Hasta la vista, Bernie

Duas vidas
16/03/2015
Clangor
20/03/2015

Schwarzenegger surgiu no pódio de Melbourne como o símbolo de uma categoria amarrada a um passado de, pelo menos, vinte anos.

“Puxa, pensei que você fosse mais alto.” Neste mundo de simulacro em que vivemos – tudo é programado, ensaiado e calculado para dar a impressão de ser espontâneo – confesso que senti sinceridade nas palavras de Lewis Hamilton, ao ser apresentado para Arnold Schwarzenegger no alto do pódio, em Melbourne. Aos 67 anos, o consagrado ator de filmes de ação e ex-governador da Califórnia foi convidado para conduzir as entrevistas com os três primeiros colocados do GP da Austrália, posto que, normalmente, é ocupado por algum ex-piloto, como Nelson Piquet ou Martin Brundle.

Mas, perguntariam alguns, por que Schwarzenegger? Não consta que o Exterminador do Futuro tenha algum apreço especial por automobilismo, como era o caso de Paul Newman ou Steve McQueen. Nem qualquer desempenho memorável na pele de algum ex-piloto, como James Garner e Yves Montand, adversários no mítico “Grand Prix”, ou mais recentemente, Chris Hamsworth e Daniel Bruhl, respectivamente James Hunt e Niki Lauda, em “Rush”.

A escolha por Schwarzenegger deve ter uma explicação simples: patinando na audiência há muito tempo, a organização da Fórmula 1 (leia-se Bernie Ecclestone) quis chamar a atenção, levando um grande astro de Hollywood para o alto do pódio da corrida de estreia. Se a intenção era essa, por que não levar um dos atores que arrastam multidões aos cinemas, como o próprio Hemsworth, internacionalmente conhecido como o Thor? Talvez porque ele seja o quinto ator mais bem pago de Hollywood atualmente, faturando perto de 40 milhões de dólares por ano e não esteja interessado em associar sua imagem a uma categoria esportiva cada vez menos relevante.

Pode doer em nós, amantes da Fórmula 1, mas a categoria caminha para ser um depositário de subcelebridades, caso não se atualize com urgência. Em 2009, quando conquistou seu único título, o inglês Jenson Button comentou que estava curtindo a fama, ainda que, seguidamente, ele fosse confundido com o cantor Chris Martin, vocalista da banda Coldplay. Na ocasião, a afirmação me causou estranheza. Para mim, seria mais fácil eu ver uma foto de Chris Martin e achá-lo parecido com Button e não o contrário. Afinal, a referência para mim era o piloto, não o artista. Engano meu. Dê uma busca em Chris Martin e você achará 580 milhões de referências no Google. Button? 14 milhões.

Às vésperas do GP da Austrália, o colunista Erich Betting, cuja página Negócios do Esporte está abrigada no Uol, escreveu sobre a categoria, em um post com o título “Sem inovar, Fórmula 1 vai virar um ex-esporte”. Um dos trechos escritos pelo colega vai ao encontro do que escrevi acima:

“Nos anos 80 e 90, a categoria alcançou seu ponto de maior prestígio no mundo. Ser piloto de Fórmula 1 era o máximo que um homem poderia querer na vida. Ela seria cercada de carros, mulheres e viagens. Era o status defendido e venerado nas páginas da Playboy levado a um nível ainda mais alto, já que envolvia jovens esportistas andando a 300 por hora.

Não por acaso, a F1 era uma categoria que circulava pelos lugares mais badalados da Europa, tinha patrocínio de marcas de bebida e cigarro e reunia algumas das marcas mais luxuosas do mundo entre seus parceiros comerciais.

O problema é que o mundo mudou. As páginas de Playboy já não são impressas em tão larga escala, os jovens mudaram bastante seus conceitos e, hoje, parece que o universo da F1 não faz tanto sentido assim.”

O diagnóstico é preciso. A Fórmula 1 hoje vive em um mundo paralelo, anacrônico, dissociado da realidade. Nesse mesmo post, Beting chama a atenção para a visão estreita de Bernie Ecclestone em relação ao público que acompanha a categoria. O chefão já disse que não está interessado em rejuvenescer a Fórmula 1, porque jovens não têm dinheiro para comprar os produtos que ela pode divulgar, acrescentando que prefere aproximar-se de gente de 70 anos, esses sim, endinheirados.

Já comparei Bernie à larva nojenta chamada berne, Eduardo Correa desejou sua morte e a fila de impropérios desferidos contra o supremo mandatário supera 200 mil verbetes, ou 1 milhão, como queira. No fundo, acho que Ecclestone é só um velho rico empacado em sua obsessão de ganhar muito dinheiro, sem se importar que a categoria sobreviva a ele mesmo. Na cabeça branca do velhote, só quem consome é o colega septuagenário rico que, para quem tem 84 anos, é um menino na flor da idade. Bernie ignora públicos consumidores relevantes, como as mulheres, e parece não perceber mudanças sociais e demográficas importantes.

Nos anos 1980, o consumidor potencial de Fórmula 1certamente seria o homem adulto com situação econômica estabilizada, que deixaria a esposa em casa cuidando da prole enquanto ele se internava em um autódromo no fim de semana, para ver carros correndo. O mundo é outro, mas Bernie parece não perceber.

Os esportes que mais cresceram em arrecadação nos últimos anos concentraram seus esforços em congregar a família inteira em seus eventos. Basta nos lembrarmos da torcida – brasileira ou estrangeira – na Copa do Mundo de 2014, com significativa presença feminina e de crianças.

O argumento de que a Fórmula 1 não cresce em outros público porque é um esporte essencialmente masculino não se sustenta. O MMA cresceu tanto entre as mulheres que hoje elas não só representam em torno de 47% do público no Brasil, segundo pesquisa do Ibope de 2014, como também passaram a engrossar as aulas da modalidade em clubes e academias especializadas. O interesse das mulheres pelo MMA fez eco na organização do UFC, que criou uma competição mundial feminina, faturando alto tanto com a venda de ingressos quanto com direitos de transmissão para TV e com publicidade.

Nada disso parece demover Bernie, congelado em um tempo que não existe mais. A queda de audiência da Fórmula 1 no mundo inteiro, em um movimento praticamente constante nos últimos anos, leva a organização da categoria a medidas esdrúxulas, quase sempre voltadas para o aumento artificial da competitividade. Nada surtiu efeito nesse sentido: a introdução da asa móvel; a utilização de pneus que se desmancham com poucas voltas de corrida, forçando os pit stops, que se tornaram praticamente a única oportunidade de troca de posições; a introdução ampliada de safety car para aproximar os líderes do resto do pelotão; as mudanças de regulamento técnico visando à quebra de domínio desta ou daquela equipe.

Os ciclos de dominação continuaram se sucedendo, como sempre foi na Fórmula 1. Só que, agora, a situação surge agravada pela falta de perspectiva de disputas até entre as posições intermediárias, algo que costumava dar alguma graça às provas, mesmo que carros de outro planeta se desgarrassem lá na frente. E por que a disputa é quase improvável hoje em dia, na Fórmula 1?

Porque, da mesma forma que só se interessa pelo macho-adulto-rico na arquibancada, Bernie também não está a fim de franquear a categoria para mais equipes. Já disse, inclusive, que não se importaria se a Fórmula 1 tivesse ainda menos times do que tem. Menos equipes, engessadas no desenvolvimento de seus carros, presas a uma única marca de pneus: a Fórmula 1 hoje é uma ode ao cerceamento da liberdade.

Além do cachê provavelmente mais baixo, Schwarzenegger surgiu no pódio de Melbourne como o símbolo de uma categoria amarrada a um passado de, pelo menos, vinte anos. Lá, o Exterminador era um ator de prestígio, Bernie era um dirigente moderno e a Fórmula 1, um esporte de massa.

Por fim, um recado dos administradores do GPTotal: se você não conseguir postar seu comentário na própria coluna, tente via Facebook. Nos últimos dias, a caixa de mensagens do GPTotal tem sido vítima de centenas de spams.

 

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

10 Comments

  1. Mauro Santana disse:

    Fala Bruno!!

    Não me incomodei com o seu comentário, e claro que respeito a opinião de todos.

    Mas, acredito que o público tem que se manifestar contra as coisas erradas que estão sendo feitas com a F1, pois se ficarmos calados, aí sim que a vaca vai pro brejo de uma vez por todas.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Fabiano Bastos das Neves disse:

    Excelente coluna Alessandra!
    Concordo contigo que o problema da F1 reside na vontade de alguns (principalmente do Bern(i)e) de manter os olhos no passado.
    O mundo está mudando muito rapidamente e a F1 continua parada no tempo em muitos aspectos.
    Hoje li um comentário (não me recordo de quem) que sugeria que, num futuro próximo, a F1 poderia ser substituída como ápice do automobilismo, assim como o Boxe foi substituído pelo MMA.
    Talvez este processo até já tenha se iniciado: o WEC está crescendo, possui um regulamento “vale tudo”, muito mais atraente para os fabricantes; a Fórmula E é um sucesso de público e ano que vem terá uma diversidade de fabricantes.
    Se a F1 não correr atrás do prejuízo, num futuro próximo podemos vê-la perder a posição de ponto mais alto do automobilismo.

  3. Bruno Wenson disse:

    Me impressiona ler que muitos dizem que a F1 dos bons tempos acabou, que essas corridas não tem mais espetáculo, que tá tudo ruím, mas… Continuam assistindo e comentando.
    Assisto há 21 anos e vejo pouca diferença. Hegemonias, um ou dois pilotos a ter chances de título, equipe morre, equipe aparece, umas decaem, outras se recuperam.. Nada de novo nas duas décadas passadas.
    Mas, assistam istoqui car. Parece que lá, quando a Globo passa a corrida, tem tudo isso que tinha na F1 “das antigas”.
    Até a Malásia, onde todos aqui estarão assistindo pra depois achar chato e sem disputa.

    • Mauro Santana disse:

      Bruno Wenson

      Eu sou um que reclamo, pois a F1 pela qual me apaixonei à 30 anos atrás, era muito diferente e muito melhor, pois o que temos nos dias atuais, é muita bizarrice.

      E enquanto eu continuar reclamando desta F1, é porque eu ainda a amo e espero de coração que ela possa voltar a brilhar, com carros lindos e barulhentos, um grid farto(com pré qualificação) e autódromos clássicos.

      Mas se esta bom pra você do jeito que esta, então aproveite, pois os sinais estão cada vez mais claro, de que a maioria dos fãs não estão contentes, e infelizmente a F1 esta caminhando para a extinção.

      Mauro Santana
      Curitiba-PR

      • Bruno Wenson disse:

        Caro Mauro, bom, bom, bom não está. Mas, até tá bom por que ainda temos transmissão ao vivo e integral. Eu gostava da Indy, mas o desrespeito da Band me desanimou.
        Quanto a F1, eu percebi a queda, mas não dá pra fazer algo. Bernie não ouve ninguém que não possua menos de alguns bilhões. E é ele que manda lá, ponto!
        Aguardemos a morte dele para alguém com mais visão de futuro restaurar esse espetáculo do qual já assisti mais de 400 apresentações desde 1994.
        E, não se incomode com meu comentário acima. É frustração por nada podermos fazer.

        Valeu!!

      • Marcelo C.Souza disse:

        Olá Mauro!

        Parece mesmo que se o “Tio Bernie” não morrer logo,a F-1 será “enterrada” por ele! Lamentável !!!

        Um forte abraço!!!
        Marcelo C.Souza

  4. Mauro Santana disse:

    Grande texto Alessandra!

    Duas perguntas:

    1º – O que pensam a respeito disso tudo, pilotos do passado como Piquet, Brundle, Fittipaldi, Stewart, Prost e tantos outros?

    2º – Se a Raposa veia bater as botas amanhã, quem seria o nome mais sensato a assumir tal posto?

    Se perguntassem a piazada da minha geração qual era um dos maiores sonhos, as respostas se dividiam em ser piloto de F1 ou jogador de futebol.

    Hoje em dia, a piazada se aglomeram jogando vídeo games cada vez mais modernos, sendo a maioria interessada em jogos de futebol e tiro teio, mas, F1, não esta mais na lista de prioridades de muitos.

    E a conclusão do seu texto, Alessandra, foi mais que perfeita.

    Parabéns!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Fernando Marques disse:

      Mauro,

      1) Piquet creio que já deu entrevistas dizendo que os carros da Formula 1 são fantásticos atualmente … acho que a maioria pensa da mesma forma …

      2) Não existe a meu ver um consenso dentro do circo de quem poderia substituir a Raposa felpuda …

      3) Um dos problemas do futebol brasileiro atual está exatamente na criançada. Todos sonham em ser jogador de futebol mas do Barcelona, Real Madri, Milan … ninguém quer mais jogador do Flamengo. Coritnhians, são Paulo, Inter-RS, Cruzeiro … rsrsrsrsrsrs

      O mundo muda a cada instante mas alguns setores não evoluem como os dirigentes da Formula 1, do futebol brasileiro, do narrador da venus Platinada … rsrsrsrs

      Fernando Marques

  5. Fernando Marques disse:

    Alessandra,

    a mentalidade da Formula 1 precisa ser renovada … chega de Tio Bernie, chega de Galvão Bueno … pra tudo tem limite … e meu com o deles já acabou há mujito tempo …


    Agora creio que neste chamado anos modernos em que estamos vivendo o avanço da tecnologia está tirando muito do glamour de todos os esportes em geral … e não somente na Formula 1 … como exemplo veja o futebol, onde a evolução atletica e fisíca dos jogadores está sendo mais importante que a habilidade deles em si em relação a coletividade em campo … parecem robôs correndo atrás da bola … e isto sem falar no chamado politicamente correto que em muitas vezes acaba estragando mais o espetáculo do que propriamente valorizando-o … a regra agora para todos os esporte é manter o politicamente correto … uma politica onde deixa de ser bonito de ver errar o que se tenta acertar …

    Vovô XAruto

  6. Osmar Tavares Jr disse:

    Hummmm apontar o dedo é fácil!
    diga aí, qual a solução? o que seria modernizar a F1?
    só apontar a “problemática” não resolve!
    Diga a solução.

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