Everest

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Alguém ainda pensa em coragem, força, habilidade, entrega, idealismo, inteligência, engenho e preservação do valor humano quando as luzes verdes se acendem?

Em 4 de junho de 1924, o inglês Edward Norton alcançou 8.570 dos 8.848 metros do Monte Everest. Sozinho na fase final da escalada e vestindo um paletó de tweed para se proteger do frio, ele superou desafios indescritíveis e, mesmo não tendo chegado ao cume, escreveu uma página excepcionalmente heroica do alpinismo que, na época, era considerado um esporte.

O feito de Norton permaneceu inigualável por quase trinta anos e resumiu de forma extraordinária os valores do esporte: coragem, força, habilidade, entrega, idealismo, inteligência, engenho e, como arremate, a preservação do valor humano acima de tudo: rendido afinal às dificuldades insuperáveis do desafio, Norton reconheceu seus limites e retornou em segurança, em tempo de salvar a própria vida. No dia seguinte, seus colegas de expedição George Mallory e Andrew Irvine não conseguiram ou puderam fazer o mesmo e morreram quase certamente sem ter conseguido chegar ao cume, dando origem a uma das mais persistentes lendas do alpinismo e do esporte.

Setenta anos mais tarde, como mostra Everest, o filme recém-lançado e inexplicavelmente batizado no Brasil de Evereste, a maior montanha no mundo foi reduzida a pouco mais do que uma trilha radical para turistas abonados. Sintomaticamente, poucos definirão hoje o alpinismo como um esporte.

O filme, com uma ambientação bastante realista, conta a história da temporada de escaladas de 1996, em plena explosão do que poderia ser definido como alpinismo de badalação, os profissionais da montanha franqueando por dinheiro as suas habilidades e capacidade de organização para levar amadores até o cume mesmo que, para isso, tenham de amarrar uma corda na cintura deles e praticamente arrasta-los, fornecendo-lhes no caminho abundante oxigênio, medicação anticansaço e até mesmo cappuccinos e cervejas para ajudar a relaxar. Como a montanha sempre tem a última palavra, estava tecido o pano de fundo para uma das grandes tragédias da história do alpinismo.

O amigo leitor talvez intua até onde estou querendo ir mas não se trata aqui de criticar a banalização daquilo que, para Norton, Mallory, Irvine, Tenzing Norgay, Edmund Hillary (os primeiros a chegar ao topo do Everest, em 1953) e tantos outros heróis da montanha, foram esforço e sacrifício indizíveis. Estamos no século XXI, as coisas são diferentes hoje, há interesses comerciais e contratos envolvidos, não é possível sequer imaginar que as expedições voltarão a ser o que eram, os alpinistas trajando paletós de tweed ao invés de casacos da The North Face (uma homenagem à rota seguida por Norton e outros no Everest), que se utiliza de tecnologia aeroespacial para proteger o vivente do frio e do vento. Podemos apenas sentir saudades dos tempos pioneiros e discutir suas qualidade e defeitos.

O mesmo vale para o automobilismo.

A vulgarização das corridas, graças à hiperpreparação dos pilotos e equipes e o acúmulo de conhecimentos, tornados possíveis pelas quantidades himalaicas de dinheiro, parece reproduzir a mesma situação que levou o Everest a se tornar acessível a praticamente qualquer pessoa. Antes, era o homem X a montanha, o homem X o carro X a pista. Hoje, tudo ficou confuso.

Não vou me demorar historiando as diferenças entre a F1 do passado e a do presente. Apenas quero citar meu temor que a trajetória que eliminou a associação entre alpinismo e esporte possa estar ocorrendo agora, bem diante das nossas retinas tão fatigadas, com a F1. Alguém ainda pensa em coragem, força, habilidade, entrega, idealismo, inteligência, engenho e preservação do valor humano quando as luzes verdes se acendem?

Creio que não. Talvez seja por isso que o interesse pela Fórmula 1 caia de forma vertiginosa nos últimos tempos. E não há nada que possamos, eu, você ou Bernie Ecclestone, fazer contra isso.

Lewis Hamilton igualou em Suzuka a marca de vitórias na F1 de Ayrton Senna mas, e daí?

Senna é apenas uma fotografia na parede – mas como dói!

Hamilton não só já ganhou a temporada 2015 como, na minha opinião, é favorito destacado ao tetra no ano que vem.

Já que a Mercedes não cederá seus motores à RBR, Fernando Alonso não pilotará nem para uma nem para outra e que Nico Rosberg transformou-se numa versão alemã de Mark Webber, a esperança de alguma disputa real pelo título de 2016 está toda nas mãos dos engenheiros da Ferrari. Conseguirão eles fazer o motor italiano igualar os Mercedes? Estima-se hoje um déficit entre 25 e 30 cavalos. Caiu por terra em Suzuka a esperanças de que a mais recente versão do motor alemão fosse frágil. A melhor volta de Hamilton na corrida foi 1s7 mais rápida do que a de Sebastian Vettel!

À Ferrari, porém, não basta tornar seu motor mais potente – afinal, os italianos têm batido rotineiramente as demais equipes com motor Mercedes. É preciso também rever a arquitetura de seus motores, redimensionando-os de forma a permitir que a traseira do carro se torne mais estreita em seu terço final, o que foi conseguido pelos alemães. Segundo observadores, este é um dos pontos de força do Mercedes, garantindo ao carro mais estabilidade e tração. Hamilton, por sinal, disse que passava pela sequência de curvas rápidas de Suzuka como se estivesse num veleiro.

A Ferrari, informa Maurizio Arrivabene, não tem boas chances na Rússia (mesmo usando pneus macios e supermacios) e em Austin. Interlagos é considerada uma pista neutra, Abu Dhabi favorável, México uma incógnita.

O vexame da Honda em sua volta à Fórmula 1 vai se incrustando no mesmo capítulo reservado pela categoria às equipes Life e Andrea Moda mas vale lembrar que quando desembarcou na Fórmula 1 em 1983, a fábrica japonesa gramou por dois anos antes de começar a acumular poles e vitórias, demorando mais dois anos para tornar-se hegemônica, a partir de 1987.

Enquanto esse dia não chega, é divertido ouvir as botinadas de Alonso e Jenson Button nos motores japoneses. Em Suzuka, Alonso os definiu como “motores de GP2”. Depois relativizou as críticas, lembrando que conquistara o seu terceiro melhor resultado da temporada. Bem. Ao menos ele não disse que a frase foi reproduzida fora do contexto ou manipulada pela imprensa. Sobra o fato que, na F1 como na política, a palavra não tem mais valor.

E os motores Honda podem ser a única alternativa para a Toro Rosso em 2016, caso ela confirme o fim da parceria com a Renault.

O escândalo VW muito provavelmente respingará no automobilismo.

A marca meliante tem envolvimento intenso em várias categorias – já assegurou o Mundial de Rali deste ano e também o de endurance, via Porsche ou Audi – e falava-se que poderia chegar à F1, por meio da aquisição da RBR. Diante do escândalo e dos volumes de dinheiro envolvidos em indenizações e reparações é bastante provável que os investimentos no esporte sejam revistos.

Abraços
Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

2 Comments

  1. Fabiano Bastos disse:

    Eduardo,

    Brilhante paralelo traçado entre alpinismo e F1.
    Realmente não há como comparar a coragem que era necessária para pilotar os carros até meados da década de 80, antes da fibra de carbono, com o que existe hoje. Assim como em todas as outras atividades, a segurança evoluiu muito.
    Será que vale a pena viver nesse mundo “pasteurizado”, superseguro?
    Para mim, já basta o perigo de viver sob a administração pública brasileira.

  2. Fernando Marques disse:

    Eduardo,

    creio que os esportes em geral estão deixando de ser um esporte para se tornarem negócios … por isso vemos a vulgarização acontecer em muitas áreas do esporte … acabou o saudosismo … ninguém pratica mais um esporte em alto rendimento por amor … todos praticam unicamente para ganhar muito dinheiro … infelizmente é realmente um caminho sem volta …


    Eu estou achando que a RBR está fazendo muito barulho e muita chantagem na midia num assunto que deveria ao menos ser tratado de forma mais séria e sem muito badalo. Afinal de contas a possibilidade de se ter menos 4 carros na pista ano que vem não é nada bom para a Formula 1.


    Situação que fica mais grave se a Toro Rosso tiver que usar os motores da Honda … isso na prática significará menos 4 carros correndo de verdade nas pistas …


    Não podemos subestimar a Honda ( o passado mostra bem claro quem é a Honda) mas será que ela insistirá neste projeto se em 2016 repetir os mesmo resultados de 2015?


    Quanto ao escândalo da Volkswagen o que voce escreveu é um outro problema muito sério para o automobilismo em 2016 …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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