Eterno retorno

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Uma eventual dominação da Mercedes na atual temporada será mera repetição da lógica da Fórmula 1.

Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!

Juro, amigos leitores, que não era minha intenção começar esta coluna com uma citação de Friedrich Nietzsche, abordando o mito do eterno retorno, mas o amigo Geraldo Simões, o Tite, me deixou sem escolha. O singelo tema que eu havia escolhido era simplesmente a repetição da história, de como a Fórmula 1, mais uma vez, mudou tudo, para continuar igual. E então, na manhã desta terça-feira, abro o Facebook e me deparo com o seguinte post do Tite:

Final do GP da Inglaterra em 2013: 1) Nico Rosberg; 2) Mark Weber a 0,765 segundo.
Chegada do GP da Hungria 2013: 1) Lewis Hamilton, 2) Kimi Raikkonen a 10s938
Final do GP da Itália: 1) Sebastian Vettel, 2) Fernando Alonso a 5s467
Final do GP da Alemanha 2013: 1) Sebastian Vettel; 2) Kimi Raikkonen a 1s008
Final do GP da Austrália 2014, depois da maior mudança de regras desde a história da Fórmula 1 em uma mesma temporada: 1) Nico Rosberg. 2) Kevin Magnussen, a 27 SEGUNDOS!!!
Que beleza, conseguiram promover uma incrível igualdade e competitividade nunca vista antes!
Que me perdoem os fanáticos, mas essa F-1 está cada ano mais chata.

Faço uma ponderação e apresento uma frontal discordância com o amigo. O resultado “na pista” do GP de Melbourne, que abriu a temporada de 2014, teve o nativo Daniel Ricciardo entre Rosberg e Magnussen. Com a desclassificação de Ricciardo, Magnussen herdou o segundo posto. Mas o fato não produziria alteração no raciocínio, já que o australiano ficou 24,5 segundos do vencedor. A discordância, claro, refere-se à última frase, que analisa a F-1 como “cada ano mais chata”.

Naturalmente, essa discordância tem muito de subjetividade. Como costumo dizer nas transmissões da Fórmula 1, pelas rádios do Grupo Bandeirantes, um domingo com corrida é sempre melhor que um sem corrida, o que torna o evento interessante, por definição. É evidente que algumas corridas são mais interessantes que outras, mas vai custar a chegar o dia em que eu classifique uma corrida de Fórmula 1 como uma coisa chata. Mas, de verdade, esse nem é o ponto principal da discórdia, porque ser simplesmente baseado em uma preferência. Portanto, pessoal e sem a pretensão de se tornar dogma.

A discordância vem da ideia de que a Fórmula 1 tem criado ciclos de dominação nos últimos tempos. Não, Tite, não! Isso sempre existiu. Senão, vejamos.

Em 1963, Jim Clark, com sua Lotus, venceu o GP da Itália com uma vantagem de 1min35 em relação ao segundo colocado, Richie Ginther, da BRM. E isso foi rotina naquele ano, com várias vitórias massacrantes, culminando com o primeiro dos dois títulos de Clark. Foram sete vitórias em dez corridas. O ciclo de dominação da Lotus teve sua origem em uma invenção genial de Colin Chapman – o Lotus 25, primeiro chassi monocoque da categoria. Mais do que vencer corridas, o carro de Chapman apontou uma nova tendência.

No ano seguinte, com o Ferrari 158, John Surtees valeu-se da maior regularidade e, com duas vitórias e três segundos lugares, superou Graham Hill e Clark, sendo que o campeão do ano anterior conquistou três vitórias, mas abandonou cinco provas, terminando a temporada em terceiro lugar. Tomando como referência o mesmo GP da Itália, vencido por Surtees, a vantagem também foi imensa: 1min06 separaram o vencedor do segundo colocado, Bruce McLaren. Mudou o campeão, a diferença para o segundo continuou abissal.

Um salto no tempo e vamos para 1991, ano do último título de Ayrton Senna, que corresponde também ao derradeiro ano daquele ciclo de prevalência da McLaren. Senna venceu seis de dezesseis corridas, tendo as Williams de Nigel Mansell e Riccardo Patrese bem mais próximas do que haviam sido as equipes rivais nos anos anteriores (1988 e 1989, principalmente). Ainda para ficar na comparação proposta pelo Tite: naquele ano, Senna venceu o GP de Mônaco com 18 segundos de vantagem em relação a Mansell, segundo colocado. No ano seguinte, a Williams assombrou o mundo com seu FW14, uma maravilha tecnológica que reunia soluções como suspensão ativa, câmbio semiautomático e controle de tração. Mansell venceu a corrida de estreia com vantagem de 24 segundos para o companheiro Patrese e 34 segundos para Senna. Levou o título com larga antecipação e pavimentou o caminho para o quarto título de Alain Prost, no ano seguinte.

Último mergulho no tempo: 2004, ano do último título de Michael Schumacher. O alemão venceu treze das dezoito corridas e sagrou-se heptacampeão na Bélgica. Sinal de dominação? Mantendo como parâmetro a diferença entre o primeiro e o segundo colocado de uma corrida, pode ser logo a primeira, na qual Schumacher chegou 13 segundos à frente de Barrichello e 34 segundos antes de Fernando Alonso. Ao longo do ano, Barrichello esteve frequentemente no encalço do companheiro de equipe, conquistando duas vitórias e sete segundos lugares, a ponto de terminar com o vice-campeonato, mostrando a enorme superioridade da Ferrari. Em 2005, a Fórmula 1 assistiu a sua última temporada com motores V10. Logo no início do ano, a Renault quebrou o ciclo de dominação da Ferrari, vencendo as quatro primeiras corridas (a primeira com Giancarlo Fisichella, as demais com Alonso). No GP da Malásia, o espanhol chegou a colocar 24 segundos de vantagem sobre Jarno Truli, da Toyota. A vantagem inicial de Alonso reduziu-se ao longo do campeonato, que viu a aproximação de Kimi Raikkonen, então na McLaren, mas foi suficiente para garantir o título do espanhol no Brasil, com duas corridas de antecipação. Em 2006, tendo Schumacher como adversário mais próximo, Alonso garantiu seu segundo título, confirmando mais uma hegemonia da Fórmula 1.

Claro que poderíamos ter lembrado outras, como da Williams nos anos 1980, da Benetton na metade da década de 1990, da McLaren no fim do século passado, da Red Bull nas últimas quatro temporadas. Porque, afinal de contas, a Fórmula 1 sempre foi feita de ciclos de prevalência. A distância abissal de Rosberg para Magnussen (ou antes, para Ricciardo) é filha dessa mesma lógica. É claro que inúmeras situações podem acontecer neste campeonato, que apenas começou. Mas o período de desenvolvimento empregado por Mercedes e McLaren, ainda em 2013, parece estar colhendo seus frutos.

Ainda que a Mercedes seja, de fato, a nova hegemonia da categoria, há esperança de competitividade: a disputa entre os companheiros de equipe promete ser acirrada. Em Melbourne, pole para Lewis Hamilton, vitória para Rosberg. Também não é excesso de criatividade supor uma batalha tão renhida entre ambos que um outsider venha a se beneficiar. (Alguém se lembrou de Alain Prost vencendo o título disputado na luta fratricida entre Mansell e Nelson Piquet?) E não é leviano pensar que a própria Red Bull esteja menos caótica do que sugeriram os testes de inverno, aumentando as chances de disputa na categoria em 2014.

Mas, se assistirmos a novo ciclo de dominação, agora com a Mercedes, não vou me espantar. Menos pelo recado apocalíptico de Nietsche, mais porque eu, poerinha da poeira, já vi esse filme um monte de vezes, assistindo à repetição da lógica que embasa essa categoria construída sobre altíssima tecnologia. Quem constrói primeiro um pacote rápido e confiável habitualmente consolida uma hegemonia. Você pode até achar chato, mas não se iluda de que é inédito. É só a ampulheta da existência, virando mais uma vez.

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

11 Comentários

  1. Guilherme disse:

    Parabéns, Alessandra. Como fã, eu sou suspeito para opinar sobre seus textos. Pra mim, sempre ótimos!
    Em relação aos roncos, eles me lembram aquela Torre dos roncos dos motores que a Estrela colocava nos autoramas da década de 70- 80.
    Meu autorama fittipaldi, que ainda funciona, tem o ronco quase idêntico aos motores de hoje, exceto pelo ruido da turbina(que quando criança, fazia com a boca!!!)

  2. Mário Salustiano disse:

    Alessandra e amigos

    Conteúdo de tua coluna ,Perfeito!!! é a palavra que me veio a mente

    Gostei muito da tua abordagem, e parabéns pela pesquisa minuciosa da história para embasar teus argumentos porque para mim fica um material rico para relembrar e saber mais sobre os ciclos de vitórias desde os anos 60.

    Em dois pontos penso exatamente da mesma forma que você , o primeiro é que também prefiro um domingo com corridas, por mais chatas que possam parecer, a esperança é minha palavra de ordem cada vez que sento para assistir uma corrida, e depois de uns anos para cá fica a expectativa durante a semana de abrir o Gepeto e ler as colunas e os comentários dos amigos leitores

    O segundo ponto é, sim hegemonias fazem parte da história da Fórmula 1, podem ser em ciclos mais curtos ou longos, mas existem e acho que sempre existirão. Também faço parte dos que acham normal esses ciclos , na minha opinião isso é fruto da natureza dos que buscam a evolução ou desbancar quem está ganhando, em suma hegemonia muitas vezes é a tradução de quem trabalha duro e melhor que o outro, o mundo precisa desses ciclos para evoluir.

    Sobre o Tite o que mais gosto nele é que de alguma forma ele nos faz sair do quadrado ,mesmo que pareça coisa de maluco, coisa que ele não o é….rsrsrs, ele faz aquilo que muitos gostariam mas poucos alcançam, ele instiga e provoca o leitor a pensar.

    Abraços

    Mário

  3. Allan disse:

    Quanto ao fato da distância ter sido grande, por outro lado a IMPREVISIBILIDADE voltou a dar as caras na F1… Pode ser que com 6 etapas a coisa tenha ido para o brejo novamente (o que significa carros inquebráveis), mas por enquanto o pole não vai largar tranquilo e ganhar a corrida. Isso sem contar que não se sabe se os motores aguentarão aquelas provas todas… E o câmbio? Enfim, a distância pouco importa, importa é não se ter certeza que Schumacher ou Vettel vai ganhar a corrida com 3 voltas…

  4. Allan disse:

    Liga não, Alessandra. O Tite é bem doidão… Emoção à flor da pele! Espólio da extinta e saudosa Moto Show (ou da Duas Rodas? Xiiiii…), capaz de textos loucos como o do Emerson Fittipaldi, após a queda do ultraleve há alguns anos, acordando no distante ano de 1978, como em uma viagem no tempo, e arrumando o F6 para se parecer com um F1 atual (da época do texto). Chegou a ponto do Emerson interferir no acidente do Senna! Enfim, falou sem pensar, já que sabe do riscado.

  5. Fernando Marques disse:

    Uma corrida apenas é pouco, muito pouco mesmo, para dizer que a Formula 1 será chata em 2014. Assim como garantir que a Mercedes já tenha uma hegemonia na categoria. Não dá para descartar a RBR, ainda mais com o potencial que ela tem e acumulou nestes últimos 4 anos.
    No mais chato mesmo só o ronco dos motores como bem disse o Mauro. Está faltando um Kadron lá no escapamento.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Mauro Santana disse:

      Pois é Fernando!

      Como que pode, a F1 que é a categoria máxima do automobilismo estar com um ronco desses!?

      Até uma corrida de fuscas tem um som muito mais lindo!

      Mas sabe o que é isso, reflexo de tanta porcaria que instalam nos carros, são tantos ersssss que da nisso.

      É tipo aquele paciente que de tanto tomar remédio acaba ficando totalmente grog.

      Abraço!!

      • Fabiano Bastos das Neves disse:

        Não consigo entender porque tanto lamento por causa do ronco dos motores.
        Querem ouvir barulho, aqui na minha cidade tem uma mulecada que gosta de andar de moto 125cc sem silencioso só pra fazer barulho. Vem pra cá!
        Agora falando sério, acho que é questão de tempo até que todos se acostumem.
        Por exemplo, até hoje não ouvi reclamações sobre o ronco dos carros LMP1 do WEC.
        Abraço!

        • Mário Salustiano disse:

          é meu amigo Fabiano

          Não vejo porque discordar de sua opinião, todos tem direito a ter seu gosto e isso não cabe discutir e respeito isso, eu sou dos que não gostaram desse novo som.
          Agora vale ressaltar que a partir do momento em que não são apenas lamentos de alguns torcedores pode ser que tenham errado na mão, fazem poucos dias que quem engrossou a fila dos insatisfeitos foram alguns promotores de GPs em carta dirigida a Bernie Ecllestone, que diga-se de passagem também tem feito criticas ao som, a preocupação é exatamente com a falta de vibração emocional que esses motores transmitem ao vivo o que pode afugentar publico dos autódromos. Já tive a oportunidade de assistir in loco diversas provas aqui em Interlagos de diversas categorias e 7 GPs da F1, o som de um motor não é meramente um “barulho”, ao vivo significa algo tão legal como ouvir uma boa música.

          abraços

          Mário

        • Mauro Santana disse:

          Concordo contigo amigo Mario, e respeito a opinião do amigo Fabiano.

          Eu tive a oportunidade de assistir a F1 em Jacarepaguá em 1988 e 1989, e posso afirmar que o ronco dos motores turbo(banidos no final de 88) era uma sinfonia extremamente exitante, mágico mesmo.

          Agora, em comparar com o ronco dos carros LMP1 do WEC realmente é pertinente, porem, uma corrida de F1 demanda de no máximo 2 horas de prova, ou seja, o público fica ligado a prova do início ao fim.

          Mas claro, que se voltarmos no tempo e compararmos o ronco dos Porsche 936, 956 e 962, e os Lancia LC1 e LC2, dentre outros, é também muito frustante ao ronco dos carros atuais.

          Como a raposa de rabo mais peluda de todas já se manifestou a respeito, logo logo teremos algo diferente a respeito do ronco dos bólidos.

          Cabe a nós aficionados por este esporte, apreciar o que 2014 nos reservou.

          Abraço!!!

        • Fabiano disse:

          Legal ver meu comentário tão bem respondido.
          É claro que também é uma questão de gosto, e que o ronco dos motores, nas diversas fases da evolução da F1, sempre teve seus fãs, já ouvi falar muito do ronco dos turbo dos anos 80, ou dos Matra, dentre outros.
          Só acho que é uma questão de tempo até que esse novo ruído se torne mais atraente aos nossos ouvidos. Não demora muito aparecerão fãs deste novo som.
          Eu aprendi a gostar de Sertanejo e Vanerão. Apreciar o som destes novos carros vai ser moleza!

  6. Mauro Santana disse:

    Belo Texto Alessandra!

    Olha, por enquanto eu só tenho a me queixar a respeito do ronco dos motores, que não é, e de longe, um ronco de um verdadeiro carro de F1.

    A respeito do Tite, gostaria, e muito, de vê-lo novamente escrevendo aqui no Gepeto, e vire e mexe releio as duas colunas escritas por ele “O Rio de Janeiro continua lindo 1 & 2 “, e sempre caio na gargalhada.

    rsrsrs

    Abraço a todos!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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