Hulme no ring dos touros

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O campeonato de 1967 foi um dos mais interessantes da década de 60, era um ano em que as equipes ainda estavam se adaptando a mudança do regulamento implantada em 1966 com a subida da cilindrada dos motores de 1,5 litros para 3,0 litros. O sistema de pontuação na Fórmula 1 em 1967 foi completamente alterado, das onze rodadas a temporada foi dividida em duas partes. Um piloto poderia contar suas cinco melhores finalizações nas seis rodadas iniciais até o GP britânico em Silverstone, e contar seus quatro melhores resultados nos cinco GPs da segunda parte do campeonato. Ser regular era um predicado a ser seguido.

Havia uma grande expectativa quanto ao lançamento do motor Ford-Cosworth, a equipe Lotus fora escolhida para ter esse motor com exclusividade naquele ano, a Ferrari também tinha um bom conjunto, mas o favoritismo ainda estava com a equipe Brabham, eles haviam construído um carro com motor Repco e na temporada de 1966 Jack Brabham conquistara o tricampeonato de pilotos, num feito único na história da Fórmula 1 até os dias atuais, afinal o carro levava seu nome.

No decorrer da temporada de 1967 o favoritismo se confirmava, não da forma tão avassaladora como em 1966 e para surpresa geral o piloto da vez não era o “patrão” Brabham. O companheiro de Jack em sua equipe era o neozelandês Denny Hulme. Hulme estava em seu terceiro ano com a equipe Brabham, seu melhor resultado até então havia sido um segundo lugar no GP da Inglaterra de 1966 quando o “patrão” Jack vencera. Hulme e Brabham não tiveram um desempenho muito satisfatório na prova de abertura na África do Sul, embora Hulme estabelecera a volta mais rápida, ele e Jack Brabham foram prejudicados por problemas mecânicos. 

Vem a prova seguinte em Mônaco e Hulme vence com uma volta de vantagem sobre o segundo colocado, pela primeira vez na vida ele ganhava um GP e assumia a liderança do campeonato de pilotos. Eles foram para Zandvoort na Holanda disputar a terceira etapa, nesse GP a equipe Lotus lançava o modelo 49 equipado com o novo motor Ford, em associação com a dupla de engenheiros Keith Duckworth e Mike Costin, que criaram um motor para uma nova era: o Cosworth.

Nas mãos de Clark o modelo 49 venceu em Zandvoort batendo Jack Brabham por 23,6 segundos e Hulme 25,7 segundos. Já se especulava que o favoritismo mudaria de mãos e a dupla Clark / Lotus haveria de dominar as provas seguintes, isso acabou não se confirmando pela fragilidade que o Cosworth apresentou em seu primeiro ano. Clark muitas vezes liderou GPs e terminou o ano como o maior vencedor de provas, foram quatro vitórias (Holanda, Inglaterra, México e Estados Unidos), a arma de Hulme e Brabham era a consistência, eles terminavam muitas provas na zona de pontuação, usando da regularidade o trunfo da equipe Brabham para conquistar novamente o título de pilotos e construtores.

Nesse jogo Hulme foi mais regular que seu patrão e acumulava mais pontos. Depois da Holanda a sucessão de provas mostrava uma boa alternância de vencedores, Dan Gurney venceu na Bélgica, Brabham venceu na França, Clark venceu na Inglaterra, Hulme venceu na Alemanha, Brabham venceu no Canadá, John Surtees venceu em Monza. 

Restaram duas rodadas, os Estados Unidos em Watkins Glen e México, a tabela de pontos mostrava: 1. Denny Hulme com 43 pontos, 2. Jack Brabham com 40 pontos, 3. Jim Clark com 28 pontos, pelo sistema de pontos Clark estava fora da disputa do título, o máximo que ele poderia atingir vencendo ambas as provas seria 41 pontos. Na prova dos Estados Unidos em Watkins Glen Jim Clark venceu, com Graham Hill em segundo, Denny Hulme terminou em terceiro, e Jack Brabham em quinto.

O sistema de pontuação na Fórmula 1 em 1967 foi completamente alterado, das onze rodadas a temporada foi dividida em duas partes. Um piloto poderia contar suas cinco melhores finalizações nas seis rodadas iniciais até o GP britânico em Silverstone, e contar seus quatro melhores resultados nos cinco GPs da segunda parte do campeonato.

Indo para a prova final no México, Hulme tinha 47 pontos e podia manter essa pontuação, já Jack Brabham precisava descartar os dois pontos do GP americano ficando com um total de 40 pontos. A única opção para Jack no México seria vencer e esperar que Hulme terminasse no máximo em quinto lugar.

Mas havia um racha não declarado dentro da equipe Brabham, como disse Denny Hulme tempos depois: “Eu estava pilotando para Bruce McLaren na categoria Can-Am em fins de semana alternados para as corridas do Grande Prêmio. A McLaren também tinha sua própria equipe de Fórmula 1. Eu não tinha tomado uma decisão sobre o que eu ia fazer na temporada seguinte, mas eu estava inclinado a me juntar a Bruce, que estava prometendo motor Cosworth que naquela altura parecia ser muito bom”.

Jack Brabham e Denny Hulme tinham feito muitas corridas juntos, mas Jack não queria deixar a primazia de ter um campeão que levaria o número 1 para uma equipe rival. O clima entre eles estava tão quente quanto os ares mexicanos para a prova final. Hulme era um piloto muito quieto e sisudo e essa característica ficou ainda mais evidente no primeiro dia de treinos, ele ficou muito aborrecido com a quantidade de jornalistas que o assediava, todos querendo saber se a equipe Brabham não o boicotaria para o patrão levar o título de pilotos.

Ele declarou: “não estou gostando da imprensa metendo o nariz no meu escritório no dia da corrida e meu escritório era o meu carro. Tive vontade de pegar alguns microfones e empurrar de volta em seus donos, acho que se alguém empurrasse uma câmera em cima de mim, acabaria com o nome do fabricante impresso em sua cabeça”.

Hulme voltava a lembrar que havia uma afinidade natural entre ele e Brabham porque Austrália e Nova Zelândia são vizinhos. 

Sobre a especulação de mudança ele falou: “Era do conhecimento geral que eu estava interessado em me juntar a Bruce. Lembro que a atmosfera na equipe Brabham estava tensa, não acho que nem tomei café da manhã ou jantei com Jack durante a semana e fim de semana da prova mexicana” .

Jack Brabham ficou ressentido ao se lembrar de que: “Denny não concordou em continuar pilotando para nós no ano seguinte. Perguntamos a ele meia dúzia de vezes durante o outono e a resposta que obtivemos foi que ele ainda não havia se decidido e não estávamos em posição de apertar ele sobre isso, afinal seria com meu carro que ele conquistaria seu título”. 

No México, Brabham teria de enfrentar outro problema. Ele tinha que vencer Clark e Hill e os motores Cosworth ou o campeonato acabaria.  Clark estabeleceu o ritmo na qualificação, conquistando a pole position, ao seu lado o piloto da Ferrari Chris Amon, na segunda fila estavam Dan Gurney e Graham Hill, na terceira fila apareciam a dupla de pilotos da Brabham. Hulme sabia o que tinha que fazer, disse ele. “Meu plano era simples. Eu ficaria o mais perto de Jack que pudesse e esperaria que meu carro chegasse até o fim” .

Na manhã do domingo, Hulme dirigiu-se à pista em um carro cedido por patrocinadores e nem ele nem Jack estavam se falando. Cada um deles tinha seus motivos para tal.  O dia da corrida estava claro e tinha todos os elementos para se tornar um dia muito quente, o que de fato aconteceu. Isso aumentou o frenesi de última hora para as equipes, que buscaram aumentar os extratores na carroceria e ampliar as aberturas do radiador. 

Jack Brabham foi um estágio adiante e duas horas antes do início da prova seus mecânicos estavam moldando um novo cano extra de água que eles encaixaram ao longo do lado de fora do cockpit.  As duas horas da tarde do domingo, o som do autódromo reproduzia a música tema do filme Grand Prix numa tentativa de criar um clima entre os pilotos, que estavam reunidos e conversando casualmente à sombra dos boxes, naquele tempo não havia tanta rivalidade como atualmente.

Os carros alinharam no grid, o diretor da prova não levantou a bandeira, sem qualquer aviso, ele acenou na frente de seus joelhos. Isso pegou Clark e vários outros completamente de surpresa. Clark quase parou. Com isso houve um pouco de confusão no início, Gurney acertou o carro de Clark na traseira, quando o escocês saiu lento e o cano de escapamento de Clark entrou no radiador de Gurney, o que colocou Gurney fora da corrida imediatamente. 

Graham Hill largou melhor e assumiu a liderança, seguido de Chris Amon, com Clark em terceiro. Ao final da primeira volta a ordem imediata: Hill, Amon, Clark, Brabham, Moises Solana, McLaren, Surtees, Hulme. Na segunda volta, Clark passou Amon e aproximou-se de Hill, enquanto Surtees e Hulme ultrapassaram a McLaren. Na terceira volta, Clark ultrapassou Hill, Clark se afastou de Hill e na volta 5 Surtees e Hulme se aproximaram de Solana. Hulme não podia permitir que Jack Brabham se afastasse muito, mas também não queria correr o risco de explodir o motor ou danificar qualquer parte do carro tentando pegá-lo. Hulme era o sexto, mas precisava do quinto. 

Na volta 6 ele conseguiu, passando por Surtees, mas Surtees ficou colado nele. Ambos estavam cerca de quinze segundos atrás de Clark. Hulme avançou sobre Solana silenciosamente, procurando manter o equilíbrio entre a sua posição na corrida e a conservação do carro, com isso ele ficou próximo a Solana, pressionou-o, mas Solana – que participava apenas alguns Grandes Prêmios por ano – resistiu, dirigindo com competência. 

Isso durou até a volta 12, quando o carro de Solana quebrou, assim Hulme estava seis segundos atrás de Brabham, era tudo o que ele esperava fazer, seguir Brabham e terminar para conquistar o seu título. O pouco suspense que ainda havia no ar aconteceu na volta 18 quando Graham Hill abandona a prova.

Será que a Lotus de Clark terminaria prova?

A ordem era, em primeiro Clark, seguido de Amon, Brabham subia ao terceiro lugar com Hulme em quarto. Clark abria vantagem, mas mesmo seu abandono não alteraria a geografia da corrida: Brabham ainda teria que passar por Amon. Na volta 30, Clark estava um minuto a frente de Amon, que por sua vez estava na frente de Brabham em 12 segundos, Hulme vinha tranquilo no quarto lugar. Na volta 52 e talvez para se divertir, Clark estabeleceu o melhor tempo da corrida, 1m 48,1s. Na volta 62 ele ultrapassou Hulme abrindo uma volta de vantagem, o que não perturbou Hulme. 

Na volta seguinte, a Ferrari de Amon para com motor quebrado. Brabham sobe ao segundo lugar com Hulme em terceiro. Hulme: “Eu estava perseguindo Jack o tempo todo e agora tudo o que podia fazer era torcer para que nada desse errado com o carro”. Clark venceu a corrida. Brabham cruzou a linha 1m 25,5s depois. Hulme cruzou a linha em terceiro e conquistava o título de 1967.

Depois da prova os mexicanos levaram os pilotos para um cercado cheio de touros, perguntado anos depois a Hulme se ele ficara com medo: “Eu não estava com medo, ah, não. Eles não eram realmente touros, eram bezerros. Foi uma noite e tanto, o meu maior medo foi enfrentar o “touro” do Jack na pista” e riu, pois, era o novo campeão.

Até a próxima!

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

2 Comments

  1. Parabéns, excelente matéria.

  2. Fernando Marques disse:

    Mário,

    Muito bom … D. Hulme merece ser lembrado como grande piloto que também foi na fórmula 1 … E nada como a temporada de 1967 … Tinha 6 pra 7 anos e nem imaginava o que era a Fórmula 1.

    Anos 60 a fragilidade dos carros e motores eram grandes … Independente do regulamento, regularidade era o carro chefe pra chegar ao título … Só lembrando primeiro ganhava 9 pts , 6 pro segundo e 4 para o terceiro … chegar três vezes em terceiro era melhor que ganhar uma corrida e quebrar nas outras duas .

    A realidade da fórmula 1 era outra … Muito boa por sinal …

    Vale aqui o registro do falecimento do Carlos Reutemann , piloto top na fórmula 1, não foi campeão mas deixou boas lembranças a bordo da Brabham, Ferrari, Lotus e Williams
    Que Lole descanse em paz

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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