Fantasmas de Talladega

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– No creo en las brujas. Pero que las hay, las hay.

O velho ditado espanhol cunhado pelo imortal Miguel de Cervantes já foi associado a vários incidentes estranhos que já ocorreram no esporte a motor, como quebras inexplicáveis que acontecem, particularmente quando um piloto está na liderança de uma corrida.

O imponderável já decidiu várias corridas e campeonatos de um esporte tão científico como o automobilismo, no qual muitas vezes a razão está bem acima de crendices ou de eventos que não fazem muito sentido em um determinado momento.

Na Nascar existe uma lenda muito forte que, além da competitividade e dos resultados inesperados da categoria, eventos sobrenaturais atacam pilotos e equipes em uma determinada pista: o tradicional superoval de Talladega.

Quando o dirigente Bill France resolveu construir um circuito oval de 2,5 milhas no Alabama, no final da década de 1960, muitos vibraram com a perspectiva de um novo autódromo que tivesse a mesma velocidade de Daytona, já considerado na época a corrida mais conhecida da Nascar. Porém, France queria que a nova pista, construída em uma antiga base aérea na pequena cidade de Lincoln, fosse ainda mais rápida do que Daytona.

A pista teria a mesma forte inclinação do speedway da Flórida, mas bem mais larga, o que garantiria que os stock-cars atingiriam velocidades maiores do que do circuito de inspiração.

Mas quando Talladega ficou pronta, em 23 de maio de 1968, os pilotos da Nascar tiveram um misto de júbilo e espanto. A pista era mais extensa, com 2,66 milhas, e o ângulo nas curvas era ainda mais inclinado, chegando a insanos 33 graus. E finalmente a faixa de rodagem mais larga tornava a nova pista do Alabama a mais rápida da Nascar. Muitos pilotos desistiram de correr em Talladega devido às velocidades atingidas, mas as corridas aconteceram de forma normal até 1973.

Bobby Isaac era um dos principais pilotos da Nascar dos anos 1960, com várias vitórias. Ele próprio tinha o recorde da pista de Talladega, conquistada em 1970 (ano em que foi campeão, data da foto acima) com uma média de velocidade superior aos 320 km/h. Na corrida de 1973 em Dega, Isaac brigava pela vitória quando simplesmente parou seu carro no meio da prova sem nenhum problema mecânico. “Eu não tenho medo de morrer e nem tenho que provar nada a ninguém. Eu sei como é ser campeão e simplesmente veio na minha mente”.

Isaac resolveu abandonar a carreira naquele momento para surpresa de todos, inclusive do seu chefe de sua equipe Bud Moore. Mas intramuros, a decisão intempestiva de Isaac teria vindo de uma voz que surgiu em sua cabeça sem aviso, que o mandava parar de correr imediatamente. Bobby Isaac tinha nascido numa pequena cidade da Carolina do Norte, estado do Sul, e, portanto, era uma pessoa mais suscetível a coisas do além. O piloto teria ficado impressionado com essa voz ter aparecido no meio de uma corrida numa pista tão perigosa e parou imediatamente, assim como interrompeu sua carreira naquele momento.

E as coisas ficariam ainda mais impressionantes quando momentos depois do abandono voluntário de Isaac, o jovem piloto Larry Smith se acidentou no oval de Talladega. De fora, o acidente parecia até mesmo banal e a pancada nem parecia tão forte, mas Smith morreu no acidente, se tornando a primeira vítima fatal do super-oval. Anos depois, Isaac tentou um retorno em tempo integral à Nascar, mas acabou sofrendo um ataque cardíaco no meio de uma corrida.

Imediatamente, superstições surgiram sobre a pista do Alabama. O próprio nome ‘Talladega’ não é, digamos, muito ‘redneck’. O circuito fora construído numa planície chamada Talladega, porque no local existia uma tribo indígena do mesmo nome. Um dos seus chefes índios fora morto num domingo pelas forças do comandante Andrew Jackson, futuro presidente, no século XIX. Antes de morrer, o xamã teria lançado uma maldição sobre o local onde hoje está construído o majestoso Talladega Superspeedway. Há outros indícios que o local exato do autódromo fora um cemitério indígena.

Com todas essas histórias se tornando mais e mais populares, a pista de Talladega foi se tornando conhecida não apenas pela velocidade, mas também por ser assombrada. E os eventos esquisitos não pararam por aí. Em 1975, o lendário Richard Petty, o ‘Rei’, chegou para um pit-stop de rotina em Talladega, mas num incidente sem nenhuma explicação plausível, seu cunhado Randy Owens foi atingido de forma fortuita por uma garrafa de água pressurizada, matando-o imediatamente.

Doze anos mais tarde, Bobby Allison teve um pneu furado que o fez capotar e atingir a cerca de proteção, quase atingindo o público na pista. Milagrosamente Bobby escapou do acidente. Porém, a família Allison sofreria um choque ainda maior em 1993, quandoo filho de Bobby, Davey Allison se aproximava de helicóptero em Talladega para participar de um teste, mas acabou perdendo o controle do aparelho e morreu no local. Não raro, mecânicos ouviam barulhos esquisitos enquanto trabalhavam nos pits durante a noite e até mesmo os pilotos contavam que tinham várias superstições quando chegavam a Talladega.

Com o passar das gerações, as lendas foram ficando para trás e as histórias de que que esse superspeedway é um local mal-assombrado caíram no folclore da categoria, em que cada vez menos pessoas, principalmente envolvidas com a Nascar, acreditam nas velhas histórias do circuito de Alabama.

 

http://youtu.be/K9pH8i27jls

O recorde de velocidade da Nascar aconteceu em Talladega em 1987 com Bill Elliot, fazendo com que a categoria criasse as placas restritoras nos motores, deixando os carros menos potentes e mais lentos, mas também proporcionando que andassem muito próximos e em bloco, as chamadas ‘pack-races’, proporcionando os famosos ‘Big-Ones’.

O super-oval de Talladega é uma referência na Nascar e seus vários acidentes ocorrem muito mais pelos pilotos do que pelos antigos fantasmas da pista do Alabama.

Abraços,

JC Viana

P.S.: Neste fim de semana rolou mais uma prova nesse enorme e rapidíssimo oval. Como já era esperado, rolou alguns big-ones, e o vencedor foi o campeão de 2012, Brad Keselowski, a bordo de seu Ford #2 da Penske. Não há registro de aparição de fantasmas durante a prova.

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

2 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Pela coluna JC!

    Talladega sempre foi minha pista preferida da Nascar, e eu adorava correr lá quando jogava o Nascar Challenger do Nintendo no início dos anos 90.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

    • bslnew disse:

      Eu jogo hoje em dia esse jogo no emulador, jogo que por sinal me espantou no século XXI por ser bem realista!

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