Melhor perder esse trem

O Som Slade
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11/11/2013

A Scuderia Ferrari tem errado seria e constantemente nos últimos tempos - e talvez o maior erro esteja nas estratégias da equipe.

Se não falha a memória, foi o estrategista da campanha eleitoral de Bill Clinton que exclamou “- It’s the economy, stupid!” a respeito do fator que definiria vitória ou derrota. No caso desta temporada, não é apenas a aerodinâmica superior da Red Bull conjugada com o talento do mais jovem tetra que define os campeonatos de pilotos e construtores.

A meu ver estratégia tem tido um peso considerável e nem sempre é examinada com a devida atenção. Gosto de ver, por exemplo, o que James Allen, analista da BBC, acha. Vamos dar uma olhada neste último GP sob esse aspecto?

Terminadas as atividades de pista na sexta, os dados recolhidos indicavam que os pneus soft teriam desgaste similar ao da Índia, mas durariam um pouco mais. Seriam cerca de 1,5’ mais rápidos por volta que os médios e durariam cerca de 5 voltas menos. Portanto a lógica indicava classificar e largar com eles, como fez o vencedor.

Em tese se sairia melhor quem conseguisse dar o maior número de voltas com os soft antes da primeira parada. Parar cedo demais levaria a voltar no meio do tráfego e dar de cara com a traseira de um Force India, por exemplo. Ou com a lateral de um Toro Rosso.

Também é lógico apostar contra a lógica na tentativa de surpreender, especialmente quem não tem muito a perder, ou seja, a turma do pelotão intermediário. Um bom estrategista também precisa levar isto em conta. Ao contrário do circuito indiano, onde a temperatura ambiente se manteve estável, em Abu Dhabi ela variou mais de 10º para baixo e assim deu sobrevida a ambos tipos de borracha.

Especialmente no último stint, como provou Alonso.

Se você fosse estrategista da Ferrari, por exemplo, é com esses elementos que teria que lidar. Se você fosse estrategista da Force India, haveria uma boa probabilidade de apostar em uma única parada, ao perceber que os carros funcionavam muito bem com os soft. Di Resta, largando em 11º, saiu com soft; Sutil em 17º, com médios. Apostas diferentes para resultados similares.

Surpreendentemente, além de Di Resta e Vergne, somente Massa e Alonso fizeram stints longos com os soft. Di Resta e Vergne logicamente foram os primeiros a desempenhar o papel de chicane ambulante, com seus soft gastos, obrigando Webber, Rosberg e Grosjean a brincar de trenzinho por um tempo.

Note que Di Resta virava na mesma faixa de tempo de Rosberg, este com borracha média fresquinha. Grosjean também experimentou os aspectos negativos deste tilkódromo, perdendo tempo atrás de Vergne. Isto estragou a obra dos estrategistas da Lotus, que tinham optado por fazer a primeira parada do franco-suíço logo na volta 8, para tentar dar a ele alguma vantagem na luta com Webber e Rosberg.

Sutil foi até a volta 28 com os médios e com isso se tornou outra parede móvel numa pista em que – Petrov e Alonso provaram muito bem – não é assim tão fácil de ultrapassar. Atrás de Sutil, os vagões do trenzinho eram Hamilton, Massa, Hulkenberg e Alonso. Tempo precioso, que não volta mais.

Depois da corrida é comum aparecerem justificativas tipo “precisamos nos classificar melhor para poder ter chance de chegar ao pódio”. Na Índia Grosjean mostrou que essa não é uma verdade absoluta, não é mesmo? O momento certo para não virar vagão também influi.

Até aqui, parabéns para os estrategistas e pilotos da Force India, que devem ter tirado tudo que podiam dos meios de que dispunham e venceram a competição particular com a Sauber, sua concorrente direta pelos milhões do campeonato de construtores.

O mesmo não se pode dizer da Ferrari. Tenho repetido aqui que estratégia está longe de ser um dos pontos fortes da rossa neste período pós-Brawn. Não preciso lembrar do campeonato perdido nesta mesma pista, preciso?

Aparentemente Domenicali decidiu deixar seus pilotos na condição cada-um-por-si desde os treinos. Massa classificou melhor, largou bem como (quase) sempre, e se manteve à frente do asturiano até o fim do segundo stint. Aí aparecem as perguntas sem resposta, os mistérios similares ao das más largadas do Webber.

Por que Massa parou na volta 38, quando seus pneus ainda não davam sinal de desgaste? E por que colocou médios? Para quem tinha andado 18 voltas com softs no primeiro stint, não seria muito mais lógico voltar a eles para as 17 finais, com a temperatura muito mais baixa? Massa declarou ter estranhado essa decisão.

Mr. Fry declarou que acharam melhor uma alternativa conservadora… Seria uma versão atualizada do “Fernando is faster than you”? Como Alonso de fato se aproximou rapidamente do fim do trenzinho, talvez a equipe tenha achado que ele teria realmente chance de colher mais pontos que o brasileiro.

Massa deu motivos para a equipe decidir assim por sua demora em passar Vergne. Estaria efetivamente com dificuldades para ser mais rápido? Mas, será que ele não fez maiores esforços para isso por contar que calçaria softs na parada seguinte? Será que isso não foi discutido pelo rádio?

Não vou nem entrar na questão dos 8 décimos a mais na troca porque não me interessa a teoria da conspiração contra brasileiros. Acho que, com a definição do campeonato de pilotos, tanto faz qual deles marca mais pontos, desde que marquem, portanto o problema está na estratégia e não na concentração de esforços em Alonso.

Vamos voltar um pouco mais para trás e relembrar o que aconteceu na Índia. Ali a luta de Massa era com Grosjean. Na altura da volta 29 o brasileiro tinha 23’ de vantagem sobre o piloto da Lotus e devia fazer sua segunda parada. Se ele tivesse ido aos boxes nessa volta Grosjean é quem ficaria vendo a parte da trás da asa traseira.

E com pneus gastos, com os quais deveria ir até o final, ao passo que Felipe estaria com novos. Como parou na volta 30, Felipe é quem ficou atrás. Os estrategistas da Mercedes viram esse perigo e chamaram Rosberg na volta 27. Quem assumiu a liderança na disputa pelo segundo lugar entre as equipes?

Talvez os estrategistas da Ferrari tenham vindo do setor ferroviário.

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

10 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Vou um pouco mais além.

    Estas atitudes da Ferrari deixam claro que com o Alonso como companheiro e não estando fora de um GP, o Massa nunca mais iria vencer uma corrida na F1.

    Ele, Massa, já deveria ter decidido por uma outra equipe no final de 2010, mas, por comodismo, aceitou ficar, e perdeu anos preciosos na F1.

    Por isso que eu quero ver o ano que vem com a chegada do Kimi, pois a briga vai ser feia, estilo Mansell x Prost no ano de 1990, aonde o inglês deixou claro no GP de Portugal daquele ano não dar a mínima para o francês conquistar o tetra.

    Abraço!

    • Carlos Chiesa disse:

      Há rumores de que o Kimi já teria se arrependido de ir para a Ferrari. A fonte é Christian Danner.

  2. Fabiano disse:

    Carlos,
    Concordo que a Ferrari, entre as equipes grandes, é a pior na gestão da estratégia de corrida. Porém, o “erro” que foi com o Felipe foi grosseiro demais, e por esta razão me faz acreditar que foi cometido de forma proposital.
    Sei que vão dizer que isso é “teoria da conspiração”, que a equipe jamais se prejudicaria desta forma no campeonato de construtores, etc. Mas o erro que os estrategistas da Ferrari cometeram, especialistas no assunto que contam com avançados recursos (eles não tomam decisões baseados no live timing e cronômetros de mão), eu soube que estava errado na hora que o carro saiu dos boxes. Todos sabem que o Felipe se dá muito melhor com os pneus macios do que com os médios. O Alonso se aproximou dele somente quando ambos calçaram os médios. Os macios do brasileiro duraram no início da corrida, quando o desgaste era maior devido ao peso do carro e a temperatura da pista, mais voltas do que as que faltavam para o final da corrida. Não há como justificar a opção pelos pneus médios. Só dá pra apontar má fé da equipe para com o piloto.
    Foi para tirá-lo da frente do Alonso?
    Foi para ensinar-lhe uma lição (pois havia dito que não ajudaria Alonso e desobedeceu ordens da equipe)?
    Não sei, mas sei que foi uma grande burrada, pois como você mesmo disse na coluna, dava para o Felipe ter lutado pelo segundo lugar na corrida.
    Espero que Felipe encontre um bom carro para o ano que vem e possa mostrar mais seu valor. Sei que ele não é o melhor piloto do grid, mas as vezes parece que a Ferrari quer mostrá-lo como o pior de todos.

    • Carlos Chiesa disse:

      Com todo respeito, não acho que a Ferrari tem a intenção de mostrá-lo como o pior de todos. Logo que ficou meio claro que o Alonso foi se oferecer para a RBR o Montezemolo veio a público dizer que a equipe tinha feito tudo que ele queria, do jeito que ele queria, quando queria, como queria e os resultados não tinham aparecido. Não vejo como deixar mais claro que isso que o Felipe tinha um papel de coadjuvante. Lembra aquela ultrapassagem que ele tomou do Alonso na entrada dos boxes (!) logo na primeira temporada do asturiano na Ferrari? Qual foi a reação do Felipe? A de um segundo piloto assumido, ou estou enganado? Nada contra ele. Ficarei muito feliz se ele conseguir mostrar novamente que pode ser campeão.

  3. Mário Salustiano disse:

    amigos

    Sobre os erros de estratégia da Ferrari me junto a voces, na mesma linha de raciocínio, e ainda coloco um pouco mais de pimenta, um ponto que me chama a atenção é que nos dias atuais existem muitos fatores que permitem um estudo minucioso das falhas de estratégia, poxa Ross Brawn saiu da Ferrari em que ano? daqui a pouco vai fazer uma década e não existe no corpo técnico da Ferrari ninguém que consiga juntar esses pontos e começar a acertar de forma mais eficiente? Não adianta eles ficarem só achando que o segredo da Red Bull está em seus carros, a Red também é muito eficiente como time e hoje isso é determinante para se chegar a vitória. Ano que vem se a Mclaren acertar o carro, a Mercedes se acertar com os pneus , não ficarei surpreso se a Ferrari cair para quarta força do grid
    Carlos aproveito e pergunto tanto a voce como aos amigos leitores ,em cima desse tema que levantado, eu tenho a percepção que essa estratégia de pneus pouco duráveis ao final das contas não trouxe a mistura e imprevisibilidade de resultados pretendidas pelos dirigentes, o que voces acham?

    abraços

    Mário

    • Carlos Chiesa disse:

      Olá Mário. Não estamos falando de amadores, bem entendido. Estamos falando de profissionais que, por algum motivo, estão falhando mais do que seus concorrentes diretos. Ross é uma raposa e parece ser um animal mais raro do que se imagina na F1. Penso que a Ferrari poderá perfeitamente ser competitiva no ano que vem. Toda equipe tem seus altos e baixos, e a Williams nos lembra disso há vários anos. A McL juntou-se a ela este ano. Mesmo perdendo para a RBR ela tem sido vice nestes últimos anos, portanto descartando o ano Brawn, ela tem sido primeira ou segunda força desde o terceiro título do Michael S.

  4. Fernando Marques disse:

    A unica estrategia que funciona na Ferrari é em favor do Alonso … não me lembro a ultima vez que o Massa ganhou posições numa corrida num pit stop … ele sempre volta atras de quem estava antes na frente …

    Fernando Marques

    Niterói RJ

    • Carlos Chiesa disse:

      Olá Fernando. Enquanto o Alonso tinha chances de ser campeão um favorecimento fazia sentido, se você se coloca no lugar do Domenicali e não no lugar do Galvão. A partir do momento em que só está em jogo o vice dos construtores, tanto fez quem chega na frente. Domenicali e Massa são tidos como amigos pessoais. Mas o meu ponto é que os estrategistas da Ferrari vem errando seguidamente, inclusive com o Alonso.

      • Mauro Santana disse:

        Na boa, a Ferrari sempre foi marcada por grandes fiascos fora da pista, exceto na era Schumacher.

        Então, espero que no futuro mais nenhum brasileiro corra por esta equipe, pois já esta marcada na história do Brasil que a Ferrari existe para ser batida, e neste sentido tivemos 3 grandes campeões que fizeram isso muito bem.

        Abraço!

        Mauro Santana
        Curitiba-PR

        • Carlos Chiesa disse:

          Antes tarde que nunca. Mesmo que a coluna já tenha saído da primeira página, gosto de responder. Fiascos? Só a Ferrari? Como disse antes, toda equipe tem momentos bons e ruins, McL e Williams estão longe de seus melhores momentos, ao passo que a Scuderia tem se mantido constantemente como rival da RB nestes ultimos anos. Se você olhar para trás, verá que mesmo com tantas mudanças de regulamento ela se manteve competitiva pela maior parte do tempo. Sem contar a supremacia Ascari, agora trazida de volta aos holofotes com as chances de Vettel bater o recordo do piloto italiano.

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