Nó górdio

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Nas “três” corridas finais, a conquista do bicampeonato resume-se a uma questão de Hamilton marcar Nico.

Para quem estava assistindo, salvo por lampejos, o GP dos Estados Unidos foi pouco mais do que modorrento. Na pista, porém, foi um jogo de xadrez de alto nível que terminou em vantagem para Lewis Hamilton. Ele venceu a prova por conta de algum pequeno detalhe, invisível a nós, do lado de fora, e que permitiu a ele ultrapassar Nico Rosberg e manter-se à frente até o final.

Desta forma, nas “três” corridas finais a conquista do bicampeonato passa a ser apenas uma questão de Hamilton marcar Nico, chegando uma posição atrás dele. Dada a continuidade da superioridade dos Mercedes e a fase pouca inspirada do alemão, parece ser uma tarefa relativamente fácil, tanto mais agora que Hamilton demonstra um autocontrole superior.

E, assim, o campeonato caminhará para um final justo e honrado. Um piloto que vence dez GPs não pode ser batido por um rival que tem como maior ativo ter chegado dez vezes em 2º lugar.

Na luta pelas demais posições em Austin, o que vimos foi, digamos assim, o de sempre: Daniel Ricciardo mostrando as suas qualidades como piloto, determinação e capacidade de superação e a equipe Williams metendo-se, de novo, em problemas que ela mesmo cria para si e seus pilotos. Desta vez, ao menos, Felipe Massa saiu-se melhor que Valtteri Bottas. É indiscutível que a equipe parou de evoluir, sua boa colocação no Mundial sendo menos méritos próprios e mais decorrência da fraqueza da Ferrari e McLaren.

Mais para trás no grid, vimos corridas galantes de Jenson Button, da dupla da Lotus, e de Jean-Éric Vergne. Fernando Alonso e Kimi Räikkönnen correram nas sombras, um em busca de um bom 6º lugar, outro para um modesto 13º.

Sebastian Vettel, por sua vez, terminou a corrida em que largou dos boxes na 7ª posição por algum milagre que, sinceramente, me escapa, tal a quantidade de vezes em que ele foi ultrapassado, sem contar alguns erros de pilotagem.

Aliás, que extraordinários mistérios esconde este RBR Renault RB10 a ponto de fazer Vettel ter tantas dificuldades para pilotá-lo? O que pode ter os freios deste carro que é tão hostil ao alemão?

Parece que só ele entre todos os pilotos, depois de 17 GPs, ainda não aprendeu a conviver com o sistema de freios que usa parte da sua ação para recarregar as baterias elétricas.

Ajudou a quebrar a modorra em Austin a volta da loteria pneumática.

Bem menos dramática este ano do que em 2013, ela está aí, firme e forte e uma escolha excessivamente conservadora da Pirelli para o GP da Rússia serviu para mostrar como é fácil transformar hoje em dia uma corrida em procissão. É duro admitir mas as disputas em pista dependem muito da incerteza derivada da escolha dos pneus, principalmente depois que a loteria do combustível revelou-se um fracasso.

Por falar em Alonso, AutoSprint noticiou semana passada que o espanhol já tem planos B e C – respectivamente Williams e Lotus – caso suas negociações com a McLaren Honda não cheguem a bom termo.

Se o rolar o plano B, o sacrificado será, muito provavelmente, Felipe Massa.

A Bernie Ecclestone, verdade seja dita, nunca faltou uma franqueza rude, que chegou ao seu ponto mais alto quando ele se deixou fotografar com o rosto coberto de hematomas depois de ser assaltado nas ruas de Londres.

Isso, os 84 anos completados na semana passada e, talvez, as feridas deixadas pelo recém-encerrado processo por corrupção ativa movido contra ele pela justiça alemã (o que lhe custou uma multa de US$ 100 milhões) permitem que trace com frieza e precisão invulgares diagnóstico para a mais recente crise vivida pela F1. Segundo disse Bernie, as receitas da categoria estão mal divididas e isso levou, salvo milagres de última hora, duas equipes à falência e deixa outras três (Lotus, Sauber e Force India) em condições financeiras bastante precárias, que podem se tornar insustentáveis a qualquer momento.

Ainda que louvável, a admissão de culpa por parte de Bernie é apenas uma parte da história: como em tantas outras instâncias do capitalismo contemporâneo, a Fórmula 1 meteu-se nesta armadilha por conta da ganância generalizada e mantêm-se lá por conta de contratos em cascata, que transformam as coisas em um imenso nó górdio – aquele que só pode ser desfeito por um golpe de espada – exatamente como a maioria das relações comerciais e sociais que vivenciamos no mundo de hoje.

Clique aqui se não viu as declarações de Bernie ao site da revista Autosport, citadas em nota da Globo.com.

Não creio que a admissão de culpa por parte de Bernie resulte em nada de prático pois a armadilha só pode ser desfeita se algo praticamente impossível acontecer: alguém abrir mão voluntariamente de privilégios, receitas e lucros em benefício de outrem.

Aliás, tenho sérias dúvidas se Bernie ainda tem poder real na categoria, principalmente depois dos seus problemas com a justiça. Creio que ele é, hoje, preposto dos sócios da Fórmula 1, fundo CVC à frente, centrado basicamente em relações políticas – como a que se prestou três semanas atrás, na Rússia, indo beijar a mão de Vladimir Putin -, tourear a imprensa e resolver alguns pepinos junto a organizadores de corrida e proprietários de equipes a partir de recomendações estritas de advogados e administradores.

Como pista, Austin não me emociona, ainda que reconheça que represente um avanço no padrão Tilke de autódromos, principalmente por contemplar aclives e declives.

A primeira curva depois da largada, no cimo da microcolina, deve ser um desafio especial para os pilotos, em calcular o ponto de frenagem num momento em que o carro está menos grudado na pista. As abundantes marcas de pneus no local são alusivas.

Até onde podem ir as implicações comerciais na Fórmula 1, nos esportes em geral e em nossas vidas?

Após obter o patrocínio institucional da Rolex para a categoria, Bernie Ecclestone quer proibir (ou já proibiu) os piloto de subirem ao pódio usando relógios de outras marcas…

Um registro modesto e tardio dos 40 anos de Rumble in the Jungle, creio que o maior momento do esporte de todos os tempos.

Aqui a coluna que escrevi em 2007 em que cito o combate entre Muhammad Ali e George Foreman.

Boa semana a todos

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

8 Comments

  1. Allan disse:

    “É duro admitir mas as disputas em pista dependem muito da incerteza derivada da escolha dos pneus, principalmente depois que a loteria do combustível revelou-se um fracasso”
    Pelo que entendo da coisa, pelas inúmeras entrevistas e reportagens que li desde 1981, pneus sempre significaram MUITO em performance – a ponto de tornar, de um ano para outro, inviável e sem competitividade algo tão excêntrico e até vencedor como um bólido com 6 rodas (Tyrrell P34). Nos anos 80 li uma reportagem em que falava que os pneus representavam um bom percentual na performance – evidentemente não se estava falando do tipo de pneu, mas considerando apenas seu estado.

    “Sebastian Vettel, por sua vez, terminou a corrida em que largou dos boxes na 7ª posição por algum milagre que, sinceramente, me escapa, tal a quantidade de vezes em que ele foi ultrapassado, sem contar alguns erros de pilotagem”
    Vettel possivelmente chegaria em 6º, dado que estava nesta posição antes de sua última parada, próximo do final da prova. Seus pneus acabariam? Bem, parar faltando umas 5 voltas e com certeza voltando no final do pelotão significaria um risco tão grande quanto.

    Quanto a Williams, concordo com o R. Smedley. O Massa não conseguiu andar o que deveria antes da parada. Culpa de todos, mas não dá para isentar o brasileiro.

  2. João Alfredo Luiz da Silva Filho disse:

    Por isso prefiro a Fórmula 1 da época em que ela era tosca e semi-profissional, em que as falhas eram comuns e os resultados totalmente imprevisíveis.

  3. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    já faz uma ou duas corridas que só resta ao Rosberg aquele sorriso sem graça no podium que chega a ser patético … foi assim ontem, vai ser assim no Brasil e vai ser assim também em Abu Dhabi se o Hamilton quebrar … e obviamente ele faturar o titulo … vai ficar tão incrédulo e patético como deve ter ficado a cara do seu papai em 1982 quando ganhou um titulo que ninguém esperava … nem ele mesmo … rsrsrsrs

    Fernando MArques

  4. Mauro Santana disse:

    Olá Amigos do Gepeto!!

    Corrida chatinha a de ontem, e olha que a F-Truck em Londrina foi um show, muito melhor que as corridas da F1.

    Pois é Fernando, rsrs, o Rosberg bailou mesmo e o Hamilton esta fazendo por merecer o caneco, e se perder o título será injusto, por mais que eu quisesse que o caneco fosse para o alemão, o Hamilton esta fazendo por merecer, e ontem realmente deu um golpe fatal, digno de um campeão de F1.

    Nos resta aguardar o nosso GP Brasil, pois aí sim, no Templo, uma pista de verdade a corrida tem tudo pra ser excelente.

    Uma pena termos o GP final em Abu Dhabi e ainda por cima com pontuação dobrada :-\

    Abraço e boa semana a todos!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  5. Manuel disse:

    Caro Edu,
    Só você para fazer uma coluna interessante sobre uma corrida aborrecida !

    Sobre os 100 milhoes que pagou Ecclestone, realmente nao foi uma multa. Foi um acordo alcançado com o tribunal ( permitido nas leis germanas ). Esse pagamento, acabou com o processo, portanto nao houve condena. Esse tipo de acordo tem lugar quando o tribunal nao esta convencido de conseguir uma condena de culpabilidade.

  6. Fernando Marques disse:

    Sobre o GP dos EUA:

    1) O circuito de Austin tem um bom traçado. A primeira curva a esquerda após a reta de largada. é cega e desafiadora. Bem parecida com a 1ª curva, no caso a direita. de A1-Ring.

    2) A principal causa de não se ter uma Willians no podium foi o conservadorismo da equipe em não ter um plano de ataque para superar a RBR de Ricciardo. Me parece que a equipe se deu mais por satisfeita por estar com seus dois carros a frente da Ferrari, abrindo vantagem na classificação do Mundial de Construtores.

    3) Independentemente do que vai acontecer nas duas ultimas etapas da temporada, creio que L. Hamilton aniquilou de vez o Nico Rosberg ao ultrapassá-lo ontem em Austin. Foi um golpe muito duro, forte e fatal. Foi num ponto do circuito em que jamais o alemão pudesse esperar um ataque fulminante e indefensável do Hamilton. Foi um xeque mate digno de um golpe de mestre. O Mauro Santana que me desculpe, mas depois desta não resta ao alemão outra a coisa a fazer a não ser aplaudir e se contentar em ser o vice campeão desta temporada. Ele está virtualmente e moralmente aniquilado.

    3) Fernando Alonso pode parar na Willians em 2015? O Felipe Massa dança se isso acontecer? … Ué a Willians só não informou como confirmou Massa/Bottas para 2015 … ou tudo realmente pode mudar … …

    4) Será que o casamento Mclaren/Alonso acaba antes mesmo de recomeçar?

    5) Hamilton só não assegura de vez o titulo desta temporada aqui no Brasil por causa deste regulamento absurdo de pontuação dobrada em Abdai … Imagina se Hamilton quebrar em Abdai, o Rosberg vencer a corrida e se sagrar campeão de 2014? Imaginam este absurdo …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Lucas dos Santos disse:

      Fernando,

      Esse cenário descrito no item 5 é perfeitamente possível, e pode ser pior.

      Imagine a situação: Hamilton vence em Interlagos e Rosberg termina em segundo. Sua vantagem no campeonato aumenta para 31 pontos (341 a 310). Em Abu Dhabi, porém, Hamilton tem um fim de semana “daqueles” e só consegue uma discreta nona colocação, marcando apenas 4 pontos, totalizando em 345. Rosberg também não faz uma boa corrida, mas, aproveitando-se de abandonos de outros pilotos, consegue chegar em segundo, marcando 36 pontos. Com 346 pontos e, portanto, 1 a mais que seu companheiro de equipe, Nico Rosberg leva a taça, com apenas 4 vitórias na temporada ante 11 vitórias de Lewis Hamilton!

      Já imaginou que “beleza” isso?

      • Fabiano Bastos disse:

        É Lucas, estranho que a F1 que aboliu o sistema de descartes (ou melhores resultados), por que julgou que não premiava o melhor conjunto (descordo), tenha criado este possível cenário ridículo de definição de título.
        Estivéssemos no tempo dos descartes, com estes resultados, o título já estaria definido há algum tempo.

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