Incômodos vermelhos

Bahrein outra vez…
17/04/2015
A Ferrari vai chegar lá!
22/04/2015

Desde a etapa de abertura, o péssimo GP da Austrália, ao menos estamos presenciando certa evolução na temporada no que diz respeito a atrativos.

Desde a etapa de abertura, o péssimo GP da Austrália, ao menos estamos presenciando certa evolução na temporada no que diz respeito a atrativos. Ano passado, a Mercedes precisava fazer muita besteira para que Daniel Ricciardo ganhasse suas corridas – o que não significa que o australiano não tenha méritos pelo que fez.

Este ano, se a Mercedes der meia bobeada, lá está a Ferrari para ser um tremendo incômodo, uma ameaça real a uma hegemonia estabelecida. Isso ficou claro na Malásia, quando um Safety Car precoce resultou em mau gerenciamento de pneus por parte da Mercedes. Sebastian Vettel agradeceu e muito – em italiano.

Márcio Madeira já havia cantado a bola: quando há uma estabilidade de regras de um ano para outro, a tendência estatística é a de que o conjunto hegemônico passe a ter menos vantagem na temporada seguinte.

No Bahrein, dentro da estúpida regra que obriga o uso dos dois compostos, Kimi Räikkönen mostrou a lógica das táticas de pneus: largar com os mais macios usados nos treinos, trocar para médios para um stint mais longo e sólido, para ter macios na troca final, com carro leve, e voar pra cima da concorrência. Isso contrastou com a opção macio-macio-médio usada pela maioria – apenas Max Verstappen e Fernando Alonso fizeram o mesmo.

Por muito pouco isso não resultou em vitória de Kimi, sobretudo porque o vencedor Lewis Hamilton já tinha freios cansados e Sakhir é um Tilkódromo que exige muito nesse aspecto. Räikkönen fez sua 1ª volta rápida na saída do pit – que seria a melhor da corrida – com 21s de desvantagem. Na bandeirada, apenas 3,8s de diferença entre os dois.

(Em tempo: Marcel Pilatti me alertou que com sua 41ª volta mais rápida, Kimi iguala Alain Prost na segunda posição em todos os tempos, atrás apenas de Michael Schumacher, com 77. O mais próximo de Kimi na ativa é Sebastian Vettel, com “apenas” 24.)

Muito tem se falado sobre Nico Rosberg, 3º, estar psicologicamente abalado. Ele foi combativo na corrida, e precisou passar as duas Ferraris na marra durante a corrida, em manobras plasticamente muito belas.

Ninguém aventou a possibilidade de Lewis simplesmente ter se adaptado melhor ao carro novo, dentro de seu estilo de pilotagem e preferência de set-up?

Vettel teve o problema do bico danificado e a necessidade do pit extra, mas ficou claro que ele neste fim de semana estava superpilotando o carro, fritando pneus muito mais do que deveria. Ele está muito motivado por estar na Ferrari, é preciso conter sua euforia.

Mesmo assim, Seb não apresentou desgaste exagerado de borracha, o que significa, sim, que James Allison fez com que a Ferrari seja um dos carros mais suaves com pneus, resolvendo o problema de tração que era tão notório ano passado quando olhávamos voltas em onboards.

Pastor Maldonado fez de novo. Colecionador de uma série de efemérides desde o começo do ano, foi punido em 5s em seu tempo final de prova por ter se posicionado de maneira errada no grid de largada.

Mas essa é inédita: ele foi punido por se posicionar DUAS POSIÇÕES atrás do que deveria – em vez de 16º, colocou o carro no 18º lugar do grid. Resumindo: ele foi punido por largar numa posição pior do que deveria…

Adorei ver Ricciardo explodindo seu motor nos metros finais. Eu gosto de ver motor explodindo. E vou gostar de assistir de camarote como a FIA vai resolver o assunto do limite de quatro motores por ano. Corre-se o risco de vermos Red Bull, Toro Rosso e McLaren com pilotos sem motores ainda no meio da temporada.

E agora José? Ou melhor, e agora Jean?

Mais uma vez a melhor corrida do fim de semana foi a MotoGP. A etapa da Argentina é o que pode ser chamado de clássico instantâneo. Duelo desde já inesquecível entre o fenomenal Marc Márquez e o monstruoso Valentino Rossi, que tirou 4,7s de desvantagem e resistiu ao choque entre ambos a duas voltas do fim para vencer e homenagear Diego Maradona no pódio.

Era bonito ver o contraste de pilotagem. Márquez e suas derrapadas controladas nas entradas de curva, sempre beirando o descontrole, rabeando a moto e deitando mais do que qualquer outro ser humano na Terra, usando os cotovelos no chão. E Rossi com seu estilo motocross, pernas abusadamente arreganhadas nas frenagens, com um apex preciso e a saída de curva poderosa.

E a luta não se resume a Honda x Yamaha – que por si só já é gigantesca. Ainda temos a Ducati ressurgindo como time competitivo (que motor tem a italiana!), a Suzuki comprometida a retomar seus melhores dias, e motos de equipes satélite fazendo bonito – Carl Crutchlow, com Honda “B”, ganhou da Ducati de Iannone o 3º lugar na última curva. Só ficaria melhor mesmo se Jorge Lorenzo retomasse seus melhores dias e… Casey Stoner resolvesse cancelar a aposentadoria. Mas aí já é pedir muito.

A MotoGP é administrada pela Dorna Sports, empresa de marketing esportivo que assim como a Formula One Management, precisa dar lucro a seus acionistas tipo Private Equity – um nome bonito pra “fundos de investimento de origem secreta de grana”. O da F1 é a CVC Capital, da MotoGP, o grupo Bridgepoint.

Mas com que diferença cada uma trata seus produtos! A MotoGP está cada vez mais atraente como produto midiático, com transmissão impecável, gráficos interessantes, presença nas redes sociais, regulamento interessante e permissividade para que os pilotos sejam… pilotos! Que façam o que bem entender, comemorar com espontaneidade e ir ao pódio com a camiseta de futebol da Argentina.

A MotoGP também não tem patologia por estruturas faraônicas. Phillip Island é um autódromo simplório da Austrália, mas que sempre resulta em corridas fantásticas. Río Hondo, na Argentina, idem. A Dorna não cobra o olho da cara para que lugares possam sediar corridas.

Enquanto isso, é consenso que a F1 parou no tempo, dentro da cabeça anacrônica do octogenário Bernie Ecclestone. Só demoraram duas décadas pra perceber o quanto as faíscas eram importantes, e a muito custo criaram a conta oficial de Twitter. Mas continuam a ignorar Facebook e a promover a caça às bruxas no YouTube.

Pra quem quiser saber sobre a etapa Argentina da MotoGP, há o relato do Márcio Madeira em nosso Facebook, como também o texto do nosso colega Lucas Carioli através do Notícias Motociclíticas.

A MotoGP conseguiu fazer uma brilhante atualização dos melhores anos de 500cc 2 Tempos, as famosas Unrideables dos tempos de Spencer, Lawson, Rainey, Gardner, Schwantz, Doohan, Mamola e companhia.

Mas a F1 está longe de trazer a melhor atualização possível de suas melhores eras – seja a Era Aerodinâmica, a Era Turbo ou a Era Eletrônica.

Enquanto isso não acontece de maneira mais veemente, esperamos mais incômodos vermelhos durante o ano.

Aquele abraço!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

9 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Bela coluna amigo Lucas!!

    Não pude assistir a F1 neste final de semana, e confesso, nem me preocupei.

    Concordo com o amigo Fernando de que o Hamilton esta sim engolindo o Rosberg dentro da equipe, e isso me lembra como o Senna fez com o Prost em 89.

    Não vou ficar admirado se no final do ano, o Rosberg pique a mula da equipe alemã.

    Agora, a MotoGP foi um show neste final de semana, como eu torci e vibrei com a tocada e vitória do Rossi, e faço minhas as palavras do amigo Márcio Madeira.

    “Obrigado, meu Deus, pela oportunidade de ver Valentino Rossi pilotar.”

    Bora que hoje tem show do Kiss aqui em Curitiba na amada e única Pedreira Paulo Leminski.

    \,,/ >_< \,,/

    Abraço!!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Lucas Giavoni disse:

      Sim, amigo Mauro, a F1 foi morna. Chateado fica quem perdeu a MotoGP.

      O GP do Bahrein do ano passado foi muito melhor, mas parto da premissa que o GP da Austrália foi muito ruim, e que aos poucos o campeonato fica mais interessante.

      Faltou pouco pra Ferrari (Kimi) conseguir incomodar Hamilton e, como eu disse, qualquer bobeadinha da Mercedes, não haverá perdão. A tendência é que Hamilton ganhe o título com antecedência, mas ao menos poderemos ter mais corridas interessantes.

      Se eu fosse Rosberg, faria de tudo para permanecer na Mercedes. Fora da equipe, ele não seria top driver em nenhuma outra equipe realmente competitiva.

      Depois comenta aqui o show do Kiss…

      Abração!

      Lucas Giavoni

  2. João Alfredo Luiz da Silva Filho disse:

    Todo o equilíbrio visto na MotoGP é feito de modo artificial, ou seja, a disputa não é justa, pois várias equipes possuem vantagens na regra, que não são concedidas às outras mais fortes. Gostaria de ver as regras iguais para todas as equipes.

    João Alfredo,

    • Lucas Giavoni disse:

      Isso é fato, João Alfredo.

      É realmente difícil conseguir um equilíbrio “natural” dentro de regras que pregam a isonomia. Isso porque máquinas hegemônicas sempre existirão no esporte a motor.

      A MotoGP optou por fazer algumas equalizações, e permitir que times particulares tenham benesses que combatem o maior poder econômico e técnico das equipes de fábrica. Mas, ao menos pelo que parece, as próprias equipes – tanto as de fábrica quanto as particulares – não estão reclamando do atual cenário.

      Abração!

      Lucas Giavoni

      • João Alfredo Luiz da Silva Filho disse:

        Apenas constatei um fato, pois gosto muito da Motogp, más a verdade deve prevalecer sempre. O que não pode existir é comparação com a Fórmula 1 e a depreciação desta, que não dá vantagens competitivas a qualquer equipe, sendo ela realmente é a principal categoria do esporte a motor mundial, considerando quaisquer aspectos, movimentação de recursos e/ou velocidade na pista (na Malásia a Fórmula 1 é cerca de 20 segundos mais rápida, por volta que a Motogp, ou seja, é incomparável).

        João Alfredo

  3. Rodolfo César disse:

    Apenas a título de informação complementar, a F1 estreou esse ano seu canal oficial no Youtube… A F1 precisa ventilar novas ideias, talvez com o crescimento da Moto GP a F1 possa “perceber” a fórmula do sucesso e buscar uma renovação. Não custa sonhar quando a realidade decepciona.

    • Lucas dos Santos disse:

      Valeu, pela informação, Rodolfo.

      Eu tinha visto uma seção de vídeos no (novo) site oficial da categoria, mas não sabia que eles tinham um canal no YouTube. Depois vou dar uma conferida para ver o que há de bom por lá.

  4. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    não sou partidário da teoria que Hamilton se adaptou melhor ao carro este ano em comparação ao Rosberg … afinal de contas, tirando a regra dos motores, pouca são as mudanças em relação a 2014, e no ano passado ambos se deram muito bem. Eu acho que simplesmente o L. Hamilton está engolindo o Rosberg dentro da equipe. De que forma? Mostrando que é mais piloto … e ao contrário a cada dia o Rosberg lembra mais o Rubinho …
    No GP do Bahrein o Rosberg foi combativo mas nunca chegou perto do Hamilton …
    O rendimento em geral da Ferrari, voltou a dar uma animada na Formula 1. Ao menos a equipe vermelha diminuiu bem a distância e encostou na Mercedes do Rosberg … gosto muito da pilotagem do Raikkonen e principalmente quando ele fica animado … Me parece que ele finalmente está conseguindo ser feliz na Ferrari …
    Quanto a corrida não foi das melhores e nem das piores … e uma certeza … a Willians está ficando pra trás … apesar do bom resultado (não rendimento) do Bottas …

    Se teve uma coisa que me chateou neste fim de semana foi o de não ter conseguido assistir o GP da Argentina de Moto velocidade … meu neto precisou fazer uma cirurgia (Graças a Deus bem sucedida) para retirada das amídalas da garganta e no hospital não tinha o canal da Sport TV … deu para ver a Formula 1 e a pelada que meu time jogou (Flamengo) … mas o melhor programa deste fim de semana que era a ver moto velocidade acabei ficando a pé … ainda mais um duelo entre Marc Marques e Valentino Rossi … ainda bem que teremos mais destes duelos pela frente …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Lucas Giavoni disse:

      Oi Fernando!

      Sobre a adaptabilidade de Hamilton/Rosberg, apenas lancei uma hipótese que não vi ser desenvolvida por aí. É uma questão de analisar os vários lados de um mesmo contexto.

      A Williams aparece claramente como terceira força, com uma briga muito grande atrás dela. A tendência é que Red Bull cresça, mas está com muitos problemas de durabilidade da atualização do Renault, o que afeta a Toro Rosso também.

      Que o seu neto tenha uma rápida recuperação!

      Abração!

      Lucas Giavoni

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