Na tela da TV, no meio desse povo …

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Pilotos e Jogadores III
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2015 foi embora. E quase levou nossa paciência junto.

2015 se foi. A nossa paciência com as corridas está por um fio.

Austrália, Malásia, China, Bahrein, Espanha, Mônaco, Canadá, Áustria, Silverstone, Hungria, Spa, Monza, Cingapura, Suzuka, Russia, EUA, México, Interlagos e Abu Dhabi. Uma temporada dividida entre países e verdadeiros autódromos. A única disputa que tivemos foi contra o sono incontrolável nas corridas da madrugada, os olhos que antes viviam grudados na TV, se fecharam.

Não tivemos nem uma única real disputa entre os carros dominantes, Hamilton aplicou uma surra no seu parceiro e no resto do pelotão.

Por que Formula 1? Por que uma temporada inteira castigando seus torcedores?

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Todos os méritos para Hamilton. Aniquilou seu companheiro. Não dá pra cair nessa conversa de que Rosberg vem motivado para 2016. Vem mesmo? E Hamilton não vai estar motivado para igualar o 4º título de Vettel?

Rosberg provou nessa temporada que quando ele for chamado para a luta, para se impor, ele vai quebrar. Para vencer Hamilton, não vai ser na Mercedes, não vai ser no mesmo carro.

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Das corridas citadas logo no começo dessa coluna, qual você realmente gostou? Aquela ótima de verdade! Conte pra gente!

Não vale a corrida de Cingapura onde a Mercedes levou uma surra, porque a corrida não foi boa. Só acabou com a monotonia e tivemos outros assuntos para conversar. Outras teorias para explorar.

Temos a Hungria? Que tal? Boa candidata a excelente corrida do ano; E ainda assim, a corrida foi boa por grandes trapalhadas da Mercedes depois de uma sexta e sábado dos mais dominantes da temporada.

Vamos pensar com mais carrinho. Aí você lembra que o clássico Interlagos proporcionou uma das piores corridas da sua história. Uma marca irreparável.

Não há como fugir do óbvio, as corridas mais emocionantes foram por trapalhadas ou problemas da Mercedes. Isso é muito pouco.

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2015 acabando e a Equipe do GPTotal já está com a cabeça no calendário de 2016. O que você gostaria de ver mais por aqui nas nossas colunas pré-corrida?

Só não falaremos mais do Tilke, combinado?

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Mas espera aí! O pelotão do meio foi intenso. Batidas, toques, ultrapassagens, disputas e mais disputas….pelo 10º lugar.

Pelo 10º lugar não é F1. Formula 1 é carro saindo do controle para chegar em primeiro. Toque para chegar na frente do líder. Disputas estratégicas embasadas pelo DRS, pelo pneu mole de uma volta contra o pneu mole de duas voltas e meia, pelo motor na posição 10 contra o motor na posição 5 por causa da estratégia de economia de combustível. Para corridas estratégicas, assista o WEC. Em uma corrida de 300km a disputa é por velocidade pura, não é uma guerra de estratégias. Sério, assista o WEC, lá os caras correm 24 horas e o segundo colocado chega só uma volta atrás. Isso, depois de 1440 minutos de uma grande batalha estratégica, o adversário perdeu o que? Três minutos e meio? O concorrente da mais próximo da marca não vencedora tomou 7 minutos? Isso é incrível quando falamos de estratégia.

A Formula 1 dos nossos amores juvenis era velocidade pura. O mais rápido sempre.

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Pessoal das assessorias de imprensas das equipes desse ano resolveu sair de férias no inverno e não querem receber mais ligações até o começo dos testes de pré-temporada do ano que vem. Não quer dizer que não querem trabalhar, por isso anteciparam os anúncios tradicionais de começo do ano.

A Red Bull bancou e vem de Renault para 2016. Mas nesse contrato há condições, e nesse caso significa que a Ilmor vai trabalhar para a Renault sob orientação da Red Bull. Mario Illien, já passou o último ano estudando os motores Renault e sim, vai diferenciar o conceito para a Red Bull. Os motores serão chamados de TAG-Heuer, e terão diferenças para os Renault de fábrica em suas baterias e sistemas de recuperação de energia. Para tudo funcionar bem, a Renault Sport contratou também a Ilmor para ser suas parceira de desenvolvimento.

Nada disso garante um super motor para 2016, mas garante não ser o vexame de 2016 com a perspectiva de serem ultrapassados em linha reta pela Honda.

Com essa decisão da Renault e da Red Bull, sobrou para pequena Toro Rosso ficar com motores Ferrari ano/modelo 2015. Os STR serão impulsionados pela unidade atualizada e que não correu em Abu Dhabi, com o uso dos últimos Tokens disponíveis. Não está claro como será a atualização desse motor durante 2015, só saberemos ano que vem.

E a boa noticia para os fabricantes é a mudança da regra de motores para 2016. No próximo ano seriam só 25 tokens disponíveis para os times. Todt e tio Bernie já se entenderam que pra acabar com o domínio da Mercedes um pouco de ajuda não faria mal. A regra de 25 tokens fica para 2017, em 2016 serão permitidos 32.

A famosa faca de dois gumes, do mesmo modo que Renault, Ferrari e Honda tem mais espaço para atualizações, a Mercedes também tem. E nada aponta para desqualificar o trabalho deles.

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As regras de pneus mudam um pouco para 2016. Dos 13 jogos disponíveis para o fim de semana, a Pirelli vai separar 2 pra corrida (só um de uso obrigatório) e uma para o treino de classificação. Os outros 10 restantes o piloto escolhe dentre as 3 opções disponíveis. Vai ser uma salada.

Cada equipe decidirá os pneus de seus pilotos com até duas semanas de antecedência e suas opções serão mantidas em segredo até o esgotamento do prazo de solicitação ao fabricante. Se perderem o prazo, a FIA decide qual pneu via parar em cada carro.

Mais um elemento para explicar para os novos entusiastas da categoria, está cada vez mais fácil…

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Todt e Ecclestone acharam que o Grupo Estratégico estava muito teórico, se especializando na elaboração de PowerPoints e sem tomar decisões de verdade. Resolveram o problema com um mini-golpe de Estado. Agora os dois vão tomar algumas decisões sem precisar dos caras.

A grande porcaria dessa história toda é a falta de conexão com a realidade que a dupla apresentou especialmente nesse ano.

Interlagos, 2015, para não nos perdermos no tempo. Primeiro, Todt. Francês, morador de Paris, família moradora de Paris. Desembarca em São Paulo um dia após dos atentados terroristas e avisa que a F1 fará um minuto de silêncio pelas vítimas do transito pelo mundo. Quanta sensibilidade.

Na sequencia, as obras solicitadas por Bernie. Investindo milhões do dinheiro de São Paulo. A área que ficou boa mesmo? Paddock, para receber convidados das grandes corporações. Para o público? Nenhum telão. Nenhum equipamento para acompanhar as corridas.

Por que, pergunto-me, essa obra vale o investimento da Prefeitura e investir na F-Indy, não?

Quando a Formula 1 acordar para a aproximação com o público, talvez seja tarde de mais. Existem diversas categorias esportivas para as pessoas dedicarem sua devoção que fazem espetáculos melhores. De tecnologia, de superação, de criação de heróis. Veja por exemplo a aposentadoria recém anunciada de Kobe Bryant, a festa durante 36 corridas pela aposentadoria de Jeff Gordon na NASCAR ou do astro do basebol Derek Jeter. Histórias recentes criadas na era digital, das redes sociais, do youtube, da aproximação com o público e do reconhecimento do público como parte do espetáculo.

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Mesmo em uma temporada cercada por discussões de bastidores, algumas notícias ainda melhoram nosso ânimo.

A Lotus volta a ser Renault. O time de Enstone volta a ter uma orçamento a longo prazo e cuidado por pessoas historicamente ligadas ao esporte e não as variações de projeção de lucro e avaliação de investimento de banqueiros. Ninguém aqui é romântico extremista em acreditar que as equipes não devam operar “no azul”, mas ainda é preferível ter pessoas atentas a pista de corrida e não somente as “planilhas de excel”.

Além disso a Haas mostra que vem para o playground da F1 para efetivamente disputar corridas. Não podemos afirmar com 100% de certeza apenas pelas declarações da equipe, mas o assunto começa a ficar um pouco mais sério quando outras equipes querem detalhes da parceria Haas-Ferrari. Se alguém está incomodado, o assunto é definitivamente sério.

Soma-se nessa mistura o potencial da Manor para 2016 com realmente um carro novo e um lindo e reluzente motor Mercedes nas costas. Não não, não é esperado uma briga lá frente com a Force India, nem desbancar a Williams. Só esperado que ela finalmente deixe seu papel de figuração e traga alguma emoção para o pelotão.

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Sem entrar na lista de 10 melhores e 10 piores e sem desmerecer o incrível feito de Hamilton ao entrar no seletíssimo grupo de tricampeões do mundo, o destaque da temporada poderia ser dado a Force India.

Um time que sofreu todas as formas de preconceito quando entrou na F1. Não era séria, era uma aventura, só mais um nome para a Jorda/Spyker/Midland. O time sofreu com a crise financeira e os problemas que seu dono e suas empresas se envolveram. Vieram para 2015 com um carro remendado, mas com um plano concreto de entregar um carro novo e competitivo no meio do ano. O plano foi cumprido e chegaram ao final do campeonato disputando a 6º/7º posição de forma consistente e em pé de igualdade com Williams e Red Bull.

Para o lado do destaque negativo, quem ousa não falar da McLaren-Honda? Foi triste. Foi melancólico. O único acerto do time foi ter Button e Alonso ao volante. Não se engane, os dois seguraram a equipe e evitaram a explosão do time. Seus gracejos, suas batalhas, até mesmo os áudios cômicos de Alonso sobre o motor, foram fundamentais para o time lutar com um resto de dignidade. Os dois não sentaram em um banquinho para entrevistas chorosas. Foram a luta, só falta saber se a paciência resiste a mais um ano assim.

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2016 está chegando. Entramos no hiato de automobilismo que tanto nos aflige. Há esperança de uma ano melhor para F1. Há esperança que suas corridas tratem melhor os fãs.

Teremos que esperar. Que venha um novo ano brilhante para todos nós.

Obrigado por nos acompanhar mais uma vez em 2015!!!

Abraços, Flaviz Guerra – @flaviz

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

9 Comentários

  1. Lucas dos Santos disse:

    Pois é, Flaviz.

    Esse campeonato foi bastante monótono. Em determinadas corridas eu ficava me perguntado se não estava “desperdiçando o meu tempo” assistindo algo que tinha tudo para dar em nada…

    As corridas dessa segunda metade da temporada eu nem fiz questão de assistir ao vivo. Dormia até mais tarde no sábado e no domingo e depois procurava algum vídeo com a transmissão da TV britânica Sky Sports F1. E olha que tinha corrida que nem mesmo a narração focada e animada do David Croft e os sempre pertinentes comentários do ex-piloto Martin Brundle salvavam o fim de semana.

    E, como eu comentei na coluna de Abu Dhabi, esse ano nem dá para colocar a culpa nos “tilkódromos”. Spa foi chata, Monza foi chata, Interlagos foi chata… Acho que, dos circuitos “clássicos” só Montreal se salvou, pois a corrida lá foi dentro do padrão esperado.

    Vamos ver o que 2016 reserva para nós. Desde já estou torcendo pelo quarto título do Hamilton. Com as mudanças previstas para 2017, a possibilidade da “carruagem” da Mercedes “virar abóbora” não pode ser descartada, visto que mudanças de regulamento sempre visam atingir a equipe dominante.

  2. Fabiano Bastos disse:

    Flaviz,
    Você deve ser bem jovem para afirmar que “A Formula 1 dos nossos amores juvenis era velocidade pura” ou “Em uma corrida de 300km a disputa é por velocidade pura, não é uma guerra de estratégias”. Acredito que isto só aconteceu depois da metade da década de 90, quando os carros se tornaram quase inquebráveis. Antes disto, sempre foi uma estratégia de guiar rápido o suficiente apenas para chegar em primeiro, desgastando o mínimo possível o equipamento. Mesmo assim, a F1 conquistava corações aos milhões.
    Abraço e bom fim de ano!

  3. Mauro Santana disse:

    Flaviz

    Quanto as colunas pré-corridas, eu gosto muito, e se me permite uma pequena sugestão, seria legal ter sempre um pouco de história(quando for pertinente) a respeito do passado de cada GP.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Flaviz disse:

      Mauro,
      Confesso que ficou um pouco de lado esse ano de 2015 de propósito.
      Vou retomar em 2016! Obrigado!

      Abraços
      Flaviz

  4. Mauro Santana disse:

    Pela coluna Flaviz!

    Olha, num campeonato longo e tão chato como foi o deste ano, confesso que nem lembro alguma corrida que tenha me marcado na primeira parte do campeonato.

    Saudades de um campeonato com somente 16 etapas.

    E não foram somente as corridas de madruga que deram sono, a do México foi difícil não cochilar também.

    Olha, se for apontar alguma corrida legal deste ano, puxando apenas pela memória, fico com o GP dos USA.

    Que venha 2016.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Lucas dos Santos disse:

      Bem lembrado, Mauro!

      Eu acrescentaria aí o GP da Rússia e até mesmo o GP do Japão, que também foram bastante movimentados.

      Mas, só assim o foram porque as condições limitaram os treinos livres. Dessa forma, as equipes não conseguiram obter todos os dados necessários para poder traçar “a estratégia perfeita” e foi todo mundo meio que “na cara e na coragem” para a corrida.

      Porém, como o Flaviz destacou na coluna, todas as corridas de 2015 precisaram de algum fator atípico para se tornarem interessantes. Ausente esse fator, as corridas ficavam monótonas.

      • Flaviz disse:

        Lucas faz falta treino, né?
        Imagino uma ano melhor ao menos pra McLaren se pudesse treinar algumas vezes no ano.

        Abraços

  5. Fernando Marques disse:

    Flavis,

    ter tecnologia de ponta, que sempre foi o caso, é um fato que jamais vai deixar de existir na Formula 1. Faz parte do DNA. Mas se o uso destas tecnologias de ponta atualmente estão tirando os méritos esportivos das corridas da Formula 1 então acho melhor tudo ser revisto e refeito para que a Formula 1 volte a ser e ter corridas de verdade.
    Se os dirigentes da Formula 1 não pensam assim só resta duas coisas a fazer … se adequar ou largar a Formula 1.
    A temporada de 2015, a meu ver só teve um ponto positivo … Lewis Hamilton!!!
    De resto, tirando algumas corridas “interessantes” a Formula 1 foi muito chata de se ver … concordo com você …
    O que será em 2016? … Não vejo que será tão diferente quanto 2015 a não ser que a Ferrari e Vettel aprontem alguma nova …
    Com relação as colunas pré-corridas … elas são muito legais … e o mais importante é que continuem assim …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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