaha de modo artificial, onde as equipes da categoria ‘Aberta’ teriam à disposição pneus mais macios do que as equipe de ‘Fábrica’. Menos mal que acabou essa regra dos pneus diferentes, mas agora a MotoGP corre com uma centralina única, na tentativa de diminuir a diferença entre Honda e Yamaha das demais.

A F-E já começou mostrando que tentará entreter seu público, ao invés de indicar quem é o melhor piloto nos seus feios e assépticos carros, trazendo o ‘FanBoost’, onde as fãs indicam quais os pilotos mais populares da corrida e como prêmio, terem mais potência quando quiserem.

Ou seja, não adianta nada um piloto da F-E fazer um bom trabalho nos treinos e na corrida, se atrás dele tiver um piloto mais ‘popular’ e poder ter mais potência do que ele em certos momentos. Isso é esportivamente correto? O certo é que há mais ultrapassagens durante a corrida, não há dúvidas quanto a isso, mas essa ‘emoção’ conseguida de modo artificial é realmente justa?

Voltando ao primeiro assunto: Se houvesse uma F1 descrita dessa forma, a categoria seria mais ‘emocionante’ e mais ‘imprevisível’, mas seria esportivamente mais justa?

Um abraço.

JC Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

4 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    JC Viana,

    Estou com Flavis Guerra.
    Muito bom o texto.
    Para mim a Formula 1 precisa voltar a ser mais simples e os pilotos terem mais poder de decisão.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Flaviz Guerra disse:

    Comecei rindo.Terminei chorando!

    Excelente texto!!! [=

  3. MarcioD disse:

    Já comentei aqui por vezes que a unica maneira de se conseguir uma disputa equilibrada, num esporte onde o carro representa no minimo uns 80%, é um regulamento muito restritivo em termos mecânicos, de eletrônica embarcada e aerodinâmicos principalmente.
    Acredito que os maiores vilões desta história foram o aumento substancial do downforce, a turbulência traseira, o excesso de eletrônica embarcada e motores sem limite de rpm.
    Nos últimos anos o avanço aerodinâmico permitiu o domínio da Red Bull e agora com as unidades de potencia temos um domínio claro da Mercedes, justo quando depois de décadas, finalmente se “amordaçaram” os motores aspirados limitando sua rpm máxima, ai mudaram tudo de novo, com a criação das unidades de potencia.
    E ao não querer enfrentar o problema em sua raiz, para mim por pressões decorrentes de interesses políticos e ou econômicos, são obrigados a criar os artificialismos citados no texto, a fim de tentar alcançar um equilíbrio através de situações inusitadas e imprevisíveis,com interferência excessiva de ordens de equipe, de estratégias baseadas em n tipos de pneus slick e de um sem numero de regras que inventam a todo instante.
    Eu como fã da F-1, estou interessado em velocidade, ronco de motor, disputa por posição, ultrapassagens, alternância de posições, pilotos andando no limite e assumindo riscos e criando eles próprios suas estratégias de corrida.
    Isto,pelo menos para mim, resulta em EMOÇÕES que levam ao ENTRETENIMENTO.

    Abraços,
    Márcio

  4. Robinson Araujo disse:

    Colegas

    Uma nova geração com novos conceitos tem se estabelecido, ditando ritmo agora.
    Tabus vão caindo e outros sendo criados, o que faz com que as gerações anteriores se sintam cada vez mais isolados.

    O esporte a motor vem buscando isso, a todo custo, baseando-se no que mais interessa hoje, o lucro.
    Como bem sabemos valores financeiros por si só não seguram o público a nada, independente de que tipo de relação exista e como não é mais possível criar amor ou paixão, tratam de aumentar as cifras, criando novos e maiores limites e desejos, o que, a um certo prazo, irá encontrar seu limite e fará com que novas alternativas sejam procuradas.

    Hoje me imagino acompanhando as categorias do automobilismo mais pela lembrança e gratidão ao passado, com um respeito a quem tantos bons momentos me deu. Veremos até quando isso irá se perdurar.

    Um bom final de semana a todos.

    Robinson Araujo
    Cuiabá/MT

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