História de Guerra e Paz

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25/11/2013
Jornal Internacional
29/11/2013

Conheça a história de John Fitch, um daqueles que se podem chamar "herói" das pistas.

No fim de outubro, mais precisamente dia 31, completou-se um ano deste a morte do piloto norte-americano John Fitch. No Brasil, e até mesmo nos Estados Unidos, poucos sabem quem foi John. Para aqueles que já leram seu nome em algum lugar, Fitch é meramente conhecido por ser o companheiro de Pierre Levegh, pivô da tragédia de Le Mans 1955. Apesar da longa carreira de 18 anos nas pistas, não é propriamente o cartel como piloto que me chamou a atenção.

As curiosidades a respeito dele começam desde o berço. John Fitch era homônimo de um ilustre ancestral do século XVIII, inventor, o primeiro a fazer uma embarcação a vapor nos Estados Unidos, e que por isso foi congratulado por personagens de história que hoje aparecem nas notas de dólar, como Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e George Washington.

Fitch nasceu em Indianápolis, em 1917, sendo seu padrasto um executivo da indústria automotiva. Mas ao invés de fascinar-se com a grandiosidade das 500 Milhas (da qual nunca tomou parte), John gostava mesmo era de construir carros com peças velhas para correr com eles. “Sempre tive necessidade de ir rápido”, disse certa vez, resumindo sua vida.

Em 1939, despertou para a aviação. Voluntário, foi pilotar os lendários P-51 Mustang na II Guerra Mundial, tanto em missões na Inglaterra quanto no norte da África – das quais ele mesmo perdeu a conta. Foi um dos primeiros – senão o primeiro – a abater um jato em toda a história da aviação: metralhou um Messerschmitt Me 262 em 1945. E foi humilde ao relatar seu feito: “no ar, não conseguíamos alcançá-los. Mas eu tive sorte de pegá-lo enquanto decolava, o que foi relativamente fácil”.

Mas todo caçador tem seu dia de caça. A apenas três meses do fim da Guerra na Europa, após mergulhar duas vezes para metralhar um trem de carga alemão, seu Mustang foi atingido por fogo inimigo. John teve muita habilidade para pousar emergencialmente, mas acabou preso pelo exército alemão, até a rendição alemã finalmente acontecer.

John, assim como muitos americanos que lutaram na II Guerra, teve contato com os pequenos esportivos europeus, uma configuração de carro que não havia no mercado norte-americano, com seus sedãs enormes e macios. “Meu primeiro carro de corrida foi um MG TC [inglês]. Era horrível. Eixos rígidos na dianteira e na traseira e uma carroceria solta. Mas fazia seu papel”. Palavras vindas de um homem que, logo após voltar da guerra, abriu uma concessionária MG!

Sem largar seus dotes de projetista, inventou de colocar o famoso motor Flathead Ford V8 de calhambeque num pequeno Fiat 1100 de originais 60 cavalos, transformando-o num foguete. Também (re)criou um Jaguar XK120 em alumínio, 360 quilos mais leve que o original para correr a 1ª edição das 12 Horas de Sebring, e com um Allard-Cadillac que seria jogado fora após um forte acidente, venceu o GP da Argentina de 1951 para carros esporte. O prêmio em si, Fitch nem lembra qual foi. O que guarda na memória foi o beijo que ganhou de Evita Perón.

Seus tempos de piloto de caça fizeram do Velho Continente sua segunda casa. Fitch se tornou o primeiro norte-americano a pilotar com sucesso na Europa, juntando os dois berços das competições automobilísticas mais uma vez. Um dos primeiros construtores a embarcar em corridas europeias foi Briggs Cunningham, que chamou Fitch para ser um de seus pilotos. Seus carros ficaram conhecidos por uma invenção aclamada mundialmente: as “Racing Stripes”, faixas decorativas de competição.

Os modelos Cunningham C4R eram brancos, com faixas azuis, e tinham enormes motores Chrysler V8 de 5.5L preparados. Segundo Fitch, eram os melhores carros para as 24 Horas de Le Mans de 1952, “mas problemas de motor relacionados à octanagem [da gasolina] tiraram a gente do jogo”.

A edição de 1952 ficou marcada pela heroica tentativa de Pierre Levegh em querer completar as 24 horas pilotando sozinho. Mas ele, por total estafa, errou uma redução de marcha e quebrou o motor de seu Talbot-Lago Spider. Era a 23ª hora de corrida e ele tinha 4 voltas de vantagem para os carros da Mercedes, que acabaram ganhando em dobradinha.

“O [primeiro] 300 SL era um conceito terrível para um carro de competição, com todas as suas peças emprestadas de um sedã. O carro não ganhou porque era o mais rápido, ganhou porque era o mais durável”, conta Fitch.

Mesmo lamentando a perda, John fez questão de cumprimentar os rivais. “Depois da corrida, fui ao pit da Mercedes parabenizar Rudi Uhlenhaut pelo sucesso de seu improvável carro, e ele me convidou para dirigir em Nürburgring”. Sete anos após Fitch deixar um campo alemão para prisioneiros de guerra, ele se tornava o primeiro norte-americano a pilotar para a Mercedes-Benz. Não havia mágoas de guerra em nenhum dos lados.

Na Mille Miglia de 1955, enquanto Stirling Moss estreava o impressionante modelo 300 SLR com vitória, Fitch venceu na categoria GT ao volante do 300 SL Gullwing de rua, com um 5º lugar geral. Um feito e tanto, já que competia contra vários protótipos.

Então chegou Le Mans, quando finalmente pilotaria o SLR. Seu companheiro seria o mesmo Pierre Levegh que quase venceu sozinho em 1952. Seu feito, porém, seria esquecido pela tragédia que se desenrolaria. Fitch, aguardando seu 1º turno ao volante, viu tudo. “Ele [Levegh] está sem controle”. Foi a única frase que conseguiu proferir enquanto o carro que dirigiria voou sobre os espectadores. A maior tragédia do esporte a motor. Nada menos que oitenta e quatro mortes, incluindo seu colega francês. Um horror tão grande quanto ao que presenciou nos teatros de guerra europeu.

Como é sabido, a Mercedes encerrou seu departamento de competições ao fim daquele ano. Em 1956, Fitch juntou-se novamente a Cunningham para tocar o primeiro projeto de competição do Corvette, carro que se tornaria lendário nas pistas e nas ruas até os dias de hoje. Fitch foi um dos responsáveis por trocar o raquítico motor 6 em linha original pelo small-block V8 que faria o esportivo de fibra de vidro decolar nas vendas.

A carreira de Fitch como piloto acabou em 1966, continuando a preparar e modificar carros para competições. Mesmo assim, aos 87 anos, foi ao deserto de sal de Bonneville tentar quebrar recordes de velocidade para carros antigos com um 300 SL preparado. E retornaria pra lá em 2005, aos 89 anos. Eles não conseguiram atingir as 170 milhas por hora planejadas, mas a tentativa rendeu o documentário “A Gullwing at Twilight: The Bonneville Ride of John Fitch”, inédito por aqui.

Os acontecimentos de Le Mans, como é de se supor, deixaram marcas em Fitch. Muito antes de Jackie Stewart começar sua cruzada por segurança na Fórmula 1 após Spa 1966, John começou sua própria campanha não apenas para as pistas norte-americanas, como também por mais segurança nas rodovias. Criou o Fitch Highway Barrier System, aqueles barris plásticos cheios de areia ou água, que servem para absorver impactos nas rodovias, e que são colocados em bifurcações. Assim como seu ancestral, John tornou-se um honorável inventor. Estatísticas divulgadas no New York Times afirmam que acredita-se que até hoje mais de 17 mil pessoas tenham sobrevivido a acidentes atenuados por suas barreiras.

John também ajudou a projetar circuitos, o mais famoso deles, Watkins Glen. Também desenhou e ajudou a construir, a partir de uma plantação de batatas, o autódromo de Lime Rock, onde fixou residência e viveu seus últimos anos como administrador. Faleceu de câncer, aos 95, três anos após a esposa, Elisabeth. Deixaram três filhos.

John Fitch tem uma biografia que junta momentos de paz e guerra. Sempre com heroísmo.

Aquele abraço!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

10 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Bela historia!!!
    Parabens Lucas!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Manuel disse:

    Parabens para nós por desfrutar de textos assim !!! 🙂

    abraçao Lucas, Manuel

  3. Mauro Santana disse:

    Que texto fantástico Lucas, parabéns!

    E como diz o ditado, “vivendo e aprendendo”.

    Eu não conhecia a história de John Fitch, e como o mundo do automobilismo é vasto, praticamente um universo.

    Abraço!!!

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

  4. Mário Salustiano disse:

    parabens Lucas!!!

    a história é fascinante e a forma como voce descreve torna a leitura de uma fluidez sensacional, até vi as imagens acima passando como um filme na minha cabeça, eu também não conhecia a história de Fitch e isso me remete o que vez ou outra nós conversamos sobre a riqueza que podemos garimpar nas muitas histórias do automobilismo, tanto em relação a pessoas como em relação a máquinas.
    Fico só imaginando por aqui ,quantos Fitch podemos achar escondidos nas muitas corridas que aconteceram em mais de hum século de competições

    abração

    Mário

    P.S. fica uma dica de leitura sobre a segunda guerra, essa peguei com nosso mestre maior o Edu, existe um autor chamado Stephen Ambrose que é considerado um dos grandes autores sobre guerra, só que os livros dele se caracterizam em contar a história pela ótica das pessoas que lá estiveram, tem dois que recomendo: “Dia D” e “Band of Brothers” , ler sobre o cotidiano das vidas que lá estiveram nos faz refletir bastante sobre o real conceito de paz

  5. admin disse:

    Pra variar, Lucas detonando.

    Parabéns!

    Abraço,
    Marcel

  6. Mais um para a galeria dos grandes textos do GPtotal. Bom demais.

  7. Arlindo Silva disse:

    Excelente história.

    Abraços
    Arlindo Silva

    • Lucas Giavoni disse:

      Oi Arlindo!

      Confesso que só comecei a pesquisar sobre Fitch recentemente. Curiosamente foi por termos “perdido” a data de 1º ano de falecimento dele no facebook no GPTotal, sem fazer post sobre isso. Comecei a fazer um pequeno texto sobre ele, e percebi que estava raso. E acabou passando batido – o dia passa rápido…

      Quando, tempos depois, comecei a levantar com mais profundidade as histórias e seus feitos, me deparei com material riquíssimo, que daria não um simples post de dois ou três parágrafos, mas uma coluna inteira.

      E aí está! Muito obrigado pelo elogio!

      Abração!

      Lucas Giavoni

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