Memórias

Nos embalos de sábado à noite
10/04/2017
Otimismo à mesa
14/04/2017

O Lotus 38 em Indy 65, com Clark ao volante e toda a equipe Lotus

Cultivar a memória é, em muitos casos, tudo o que resta.

Verdade que se trata de coisa de velho, fora de moda, saudosismo etc. e tal, mas – o que fazer? – mais e mais me afeiçoou à frase de Marques Rebelo: “há tempo de amar e tempo de amar o que se amou”.

Como já não amo – vocês sabem disso – a Fórmula 1 como amei um dia, esta linda frase mais a leitura reiterada de Pedro Nava – retorno a ele já já – me fazem espremer o cérebro em busca das minhas primeiras lembranças da Fórmula 1.

Digo desde logo que não sou capaz de precisá-las, mas sei que têm a ver com o verde escuro próprio dos carros britânicos. Sim! Naqueles tempos em que me envolvi com a categoria, final dos anos 60, pré-patrocínios, tinha disso. Verde para os britânicos, vermelho para os italianos, azul para os franceses, brancos para os alemães, os demais não lembro.

A memória do verde escuro certamente se liga à imagem indelével dos Lotus de Jim Clark, o 25, o 33, o 38. Bastante provável que seja por conta deste último, com o qual Jim Clark venceu Indy 65, um carro impressionante, transpirando solidez e potência, linhas simples, pneus grandes, todo carenado, tomadas de ar diferentes de tudo, escapamentos proeminentes, pintados de amarelo, uma coroa para um carro impecável. Gostava de ver os adesivos de marcas de empresas que desconhecia – Bear, Autolife, Premier, Perfect Circle, Enco – na lateral. O pequeno Clark quase sumia dentro do 38. Deve ter exigido força sobre-humana para ser domado por 500 milhas naquele inferno sobre asfalto, impulsionado por um motor Ford, marca que se tornou para sempre para mim simpática ainda que, vá entender, nunca tenha me motivado a comprar um.

Tenho ainda boa memória do mesmo Clark, numa foto preto e branco, sentado à vontade no chão, as costas apoiadas no muro do box, de macacão e capacete, um sorriso no rosto sobre o qual ele aplicou algumas tiras de esparadrapo, de forma a proteger-lhe a pele da pressão dos óculos usados durante a corrida.

Tenho também aqui pra mim alguma imagem de uma mão enluvada acionando uma alavanca de câmbio diminuta. Lembro-me de ouvir no rádio do carro de meu pai – provavelmente Rádio Eldorado, 1968 – informação de que naquele dia seria disputado o GP de Mônaco, onde os pilotos fariam não lembro quantas mil mudanças de marcha durante a corrida. Tenho a convicção de que ouvi esta notícia à tarde. Ora. Se era um domingo, naquele momento o GP já havia sido encerrada. Só saberia o resultado da prova – vitória de Graham Hill com a minha amada Lotus – quando comprasse as edições de 4Rodas ou AutoEsporte. Sim! Era assim naquele tempo… (Por algum motivo, ainda hoje faço questão de carros mecânicos, para hilaridade de muitos amigos.)

Mas, acima de tudo, prevalece a cor verde escura em minha memória, e de tal forma que posso afirmar que a minha primeira decepção com o automobilismo foi a Lotus, equipe para a qual torcia com ardor próprio da adolescência, trocar a sua cor sacra pelo vermelho, ouro e branco da Golden Leaf, seu primeiro patrocinador.

Decepções claro, nunca cessaram – e são tão abundantes nos últimos tempos -, mas houve alegrias, e como! Imaginem as lembranças de um garoto de 15 anos que ganha de presente uma viagem a Buenos Aires para assistir ao GP de Fórmula 1 de 72 – lembrança mais fortes sendo o azul do Tyrrell de Jackie Stewart – ou poder testemunhar em pessoa as primeiras visitas oficiais da Fórmula 1 à Interlagos, já então uma extensão do quintal da minha casa, 73, 74 e 75, três vitórias seguidas dos ídolos Emerson e Moco. E depois ainda viver para festejar Piquet e Senna.

É, como diria Galvão Bueno, muita emoção, inesquecíveis e intensas emoções, agradeço por poder tê-las podido sentir quando era mais fácil para mim me emocionar.

Hoje, vocês sabem, minha disposição para com a Fórmula 1 está bastante, digamos assim, redimensionada. Quer dizer que, de novo, vamos embarcar na discussão da falta de ultrapassagens e a turbulência gerado pelo carro que vai à frente? Meu Deus! E vem aí mais uma tentativa de reduzir custos e melhorar o barulho dos motores. Será que voltamos ao Século XX?

As cores atuais também não ajudam. Não era o meu caso, mas tantos aguardaram o retorno da McLaren à sua cor tradicional e o que ganhamos em troca? Um tom indescritível de vermelho, sem qualquer traço do brilho do laranja original dos carros de Bruce McLaren e Denis Hulme, e ainda por cima recoberto de preto. Mas – oásis! – os RBR e os Toro Rosso deste ano até que estão bonitos.

Desculpem, mas não quero mais discutir ultrapassagens, custos, regulamentos. Quero apenas cores, cores simples, cores inesquecíveis.

icone separador

Citei Pedro Nava e queria registrar aqui todo o meu prazer em ler a obra do nosso maior memorialista e monumento, desculpem o clichê, da literatura brasileira, a ponto de poder ser alinhado ao lado de Machado, Graciliano, Amado, Érico.

Lê-lo e relê-lo, coisa que faço desde os anos 90, é motivo de grande prazer e infinitos ensinamentos. Recomendo vivamente a todos os leitores.

A grandeza da obra de Nava, falecido em 1984, dá outra dimensão à frase de Rebelo.

Abraços

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

4 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Edu,

    não nasci para ser jornalista e por isso não tenho guardados provas da minha memória que sempre lembra os bons tempos da década de 70 e 80 da Formula 1. Na década de 60 era um garoto, que já amava carros e que com quase 10 anos já sabia dirigir sozinho. Mas como isso? Meu pai era loteador e gostava de acompanhá-lo nas obras de abertura dos loteamentos que ele fazia. Ali sem fiscalização ou qualquer tipo de transito passeava de carro pelas ruas que ele abria. Gastava mais de meio tanque de gasolina nestas brincadeiras. Com 10 para 11 anos dei a minha primeira batida de carro num Opala zerinho que ele tinha acabado de comprar. Entrei muito de lado na curva, não consegui segurar no braço e bati com a lateral traseira numa arvore. Meu pai viu tudo e disse para mim. Isso aí não é um fusca, é um Opala, Tem mais força. Fora a alavanca de cambio ficar na coluna da direção. Dirigir sempre foi a minha paixão, Com 13 anos jã aprontava com os caminhões que meu tinha, aqueles Mercedes 1111 ou 1113 basculantes, Acho que por nesta idade também gostava de andar na retro cavadeira. Eu simplesmente adorava dirigir . Quis ter um Kart, mas a minha mãe vetou. Recebi um convite em 1980 para fazer uns testes num Passat no autódromo do Rio, numa equipe do noivo da irmã de um amigo meu, que me viu fazendo algumas estrepolias na direção, Não fui, Fiquei com medo de gostar demais e depois não ter como levar aquela brincadeira a frente. Era dificil encarar a minha mãe naquela época..
    Assim então virei um fã da 4Rodas e da Auto Esporte, Tinha uma grande coleção. Joguei tudo fora (onde estava com a cabeça de fazer isso?). Tinha uma coleção de carrinho da Matchbox, Dei tudo também. Agora avô revivo um pouco daqueles tempos com os mais de 200 carrinho da Hot wheels que dei para meu neto. Imagina a minha tara pelo automobilimo naquela época. A sua coluna foi tão bacana que só isso me trouxe de volta a minha memória.
    Creio que não preciso dizer mais nada.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Edu disse:

      Obrigado pela mensagem, Fernando, muito obrigado mesmo.
      A primeira 4Rodas que comprei na vida trazia reportagem de Le Mans 68, com aquele lindo Ford GT da Gulf na capa, um carro inesquecível!
      Não tive moleza na hora de aprender a dirigir. Só quando tive meu carro mesmo…
      Mas recusei todos os convite para pilotar kart pelos mesmo motivos que você: temi largar tudo pra baixar tempo.
      Grande abraço, Fernando, boa Páscoa pra você e sua família
      Edu

      • Fernando Marques disse:

        Edu,

        se não me engano a primeira 4Rodas que comprei foi aquela que ela sorteou um GT 4R, um esportivo bem parecido com o Puma … acho que em fins de 1969 …
        Este convite para andar no Autodromo do Rio, mexeu muito comigo … levei uma duas semanas para dizer não … teria que ir escondido e nunca gostei de fazer nada escondido …

        Fernando Marques

  2. Mário Salustiano disse:

    caro Edu

    a coluna mais singela e tocante que li nos últimos tempos, voltei no tempo na lucidez de suas palavras

    abraços

    Mário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *