Graham Hill e a atitude que salvou a Lotus

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No afã de dias melhores, escolhi esta coluna, originalmente publicada no início de 2015, para começar o ano com uma inspiradora história de superação.

Em 10 de maio de 1968, 1º dia de treinos para o GP da Espanha. a Lotus se encontrava perdida: seus mecânicos não sabiam bem o que fazer, Colin Chapman não apareceu no circuito (na verdade nem foi à Espanha) e fazia pouco mais de um mês que a equipe havia perdido sua principal estrela – Jim Clark havia morrido em Hockenheim em 7 de abril.

Logo Clark, o maior dos maiores. Qualquer piloto poderia morrer, mas não Clark.

Para contextualizar, naquela época os pilotos conviviam com a morte lado a lado e era comum se perder ao longo de um ano cerca de 20% do grid.

Para substituir Clark, Colin Chapman escolheu o inglês Mike Spence, mas eis que a tragédia, não dando trégua, ceifou a vida de Spence no treino para as 500 milhas de Indianápolis no dia 7 de maio.

Quando chegou aos boxes para o GP da Espanha, Graham Hill repensou bastante se devia estar lá, e que talvez fosse a hora de parar. Mas sua atitude acabou sendo diferente; ele chamou os mecânicos e os reuniu para conversar e fez um bom discurso. Tomando as rédeas da situação, ele resolveu competir e transformou o ambiente da equipe numa frase: “vamos em frente”.

Seu caminho até ali nunca foi direto e ele tinha consciência disso, segundo palavras de sua esposa Bette, numa entrevista muitos anos depois desse episódio na Espanha.

Voltando no tempo, Graham Hill se sentou pela primeira vez num carro de corrida quando já estava com 24 anos, isso em 1953, no famoso episódio em que ele pagou uma libra para dar quatro voltas no circuito de Brands Hatch num monoposto. Nesse mesmo dia ele conheceu Mike Costin, a quem pede uma carona de volta a Londres, já que ficara sem dinheiro. O motorista do caminhão era Colin Chapman e numa conversa entre eles, Hill pede um emprego e Chapman lhe oferece uma vaga de mecânico em tempo integral.

O que Hill queria mesmo era pilotar, mas Chapman não acreditava que ele tinha o potencial necessário para tal – apesar de em diversas oportunidades ele, como mecânico, conseguir dar voltas com tempos semelhantes aos dos pilotos da Lotus. Chapman acabou cedendo e deu a ele oportunidade em corridas de categorias menores, onde demonstrou que poderia sim pilotar com resultados consistentes.

Hill estreou na Fórmula 1 em 1958, no GP de Mônaco, num Lotus 12, que não passava de um Fórmula 2 com motor reforçado. Largando na última fila, faz uma corrida segura e regular, chegando à quarta posição na volta 75, quando uma roda se solta e ele abandona.  Apesar de algumas boas atuações, Hill e Chapman se desentendem com constância. Por conta disso e mais o fato dele perceber que na Lotus não tinha o espaço que almejava como piloto, Hill rompe com a Lotus e, na temporada de 1960, se transfere para a BRM. Seus dois primeiros anos na equipe foram de resultados pouco significativos. Em 1962, a história começa a mudar. O piloto inglês venceu quatro das nove provas da temporada e com mais dois segundos lugares, soma pontos suficientes para se tornar campeão mundial de Fórmula 1.

A conquista do mundial de 1962 proporcionou a Hill o reconhecimento de sua tenacidade como principal atributo. Nos anos seguintes, ainda pela BRM, conquista três vice-campeonatos seguidos, demonstrando que o sucesso de 62 não foi uma obra do acaso.

Juntamente com o mundial de Fórmula 1, Hill disputava provas de outras categorias do automobilismo. Fez parte da chamada invasão britânica às 500 Milhas de Indianápolis, tendo participado dessa mítica corrida na edição de 1966. Mesmo na condição de rookie, ele ganhou a prova.

Na Fórmula 1, o ano de 1966 foi muito fraco de resultados para Hill. A BRM, com o novo regulamento em vigor dos motores de 3 litros, tentou uma proposta bem ousada ao lançar um motor de 16 cilindros em “H”. Essa foi uma tentativa que se mostrou infrutífera e a partir daí a equipe começou o processo de decadência; com isso Hill logo estava se movimentou em busca de um carro mais competitivo para a temporada seguinte.

A Ford, em função de seu sucesso em Indianapolis e tendo em vista que lançaria o famoso Ford-Cosworth DFV, pressionou Colin Chapman para contratar Hill. O que a Ford queria era juntar dois pilotos fortes, para que a Lotus dominasse a cena com seus motores. Essa junção era perfeita para a época, Hill sendo considerado um excelente test-driver e Clark o melhor piloto da época.

A temporada de 1967, se não trouxe a conquista do mundial – Clark ficou em terceiro e Hill em sexto – mostrou que a Lotus seria imbatível no ano seguinte.

Na primeira prova de 1968, na África do Sul, disputada em 1° de janeiro, a Lotus faz uma dobradinha com seus dois pilotos, com Clark quebrando o recorde de Fangio, ao alcançar sua 25° vitória na categoria com Hill como um bom escudeiro terminando em segundo lugar.

Aí tivemos uma Hockenheim no caminho… A morte de Clark foi um tremendo golpe no mundo automobilístico, mas na equipe Lotus o golpe foi muito mais profundo.

Voltamos aos boxes de Jarama, na Espanha, dia 10 de maio. Pouco mais de quatro meses haviam se passado desde a África do Sul, onde a Lotus de imbatível assumia uma postura minguada e desanimada, sem saber o que fazer naquele momento.

Graham Hill também estava muito abalado com tudo o que vivenciara nesse período, só que ele tinha uma tenacidade e perseverança muito acentuadas e já havia passado por muitas dificuldades para simplesmente entregar os pontos.

“Vamos em frente”, disse ele aos mecânicos, e eles assim o fizeram. Nos treinos, Hill conquista um modesto sexto lugar no grid, enquanto Chris Amon marca a sua primeira pole, correndo pela Ferrari.

No GP, Hill mantém um ritmo seguro e constante desde o início, correndo em 7º , mas gradualmente vai subindo de posições até chegar à liderança da prova na volta 58, mantendo-a até a bandeirada na volta 90.

Depois Graham Hill declarou: “ganhei essa corrida por mim, por Jimmy, por Colin e pela equipe Lotus”.

No restante da temporada, volta a vencer em Mônaco e no México, conquistando o bicampeonato de pilotos pela Lotus.

Colin Chapman, a despeito de tudo o que haviam vivenciado nos últimos anos, admirava Hill. Mas, poxa, havia um Jim Clark para dividir essa admiração! E convenhamos: não devia ser fácil competir com Clark também nesse quesito.

Antes de assumir o automobilismo, Hill passou vários anos envolvido ativamente em competições de remo. Inicialmente, competiu pelo Southsea Rowing Club, enquanto estava na Marinha Real e pelo Auriol Rowing Club, em Hammersmith.

Em 1952, se juntou ao London Rowing Club, um dos maiores e mais bem-sucedidos clubes na Grã-Bretanha. De 1952 a 1954, Hill remou em quase vinte finais de competições, conquistando oito vitórias em campeonatos.

Hill admitiu que a experiência adquirida no remo o ajudou em sua carreira no automobilismo. Ele escreveu em sua autobiografia:

“Eu realmente gostei muito de ter participado de competições no remo. Isso me ensinou muito sobre mim mesmo, e eu também acho que promoveu uma grande construção do meu caráter sobre o esporte. A autodisciplina necessária para o remo e a atitude – Never Say Die – obviamente me ajudou a atravessar os anos difíceis que estavam por vir”.

Bicampeão de Fórmula 1, vencedor de uma edição das 500 milhas de Indianápolis e uma edição das 24 horas de Le Mans (1972), em maio de 1968 Graham Hill usou de toda a sua autodisciplina, tenacidade e motivação para não deixar a Lotus parar e com isso seguir em frente.

Amigos, 2020 está apenas começando. Por isso, vamos em frente!

Abraços,

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    Mario,

    a escolha da memória de Graham Hill e Jim Clarck (por que não) mantem desde já em 2020 a essência do GEPETO que é contar e relembrar a história da Formula 1 e do automobilismo mundial.
    Querer entender a Formula 1 atual sem saber da sua história não dá certo.
    G. Hill sempre teve a minha simpatia como piloto. E ter vencido em Monaco na Formula 1, as 24 Horas de Le Mans e as 500 Milhas de Indianápolis, feito até hoje inalcançável por qualquer outro piloto, já deixa claro do quilate de piloto que ele era.
    Fernando Alonso vai tentar igualar Hill novamente em 2020, ao dispustar as 500 Milhas. Se conseguir vale a aí uma semelhança. Hill foi Bicampeão Mundial de Formula 1. Alonso também. E ambos venceram em Monaco e Le Mans. A unica diferença é que Hill foi Mister Monaco por muito tempo. Esse título Alonso nunca vai ter.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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