Nos despedimos de 2012

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Em 2012 nos despedimos de uma temporada incrível. 2013 promete ser um grande ano, mas Peter Sauber é aquele garagista apaixonado por carros que fará falta.

O ano de 2012 acabou com aquele gosto de despedida de uma das maiores temporadas já vistas na F1. Nos despedimos de inúmeros pilotos disputando vitórias. Nos despedimos da incerteza de estratégias. Nos despedimos de um ano imprevisível nos resultados. Todos sabiam (?), imaginavam (!) ou esperavam que o título ficasse ali, na bola dividida entre Vettel, Alonso e algum “Mclariano”, mas cada corrida era uma surpresa. Durante o ano de 2012 escrevi 3 vezes sobre despedidas. Despedia-me das pistas europeias, dos pilotos e de outras coisinhas mais. Hoje, na alvorada da temporada de lançamento dos carros de 2013 sinto falta de uma pessoa que se despediu das pistas: Peter Sauber.

Monisha Kaltenborn. Essa senhora, nascida em 1971 como Monisha Narang, assumiu em Outubro de 2012 o papel de “Team Principal” da Sauber. Um crescimento natural e planejado. Desde 2001 na Sauber, havia se tornado CEO do Grupo em 2010. Tempos difíceis de saída da BMW, falta de dinheiro, um time com futuro incerto. Seu papel no grupo foi reconhecido e em Maio de 2012 ela recebia 30% das ações do grupo Sauber e passava a ser uma das acionistas majoritárias.

Caminho pavimentado. Tudo Pronto.

Peter Sauber tinha dentro de casa a sua substituta. Finalmente o velho garagista poderia curtir seu descanso e olhar para trás com uma história de sucesso escrita nas pistas.

Em 25 de Julho de 2013, veremos a Sauber Motorsport completar 43 anos de vida. A empresa criou carro para subida de montanhas, protótipos de carros de turismo, carros para Le Mans e, logicamente F1. Construiu carros, preparou outros. Teve parceria com a Mercedes, depois com a BMW. Vendeu o time pra montadora. Depois, comprou de volta.

Mas tudo começou em 1970 com a fundação da PP Sauber AG. Peter decidiu nesse ano dar o primeiro passo na construção de um grupo. Desde 1967 ele inscrevia um pequeno VW Bettle (o nosso bom Fusquinha) para pequenos campeonatos na região de Zurique. O VW era seu carro particular, cheio de preparações incentivadas por um colega de juventude. A experiência foi tão bem sucedida que seu carro chegou ao ano de 1970 sem ter mais condições de andar em ruas. Sauber só tinha autorização para colocar o carro para rodar em autódromos. Acabou a graça. A brincadeira não era mais brincadeira.

O primeiro carro da PP Sauber AG foi para pista em 1970. A empresa construiu o carro nos fundos da casa dos pais de Peter. Eram dois funcionários, Peter e um amigo. A estratégia era simples: pegar um Formula 3, transformar num bólido de dois lugares e colocar uma carenagem nova sobre esse chassi improvisado. Deu certo! O carro nasceu bom e ganhou o campeonato Suíço de Carros Esporte! Pra coroar o momento, Sauber era o piloto!

A caminho da nova empresa estava traçado. Peter Sauber continuou construindo carros e pilotando até 1974. Aí resolveu pendurar o capacete para profissionalizar a empresa. Sauber sabia que não era lá um piloto dos melhores, tinha certeza que sim, tinha sim construído um supercarro que minimizava sua deficiência como piloto.

Os modelos subsequentes – C2, C3, C4 e C5 – continuaram sendo feitos a mão por Peter e sua equipe. Na construção já eram 4 pessoas, contando com ele e as construções começaram a ficar mais sofisticadas. O C2 e o C3 ainda eram estruturas tubulares, mas o C4 e o C5 traziam um monocoque de Alumínio. As carenagens já eram superleves de plástico desde o C3.

A primeira vitória internacional aconteceu em 1976 com o belo C5 nas mãos de Herbert Müller. O carro era realmente muito rápido e conseguiu liderar sua categoria em Le Mans nos anos de 1977 e 1978 antes de abandonar por quebras.

Sem perder seu espirito garagista, Sauber passou os anos de 1979, 1980 e 1981 preparando carros. Primeiro foram os Lola de F2 que ganharam o campeonato de 1979. Depois veio a parceria com a BMW para os famosos (e conhecido dos brasileiros) M1 Procar. Nike Lauda e Nelson Piquet foram campeões nas duas temporadas de Procar e Piquet ainda levou uma prova de 1000 km de Nurburgring com o M1 das mãos de Peter Sauber.


httpv://www.youtube.com/watch?v=poYWHtp3JPI
O vídeo não é lá muito bom, mas é o Sauber C1 funcionando em um evento de carros históricos.


Com o fim da Procar, Sauber voltou a fazer carros para corridas de Esporte Protótipo. Em 1982 nascia o C6. Essa máquina trazia para próximo da fabrica o interesse da Mercedes. A parceria começou com os germânicos começou 3 anos depois com os motores do C7 e C8. Logo após, em 1988, Sauber já era a equipe oficial da Mercedes.

Você vai lembrar mesmo é de 1989. Le Mans, Campeonato Mundial de Esporte Protótipo, 1000 km de Suzuka. Todos ganhos pelo C9 prata. 1990? Campeonato de Campeonato Mundial de Esporte Protótipo também vencido por carros Sauber-Mercedes. Era um timaço!

Paucoplast, a empresa que fez a primeira carenagem de plástico para um carro Sauber continua parceira da equipe até hoje e produz peças para o novo C32 de 2013.

C, a letra que acompanha todos os carros de Peter Sauber é uma homenagem obrigatória para a esposa Christiane.

Sucesso estabelecido. Competência comprovada. A Mercedes quis voltar pra F1 e, claro, botou Peter Sauber no projeto. A grana acabou. A crise chegou. A Mercedes foi embora e deixou Peter Sauber com o pires na mão. Verdade seja dita, pires na mão eu bela fábrica em Hilwill prontinha.

Com um ano de atraso ele conseguiu dinheiro suficiente para, com menos de 70 funcionários, colocar o C12 nas pistas de testes. Grande feito, só superado pelo fato que no dia 14 de Março de 1993 Karl Wendlinger e JJ Lehto levaram os carros Sauber ao seu primeiro grid da F1. Uma estreia de gala. Largada em sexto (JJ Lehto) e décimo (Karl Wendlinger) e um quinto lugar no final para Letho. Tá bom, ninguém precisa contar que só 5 terminaram na pista.

Os anos seguintes sempre foram de sobrevivência para Sauber. Com habilidade comercial e competência nas pistas o time foi capaz de se manter nas pistas sem frequentar o pelotão do fundo. Nem tudo eram rosas. Os motores Ilmor-Mercedes deram lugar aos Ford, depois vieram os Ferrari. Em 2001 chegava enfim um grande ano para Sauber. Sua dupla de pilotos – Heidfeld e Räikkönen – levou o time ao 4º lugar nos construtores e o time estreava seu próprio túnel de vento.

Esse ano espetacular não se traduziu na evolução esperada e em 2005, Peter Sauber decidiu passar o controle do seu time para a BMW. De 2006 a 2009 o time correu como BMW Sauber. O “Sauber” ficou no nome como uma – justa – homenagem ao seu fundador (e possivelmente para manter os acordos comerciais com a FOM), mas era uma operação nova, dividida entre Hilwill e Munich. As expectativas eram altas. Havia dinheiro. Havia bons motores. Havia uma fábrica moderna por trás. O projeto atingiu uma única vitória com Kubica e um segundo lugar no campeonato de construtores de 2007, após a exclusão da McLaren. Com só uma vitória, 16 pódios, uma solitária pole e 2 voltas rápidas em 89 corridas, a BMW resolveu tirar o time das pistas em 2009.

Peter Sauber saiu de casa em novembro de 2009 e anunciou que o time voltaria a ser seu. Foi lá e comprou tudo de volta. Jogou fora os motores BMW e instalou os da Ferrari para o ano de 2010. Isso gerou o nome mais estúpido de uma equipe de F1 da história: BMW Sauber – Ferrari. Maravilhas que tio Bernie proporciona para gente. O BMW Sauber C29 entrou nas pistas nas mãos de Pedro de la Rosa e Kamui Kobayashi para honrar o nome de Sauber novamente nas pistas.

Com essa confusão de nomes, direitos, compra e venda de equipes, a Sauber entra na sua 15º temporada em 2013. Mas serão 20 anos de Peter Sauber nas pistas da maior categoria do planeta. Juntando todos os números, Sauber alinhou em 343 grids, conseguiu uma vitória, 26 pódios, 4 voltas mais rápidas e uma pole position.

Peter Sauber era um dos últimos garagistas em atividade. Fará falta sua paixão pelos carros em uma categoria dominada por fundos de investimentos. Como o próprio diz, não há um grande e único destaque desses 43 anos de esporte a motor, talvez a obra completa de entrar no 23º ano de F1 seja o “ponto alto” de toda sua carreira.

Que sua equipe continue com força crescente para lhe prestar justa homenagem.

Abraços,
Flaviz Guerra – @Flaviz

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

2 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    O ano de 2012 creio que tambem foi espetacular para a Sauber. Num cenario onde as grandes montadoras dominam a categoria a Sauber mereceu destaque com um carro muito bom e que só não foi mais longe por questões financeiras que certamente brecou um pouco o desenvolvimento do carro.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Flaviz disse:

      Concordo contigo Fernando.
      Tomara que a Sauber tenha folego em 2013 para fazer um bom campeonato sem descuidar do carro de 2014!

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