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Lewis Hamilton (GBR) Mercedes AMG F1 W08 and Sebastian Vettel (GER) Ferrari SF70H battle for position at the start of the race. 22.10.2017. Formula 1 World Championship, Rd 17, United States Grand Prix, Austin, Texas, USA, Race Day. - www.xpbimages.com, EMail: [email protected] - copy of publication required for printed pictures. Every used picture is fee-liable. © Copyright: Moy / XPB Images

Rei das corridas na América do Norte, Lewis Hamilton confirmou nos Estados Unidos a consistência que o fez vencer cinco das últimas seis corridas, para chegar à reta final do campeonato em condições de encerrar a fatura com duas provas de antecedência, já na próxima semana, no ar rarefeito do altiplano mexicano. Para isso, basta que o inglês – vencedor de 9 das 17 provas disputadas em 2017 – termine na quinta colocação, em caso de vitória de Vettel, ou na nona posição caso Vettel seja segundo. Se o alemão da Ferrari não terminar entre os dois primeiros, Lewis será matematicamente tetracampeão.

Quando eu era criança, meu pai, que é economista, costumava me dizer que a moeda precisa ter lastro para ter valor. “Não adianta, meu filho, o governo produzir uma quantidade enorme de dinheiro na Casa da Moeda, se o País não gerar riqueza proporcional. Fazer isso seria apenas desvalorizar a moeda, e pressionar a inflação.”

A explicação talvez seja simplista, mas passa sua mensagem. E é uma mensagem bastante abrangente, que trata não apenas do “valor real” das tentativas (terminem elas em vitórias ou derrotas), mas também da forma como, mais cedo ou mais tarde, quem blefa sempre acaba tendo que baixar suas cartas. É como aquele maratonista que faz o papel do coelho e puxa o ritmo ao longo dos primeiros cinco ou dez mil metros. Ele ganha seu espaço, tem seu nome citado, mas quem irá conquistar o prêmio e as manchetes, lá no fim, é aquele que se mostrar capaz de manter o melhor ritmo sustentável, aquele capaz de conservar um desempenho de alto nível até a linha de chegada, aquele que elevou os próprios limites, e não precisa ir além deles durante a disputa. Em português claro, aquele que tem mais garrafas para vender.

Intencionalmente ou não, meu pai me ensinou que na vida não é possível buscar atalhos para conquistar o que se deseja. Não se pode vergar além de certos limites a velha lei do plantar e do colher. E, em essência, é exatamente isso o que se passou na Fórmula 1, não apenas neste GP dos Estados Unidos, mas em toda a temporada 2017.

Assim como em um punhado de anos anteriores, tivemos uma tentativa honesta e muito sólida de conquistar o título mundial por parte de um conjunto forte, mas não o mais forte, que lhe valeu a liderança na tabela de pontos durante grande parte da disputa. E, também como aconteceu na maioria das vezes em que este cenário se desenhou no passado, o desenrolar da temporada foi uma demonstração – angustiante ou tranquilizante, a depender da perspectiva de cada um – de que, no fim das contas, o conjunto mais forte quase sempre acaba sobressaindo.

Ninguém pode acusar Vettel de não tentar. Na corrida, assim como no campeonato, ele largou na frente, e fez de tudo para se manter por lá. Consumiu seus recursos mais rápido do que deveria, no esforço para bater um conjunto que simplesmente era mais rápido na maior parte das pistas ou circunstâncias. Inclusive neste fim de semana, em Austin.

A ultrapassagem veio de forma inevitável, como parece ter sido inevitável a virada na tabela de pontuação. E, no fim, mesmo a segunda colocação teve de ser brigada, conquistada através de um caminho mais longo e tortuoso.

Foi o que deu para fazer.

A metáfora é apenas um pouco comprometida pelo fato de a ligação entre Hamilton e a pista de Austin não ser nada usual.

Salvo algum equívoco de minha parte, nas seis vezes em que a Fórmula 1 pisou por lá, em cinco oportunidades Hamilton foi o vencedor.

Melhor do que ele, só Marc Márquez…

Poucos dias atrás o jornalista Will Buxton publicou um artigo, que foi enfaticamente endossado pelo experiente fotógrafo Paul-Henri Cahier, no qual relaciona o recente desmoronamento da Ferrari à “personalidade paranoica de Maurizio Arrivabene”, que teria emprestado à escuderia uma atmosfera extremamente tensa e contraproducente. A palavra “beligerante” foi a escolhida pelo autor.

O mesmo artigo trata como certa a saída do dirigente ao fim desta temporada…

Reta final da temporada, e já podemos fazer uma leitura a respeito do que o desempenho de Valteri Bottas nos diz sobre o atual campeão mundial, Nico Rosberg. Afinal, alguém consegue imaginar o finlandês vencendo sete corridas consecutivas tendo Lewis como companheiro? E que tal um campeonato mundial? De fato, e cada vez mais, Nico parece um campeão muito subestimado, ainda que grande parte dessa impressão deva-se à sua própria ausência de aura.

Aliás, um cruzamento superficial e sem o devido detalhamento nos aponta alguns caminhos. Nico bateu o Schumacher pós-aposentadoria no somatório de três anos, mas foi superado por Hamilton na maior parte dos quatro anos em que dividiram a Mercedes. Por outro lado, Bottas foi geralmente mais forte do que Massa, e agora apanha de Hamilton na Mercedes.

Apontamentos um tanto óbvios e carentes de ressalvas, mas ainda assim dignos de registro.

E já que falamos em comparações, impossível não observar mais uma vez que a talentosa geração atual tem desperdiçado a oportunidade de promover confrontos diretos entre seus principais expoentes, com equipamentos idênticos.

Parece claro que Hamilton e Vettel vão acabar encerrando suas respectivas carreiras sem a derradeira medição de forças, e temos ainda Verstappen e Alonso para completar a equação. Um pouco de coragem e desprendimento, e poderíamos ter pela frente alguns dos melhores anos da F1 desde 1950.

Os números dessa turma, é fato, são impressionantes. Mas, numa perspectiva histórica, este tipo de carência inevitavelmente os colocará abaixo do que poderiam.

É uma pena.

Última volta do GP, Verstappen parte para cima de Kimi e consegue uma ultrapassagem extremamente arrojada e improvável, cortando parte de uma curva no processo.

https://youtu.be/axNukng-3fU

Pergunto aos leitores: em suas opiniões, a punição de 5s proposta pelo fiscal Garry Connely foi justa?

Uma ótima semana a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

3 Comments

  1. Mauro Santana disse:

    Grande Márcio!

    Bottas chegou agora no barraco alemão, mas realmente, Rosberg merece muito mais reconhecimento pelo que fez, e pelo campeão que se tornou.

    A respeito da punição para o Verstapen, eu só digo uma coisa, que retornem as caixas de brita, ponto.

    Agora, a cara que o Kimi fez na sala que antecede ao pódio, foi demais.

    rsrsrs

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    eu penso o seguinte:

    1) A Ferrari faz uma temporada sensacional em 2017. Está longe de ser apenas uma coadjuvante e sim uma das protagonistas. Se o Vettel abriu a boca para falar alguma coisa correta neste ano foi isso. O trabalho da Ferrari é excelente e se no ano que vem ela conseguir manter este nível, a gordura da Mercedes será bem menor no que diz a eficiência de suas forças motrizes, pois em termos de chassis ela não tem o melhor da categoria … é para isso que eu torço ano que vem …

    2) Quanto ao Valteri Bottas,ele faz uma bela temporada em sua estréia pela Mercedes … ou será que alguém imaginaria que a Mercedes não iria prestigiar o Hamilton quando a Ferrari começasse a berrar … ele só teve a ganhar nesta temporada … agora no ano que vem, se a política na Mercedes for mesma que de 2016 quando Nico bateu o Hamilton, ele terá que mostrar realmente ao que veio na Formula 1 …

    3) Quanto a punição do Verstappen, ela foi mais que a correta … ele não passou pelo Kimi dentro da pista e sim por fora dela, pois na pista legalmente o Finlandês fechou-lhe a porta … foi uma bonita manobra, , certamente, mas não daria certo se em vez de cimento, existisse ali entre a pista e a área de escape, ao menos uma faixa de 2 ou 3 metros de largura de grama … eu acho uma falta de respeito ver, como vemos ontem em Austin ou em outra qualquer pista, pois toda corrida vemos isso, um piloto para ultrapassar usa o recurso para joga-lo para fora da pista … joga pois sabe que a pista é segura e nada acontecerá de ruim para seu adversário … mas antigamente não era assim e com certeza um piloto seria banido da Formula 1 … lícito é ganhar posição dentro da pista … e lícito o Verstappen não foi …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Guilherme Guizi disse:

    Eu acho que a punição foi bem dada sim. Ele só passou o Kimi por que ele cortou a pista toda pela zebra. Se ao menos as duas rodas do lado esquerdo estivessem na pista, ai não teria por que puni-lo. O Verstappen deu piti, pois segundo ele todos estavam fazendo isso, mas não me lembro desses “todos” terem feito o que ele fez (de ter colocado o carro todo para fora da pista). Só metade do carro, para mim, não tem problema rs e não vejo como tirar vantagem não. O engraçado é que fico aqui pensando: o Kimi é tão sossegado que nem se importou se o Verstappen tinha ou não cortado caminho. Mas fico imaginando se o Max fosse ultrapassado por alguem daquela maneira, se ele não iria reclamar de “ultrapassagem proibida” e pedir punição hehe.

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