Lambuja

Uma corrida sem campeonato
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Do fim para o começo
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Tudo sobre o GP da Áustria de 2015... e a saudade da verdadeira Fórmula 1.

Quem pagou caro por um ingresso e chegou bem cedo ao autódromo austríaco na manhã deste domingo não se arrependeu. Pilotos legendários acelerando máquinas emblemáticas, cujas silhuetas poderiam ser identificadas facilmente mesmo na ausência de qualquer pintura, através de retas e… Mais retas, que não muito tempo atrás faziam parte de um dos autódromos mais interessantes já construídos. E, depois de serem brindados com tudo isso, aqueles que não tinham nada melhor para fazer ainda tiveram a opção de ver, de lambuja, mais uma etapa do mundial de Fórmula 1 2015.

Sob diversos aspectos o fim de semana na Áustria resumiu o momento atual da Fórmula 1. Basta passear pelas redes sociais para ver a monstruosa repercussão das imagens feitas do encontro entre Christian Danner, Riccardo Patrese, Gerhard Berger, Niki Lauda, Jean Alesi, Nelson Piquet, Alain Prost e Pierluigi Martini, todos ao volante de carros históricos da categoria, para ver que hoje ela vive de passado.

Não faz muitos dias fui confrontado com uma enquete no Facebook perguntando se vemos as corridas da F1 porque ainda temos interesse nelas, ou por força do hábito. Peço desculpas por não lembrar qual foi a página que formulou tal enquete, uma vez que sigo várias. Mas o fato é que rapidamente fiz menção de responder que continuo interessado, e então me detive. E até agora ainda não cheguei a uma conclusão definitiva. O fator continuidade parece ser muito importante nessa história sim, e o certo é que anseio muito mais pelas etapas da MotoGP ou do mundial de Endurance, e isso não é de hoje.

A verdade é que, ranhetices à parte, a categoria afastou-se de sua essência. Os pilotos tornaram-se, com raras exceções, figuras pasteurizadas pelo marketing, inofensivas, insípidas, apáticas, apolíticas. As disputas idem. Antes limitadas pela caixa de brita e pelo instinto de sobrevivência, hoje são tolhidas via punições mimimistas que matam na raiz a essencial disputa territorial e cavalheiresca de que deveria se tratar o automobilismo. Em resumo: gourmetizaram a Fórmula 1.

E os carros? Nem quebrar mais eles sabem. A imagem de Martini conduzindo sua valente Minardi M186 com o motor em chamas foi a coisa mais linda que vi nas pistas nos últimos anos. Nada, absolutamente nada pode ser mais lindo para um amante de corridas do que uma Minardi lançando o motor. Nó na garganta só de lembrar.

Por fim, impossível não dedicar algumas palavras à pista em Zeltweg. Com uma topografia tão abençoada quanto a de Brands Hatch, o saudoso Österreichring era uma verdadeira pista de sonhos. Velocidades altíssimas, subidas, descidas, curvas de média e alta, pé embaixo, vácuo, pneus gritando no limite da aderência. Traçado para pilotos refinados e destemidos, e diz muito sobre a qualidade de Emerson Fittipaldi e Carlos Pace o fato de terem sempre andado tão bem por lá. A existência deste arremedo de pista atual – pouco mais que um quadrado disfarçado por uma pequena invaginação entre as curvas três e quatro, apenas para que ninguém diga que não havia nenhuma curva para a esquerda – onde antes situou-se um autódromo fabuloso, portanto, chega a ser uma espécie de cinismo ou profanação. Melhor seria devolver o espaço à natureza e deixar a pista antiga descansar em paz. Prova maior da pobreza deste traçado atual, aliás, foi a pole conquistada por Felipe Massa em 2014, ao volante de um carro que sofria em curvas mas voava em retas.

Ainda assim, houve uma corrida e é preciso falar sobre ela.

As duas primeiras posições do pódio estiveram sempre restritas aos pilotos da Mercedes, e o ordenamento foi definido não ao fim de 300 km, mas de 300 metros, numa prova de arrancada entre o grid e a curva 1 vencida por Rosberg, apesar do companheiro, mais uma vez, ter partido da pole position. A briga entre ambos ainda estava aberta quando o safety car foi acionado, após o arrepiante enrosco envolvendo Kimi Räikkönen e Fernando Alonso, que por pouco não teve maiores consequências – para os pilotos, e também para os fiscais de pista que estavam próximos ao local do choque.

Apesar da simplicidade do traçado, o fato é que as retas são curtas demais para que ultrapassagens entre carros de desempenho parecido aconteçam facilmente, de tal modo que a Hamilton restava a esperança de retomar a liderança na troca de pneus. A tensão do momento, aliás, ficou visível nos erros cometidos pelos dois pilotos durante o procedimento da troca. Primeiro Rosberg escapou por pouco de uma punição por excesso de velocidade, ao sujar o pneu dianteiro direito justo no momento da frenagem para o pitlane. Mais tarde foi a vez de Hamilton dar motor cedo demais, escorregando a barata para cima da linha de saída dos boxes. A punição de 5s eliminou de vez qualquer chance de disputa, mas teria sido interessante ver sua repercussão caso Hamilton estivesse na liderança.

A despeito da derrota sofrida, Hamilton conserva uma liderança de 10 pontos do mundial e sai da Áustria com uma marca importante. O amigo Marcel Pilatti informa que os breves momentos em que esteve à frente de Rosberg bastaram para que ele igualasse o recorde estabelecido por Jackie Stewart de ter liderado 17 provas consecutivamente. Além disso, o inglês chegou ao seu 15º pódio seguido, igualando a marca de Fernando Alonso entre 2005 e 2006. À frente de ambos apenas Michael Schumacher, com a sequência de 19 pódios entre 2001 e 2002. E aí, Hamilton supera esse recorde?

A terceira colocação de Felipe Massa coroou um fim de semana perfeito, desde a classificação. Sem chance de brigar diretamente com as Ferraris, Massa ocupou-se de superar o companheiro de equipe e, posicionando-se bem em relação aos retardatários, andou sempre no melhor ritmo que era capaz de imprimir. Foi beneficiado pelos erros de Räikkönen na classificação e na corrida, e só herdou a posição de Vettel porque estava bem posicionado o bastante para tirar proveito dos segundos perdidos pelo tetracampeão mundial durante sua desastrada troca de pneus. Mais tarde Massa ainda teve oportunidade de defender na pista o presente recebido, andando forte o suficiente para conquistar seu primeiro pódio na temporada.

O contraste da corrida “plano A” de Massa não poderia ser maior quando comparado à luta infrutífera de Bottas, incapaz de aplicar o próprio ritmo ou administrar pneus, sempre limitado por conjuntos ou batalhas que, a rigor, não deveria estar travando. Para dar a exata dimensão do prejuízo, ao fim da prova a distância entre os pilotos da Williams foi de 37 segundos. Aliás, a equipe ganhou definitivamente minha torcida, depois da linda comemoração à terceira colocação de Massa. Por pouco, muito pouco, uma integrante do time não entrou de forma gloriosa para os anais da categoria, com todos os trocadilhos possíveis.

Inusitada também, para dizer o mínimo, a manobra de ultrapassagem de Pastor Maldonado sobre Max Verstappen, na briga que acabou definindo a sétima colocação. A forma vigorosa como o venezuelano saiu do vácuo, a ponto de provocar um breve pêndulo a 300 km/h, fez lembrar os melhores dias de Nigel Mansell, e aumenta ainda mais a lamentação pelas inúmeras vezes em que toda essa força é manifestada de forma errada e destrutiva.

Antes de encerrar, cabem também algumas palavras sobre Felipe Nasr, em mais uma atuação honesta e competente, que por pouco não lhe rendeu mais um pontinho. Sempre à frente do companheiro de equipe, Nasr classificou-se bem e manteve um ritmo competitivo, apesar de se ver envolvido em diversas disputas ao longo da corrida. Aos poucos o brasiliense vem consolidando uma boa reputação que, com o devido suporte financeiro, deve garantir ao Brasil a presença de ao menos um representante na categoria ainda durante alguns anos. Diante do cenário atual de nosso automobilismo, não dá para sonhar com muito mais do que isso.

Forte abraço, e uma ótima semana a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

5 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Belo texto, amigo Márcio!

    Realmente a F1 atual não cativa mais, e eu me empolgo muito mais assistindo a F-Truck do que a F1.

    Se a F1 esta gourmetizada, a F-Truck ainda é um belíssimo galpão rustico, e com um automobilismo puro.

    A respeito do traçado da pista austríaca, dá até vontade de chorar, visto que a pista original era uma das minhas pistas prediletas, e o que se tem depois da reforma, é bem a cara da F1 atual, ou seja, sem graça nenhuma.

    A respeito da corrida, eu queria saber o por que que não mostraram o acidente do carro do Alonso, visto que todos os carros carregam câmeras.

    E da verdadeira F1 que desfilou com algumas Lendas antes da largada, foi fantástico, e vendo o Alesi com aquela Sauber tubarão no meio daquelas bestas feras turbinadas dos anos 80, só reforça a minha opinião e gosto pessoal, de que os carros da F1 em formato “cunha”, sempre serão mais lindos do que os carros em formato tubarão.

    Isso sem falar dos pneus mais largos, e com os escapamentos soltando as saudosas línguas de fogo.

    Aliás, bem que podiam ter arrumado uma Tyrrell de 89 ou 90 para o francês andar junto com a velha guarda.

    E pensar que a próxima pista que pode bailar na categoria, é Monza.

    Realmente, o mundo esta cada dia pior.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Salve Mauro!
      Muito oportuno seu comentário sobre a Truck. Aquilo, de fato, é automobilismo de verdade.
      Também me intrigou a opção por não mostrar a batida pela visão do Alonso. Resta, contudo, a esperança dessa imagem acabar vazando nos próximos dias, caso tenha alguma informação realmente importante. Vamos aguardar.
      Abraço, e tenha uma ótima semana.

  2. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    o que tinha de ser dito, foi dito na sua coluna. Em relação ao “revival” então nem se fala. Show de bola.
    Apenas incluo um detalhe a meu ver importante e raro de acontecer na atual Formula 1. Este detalhe é que finalmente um pit stop acabou sendo bom para o Felipe Massa. O que sempre vemos é o Massa perder posições ou ficar mais atrás quando entra nos boxes. Desta vez aconteceu ao contrário.
    E isso acabou por me manter preso a TV assistindo a corrida. Tive algum motivo para torcer, e no caso torcer para o Massa segurar a pressão do Vettel.
    Caso contrário não ficaria frente a TV, até por que a corrida foi bem chatinha, apesar de ainda ser fã do A1Ring.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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