Estatísticas falaciosas

Made in China
15/04/2016
A velocidade perfeita
20/04/2016

A boa corrida da China vai deixando Nico Rosberg cada vez mais líder -- mas até que ponto isso traduz a realidade?

A 13ª edição do GP da China foi uma das melhores da história da pista de Shanghai. Nico Rosberg venceu com facilidade — a partir do problema de Daniel Ricciardo, é verdade, mas era questão de tempo –, porém as brigas em posições intermediárias não cessaram.

Conforme mostrado na transmissão, os gráficos a partir do segundo colocado mais pareciam um eletrocardiograma: seria interessante fazer esse levantamento, mas é possível que este GP entre para a lista das provas que mais tiveram trocas de posição em todos os tempos.

Rosberg chega à sua sexta vitória de forma consecutiva — é a quinta maior sequência de todos os tempos, igualando feito de Schumacher entre 2000 e 2001, e atrás do próprio Schumacher (7 em 2004), Alberto Ascari (9 entre 1952 e 53) e Sebastian Vettel (9 ao longo de 2013).

O mérito de Nico Rosberg não deve ser excluído em momento nenhum, porém a conjectura de fatores de suas seis vitórias em sequência é a mais fácil de se compreender: foram três vitórias ao final da temporada de 2015, depois que Hamilton já havia garantido o título, e outras três no início desse ano, quando, como bem apontou Lucas Giavoni, ainda não houve um confronto direto entre os dois — i.e., sem problemas para Hamilton.

Lewis já tinha a certeza de 5 posições serem perdidas, em razão do câmbio, e acabaria por partir da última posição. Ele mesmo já havia usado de bravata ao dizer que estava confiante pois o mesmo acontecera na Hungria, onde supostamente não havia lugar para ultrapassagem. Desta vez, porém, o inglês não conseguiu ir além do sétimo lugar.

A favor de Nico, porém, pesa a tabela de pontuação: o alemão já soma 75 pontos (100%) contra 39 de Hamilton, 36 de Ricciardo e 33 de Vettel. É uma diferença considerável: a maior já registrada até a terceira etapa de um campeonato, e o maior gap que Nico já conseguiu diante de Hamilton: até então, a maior distância que Rosberg abrira para Lewis aconteceu em 2014, após o GP do Canadá (22 pontos).

Ao mesmo tempo em que não se pode negar que Hamilton tenha enfrentado diversos problemas, Nico tem feito tudo perfeito — e contado com alguma sorte, pois na corrida de hoje fez uma largada algo temerária, mas aí o pneu de Ricciardo estourou –, sempre marcando voltas mais rápidas do que Hamilton.

Talvez ele tenha agora atingido a maturidade suficiente para encarar uma disputa por título, coisa que em 2014 ficou latente que não.

Esse ano, porém, terá 21 (!!!) corridas. Em outras palavras, ainda estamos em pré-temporada.

Além de Rosberg, os principais nomes da corrida foram os outros integrantes do Top-6: Sebastian Vettel, Daniil Kvyat, Felipe Massa, Kimi Räikkönen e Daniel Ricciardo. Digo isso muito menos pelas classificações finais de cada um, e muito mais pelos desempenho demonstrados por eles.

Começando pelo brasileiro, Massa teve uma prova de muita combatividade, trazendo dificuldades aos Ferari e impedindo que Lewis Hamilton angariasse mais pontos. Ainda que continue sem superar Bottas em termos de velocidade (até aqui, 2×1 nos treinos para o finlandês), pela primeira vez desde 2014 Massa tem se mantido à frente do companheiro de equipe com alguma consistência. Ontem, Bottas teve mais dificuldades com adversários em equipamentos mais fracos (Pérez, por exemplo) do que Massa com os carros mais rápidos.

Daniel Ricciardo e Kimi Räikkönen fizeram bonitos papeis após terem suas corridas comprometidas logo no início: Kimi era penúltimo ao fim da primeira volta, e Ricciardo era 18º no quarto giro. Ambos tiveram um belo desempenho a partir de então.

Daniil Kvyat é um piloto bastante rápido, e me parece o futuro campeão (como era o caso de Vettel em 2008). Logo será vencedor de GPs. Na batida, não vi nele qualquer culpa, e o tapinha nas costas dado em vettel na ante-sala do pódio (quando muito provavelmente o tetracampeão exigia dele alguma retratação e/ou o acusava) mostra que ele não é apenas rápido, mas também está preparado para jogar o jogo.

Por fim, Vettel, que conseguiu minimizar os riscos da batida tripla (perderia parte da asa dianteira), faria uma corrida excelente, conseguindo superar Kvyat no terço final da prova — terminaria 8 segundos à frente do russo. Ele é, até aqui, o principal nome do campeonato depois do líder do mundial: Vettel é o Prost da nova geração.

Foi interessante ver a reação de Sebastian Vettel ao longo da corrida, nas conversas via rádio: assumiu a culpa pela batida, e outras diversas vezes pedia “desculpas a Kimi“, falando que tentou ao máximo evitar o choque, mas que a aproximação de Kvyat não lhe deu chances.

httpv://youtu.be/1mu9XETGPvQ

Ao fim da corrida, Vettel foi a Kimi se explicar. Imagino o diálogo entre o alemão e o finlandês:

– Sorry, I tried to steer…
– Ok.
– It was Kvyat.
– Ok.

A McLaren, quando iniciava sua parceria com a Honda no início do ano passado, dizia que só poderia começar a pensar em vitórias ao fim de 2016. Isso ainda parece longe de acontecer, mas é inegável que já houve evolução. Alonso pareceu-me recuperado e deverá superar Button este ano.

O GP da China foi bom, mas a “estratégia dos pneus” ainda segue sendo o grande entrave para que a Fórmula 1 volte a seus bons dias.

No início da coluna falei sobre a sequência de vitórias de Nico Rosberg e seu comparativo com os outros grandes recordistas.

Relativizei o feito de Rosberg, e de encontro a isso temos o famigerado estudo de uma universidade inglesa que apontou Fangio como o melhor de todos os tempos e deixou Ayrton Senna na quarta posição, com Schumacher em oitavo. Alonso e Schumacher tinham posições mais altas e acabaram descendo na versão mais atualizada.

As primeiras posições me parecem bastante coerentes (e eu concordo com o “vencedor”), inda que eu discorde facilmente da ordem. No entanto, Nico Rosberg aparecer na 13ª posição em um estudo que, supostamente, tenta desvincular a influência do carro nos resultados do piloto por si só já demonstra a falibilidade das estatísticas apontadas.

Não fosse pela influência do carro, Rosberg não estaria entre os principais — e quem ficou fora foi Niki Lauda.

Preciso dizer algo?

Boa semana a todos.

 

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

4 Comentários

  1. Robinson Araújo disse:

    Colegas do Gepeto

    Logo logo os seres pensantes e dominantes dos regulamentos da categoria chegarão a conclusão absurda da inversão de grid……..e dai eles que se virem na pista para demonstrar o potencial..

    Outro recurso seria o avanço no pelotão render um maior coeficiente de pontos, baseando-se no grau de dificuldade, como vemos por exemplo na ginástica artística e saltos ornamentais.

    Ou seja……..temos um cheiro estranho no ar de artificialidade, tomemos cuidado!!!

    Relativo a corrida unicamente gostei, tanto que nem tive vontade de dormir. Esquecendo Rosberg do conjunto tivemos boas disputas com os mais diversos equipamentos, o que realmente é a alma da categoria!

    Rosberg leva fácil este campeonato, tanto pela sua concentração, mas principalmente pelo comodismo de Hamilton.
    Ano passado quando comparei este inglês ao campeão de 1976 não imaginava que iria carregar para as próximas temporadas as mesmas características. Deste modo em dois anos podemos ver um piloto totalmente desmotivado e com o pensamento destinado a outros tipos de atribuições.

    Legal a Mclaren em terceiro………..gosto das cores do carro, mas ainda não anda nada……agora triste mesmo é a condição da Sauber………já foi e voltou em tempos de BMW e está com um pé e quatro dedos fora da categoria, em estado de forte queda…….apenas algo inesperado salva e equipe fundada pelo Suiço Peter. O mais engraçado é ver o logo do Banco do Brasil estampando o bólido (decadências a parte).

    O pessoal da Haas realmente é bom em marketing………colocou pneus rápidos nos carros no final e ficou com a melhor volta, assim como segunda e terceira….o que não reflete nem um pouco sua trajetória no GP mas serve de mídia aos poucos entendidos no assunto.

    Boa semana a todos os colegas!

  2. Fernando Marques disse:

    Olá amigos,

    Muito bom o GP da China. Uma corrida boa de se ver onde a unica certeza era que o Nico Rosberg venceria a prova, pois dali para trás foi briga boa até ao fim.
    Eu penso que:
    1) Apesar de ainda ter 18 corridas pela frente, não resta dúvidas que a pressão deve estar muito grande em cima L. Hamilton dentro da equipe Mercedes em razão deste inicio avassalador do Rosberg. Há tempo de recuperação, certamente que sim, mas o ingles ou mostra logo de vez o que sabe ou então vai continuar levando poeira na cara, pois nem no retrovisor do Nico ele consegue aparecer …
    2) Pela primeira vez vi o Felipe Massa andando mais que o carro permitia. Segurar o Hamilton como ele segurou é prova disso, pois a Mercedes está 100 anos luz a frente das Willians. O Massa merece bons comentários.
    3) O Kvyat não fez nada de errado na largada. O Vettel deu mole e se complicou. Achou que não precisava defender a posição e quebrou a cara. O resto foi chororô, fato que virou rotina na Formula 1. Em vez de admitir o erro, o negócio é chorar.
    4) As RBR’s continuam tendo o melhor carro sem motor da Formula 1.


    Quanta a tal pesquisa, acho ela mais um engodo publicado tentando comparar entre si pilotos das varias décadas e gerações que passaram ou ainda estão na Formula 1. Não dá para levar a sério. Só gera mais polêmica como classificar o Christian Fittipaldi como o 13º melhor piloto que a Formula 1 já teve.

    Fernando marques
    Niterói RJ

  3. MarcioD disse:

    Caro Marcel,
    Li o estudo da Universidade de Sheffield mencionado por você e a minha opinião é a mesma que a sua com relação à Fangio. Concordo em 80% com os top 5 e 90% com os top 10, também não se levando em consideração a ordem.
    Parece que houve alguma falha no modelo matemático- estatístico que eles utilizaram acima dos top 10. De qualquer maneira achei válido o estudo deles, tentando isolar a influencia do carro e da equipe nos resultados dos pilotos.
    Achei legal também concluírem cientificamente que equipe + carro representam 85% e o piloto somente 15% e que esta diferença vem aumentando ao longo do tempo.
    Mencionaram também outros 2 estudos anteriores, um de 2009 e outro de 2014,
    que li e não gostei.
    Acho que a ideia foi válida e com o aperfeiçoamento destes modelos poderemos chegar um dia a resultados mais realistas, porque os números que usualmente utilizamos para
    análise estão “contaminados” pelo conjunto, não isolando os pilotos, assim como os rankings baseados em opiniões de “experts” e as enquetes feitas sobre este assunto estão “contaminadas” pela subjetividade.
    Achei legal o ranking das equipes mais dominantes da história,apesar de faltarem algumas das principais.
    O link do estudo para quem quiser ver é : https://www.researchgate.net/publication/274080402

    Abraços,

    Márcio

    • Manuel disse:

      Amigos,
      Devo confessar que apenas li comentarios ao respeito do tal estudo de Sheffield, porem me parece que tentar determinar qual é o melhor piloto descontando a influencia do carro, temo que seja como tentar determinar qual é o melhor saltador com vara… descontando a vara.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *