Free Solo

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Em 3 de junho de 2017, Alex Honnold escalou o El Captain sozinho, sem o uso de cordas ou qualquer outro recurso de segurança, uma modalidade de alpinismo denominada Free Solo, dando origem ao documentário de mesmo nome, que venceu o Oscar 2019, o mesmo prêmio disputado por Democracia em Vertigem, de Petra Costa, neste domingo.

O nome pueril encerra uma técnica suicida. O alpinista depende apenas de si para seguir escalando. A partir de uns dez metros do chão, qualquer queda resulta em morte. El Cap, como é conhecido pelos íntimos, mede 910 metros e é descrito como “a muralha mais impressionante da Terra”.

Ao que se saiba, nenhum ser humano sequer tentou o feito de Alex. A primeira escalada da montanha, localizada no Parque Nacional do Yosemite, norte da Califórnia, aconteceu em 1958, com abundante uso de cordas. Mesmo assim, demorou 46 dias.

Alex precisou de apenas 3h56 para chegar ao topo e nem por cinco minutos pode se sustentar apenas sobre as próprias pernas, tal a inclinação do paredão de granito. Imagine fazer erguimentos na barra seguidamente por quase quatro horas, na maior parte do tempo usando apenas a ponta dos dedos, não a palma da mão. E lembre-se: qualquer falha, você morre…

Na maior parte do tempo, o alpinista que desafia o El Cap se sustenta metendo mãos, pés ou o corpo todo em frestas. Algumas delas não permitem que se coloque nada além dos dedos ou mesmo apenas a ponta deles. E isso é uma boa coisa em se tratando do El Cap, pois há trechos em que não existem propriamente apoios, por pequenos que sejam; há rugosidades, asperezas, que podem ser usadas como apoio por um breve instante, enquanto se lança o corpo para cima, em busca de algo mais consistente.

Particularmente impressionante é o trecho denominado Teflon Corner, um canto de 90 graus, a textura das paredes descritas como sendo “de vidro”, tão lisas são, a 610 metros do chão.

Há uma alternativa ao Teflon Corner, que acabou sendo a opção de Alex. Exige se sustentar com ajuda de uma fresta tão pequena que é possível introduzir nela apenas a ponta de dois dedos da mão – e mais nada. “É difícil entender porque ele quer fazer isso”, diz a namorada de Alex.

Creio que o que disse já seria mais do que suficiente para definir o feito de Alex como extraordinário. Coragem, habilidade, dedicação e entrega ganharam, graças a ele, contornos épicos, tudo projetado por uma equipe de filmagem que o acompanhou literalmente a cada centímetro da escalada e mergulhou fundo na vida do alpinista, permitindo revelar mais da psique de um esportista de altíssimo rendimento, um tema que tem me interessado de forma especial nos últimos anos.

O leitor que já viu o filme ou conhece o alpinista por certo já está juntando as pontas: Alex é muito parecido com Ayrton Senna, física e, no que nos é dado conhecer, também em personalidade e relação com o esporte.

Ambos têm rostos quadrados e ossudos, os cabelos em constante desalinho, a linha das sobrancelhas intercalada por uma renitente ruga, que lhes confere uma seriedade inata e, ao mesmo tempo, uma certa infantilidade, que nos suscita sentimentos protetores.

Não se nota em Alex, assim como não se notava em Senna, sinais de machismo cru, a testosterona escorrendo pelos cantos da boca. Seus corpos são sarados, mas de forma alguma hipertrofiados. Chega a ser chocante ver quão modestos são os bíceps e tríceps de Alex.

Quanto às personalidades, ele e Senna me pareceram gêmeos: duas almas atormentadas por demônios que só eles (ou nem eles próprios) conhecem, se impondo desafios que exigem sacrifícios literalmente mortais.

Pouco sei da infância de Senna. De Alex, fica-se sabendo em Free Solo que foi uma criança solitária, que se tornou um adulto solitário, morando numa van e fazendo a própria comida, gororobas ingeridas sem cerimônia, direto da panela, usando uma espátula de cozinha como colher. Ele informa que teve de aprender a abraçar aos 23 anos, pois isso não era prática na sua família. Também informa ter dificuldade para usar a palavra “amor”, mas ao longo do filme desenvolve “um relacionamento”, meio unilateral, meio relutante, com uma garota que sonha abertamente em prendê-lo a uma casinha na periferia de Las Vegas.

Um alpinista muito próximo de Alex sintetiza a dificuldade de relacionamento do amigo. “Ele veste uma armadura quando escala. Qualquer relacionamento que envolva algo parecido ao amor pode atrapalhar.” Lembra Senna, ao menos na parte inicial da carreira?

Free Solo aborda de maneira inspirada uma questão central do esporte de alto risco. Como o atleta domina o próprio medo?

Mais uma vez, Alex e Senna se aproximam. Pra começar, eles treinam e treinam. Depois, treinam mais e mais – Alex chegou ao ponto de fazê-lo mesmo com um dos pés imobilizado. E nas horas de descanso, eles repensam tudo o que aconteceu durante os treinos e desenvolvem raciocínios e alternativas. Se envolvem de tal forma com o esporte que abdicam, ao menos na aparência, de qualquer outra coisa na vida, inclusive amor e sexo, que parecem tratar como questões secundárias, acessórias, um desvio de função em alguns momentos até reprovável. O medo acaba soterrado por uma grossa camada de envolvimento e racionalizações.

Numa cena hilária do documentário, Alex topa se submeter a uma ressonância magnética. Na máquina, lhe são mostradas fotos sugerindo situações de perigo, um barco naufragando, por exemplo. Constatou-se que seu cérebro pouco ou nada reagia a situações assim, quando comparado a um cérebro de referência, seja lá o que isso quer dizer.

O próprio Alex arriscou uma interpretação: “talvez eu tenha exposto o meu cérebro vezes demais a situações de perigo”. Vai à frente: “eu tento ampliar a minha zona de conforto. Trabalho meu medo até ele não se assustar mais”. Informa ter escalado El Cap “umas 40 vezes” usando cordas de segurança, mas isso é só parte da história. O Free Solo pode ser treinado em suas passagens mais difíceis, bastando que o vivente esteja atado a uma corda de segurança. Alex treinou durante anos para a escalada sem cordas. Lembrei de Senna quando me disse em entrevista sobre seu desempenho em Donington 93: “é que eu estava determinado”.

Alex informa que não quer morrer, mas admite satisfação em fazer algo tão difícil. “Esse sentimento aumenta quando você está certo de enfrentar a morte. É bom se sentir perfeito, ainda que seja por um instante”. Uma frase que Senna subscreveria, sem dúvida.

Durante o período de filmagem, um amigo de Alex morre ao escalar o Everest. A namorada comenta sobre a tristeza da mulher do alpinista morto e tudo o que Alex é capaz de dizer é “o que ela esperava?”. A sequência me lembrou a reação da mulher de Gilles Villeneuve ao saber da morte do marido: “eu esperava por isso há sete anos”, disse ela.

Surpreendentemente, Alex desiste na primeira tentativa de vencer o El Cap. Sente-se inseguro logo no começo da escalada e volta para a van.

Nos três meses seguintes, treina de forma ainda mais obsessiva, a ponto de levar uma escova de dentes no bolso, para explorar microburacos no granito.

Quando ele finalmente enfrenta o monstro – anticlímax! –, o vence facilmente, rápido e sem sustos, mais ou menos como Senna em Donington.

Como começou a escalar às 4h, umas 9h estava de volta. À tarde, Alex já praticava barra com a ponta dos dedos, numa moldura improvisada na porta da sua van.

Pode ter sido apenas charme para o filme ou então a expressão mais verdadeira de um esportista de alto rendimento, que só se sente bem quando exposto ao maior dos desafios. É bonito e motivador ver os resultados de tamanho empenho, quando eles existem.

Não vemos, porém, a implacabilidade de viver dia após dia com este impulso certamente patológico, provavelmente destrutivo.

Abraços,

Eduardo Correa

P.S.: Free Solo está disponível em vários serviços de streaming, mas não no Netflix.

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

3 Comments

  1. Grande Edu, manancial de obras-primas.
    Obrigado por mais esta.

  2. Gus disse:

    Texto incrivel (só posso digitar com uma mao por enquanto, relevem a acentuaçao) – no netflix tambem tem um documentario precioso sobre a historia e a rica cultura gerada ao redor do el capitan atraves das decadas – IMPERDIVEL!!!!

    Abraço

  3. Marcel Pilatti disse:

    texto por demais maravilhoso, Edu.

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