Não há tempo a perder

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Lembram-se daquele antigo sucesso do Aerosmith que foi tema do filme Armageddon, de 1998, “I Don’t Want To Miss A Thing”? Ponha-a para tocar agora. A música, cujo título quer dizer em português “Eu não quero perder nada” pode muito bem definir a situação de Valentino Rossi e da própria MotoGP em 2017, um ano que ninguém quer perder um lance sequer.

Após liderar o Grande Prêmio da Inglaterra durante muitas voltas e só perder a vitória no finalzinho para um inspirado Andrea Dovizioso, Valentino Rossi voltou à Itália para uma semana de descanso. Só que o enecampeão simplesmente não consegue ficar quieto e ocupa o tempo livre com outros esportes, quase sempre em cima de uma moto.

Um desses esportes foi percorrer algumas trilhas na região der Urbino, onde cresceu e costumava passear com seu pai, Graziano. Ele e seus amigos desbravaram as estradinhas vicinais a seu modo: andando rápido, muito rápido. Só que em seu caminho havia uma pedra…

Rossi acabou no chão com sua perna fraturada na tíbia e fíbula, dano praticamente idêntico ao de outra queda em Mugello, sete anos atrás. A cirurgia aconteceu apenas algumas horas depois e o tempo de recuperação também foi rapidamente anunciado. Trinta ou quarenta dias de molho, o que significava perder o Grande Prêmio de San Marino e de Aragón, as duas próximas etapas do Mundial.

Um mês e dez dias longe da MotoGP? É tempo demais para Valentino Rossi, que mesmo aos 38 anos continua correndo de igual para igual à moleques com a metade de sua idade. O italiano não está a fim de ficar em casa e fez esforços sobre humanos para recuperar-se a tempo, pelo menos para a prova de Aragón, que acontece no próximo domingo. “I Don’t Want To Miss A Thing”.

Chega a ser assombroso o que Rossi fez nos últimos dias. Sem pensar nos riscos, o enecampeão montou novamente em sua Yamaha YZF-R1m em Misano, circuito fechado exclusivamente para um teste particular, a fim de averiguar se já tem condições de voltar a pilotar, apenas 18 dias após a cirurgia. Após sair-se bem, ele anunciou na quarta-feira (20) que vai – pelo menos tentar – correr em Aragón.

Não quero fechar meus olhos
Não quero pegar no sono
Porque eu sentiria a sua falta, baby
E eu não quero perder nada
Porque mesmo quando eu sonho com você
O sonho mais doce nunca vai ser suficiente
Eu ainda sentiria a sua falta, baby
E eu não quero perder nada”

O refrão acima se refere a uma garota, é claro. Mas, no caso de Rossi pode muito bem refletir o verdadeiro caso de amor que ele tem com a MotoGP. Ou com a competição. Ou com sua amada Yamaha M1. O fato é que Rossi ainda não está pronto para largar tudo e ir pescar, como fizeram Casey Stoner e Kevin Schwantz. Ele ainda só quer correr e participar desse grande acontecimento que se tornou o Mundial de Velocidade. I don’t want to miss a thing.

Nem Rossi nem nenhum dos competidores quer perder nada, tenho certeza. Apesar de menos sortido de vencedores do que no ano passado, a temporada 2017 vem se mostrando mais disputada na tabela de pontuação. Graças a mais uma vitória maiúscula em Misano, Marc Márquez chegou a quatro triunfos, o mesmo número de Andrea Dovizioso, o seu maior adversário no momento, ambos com 199 pontos.

Não muito distante, Maverick Viñales vem na terceira posição, 16 pontos atrás. Uma nova vitória o recoloca no páreo. Apesar de tudo, Rossi ainda é o quarto colocado, 42 pontos atrás dos líderes. Parece muito, mas em termos práticos, isso significa menos de duas vitórias, já que cada uma vale 25. Sabe quantos pontos ainda estão em jogo? Nada menos do que 150 em seis etapas. É por isso que o italiano não quer perder nada.

Mas Rossi não quer ficar de fora apenas porque ainda tem chances de chegar a um histórico 10º título. Ele não quer perder nada por que sabe que seu tempo no olimpo está se esgotando e que cada minuto parado significa um desperdício de tempo. Ainda que não seja campeão novamente (em seu íntimo ele sabe que é muito difícil) ele corre para sentir aquela sensação de derrotar todos novamente, como confessou após sua última vitória em Assen.

Mesmo que Rossi não venha a disputar o título, é certo que sempre encontraremos um cara disposto a vencer a cada oportunidade e nada mais. Um franco atirador, digamos. Um piloto que pode influenciar nos desdobramentos do título, mesmo que indiretamente. Curiosamente, esse papel foi ocupado justamente por Márquez na polêmica decisão de 2015, aquela que está pensando.

Naquela temporada, foi Márquez quem se atrasou na pontuação deixando a disputa do título entre Jorge Lorenzo e Rossi. O espanhol da Honda foi o verdadeiro pivô daquela partida influenciando diretamente nos resultados, como vimos em Sepang e Valência. Uma página ainda muito dolorosa para Rossi.

Alguém tem dúvidas de que Rossi adoraria dar o troco em Márquez, agora na situação inversa? O italiano ainda crê piamente que o espanhol deliberadamente o impediu de chegar ao título e agora pode tentar fazer a mesma coisa, o que deixaria o campeonato para o conterrâneo Dovizioso (companheiro de Lorenzo na Ducati, não se esqueça) ou mesmo para seu colega Viñales. “Eu não quero perder nada”, pode estar pensando. Nem ele, nem nós!

Até a próxima!

Lucas Carioli
Lucas Carioli
Publicitário de formação, mas jornalista de coração. Sua primeira grande lembrança da F1 é o acidente de Gerhard Berger em Imola 1989.

2 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    .E o Valentino Rossi voltou a correr em Aragon mas Marquez tirou um coelho da cartola e venceu a corrida … o mundial está pegando fogo …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Rafael Friedrich disse:

    Moto GP, estarei colado. Já tive uma parede da sala ornamentada com Randy Mamola e companhia. Bom fim de semana a todos.

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