Incompreendidos

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Ayrton Senna, transformado em livro, poderia ser Fernão Capelo Gaivota.

Lá no ano de 1970 seria publicado o livro de Richard Bach titulado “Jonathan Livingston Seagull”, que logo se converte num grande sucesso mundial (no Brasil teria o título — Fernão Capelo Gaivota). O livro, que narra em forma de conto e com grande brilho a vida de uma gaivota, nos apresenta de forma concisa mas intensa as vicissitudes às que essa gaivota se enfrenta ao longo de sua vida.

O livro, apesar de sua brevidade, esta impregnado de princípio a fim de uma profunda mensagem sobre a necessidade e importância de desenvolvermos nossa própria personalidade. De aprender mais e mais em busca de nosso próprio jeito de ser e de nossa perfeição interior, ainda que isso, com frequência, nao seja entendido pelos outros e nos acabe criando problemas pela incompreensão dos outros.

Desde muito jovem, ficou claro que Jonathan não era uma gaivota como as outras. Desde muito jovem, Jonathan não se conformava com apenas fazer o que as outras gaivotas faziam e sua obsessão era a de aperfeiçoar sua forma de voar e aprender tudo quanto pudesse e lhe ajudasse a melhorar a si mesmo. Jonathan queria voar mais alto e mais e mais rápido. Mais do que qualquer outra gaivota o havia feito jamais.

Em 1983, após vencer o campeonato britânico de formula 3, o jovem piloto Ayrton Senna da Silva já estava preparado para a Fórmula 1 e logo chama a atenção de varias escuderias. Peter Warr, da Lotus, tinha grande interesse no rapaz mas a John Player queria a continuidade de Nigel Mansell e nada se concretizou.

No entanto, Senna receberia outros convites para fazer uns testes e poder avaliar seu potencial. Na Williams, Senna daria umas voltas em Donington e logo, de forma espetacular, superaria os tempos de seus pilotos titulares, incluindo o recente campeao Keke Rosberg… e pilotando o próprio carro deste! Contudo, não houve acordo, e tampouco na McLaren.

httpv://youtu.be/ffAduGXeXKo

Outro teste foi com a Brabham e Gordon Murray recorda: “O teste deve ter sido como um batismo de fogo para Ayrton pois o carro não era fácil de pilotar. Era muito rápido mas não fácil. O poderoso motor BMW era preguiçoso e havia um retardo no acelerador antes da brutal entrega de potencia. Deve ter sido algo totalmente diferente ao que Ayrton havia pilotado anteriormente, contudo… eu não recordo que ele tivesse nenhum problema com o carro!“.

Apesar de ser um teste muito satisfatório, Nelson Piquet, vetou a entrada de Senna na equipe. Seu próximo teste seria com a equipe Toleman onde, novamente, Senna nao decepciona. Assim, Chris Witty conta como Senna, imediatamente, já estava no ritmo dos outros pilotos, para acabar superando a Derek Warwick em mais de um segundo. Por sua parte, o engenheiro Rory Byrne conta como Senna tinha a habilidade de saber em todo momento o que o carro estava fazendo, assim como de saber o que ele queria que fizesse e de transmitir tudo isso aos engenheiros. Como disse Byrne: “Este é o rapaz!

Certamente, aquele era o rapaz que buscavam e Alex Hawkridge recorda: “Nós não podíamos contratar uma estrela, nem sequer um piloto dos experientes. Nos precisávamos de um jovem talento capaz de nos ajudar a evoluir o carro, pois este nao mostraria todo o seu potencial nas mãos de um piloto médio. Logo soubemos que Ayrton podia fazer tudo isso!”

Assim, as negociações para formalizar um contrato começam, mas Senna logo surpreenderia a Hawkridge. Apesar de que a Toleman era a única opção que lhe havia restado a Senna para entrar na formula 1 , este lhe diz a Hawkridge: “Se o carro não resulta o suficientemente bom e vocês nao me permitem ir a outra equipe, eu deixarei de correr!”. “Que se podia fazer com um rapaz que te diz isso?” recordaria Hawkridge depois.

Finalmente o contrato fica pronto e incluiria uma cláusula que permitia Senna abandonar a Toleman no caso de que outra equipe com mais potencial se interessasse por ele. Não havia dúvida de que Senna nao éra um piloto como os outros!

Em 1984 e ainda com o velho modelo TG183B, Senna conseguiria dois inesperados 6º lugares no principio do campeonato para, já com o novo TG184, brindar ao mundo uma autêntica lição magistral de pilotagem no sempre difícil circuito de Mônaco, ainda mais difícil pela forte chuva presente durante toda a prova.

Resultava incrível que aquele Toleman, cujo motor Hart turbo entregava cerca de 100cv menos que os melhores motores, pudesse competir com as grandes equipes. Mas, de certa maneira a chuva equilibrou as coisas e como disse Hawkridge: “O piloto fez toda a diferença!”.

Jonathan, aborrecido da mediocridade que o envolvia, persistiria em sua continua adquisição de conhecimento e aperfeiçoamento de suas habilidades em um constante desafio de seus próprios limites… e além. Contudo, isto acabaria não sendo nem entendido nem aceito pelas outras gaivotas da bandada, e Jonathan deve seguir seu caminho em solitário em busca da realidade superior, o passo prévio para alcançar o nível de verdade suprema.

Como Jonathan, Ayrton perseguia com perseverança a mesma perfeição e procurava aprender tudo o que podia. Sempre mostrava muito interesse e curiosidade por tudo, trabalhando sem descanso junto aos engenheiros. Gordon Murray, falando sobre seus tempos na McLaren, não dúvida em afirmar que Senna era um piloto muito mais completo do que Alain Prost, destacando especialmente seu grande poder de concentração.

Disse Murray: “Sua concentração era fenomenal. Como engenheiro realmente era um prazer trabalhar com ele pois sua memória era fantástica e suas informações totalmente precisas!

Por sua parte Ron Dennis conta como o modelo MP4/4 ficou pronto justo para os últimos testes em imola antes do começo da temporada, e diz: “Não lembro quem provou o carro primeiro, acho que foi Prost, mas em sua terceira volta lançada Senna jé era cerca de 1,5 mais rápido do que a competência. Foi um momento incrível. Foi quase como assistir um filme a câmara lenta e todos nos olhamos uns aos outros perguntado-nos como aquilo era possível!”

Porém, talvez, o maior exemplo de sua constante busca dos próprios limites se nos foi dado em 1988 no GP de Mônaco, onde Ayrton chegou a alcançar um nível de perfeição muito além do normal. Naquele circuito, Senna conseguiu tempos que ninguém podia sequer imaginar. Segundo o próprio Senna disse depois, naquelas voltas, havia tido a sensação de se encontrar numa outra dimensão e de se ver a si mesmo pilotando mais e mais rápido.

Seria essa a realidade superior que havia alcançado Jonathan?

httpv://youtu.be/PIEwYLSejx4

O caso é que essa implacável busca da perfeição não foi entendida e logo seria fonte de problemas para Senna. Prost, então seu companheiro na McLaren, logo diria: “Senna não se conforma com me derrotar. Ele quer me humilhar!”. Aquele seria o princípio da dura rivalidade entre ambos, e que nos brindaria alguns dos mais intensos momentos da história da Fórmula 1.

Assim, aquela frenética busca de superação pessoal e luta constante por se sentir plenamente realizado, uma vez mais não era entendida. Como se diria mais tarde no jornal britânico Daily Telegraph sobre Senna: “Sua busca da verdade e de conhecimento interior eram mais próprias de um seminário do que de um circuito!

O livro encerra uma bela mensagem de motivação, de determinação, de sacrifício, de superação e da importância da busca do sucesso pessoal, que deve ir muito além do que o do sucesso material. Senna em certa ocasião diria: “Tudo o que eu consegui na vida, foi obtido por meio de dedicação e um tremendo desejo de cumprir meus objetivos. Um grande desejo de vitória, entendendo a vitória na vida mais do que como piloto!”.

Nos anos seguintes ainda seriamos testemunhas de novas provas dessa realidade superior mas, como no caso de Jonathan, isso não era suficiente para chegar o nível de verdade suprema. Ao longo do livro subjaz uma mensagem fundamental que nos incita a nos desprendermos das emoções negativas e de todo ressentimento, como condição prévia e ineludível para alcançar o nível da grande verdade.

Assim, chegamos a 1994 e àquele fatídico GP de San Marino, em Imola. Então, o acidente de Barrichelo e, principalmente a morte de Ratzemberger, exerceriam em Senna um impacto muito importante, e este intensifica sua luta por uma maior segurança nos circuitos. Antes do GP, Senna se reuniria com Prost, seu grande rival e juntos dariam por finalizada sua inimizade de anos, deixando para trás magoas e ressentimentos.

Devido ao enorme carisma de Senna e ao respeito que este infundia, Niki Lauda propoe que Ayrton assuma a liderança da associação de pilotos e de que seja a voz daqueles sem voz, papel que Senna aceitaria. Deste modo, tudo parecia estar disposto para que Senna ascendesse ao nível de verdade suprema.

Apesar de não se sentir comodo naquele fim de semana, Senna, como sempre o havia feito, nos brinda o melhor de si mesmo e consegue, uma vez mais, a pole. Na Williams, ninguém conseguia entender como aquilo era possível, pois o carro ainda tinha muitas deficiências. Contudo, ali estava Senna. Onde já estávamos acostumados a vê-lo!

Na largada Pedro Lamy e J.J. Letho colidem e o safety car sai à pista enquanto os restos dos carros se retiram do caminho. Na volta seis a corrida é relançada e Ayrton Senna logo acelera como um possesso. Com os pneus ainda sem alcançar a temperatura ideal e com o depósito cheio de combustível, Ayrton marca o incrível tempo de 1m24s887, tempo que apenas outros dois pilotos superariam… já nas voltas finais da prova!

Isto confirmava plenamente o que Senna sempre havia dito: “No que diz respeito ao rendimento, compromisso, esforço e dedicação, não há meio-termo. Ou você faz
tudo muito bem ou não faz nada!”. Na volta seguinte, a sete, Senna, finalmente, alcançaria o nível da verdade suprema. O alcançou deixando-nos aquela que era a imagem mais habitual que tínhamos dele : a de alguém que oferecia o melhor de si mesmo… sempre!

Em 1973, Neil Diamond lança um álbum com canções inspiradas no livro e que também se converteria num sucesso mundial. Na canção principal titulada “Be” (Seja) em duas de suas estrofes Neil nos canta:

Seja
como a página que suspira por uma palavra
que fale sobre algo atemporal
e aquele a quem Deus ajudará em sua jornada

Cante
como a canção que busca uma voz silente
e aquele a quem Deus ajudará a ser si mesmo

httpv://youtu.be/mgkk0Hdwmo8

Assim era Ayrton Senna. Assim… sempre será Ayrton Senna!

Grande abraço de feliz ano novo a todos e não deixem de buscar o Jonathan que se esconde em nosso interior, ainda que isso nos leve a ser incompreendidos.

Manuel

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

5 Comentários

  1. Sandro disse:

    Piquet disse que a Parmalat queria um piloto italiano para 1984.

  2. Walter Augusto disse:

    State of the art.

  3. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    simplesmente é espetacular a sua coluna !!!
    Ayrton Senna sempre quis muito vencer … e nunca mediu esforços para isso …
    a unica coisa que indago é se ele curtiu realmente vencer na Formula 1?
    Ele não pode desfrutar do seu sucesso … e acho que ele não conseguiria se ainda estivesse vivo … ele sempre quis estar no foco …

    No mais feliz natal e tudo de bom em 2016, de preferencia firme e forte no Gepeto

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Annibal Magalhães disse:

    Procede mesmo essa informação que o Piquet barrou o Senna na Brabham?

  5. Mauro Santana disse:

    Grande coluna Manuel!!

    Senna nos provou que quando queremos, mais queremos muito vencer, será possível desde que você lute muito com bastante dedicação e foco naquilo que você almeja.

    O seu legado ficará para sempre.

    Grande abraço Manuel, e um Feliz Natal e 2016 para você e seus familiares.

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

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