Grand Slam

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Lewis Hamilton conquista a vitória e um feito que não acontecia havia 25 anos!

Vocês repararam que neste GP da Itália Lewis Hamilton cravou a pole, a melhor volta da corrida e venceu liderando todas as voltas? Sim, isso é mais que um Hat Trick (pole + vitória + melhor volta), é um Grand Slam, ou Grand Chelem, a vitória mais do que perfeita.

A única pessoa do Planeta Terra a fazer isso anteriormente no palco sagrado de Monza foi Ayrton Senna em 1990, quando conseguiu um quarto de século atrás fazer tudo isso na cara de Alain Prost e da Ferrari. De quebra, ainda ganhou de Ron Dennis a McLaren-Honda MP4/5B #27 vitoriosa naquela corrida. (Em tempo: aos mais novos, digo que a parceria McLaren e Honda já foi muito vitoriosa. Não é essa situação patética de hoje)

Conseguir um Grand Slam em Monza é dificílimo. Este é um circuito com poucas curvas e diversos pontos de ultrapassagem. Perder a liderança ou não ser o autor da melhor volta é mais fácil do que em outros circuitos.

Quando escrevi anos atrás sobre essa conquista de Senna em 90, apontei que para conseguir a vitória mais do que perfeita, são necessários dois fatores fundamentais: ter um carro bastante superior, e em um circuito com raros pontos de ultrapassagem. Senna não tinha nem um, nem outro fator à favor.

Lewis teve. Por mais que Monza seja, de fato, farta em pontos de ultrapassagem, o inglês loiro (?) tinha um carro amplamente superior às Ferraris que o cercavam no grid de largada. Uma delas ficou fora de combate logo no apagar das luzes vermelhas: Kimi Räikkönen, como dizia minha vó, estava pensando na morte da bezerra, se embaralhou com a embreagem e ficou lá atrás. Já Sebastian Vettel largou bem, mas não a ponto de roubar a ponta. Seu ritmo de prova também não se compararia à Mercedes do rival, que sumiu de vista.

Nico Rosberg, por outro lado, teve um fim de semana horroroso. Não liderou treino algum e, além de já tomar 11×1 nas qualificações deste ano, nem ao menos qualificou seu carro à frente do duo da Ferrari. Teve que remar durante toda a prova e disputar posições com as Williams – com um valente Felipe Massa à frente de Valtteri Bottas. Quando finalmente Nico se aproximava de Vettel para tentar a 2ª posição, viu pelos retrovisores seu motor explodir, o que justifico mais adiante.

Resumidamente, o conjunto que poderia ameaçar Hamilton (Mercedes + Rosberg) esteve fora de combate todo o tempo. E os outros carros simplesmente não estavam à altura.

O fator final para Lewis conseguir seu Grand Slam foi a ordem da Mercedes de enfiar a bota nas voltas finais, o que levou o piloto a marcar a volta mais rápida no giro 48 e vencer com folgados 25 segundos de vantagem. Não para que o inglês se equivaler a Senna nos livros de história, mas sim para que seus pneus continuassem mais inflados, pois o time prateado estava com pelo menos um dos pneus abaixo da pressão mínima estipulada pela Pirelli.

A vitória de Lewis ficou ameaçada por isso nas horas seguintes, mas a direção de prova acabou confirmando o triunfo, que o colocou em posição de conseguir o tricampeonato mundial mais cedo do que imaginávamos.

Por mais que isso cheire a sacanagem (afinal, a Pirelli determina a pressão mínima por questão de segurança), o técnico da equipe Paddy Lowe disse que a Mercedes não entendeu o que aconteceu, uma vez que os pneus são montados e inflados sob supervisão de um técnico da Pirelli, que está lá justamente para monitorar temperatura e pressão.

Ao vermos essas diferenças, do GP da Itália de 2015 para o que aconteceu em 1990, quando tínhamos uma rivalidade explosiva entre Senna e Prost, McLaren e Ferrari, e um título mundial sendo disputado palmo a palmo por estes, percebemos que até mesmo um Grand Slam da F1 em Monza não é mais como antigamente…

Eu também estou murcho. Dói demais ver uma F1 sufocada pela estupidez das regras. Dói porque a gente gosta. E porque nossa paciência acaba sendo testada etapa por etapa. A cada regra nova, criam não apenas um, mas sim três ou quatro novos problemas que, se não se apresentam imediatamente, vão fazer estrago mais adiante. É impressionante, parece areia movediça: quanto mais mexem, mais afunda. (Isso para não usar quaisquer metáforas de cunho escatológico.)

O fim de semana já começou com um total de 162 punições de grid, para diversas trocas de componentes de diversos pilotos. São quase três grids completos de Le Mans! Virou uma maratona determinar as posições. E em meio a essas aberrações, as Manors lanterninhas largaram em 13º e 14º.

A Fórmula 1 finalmente percebeu que estes novos carros são complexos demais para se exigir durabilidade de componentes por várias corridas. A proibição dos testes durante a temporada só piora as coisas, pois equipes que precisam aprimorar os componentes simplesmente não têm como fazer isso. Renault e McLaren Honda são exemplos práticos.

O estouro do motor de Rosberg, que era para ser algo “natural”, foi provocado por um regulamento que pune os pilotos caso as equipes não tenham confiabilidade! O alemão estava em sua sexta corrida com o mesmo motor, justamente para prevenir uma punição na troca do propulsor. Ou seja, até as quebras são artificiais!

Mais sobre pneus. Vamos voltar no tempo e ver que a Pirelli é a única fornecedora de pneus desde 2011, ano em que Vettel não deu quaisquer chances à concorrência. Ele e Red Bull formaram um conjunto superado em poucas vezes. Seu companheiro Mark Webber, que tinha disputado o título em 2010 quando calçado com Bridgestone, não se adaptou à borracha italiana e jamais foi uma ameaça.

Então veio 2012, e a criação do pneu farofa. Foi pedido à Pirelli que os pneus fossem cada vez mais “paçocas”, para dar graça às corridas. Afinal, o decaimento violento de performance fazia com que equipes tivessem enorme dificuldade em equilibrar os níveis de aderência, ao mesmo tempo em que gerava discrepâncias de desempenho na pista que acabavam por facilitar o surgimento de brigas por posição e ultrapassagens.

Bernie Ecclestone jactava-se de ter trazido a F1 imprevisível de volta, com diversos pilotos e equipes conquistando vitórias nas provas iniciais, incluindo um improvável Pastor Maldonado vencendo pela Williams. Alguns já se adiantavam em dizer que era um campeonato tão imprevisível quanto o de 1982 – algo precipitado, com alguma pitada de deslumbre.

Adrian Newey quebrou a cabeça e, no terço final do certame, conseguiu fazer a Red Bull andar bem com aqueles pneus. Sebastian Vettel conseguiu um monte de vitórias no fim do ano que lhe garantiram o título, numa hegemonia que já havia sido vista em 2011, na primeira vez em que um campeão não ganhou corrida algua na Europa.

Para 2013, puxaram ainda mais a farofa. Mas então veio a corrida de Silverstone. Com aquelas curvas insanas de raio longo e marchas nas alturas, pneus de paçoca não aguentaram o tranco, com vários pilotos rasgando suas borrachas. A Pirelli precisou fazer um pneu mais reforçado e Sebastian Vettel venceu 10 das 11 corridas restantes do ano.

Pra 2014, as regras de motores mudaram, e a Mercedes passou a ser o conjunto hegemônico. Não tivemos grandes problemas de pneus até então. Isso até a corrida anterior, na Bélgica, quando Nico Rosberg teve um furo a aproximadamente 300 km/h e Sebastian Vettel disparou várias críticas.

Por sinal, pilotos agora estão proibidos de fazer críticas à Pirelli. O autor da proibição? Tio Bernie, claro. Um cara que não sabe o que é livre concorrência ou liberdade de expressão. (Por sinal, as fotos desta coluna são do site da F1. Bernie, eu imploro, não me processe!)

No sábado, Jackie Stewart proporcionou um belíssimo momento flashback ao reencontrar a BRM P261 com a qual venceu o GP da Itália de 1965, seu primeiro triunfo na F1, exato meio século atrás.

Era apenas a oitava corrida do escocês na categoria, e já mostrava um futuro brilhante para este que foi um dos maiores de todos os tempos. Para recriar o momento, Sir Jackie usou o mesmo capacete aberto com a tradicionalíssima faixa xadrez escocesa (a saber: ela se chama Royal Stewart Tartan), e levou em sua bagagem o lindo troféu que ganhou na ocasião.

Outro momento para derreter o coração dos saudosistas foi o evento da Shell em um dos antigos curvões inclinados. Ao lado do carro atual, SF-15T, uma Ferrari 166 F2 de 1948, com uma daquelas charmosíssimas bombas de combustível antigas.

Por motivos financeiros, esta pode ser ter sido a última corrida da F1 que assistimos em Monza. Pior do que ter uma corrida lá marcada por regras estúpidas é ver Monza ser substituído por um Tilkódromo qualquer – igualmente marcado por regras estúpidas…

Por falar em flashback, a Nascar correu neste fim de semana em Darlington, e a corrida foi especial porque diversas equipes levaram para o mais tradicional oval da categoria diversas pinturas retrô, em alusão a layouts e logos do passado.

Foi um tremendo sucesso em termos de repercussão. Todos queriam ver as pinturas throwback e tenho certeza que isso vai se transformar em vendas de miniaturas especiais e produtos relacionados num futuro breve – se é que já não está acontecendo neste exato momento.

Dentre vários carros atraentes, o mais popular foi o Chevrolet #42 de Kyle Larson, que ganhou a pintura Mello Yello usada por Tom Cruise no filme Dias de Trovão, e que foi uma reviravolta para essa marca de refrigerante até então rejeitada pelo público. De esquema fictício, o Mello Yello passou a ser as cores do carro de Kyle Petty entre 1991 a 1994.

É, é o que você acabou de pensar: enquanto isso, na F1 você nem pode mais mudar o desenho do maldito capacete.

Mas eu paro por aqui, pois esta corrida e as pinturas retrô certamente serão alvo da próxima coluna de Nascar do meu amigo Rafael Mansano.

Termino minha coluna fazendo uma menção ao amigo leitor Murilo Corrêa, que na minha coluna anterior, em que falo da perfeição de Jim Clark, topou o desafio de encontrar algum erro de pilotagem do escocês.

E ele de fato encontrou! No GP da Alemanha de 1966, disputado no clássico Nürbrugring. Jimmy ainda conseguiu cravar uma pole improvável com a Lotus 33 usando o motor Climax, que tinha cilindrada de apenas 2.400cc e muito menos potência que o Repco V8 da Brabham ou os V12 de Ferrari e Maserati, da Cooper, todos já no regulamento novo de 3.000cc.

Na corrida, em chuva, foi superado já na largada com pista molhada, caindo para quinto. Enquanto Jack Brabham seguia para uma vitória de ponta a ponta, Clark também perdia terreno para outros competidores. Acabou cometendo um erro e batendo na volta 13. Ele havia escolhido mal os seus pneus Firestone, que não foram páreo para os Goodyear da Brabham ou os Dunlop usados por Cooper e BRM.

Isso definitivamente descarta que Clark tenha nascido em outro planeta.

Abração!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

5 Comentários

  1. wladimir duarte sales disse:

    Sem Monza a formula 1 não existe. Digo o mesmo se Spa, Silverstone e Mônaco também forem ameaçadas algum dia. A F1 não é Bernie Ecclestone! O campeonato pode voltar a ser grandioso sem essa mula velha mais atrapalhando que ajudando!!!

  2. Fernando Marques disse:

    Para quem não viu as ultimas voltas do duelo entre Massa e Bottas
    vejam abaixo:

    http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/voando-baixo/post/massa-x-bottas-o-que-ninguem-viu.html

    Fernando Marques

  3. Rafael Carvalho de Oliveira disse:

    Lucas Giavoni sempre arrebentando em seus textos! Eu gostei do GP da Itália deste ano, foi mais emocionante e tivemos boas disputas. O Negão ja esta com a mão na taça! Rosberguinho foi só fogo de palha! Bela corrida do Massa! Maldonado sendo Maldonado. Nasr (Senna reverso) vem me decepcionando um pouco, constantemente vem tomando pau do celular Ericsson! Sera que Ericsson não é esta draga toda que eu imaginava? Mclaren dizem os jornais que os caras estão pedindo a cabeça do Yasuhida Arai, mas sera que a culpa é somente da Honda? Raikkonen eu daria nota 7, dormiu na largada e depois teve uma boa corrida de recuperação. O time de três pontas afinou em fornecer motores para a Red Bull. Por que sera? Acho que pelo bem da F1, o tio Bernie bem que poderia ter algum mal súbito e se afastar do controle da F1 não é mesmo? Se o GP da Itália realmente ficar de fora vai um tiro no pé. Uma duvida: nas outras categorias (o WEC por exemplo) tem estas regras ridiculas? E se o tal grupo de estrategia da F1 fosse eliminado ajudaria em algo? Max Mosley fez merda mas pelo menos ele tinha pulso firme, contrario do Mickey Mouse.

  4. Mauro Santana disse:

    Grande coluna, amigo Lucas!!

    É possível você passar o link da coluna que você escreveu do Senna Monza 1990?

    Depois de ver o Nascar com a pintura Mello Yello, bateu uma vontade de assistir novamente o filme Dias de Trovão.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  5. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    regulamentos e politica a parte a corrida em Monza foi boa de se assistir.
    A TV nem deu bola pro Hamilton e Vettel, que fugiram na frente e focou as suas lentes na briga pelo terceiro lugar que foi intensa do inicio ao fim da corrida. Felipe Massa que éo diga. Eu gostei da corrida, foi bem mais interessante que o GP da Bélgica com todo o respeito que SPA merece ter.
    A temporada de 2015 já tem mais que dono.
    Nico Rosberg nunca foi tão Rubens Barrichello (em seus tempos de Ferrai) na vida quanto em 2015. Sempre andando atrás e só ele tendo problemas. Duvido que a Mercedes permita uma reviravolta a esta altura do campeonato.
    Quem mais deu show nas pistas foi o Kimi Raikkonen. Tirando a largada (o quão bom foi a sua largada para a corrida), fez um corridaço. Torci como nunca para o Ice Man.
    Quanto ao regulamento da Formula 1, sei lá, acho que o Tio Bernie fez algum curso específico ministrado pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Além de ser ruim, piora a cada ano que passa.
    Quanto a Pirelli não nos resta orar: GoodYear!!!! Nos acuda pelo amor de Deus!!!!
    Como são lindos a Ferrari 166F2 e a BRM P261 do J. Steuwart. Não entendo como a organização teve coragem de colocar a Ferrari atual, de tão feia, é perto da 1948.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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