Jean Alesi e a decisão que mudou os anos 90

Reputação abaixo do talento
28/01/2015
O Panzer das pistas
02/02/2015

Jean Alesi marcou a história da F1 com sua pilotagem agressiva e seu carisma. Mas poderia ter sido muito, muito mais.

Jean Alesi foi um dos ídolos da molecada que assistia Fórmula 1 nos anos 90. Apesar do enorme talento, o franco-siciliano jamais foi campeão e conquistou apenas uma vitória na categoria. As coisas poderiam ter sido bem diferentes não fosse uma decisão que mudou sua carreira e o curso da história…

Nascido Giovanni Alesi em 11 de junho de 1964, Jean é, na verdade, filho de sicilianos, mas cresceu na pequena Avignon, uma antiguíssima cidade no sul da França, conhecida por ter sido o lar de muitos papas da Igreja Católica durante a Idade Média.

A paixão por carros surgiu cedo para o pequeno Jean: seu pai, Franck, era dono de uma carroçaria em Avignon e piloto de rali e corridas de subida de montanha. Apesar de Alesi já pilotar carros, seu começo no kart foi relativamente tarde, aos dezesseis anos. Mesmo assim não perdeu tempo, conquistando, em duas temporadas, dois títulos  nacionais.

No começo dos anos 80, o que não faltava na França era  apoio ao automobilismo, tanto que a Fórmula 1 tinha um verdadeiro exército de pilotos, liderados por Alain Prost e René Arnoux, ambos correndo pela poderosa Renault. A montadora francesa também dava apoio aos jovens de seu país, promovendo duas categorias: uma de turismo (com modelos Renault 5) e outra de Fórmula, ambas bem competitivas. Alesi correu nas duas com relativo sucesso.

Mas foi apenas em 1986, na Fórmula 3 francesa, que sua carreira começou a deslanchar. Naquele ano, Alesi venceu duas corridas e impressionou. No ano seguinte foram sete triunfos, o suficiente para o título. O grande salto viria em 1988, quando pulou para a F-3000 que vivia seus melhores anos.

Alesi foi acolhido por Eddie Jordan, que possuia uma das melhores equipes da categoria, com apoio da Reynolds (cigarros Camel). Seu companheiro de equipe era Martin Donnely e o grid era recheado de futuros conhecidos como Johnny Herbert, Roberto Moreno, Eric Bernard, Gregor Foitek e Érik Comas, seu maior rival em 1989.

Naquele ano, Alesi chegou ao título, mesmo empatando em pontos com Comas. O francês tinha uma vitória a mais, o primeiro critério de desempate. No entanto, o grande momento aconteceu antes, no dia 9 de julho, no circuito de Paul Ricard.

Precisando de grana, Ken Tyrrell dispensou o cansado Michele Alboreto e colocou Alesi no seu lugar, em troca do patrocínio da Camel, que seria estampado na carenagem do Tyrrell 018. Os olhos de todos, no entanto, miravam apenas a rivalidade entre Ayrton Senna e Alain Prost, que estava no auge.

Alesi rapidamente pegou a mão do Tyrrell 018. Classificou-se em um bom 16º lugar, levando-se em conta o gordo grid de 26 carros. Seu  companheiro de equipe, o rápido Jonathan Palmer, se classificara em nono. Entretanto, a surpresa viria na corrida.

Com o forte sol de verão fritando a todos no circuito de Le Castelet, na belíssima Côte d’Azur, a corrida já entraria para a história na largada, com o espetacular acidente de Maurício Gugelmin (ele bateu em Thierry Boutsen e Gerhard Berger), que deu uma pirueta cinematográfica no ar. A prova foi interrompida e uma nova largada programada. Quando os carros começaram de fato a correr, os brasileiros já tinham vontade de desligar a televisão porque Senna, com a embreagem quebrada, nem contornou a primeira curva.

Quem permaneceu assistindo testemunhou algumas coisas interessantes: uma briga feroz entre Riccardo Patrese e Nigel Mansell pelo segundo lugar (culminando em uma rodada do italiano), e os desempenho de Gugelmim (apesar do acidente, faria a volta mais rápida da corrida), Stefan  Johansson, que colocava o belíssimo Onyx-Ford entre os seis primeiros, e Alesi no Tyrrell.

O francês resolveu permanecer na pista mais tempo sem trocar pneus e, com as paradas dos adversários, se viu em segundo lugar atrás apenas de Prost. Apesar do necessário pit-stop, Alesi finalizou a corrida em quarto em sua primeira corrida na Fórmula 1, deixando todo mundo de queixo caído. Ken Tyrrel, macaco velho das pistas, arregalou os olhos e se apressou em fazê-lo assinar logo um contrato para 1990. «O diamante é meu e ninguém tasca», deve ter pensado.

Alesi realmente deu uma bela  revigorada na Tyrrell no restante da temporada de 1989, e irrompeu totalmente a cena em 1990. Naquele ano o francês deu um show, principalmente na corrida de abertura, em Phoenix, nos Estados Unidos, onde ousou desafiar Senna pela vitória e também mais tarde, nas ruas de Mônaco, quando foi novamente segundo colocado a poucos metros do McLaren do brasileiro.

httpv://youtu.be/dhbp8YgzG6M

Com um estilo de pilotagem rápido, rasteiro e exuberante, Alesi lembrava muito Gilles Villeneuve, sempre presente nos corações dos fãs. Jean tinha um temperamento tipicamente italiano, mas com um notável charme francês, o que o transformava em um dos jovens mais carismáticos da época. Não demorou muito para que  todos os dirigentes (e todas as meninas) da categoria estivessem apaixonados por ele.

E é justamente aí que começa seu drama. O primeiro a se aproximar com intenções concretas foi Frank Williams. O lendário dirigente começava a achar que estava precisando de pilotos melhores do que Patrese e Boutsen. Apesar de seu último título ter acontecido havia apenas três anos, Williams tinha grandes planos para o futuro.

Williams ofereceu um pré-contrato que Alesi assinou imediatamente. O piloto, no entanto, teria preferido assinar o definitivo de uma vez. Frank, porém, pediu calma porque retornaria em breve. O que o francês não sabia era que Williams também estava negociando com Ayrton Senna.

O contrato do brasileiro com a McLaren expiraria no final de 1990 e sir Williams jogava todos os seus truques para convencer Senna a vir para seu lado. Ele sabia que seu próximo carro, o FW14, seria muito especial. Naquele momento, no entanto, a McLaren era uma equipe bem superior e Ayrton, como era de seu costume, ficou cozinhando o tempo, à  espera do acordo mais vantajoso esportiva e financeiramente.

Tempo que era demais para Alesi esperar. Enquanto aguardava pela resposta de Frank Williams, o francês recebeu convites de praticamente metade das equipes do grid. Um ponto chave na história aconteceu durante o Grande Prêmio da Inglaterra, em julho. Frustrado com a falta de sorte e com descaso de sua equipe, Nigel Mansell anunciou que iria abandonar a Fórmula 1 ao final do ano.

A Ferrari não demorou em procurar seu substituto e considerou Alesi o ideal. Agora, o jovem e  promissor piloto recebia oferta da mais tradicional equipe da categoria, que disputava o título mundial daquele ano com Prost. Além de tudo, ao contrário da Williams, esse era um contrato definitivo. A oferta irrecusável fez o pobre franco-siciliano suar frio.

Mas ao contrário do que popularmente ficou conhecido, Alesi não assinou imediatamente com a Ferrari. Em vez disso, usou o contrato para pressionar ainda mais Frank Williams, não por desejar um aumento de salário ou condições melhores e sim porque queria resolver logo seu futuro. E o britânico ainda tinha a preferência, simplesmente por ter surgido primeiro.

Alesi foi até Williams levando consigo o contrato com a Ferrari. Contudo, com sua habitual parcimônia, Frank queria mais tempo e não se intimidou. No fundo, ainda tinha esperanças de que Senna se juntasse à equipe para 1991. Alesi, no tanto, não podia mais esperar: «Me dê o contrato definitivo para assinar que eu rasgo esse aqui», disse, referindo-se à Ferrari.  O inglês deu de ombros e o francês, irritado, resolveu assiná-lo ali mesmo, pondo fim às negociações.

Foi um momento chave para  a história da Fórmula 1 dos anos 90. Selando seu destino com a Ferrari,  Alesi automaticamente retirou-se dos primeiros lugares, porque não sabia, àquela altura, que a equipe viveria sua mais profunda crise nos próximos anos, impedindo-o de ganhar corridas e títulos e de crescer como piloto. O que certamente teria na Williams, que entrava na situação oposta: inciava-se ali sua época mais vitoriosa.

As negociações com Senna prosseguiram por mais algumas semanas, mas foram interrompidas quando o brasileiro resolveu sua situação com a McLaren, renovando o contrato. O brasileiro também não ficou plenamente convencido de que a Williams era a equipe do futuro. Agora, Frank Williams não tinha nenhum piloto de ponta para pilotar seus carros em 1991.

Com Prost ainda sob contrato com a Ferrari, Alesi e Senna fora do páreo, restavam poucas opções à Williams. A saída foi convencer Mansell – que já sonhava com uma tranquila vida em família – a não se aposentar. O bigodudo mais querido da Fórmula 1 não resistiu aos encantos de sua ex-equipe e assinou o compromisso em  outubro de 1990. A notícia vazou durante o GP do Japão, aquele em que Senna se sagraria bicampeão com a batida em Prost.

A falta de calma de Alesi e o erro de julgamento de Senna foram a grande sorte de Mansell, que recebeu um carro feito sob medida, a prova até de suas famosas pataquadas. Depois de chegar muito perto de roubar o tri do brasileiro em 1991, o britânico conquistou o sonhado título em 1992 impondo um domínio avassalador a bordo do FW14B, que tinha suspensão ativa eletrônica e controle de tração. Enquanto isso, Alesi e Senna pareciam se arrastar com carros antiquados – para dizer o mínimo.

httpv://youtu.be/L8qvg-IXfvc

Apesar de tudo, Alesi diz que não se arrepende. O francês continou a ser o piloto-show da Fórmula 1 durante toda a década de 90, conquistando uma única (e emocionante) vitória no Canadá, em 1995. A história de Ayrton, todos sabemos. Mas se tivesse acreditado na Williams naquele verão de 1990, talvez hoje tivesse um currículo ainda mais impressionante do que aquele que conhecemos.

O que Senna teria alcançado com os formidáveis Williams FW14B e FW15C é uma fantasia que povoa o imaginário de cada um de seus incontáveis fãs. Porém, como dizia o ditado, a vida é feita de decisões às quais devemos ser fieis e assumir todas as responsabilidades decorrentes.

Abraços a todos!

Lucas Carioli

Lucas Carioli
Lucas Carioli
Publicitário de formação, mas jornalista de coração. Sua primeira grande lembrança da F1 é o acidente de Gerhard Berger em Imola 1989.

8 Comentários

  1. Antônio disse:

    Olha, sinceramente acompanhei toda a carreira de Alesi e olhando para trás não o vejo como um possível campeão do mundo (ainda mais contra caras como Senna, Prost, Schumacher…). Talvez porque seu estilo de pilotagem fosse muito vistoso ( e nem sempre tão eficiente…) algumas pessoas tendem a sobrevalorizar as qualidades deste piloto francês. Nunca foi um líder para as grandes organizações que pilotou e mesmo suas observações sobre o desenvolvimento e ajuste de suas máquinas eram muito pouco confiáveis. Ok, na Ferrari dirigiu alguns dos piores carros contruídos por lá na história, mas Jean jamais teve um papel de destaque no sentido de ajudar a organizar o time e tirá-lo do buraco. Sua carreira na Benetton foi bem discreta. Na minha cabeça a maior recordação de Alesi nesta época ter seus tempos igualados (ou algumas vezes superados…) por um piloto novato e ainda por cima entrando no meio da temporada (Alexander Wurz). Na Sauber Pedro Diniz marcou mais pontos que ele na ocasião em que foram parceiros.

  2. Robinson disse:

    Títulos são rodeados de história, simplesmente por darmos muita atenção aos detalhes que os concretizaram.
    Imagine que Clark e Rindt não tivesse morrido. Haveria espaço para Fittipaldi se consagrar na Lotus? E se este mesmo continuasse na Mclaren para a temporada 76? E se Peterson tivesse tido um pouco mais de paciência com a Lotus em 76? E se Reutemann jogasse o carro para cima de Piquet em 81 ou o carro quebrasse na Africa do Sul em 83? Os acidentes da Ferrari em 82. A interrupção de Mônaco em 84 que dividiu os pontos e “decidiu” o campeonato a favor de Lauda.
    Se olharmos bem de perto são pequenos detalhes que decidem títulos apertados como o do último ano. Imagine que fosse Hamilton e não Rosberg com problemas no carro.
    A história sempre é contada sob a ótica dos vencedores,ou alguém se lembra quem em 81 Laffite chegou com chances reais na última etapa, assim como Watson em 82, Arnoux em 83.
    Para concluir vou dar dois exemplos que demonstram bem este universo restrito de números. Em 87 Piquet pós pancada na Tamburello utilizou muito sua experiência e chegou a vencer três GP´s (Hungria, Alemanha e Italia).Em todos os casos herdou a liderança ao final devido a falhas mecânicas ou de pilotagem, estando no lugar certo na hora certa, acreditando que levar o carro até o final para colher o maior número possível de pontos.
    Em 2009 é lembrado pelo avassalador início de temporada de Button, porém logo a Red Bull já fazia concorrência e Vettel ultrapassou Barrichello ficando com a segunda posição na classificação final, porém o acidente na primeira corrida na Austrália com Kubika, que lhe tirou um lugar no pódium poderia ter mudado esta classificação final sendo este o primeiro ano da sequência vencedora do alemão.
    São eles sempre presente, os detalhes e, em poucos dias teremos uma nova temporada e, claro, vamos prestar muita atenção a eles, os detalhes!
    Uma boa semana a todos amigos do GEPETO.

  3. Fabiano Bastos das Neves disse:

    Não acho que Alesi levaria o título de 91. E penso assim porque não o acho melhor que o Mansell.
    Agora se Senna tivesse assinado com a Williams… Talvez estivesse vivo para contar essa história.

  4. Mário Salustiano disse:

    Lucas

    seja bem vindo e com um texto que traz uma amarração muito bem feita dos acontecimentos daquela época, salvo falha de minha memória toda essa movimentação fez o segundo semestre de 1990 muito “quente” nos bastidores, um ponto é que quando ficou sem Senna, Frank ameaçou Alesi de ir a justiça fazer prevalecer o pré contrato, e sinceramente acho que a c… maior foi dele Frank, caso tivesse lidado melhor com seu próprio ego ele teria contratado Alesi e na linha do “se” eu aposto que o frances levaria o titulo de 91

    abraços

    Mário

  5. Antonio Casarin disse:

    Muito bom texto Parabéns!
    Seguindo os comentários dos companheiros leitores do gepeto.
    Se EU tivesse assinado com a Williams eu teria 2 títulos mundiais. E olha que eu teria apenas 2 ou 3 anos de idade.. hehehe
    Brincadeiras à parte, belo texto mesmo. A cada texto, mais fã do gptotal!

    Abraços

  6. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    seja bem vindo e belo tema em sua primeira coluna.

    A minha memória já é um pouco falha em certos detalhes da Formula 1 nos anos 90. Em relação ao Alesi, por exemplo, não lembro dessa negociação dele com a Willians.
    Mas a escolha dele pela Ferrari talvez fizesse sentido na época. Ao fim da temporada de 1990, não havia muita diferença entre a Mclaren/Honda do Senna e a Ferrari do Prost. Em muitas provas Prost foi superior ao Senna e a decisão em Suzuka ficou com um “se” de como teria sido o final da corrida caso o Senna não tivesse jogado seu carro propositalmente (assim como Prost tinha feito em 89) em cima da Ferrari do Prost. Se não estiver enganado a Ferrari do Prost parecia que teria um ritmo de corrida melhor que a Mclaren do Senna, apesar da pole do brasileiro.
    A escolha de J. Alesi pela Ferrari se valeu do bom carro que a Ferrari tinha naquela temporada de 1990. O que ninguém imaginava era que em 1991 a Ferrari fosse fazer uma carroça, que de tão ruim desanimou o Prost, provocando até a sua demissão da equipe. Qualquer piloto que assinasse com a Ferrari em 1990, tinha a certeza na epoca que teria um bom carro em 1991.
    Talvez seu grande erro foi ter ficado muito tempo na equipe. Mas aí é outra historia de bastidores, até por que o Mansell finalmente conquistou seu titulo mundial, e o Alesi tenha ficado sem espaço para crescer na categoria.
    Este frances deve ser boa gente mesmo, pois até Piquet tinha amizade com ele …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  7. Thiago Alencar disse:

    acho que se o Senna assinasse com a Williams para 91, teria sido campeão em 91 arrazando todo mundo e a FIA, ou FISA, teria canetado e mudado todo o regulamento para 92, antecipando o que aconteceu em 94… ou seja, só acho que mudaria a equipe pela qual o Senna teria sido campeão em 91, em 92 detonariam no regulamento tudo o que favorecia a Williams… agora, se o Alesi tivesse ido para a Williams a coisa poderia ter sido mesmo muito diferente! Mas, ninguém vive de SE, mas sim de escolhas…

  8. Mauro Santana disse:

    Belo texto Lucas!

    Pois é, na época em que o anuncio oficial saiu na mídia de que o Alesi havia assinado com a Ferrari, meu pai se virou pra mim e falou bem assim

    – Esse piá fez CAGA..!

    Não que soubéssemos que a Williams seria tudo que foi naquela primeira década de 90, mas porque a Ferrari não passava confiança nenhuma.

    E até hoje, quando vemos ele(Alesi) em alguma imagem na TV, sempre lembramos.

    – É, se ele tivesse ido para a Williams…

    Faz parte, e na vida é assim, com momentos em nosso caminho em que nos deparamos com uma bifurcação, e que nem sempre é possível voltar para escolher o outro caminho.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *