Monza, a corrida

Treinos GP da Itália
15/09/2001
Montoya e Zanardi
16/09/2001

Lamento desmentir quem acha que Rubinho – creio que ele próprio pensa assim – perdeu a corrida por culpa exclusiva dos boxes da Ferrari.

Mesmo se tudo tivesse dado certo na primeira parada do brasileiro, ele teria voltado da parada seguinte enrolado com Montoya – impossível dizer se na frente ou atrás. Seria muito bom ver a disputa entre ambos mas nada garante que Rubinho teria vencido.

Vamos rever a coisa toda desde o começo.

Com medo de não acompanhar o ritmo dos Williams, a Ferrari desenhou uma estratégia exótica para vencer em Monza, com duas paradas para reabastecimento, fazendo Michael e Rubens largarem com um terço menos de combustível que os Williams.

Rubens não largou mal mas também não largou bem, ganhando a posição de Montoya na 8ª volta e conseguindo abrir uma boa vantagem – 10 segundo até a 19ª volta, quando pára pela primeira vez. Enquanto isso, Montoya, pilotando no limite, sofre para segurar Michael.

A estratégia estava dando certo mas a Ferrari se complica. O sistema de abastecimento não funciona, provavelmente por pane elétrica no controle de abertura e fechamento do bocal (note que o mecânico percebe que a coisa deu tilt antes mesmo de engatar a mangueira).

O tempo de parada de Michael: 10,4 segundos, sendo que o abastecimento consumiu aproximadamente 8 segundos; o tempo de abastecimento efetivo de Rubens parece ser até um pouco menor – sete segundos, mas não dá para ver perfeitamente. Só que a parada inteira lhe custa 16,3 segundos.

A diferença entre o tempo de parada de ambos é aproximadamente o mesmo da vantagem de Montoya sobre Rubinho quando este voltou do segundo reabastecimento. Impossível, como já disse, dizer quem ficaria na frente mesmo porque Montoya pode ter maneirado um pouco o seu ritmo sabendo que teria folga para liderar quando Rubinho parasse de novo.

Ou seja, para garantir a vitória, Rubinho teria de ter largado melhor. Na frente, poderia ter construído uma liderança mais folgada sobre Montoya já que, depois que o passou, abriu quase um segundo por volta. Aliás, se a Ferrari largou mais leve, era exatamente para sumir na frente no começo da corrida. Note que se meu raciocínio estiver certo, Rubinho teria vantagem suficiente até para compensar os problemas nos boxes.

Outra crítica: não tenho os tempos de volta à mão mas acho que Rubinho não conseguiu ser rápido em alguns momentos importantes da corrida, como o fez Ralf, por exemplo, pouco antes da sua parada, ou Montoya, enquanto segurava Michael.

Pode parecer excesso de rigor no julgamento de Rubinho e de fato o é. Mas se ele quer ser um dos grandes, tem de ser grande o tempo todo.

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A ultrapassagem dele sobre Ralf foi coisa de gente valente. A registrar apenas que Ralf manteve um comportamento ético, digamos assim, pois era fácil para ele espalhar um pouco na saída da chicane e bloquear Rubinho. Poderia, se questionado, argumentar facilmente que perdeu o controle do carro. Ponto para Ralf no quesito cavalheirismo e espírito esportivo. Seu irmão maior não teria tido ética nenhuma e talvez por isso já ganhou tantas corridas.

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A péssima transmissão da TV italiana – que no sábado já havia perdido misteriosamente Pizzonia, líder a corrida de Fórmula 3000 – não deixou ver direito o que aconteceu entre os líderes na primeira chicane e nos metros seguintes. Michael cortou a chicane por fora e quase ganha a segunda posição de Rubinho. Logo a seguir, Ralf passa o irmão e fica em 3º.

O que aconteceu nos metros seguintes foi um dos momentos altos do campeonato, repleto de significados e significantes.

Na saída da Variante Roggia, Michael percebe que Ralf saiu mal da curva, cai para a direita e prepara a ultrapassagem. Ralf percebe a intenção do irmão e fecha-lhe a porta de forma brutal, exatamente como Michael fez com ele em Nurburgring, no GP da Europa.

Michael não deixa barato e insiste; Ralf continua a lhe fechar até que Michael coloca metade de um pneu sobre a linha branca que delimita a pista e, depois, mesmo além dela, levantando uma nuvem de poeira. Seria o bastante para fazer com que qualquer ser humano na face da Terra tirasse o pé do acelerador e se conformasse com o 4º lugar. Mas Michael é Michael e vai em frente. Continua acelerando, os carros separados por menos de dez centímetros, se tanto, e toma a primeira curva de Lesmo por dentro. Não sei como, consegue segurar o carro e acelerar na saída, ganhando de volta o 3º lugar.

Logo depois do GP da Europa, Ralf disse a Patrick Head que Michael fechou-lhe a porta na largada de forma tão dura não apenas para garantir a posição mas também para intimidá-lo, deixando claro que quem mandava ali era ele. “Uma hora dessas, vou ter de tomar uma providência quanto a isso”, disse Ralf.

Hoje em Monza, Ralf, favorito destacado ao título do ano que vem, tomou mais uma lição do irmão, que lhe relembrou, caso ele tenha esquecido, que quem quiser ser campeão mundial terá de ser entender com ele. Irmão ou não, não vai ter moleza.

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O que faria Bernoldi numa equipe mais legal, como a Sauber, por exemplo? O brasileiro aparece pouco no vídeo mas quando o faz, mostra-se agressivo, determinado, hábil, como hoje, quando passou uma meia dúzia de voltas liderando Panis, Fisichella e Frentzen, lutando pelo 8º lugar.

É difícil avaliar um piloto à distância e também não é bom confiar apenas na avaliação da imprensa, que não nutre grandes simpatias por Bernoldi, preferindo, por algum motivo, Verstappen.

Na disputa entre os dois no grid de largada, tudo igual, com ligeira vantagem para o brasileiro. No campeonato, Verstappen tem um mísero ponto, contra nenhum de Bernoldi.

Grande coisa.

É o suficiente para condenar o brasileiro ao ostracismo (sua saída da Arrows é dada como certa e 2002)? Os Arrows são péssimos, visivelmente construídos para durar pouco. Podem ser até rápidos no começo da corrida, quando estão com poucos combustível, impressionando patrocinadores desavisados, mas nunca garantem boas possibilidades de chegada aos pilotos. A qualidade do carro, você sabe, influencia na qualidade do piloto. Villeneuve, por melhor piloto que seja, não tem exatamente se destacado na pobre Bar.

De qualquer forma, a coisa está preta para Bernoldi e talvez ele não mereça este destino.

A Fórmula 1 tem destas coisas. Pode ter toda a paciência do mundo com gente como Ralf, que teve um começo de carreira latrinário na Jordan e depois aprendeu ou está aprendendo a ganhar, e nenhuma paciência com gente como Bernoldi e tantos outros jovens que podiam, talvez ter tido um futuro notável caso tivesse tido a oportunidade justa.

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Quer dizer que Michael teve um mal pressentimento e queria que ninguém ultrapassasse ninguém nas primeiras voltas?

Interessante, interessante mesmo a proposta do alemão, logo ele que ganhou campeonato de 94 abalroando maldosamente Damon Hill e tentou fazer o mesmo em 97, com Villeneuve, mas deu com os burros n’água, como diria minha avó.

Michael deveria saber que acordos deste tipo não costumam dar certo – aliás nunca soube de um que tenha vingado – porque na hora em que os motores são ligados os pilotos deixam de pensar e passam apenas a intuir e reagir, como esportistas que são.

Ainda bem que o pretenso acordo pré-largada não deu em nada. O fracasso comprova que a Fórmula 1 ainda é um esporte. Acho que foi Frank Williams quem disse “Esporte? Sim há esporte de verdade aqui, 17 vezes por ano, nas tardes de domingo”.

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

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