Institucionalizados

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Historicamente, pilotos de competição sempre estiveram expostos a riscos paralelos, dentro e fora das pistas.

No princípio dos anos 70, Niki Lauda e James Hunt chegaram à conclusão, durante uma conversa informal, de que deveriam viver a vida sem reservas, curtindo tudo ao máximo, porque a morte poderia lhes chegar a qualquer momento pelas pistas do mundo. Pouco mais de uma década adiante, no entanto, quando a humanidade vivia o auge do terror causado pela Aids, era comum ouvir pilotos da geração seguinte lembrando a existência de um tempo em que correr era perigoso, e o sexo era seguro.

No cerne dessa crucial mudança de paradigma estava o McLaren MP4/1 de John Barnard, primeiro carro a ter o monocoque construído integralmente em composto de fibra de carbono. Desde então, apenas três pilotos perderam a vida na Fórmula 1 guiando bólidos construídos conforme os parâmetros por ele estabelecidos, nenhum dos quais nos últimos 20 anos.

E, apesar de todo esse avanço, cá estamos nós, começando 2014 com Michael Schumacher lutando pela própria vida, e vendo um talento da grandeza de Robert Kubica envelhecer longe dos cockpits da Fórmula 1. Os dois, vale destacar, prejudicados por acidentes sofridos fora dos autódromos da categoria máxima.

Pensando seriamente a esse respeito, portanto, sinto-me tentado a acreditar que, para um (ex)piloto de Fórmula 1 moderno, com as possibilidades virtualmente infinitas de deslocamento, entretenimento e sexo, combinadas ao vício incurável da adrenalina, os riscos atrelados à própria rotina de vida talvez já tenham se tornado superiores àqueles encontrados dentro dos muros da maioria das pistas.

O cockpit, sem que percebamos, possivelmente tenha se transformado ao longo dos anos numa espécie de ponto de segurança, de proteção e refúgio para esses homens ricos e condenados a viver perigosamente. Um cocoon através do qual suas verdadeiras naturezas podem se manifestar com naturalidade e, acima de tudo, segurança.

Eu sei. A ideia é polêmica, e pede reflexão.

Historicamente, pilotos de competição sempre estiveram expostos a riscos paralelos, dentro e fora das pistas.

Não precisamos recorrer ao Google para lembrar, assim de cabeça, de diversos episódios extra-F1 que chegaram a afetar – por vezes de forma definitiva – o andamento de carreiras promissoras. Mike Hawthorn, por exemplo, morreu seis meses depois de se aposentar, num acidente de trânsito sofrido enquanto se divertia num racha com Rob Walker. Emerson Fittipaldi também sofreu um seríssimo acidente rodoviário em 1971, quando dirigia muito acima da velocidade recomendável. Carlos Pace e Graham Hill perderam a vida em aviões, ao passo que David Coulthard sobreviveu a dois acidentes aéreos. Sandro Nannini teve a passagem na F1 encerrada graças a um acidente de helicóptero, e o próprio Emerson Fittipaldi também escapou por pouco de perecer numa queda de ultraleve.

Podemos lembrar ainda o acidente de asa delta sofrido pelo talentoso Patrick Depailler; os tombos de motocross sofridos por Juan Pablo Montoya e Roberto Moreno; o atropelamento de Webber enquanto pedalava; o acidente de jet ski sofrido por Ayrton Senna; a batida de Kubica quando fazia rali; os acidentes fatais de Bellof e Winkelhock em provas de endurance; o acidente fatal de Didier Pironi nas powerboats; a morte de Jim Clark numa corrida de F2; o sequestro de Fangio em Cuba; a capotagem de Lauda quando manobrava um trator em sua própria casa; os vícios fatais de Achille Varzi e James Hunt; o acidente de barco que levou J. J. Lehto à cadeia; e, claro, os sérios acidentes sofridos por Michael Schumacher, primeiro nas superbikes e agora, no esqui.

Evidentemente existem muitos outros exemplos, mas não é o caso de citar todos eles aqui. A questão principal é que, enquanto a segurança nas pistas poderia ser trabalhada, fora delas, em essência, a vida continuava a ser tão perigosa quanto sempre foi para homens famosos, ricos, e viciados em fortes emoções. Especialmente para os pilotos aposentados, livres de qualquer contrato que os proíba – ao menos em tese – de colocar a vida em risco em atividades paralelas.

Soa inevitável, portanto, que numa certa altura os riscos externos tornem-se maiores que os internos, e a própria história de Schumacher parece corroborar essa conclusão. Afinal, após mais de 300 aparições na categoria mais rápida do mundo, dois terços dos piores acidentes de sua vida foram sofridos entre os quatro anos em que ele se disse aposentado.

E por fim, ainda que as investigações venham a confirmar que o alemão acidentou-se durante um ato de altruísmo, isso não muda o fato de que ele estava lá, numa estação de esqui, e se deslocou com velocidade numa área a ser evitada. Da mesma forma como o grave acidente sofrido nas motos no início de 2009 não foi o primeiro no período de seu primeiro afastamento da F1.

Talvez, conforme a definição dos personagens Brooks e Red de “Um Sonho de Liberdade”, pilotos como Schumacher, de carreira longa e vencedora, acabem se tornando homens institucionalizados, incapazes de viver de forma satisfatória fora dos muros que os abrigaram por tanto tempo.

A verdade, no entanto, é que toda essa lógica e todos esses argumentos me vieram à mente por motivos nada científicos.

No fim, eu queria – e continuo querendo – apenas entender ou aceitar o que aconteceu às vésperas do ano novo. Simplesmente não parece justo que o heptacampeão sofra esse tipo de destino.

Pessoalmente nunca fui seu fã, mas isso não importa.

Nada para a Fórmula 1 pode ser mais importante em 2014 do que o desenrolar dessa batalha, travada no silêncio, na paciência e na imobilidade de um quarto de hospital francês.

Forte abraço a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

9 Comments

  1. […] nas pistas, para terminarem vítimas da velocidade fora delas. Para quem não leu, dediquei minha primeira coluna de 2014, intitulada “Institucionalizados”, a este […]

  2. Fernando Marques disse:

    1) Concordo com Mauro. Schumacher deveria tentar a sorte na Indy/ Le Mans ou na DTM. Isso considerando que seu maior dom era o de guiar carros de corridas. Fora desse ramo ele só se machucou.

    2) Eu acho que este texto do Marcio reflete a um outro ponto importante. Eu penso que a evolução do mundo num todo nos leva a correr mais riscos de vida (inclusive no nosso dia a dia) mesmo com toda a segurança comprovada nas novas tecnologias. A questão é onde devemos praticar tais riscos pois são poucos os locais seguros.

    3) O acidente do Schumacher pode até ter sido uma fatalidade mas houve uma imprudência. Creio que o próprio local onde se deu o acidente já evidencia isso, seja lá qual foi o motivo que levou a ele a buscar aquele caminho quando esquiava.

    4) O que vai se do Schumacher? Não sabemos mas será que vale a pena viver vegetando em coma numa cama? Qual vai ser a sorte dele daqui para frente? O Kubica ainda esta aí vivo e correndo riscos. O Webber, idem. Eu acho dificil o schumacher ter esta sorte …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Mauro Santana disse:

    Belo Texto Marcio!

    Também tivemos o caso do famoso tombo de moto em Interlagos sofrido pelo Rosset, no qual o Barrichello(na época piloto da Ferrari) também andou naquele dia.

    Eu ainda acho que um piloto do calibre do Schumacher após a sua aposentadoria em 2006 deveria ter trabalhado para vencer a Indy 500 ou Le Mans.

    Certo esta o Webber, que vai liderar o esquadrão da Porsche em La Sarthe.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Bem lembrado, Mauro.
      E concordo plenamente contigo.
      Schumacher ainda tinha pique e velocidade para aumentar os próprios feitos em Indy e Mans. Na França, aliás, ele já tinha a experiência das participações pela Sauber.
      Abraço!

  4. Lucas disse:

    Muitos correlacionam o aumento da segurança ao aparecimento de pilotos “estabanados” que mesmo assim são bem-sucedidos. Numa discussão em que se levantou a informação de que dos 14 abandonos reportados nas estatísticas oficiais sobre Juan Manuel Fangio não há um único cuja causa registrada seja “acidente” ou “rodada”, um colega comentou que, naqueles tempos, “uma ultrapassagem desprovida de arte era uma manobra inaceitável, pois poderia ser a última”. Não que não houvesse exceções: Nino Farina era conhecido por não ter muito respeito pelos seus adversários (e de certa forma atribui-se ao seu “estilo” duas mortes nas pistas), mas isso não o impediu de ser bem-sucedido na categoria – foi o primeiro campeão da Fórmula 1. Ainda assim, o mais usual era imaginar que pilotos com o costume de ultrapassar pela força e não pela técnica não durariam muito na categoria (ou teriam tantos acidentes que não seriam muito bem sucedidos).
    Décadas mais tarde, Senna também seria muito criticado por passar dos limites da conduta esportiva em algumas ocasiões, tendo como ápice a famosa manobra em Suzuka 90, que teve como o agravante ser quase um “crime premeditado”. A trágica ironia é que Senna claramente melhorou com a experiência nesse aspecto, tendo feito uma temporada brilhante em 93 e produzindo obras-primas da “tiração de leite de pedra” ao colocar na pole position o problemático FW16 de 94 até morrer por um acidente causado por falha mecânica.
    Já o Schumacher, não sei se influenciado pela sensação de segurança após as inúmeras modificações impostas após Imola 94, foi um piloto que nunca abandonou esse lado. Teve esse costume desde sua estréia até seu último ano em 2006, e mesmo na sua segunda carreira, quando muitos diziam que ele só queria “se divertir” e não tinha pressão para vencer, ainda era muito comum vê-lo se acidentando por conta de manobras mal calculadas, repetindo os mesmos erros de quando era mais jovem. Acidentes ele teve vários, e a taxa de abandonos dele é muito alta pra quem correu quase a vida toda nos confiabilíssimos carros de Rory Byrne, mas era uma época em que já era possível se acidentar impunemente na F1. Faz todo sentido, portanto, dizer que pilotos de Fórmula 1 hoje corram muito mais risco fora da F1 que dentro dela. Pra citar outros exemplos há o do próprio Kubica, que não teve grandes complicações após um acidente horrendo na F1 (que, se tivesse acontecido em outros tempos, muito provavelmente levaria à morte instantânea) mas sofreu ferimentos gravíssimos correndo de rally, ou o Mark Webber, que após um “loop” espetacular com sua Red Bull saiu numa boa do carro, mas sofreu uma fratura… correndo de bicicleta!

    Em tempo: pelo que saiu das investigações, essa afirmação de que o Schumacher saiu da pista para ajudar uma criança acidentada foi invenção do Bild. A imprensa brasileira parece não ter se dado conta disso ainda (ou então é má fé mesmo), mas a frase “o jornal alemão Bild revelou que…” não significa absolutamente nada.

    • Com certeza, Lucas, os avanços na segurança e a criação de áreas de escape asfaltadas afetaram sim a postura dos pilotos, tanto em voltas de classificação quanto em disputas diretas por posição.
      E obrigado pela informação sobre o Schummy.

  5. Eduardo Trevisan disse:

    Puxa, Márcio, normalmente quem me emociona aqui é a Alessandra, mas dessa vez… Que beleza de texto, e que escolha feliz para o exemplo de “institucionalização”.

    Parabéns e obrigado.

    • Obrigado pelo retorno, Eduardo.
      Fico feliz ao ver que não sou o único a ter essa impressão de que os pilotos podem se sentir assim, como Brooks e Red, quando voltam ao mundo exterior.
      Abraço, e escreva sempre.

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