Nós e Ayrton

Fundamentos
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Eu queria ter sido esse cara…
17/08/2012

Ayrton era tão humano que quando bateu no muro de mau jeito, morreu. A nós foi concedido viver mais e reconhecer que uma forma de glória é termos tido um dos nossos, da nossa geração, considerado o maior de todos os tempos.

por Roberto Agresti

Encontrei com Ayrton Senna umas dez vezes em minha vida. Contemporâneos – eu de 1959, ele de 1960 – e paulistanos, tais encontros se deram em locais e situações bem distintas.

O primeiro registro marcante dele foi no kartódromo de Interlagos, lugar que frequentei na metade dos anos 70 na qualidade de amigo do Tadeu, dono de um kart. Já naquela época entendi que Ayrton era especial. Mas não se enganem pensando no meu olho clínico sobre as qualidades de piloto do futuro mito nacional. Não. Para mim e para uma boa parte da tribo que frequentava o kartódromo, Ayrton era especial pois chegava levado por um motorista de Mercedes, o carro, enquanto eu e os outros chegávamos também de motorista… do ônibus Mercedes. E, além disso, Ayrton dispunha do melhor equipamento da época enquanto eu… bem. Eu queria ter um kart, qualquer um, mas não dava. Faltava $$$.

Pouco depois, esbarro novamente nele. Na saída do Colégio Rio Branco onde o proletário aqui arrumara uma namorada riquinha. Lá estava o Mercedes, o motorista, e Ayrton dentro. E mesmo sendo minha namoradinha de então bem ajeitadinha, confesso que preferia estar sozinho, dentro de Mercedes (e com um kart me esperando em Interlagos) do que apalpar a mocinha.

O tempo passou – alguns poucos anos – e reencontro Ayrton. Não em carne e osso, mas em fotos nas revistas e jornais. Eram os tempos do sucesso nas F-Ford e F-3 inglesas, seguido daquele episódio em que ele voltou do exterior para trabalhar nos negócios da família, abandonando provisoriamente a carreira pois “o patrocínio estava difícil”. Quando li isso pensei: “mas será que ele precisa mesmo de patrocínio?”. E nesse julgamento, claro, aplicava meu conhecimento sobre as finanças da família Senna da Silva, baseado na simples análise da frota de Mercedes-Benz que, convenhamos, eram artigos bem mais raros (e caros) de se ter nos anos 70/80 do que atualmente.

Se alguns de vocês que conseguiram chegar até aqui nesse meu testemunho estão com a palavra “inveja” na cabeça, saibam que vocês acertaram. Eu morria de inveja de Ayrton Senna da Silva. Enquanto empurrava a merda do kart do Tadeu, um Mini mais sambado que passista na quarta-feira de cinzas, Ayrton pilotava um must da época, com aqueles estupendos motores Parilla de cabeçote redondinho, lindos.

Enquanto eu chacoalhava num buzum fedido da Aclimação até Higienópolis para aniquilar minhas finanças pagando um reles picolé de limão para a Jussara (a namoradinha ajeitadinha…) em troca de uns beijinhos, ele, Ayrton, entrava no Mercedes com motorista e ia para Interlagos treinar. Ah, como eu queria ser quem ele era e ter o que ele tinha… e trocar aqueles beijos molhados por um kart, correr, competir!

Mas o tempo foi bondoso comigo, e mesmo com a abissal diferença de budget entre o clã Agresti e clã Senna da Silva, eu e Ayrton chegamos à F1 praticamente juntos.

Ele piloto, eu repórter.

E a inveja? Sumiu, ou foi substituída pela projeção.

Se há uma coisa que o passar dos anos faz melhorar em alguns exemplares de humanos é a mente. Chamem de sabedoria, de experiência e até de conformismo. Mas o fato é que naquele GP Rio de 1984 em Jacarepaguá, na estreia de Ayrton como piloto de F1, entendi que ele era eu, e eu era ele. Ali estava o meu representante, e representante de todos nós, aquela geração de paulistanos do kartódromo.

O restante da história dele, que realmente é o que interessa, vocês já sabem. O restante de minha história, e que não interessa, a maioria de vocês não sabem – nem querem saber.

Resta o fato que tive o privilégio de ver bem de perto a década vivida por Senna na F1, de entrevistá-lo algumas vezes, de fotografa-lo em ação. Foi uma época marcante para todos nós, contemporâneos ou não de seu feitos e de sua existência. Por testemunho ou relato, as peripécias e artes de Ayrton correram de boca em boca, de página em página, de foto em foto.

Dia 21 de março de 2010 ele teria feito 50 anos de idade. Se fosse vivo, como estaria, quem seria? Alguém como Pelé ou Roberto Carlos, unanimidades nacionais, personagens “teflon” às quais nada de ruim gruda? Ou um esquisitão recluso, um enigma à la Howard Hughes? Jamais saberemos.

Não gosto de enxergar Ayrton como muitos o veem, uma espécie de semideus. Alçá-lo a uma condição além da de fenomenal piloto que foi não me desce. Isso se dá por que vi e sei que ele era alguém igualzinho a qualquer um de nós, era mais um (especial, porém) frequentador do kartódromo de Interlagos. Certamente mais evoluído como piloto, mas ainda assim humano. E pouco importa se um belo dia ele viu Deus no final da reta de Suzuka pois eu também vi, não em Suzuka, mas em outros lugares. Aliás, estou vendo Ele agora.

Ayrton era tão humano que quando bateu no muro de mau jeito, morreu. Com isso evitou alegrias e tristezas. Poderia ter sido campeão mais vezes, poderia ter tido filhos, poderia ter desfrutado da glória de ser o maior de todos os tempos como o faz o multicampeão das motos Giacomo Agostini até hoje.

Mas também poderia ter ficado barrigudo e careca, ter brigado com seus irmãos por causa de dinheiro, ter sido traído pela mulher, tido um câncer, ficado pobre…

A morte naquele formato chancelou a glória de Ayrton Senna da Silva. Morreu no auge, e foi o que ele, eu e muitos de você quisemos ser: campeão nas pistas. A nós foi concedido viver mais e reconhecer que uma forma de glória é termos tido um dos nossos, da nossa geração, considerado o maior de todos os tempos.

E isso, eu acho, não é pouco.

E onde quer que esteja, parabéns pelos 50…

Roberto Agresti

Coluna publicada originalmente em 26 de março de 2010. 

Especial Ayrton Senna
Especial Ayrton Senna
Por ocasião dos 21 anos da morte de Ayrton Senna, os colunistas do GPTotal dedicam uma série de textos ao tricampeão.

3 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Eu acho que a decada de 70 foi a que melhor geração de pilotos teve a Formula 1. Este ciclo terminou com o melhor de todos chamado Nelson Piquet. Foi tão boa que nomes como o de Gilles Villenueve, Ronnie Peterson, Jack Ickx, Clay Reggazoni e Pace são lembrados como sendo grandes pilotos e nem campeões eles foram …
    O Ayrton Senna era bom mas sempre teve tudo do bom e do melhor. Se por um lado este fato foi bom para a carreira dele por outro me faz excluir seu nome dos meus preferidos pois roer osso ele nunca roeu …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Rafael Carvalho de Oliveira disse:

      Fernando, você cometeu um pequeno erro. Piquet era burguesão assim como Ayrton a unica diferença entre os dois era que Piquet era mais marrento e Senna era um cara mais da paz, mas ambos tiveram tudo do bom e do melhor tanto na vida social e no esporte a motor tiveram altos e baixos! Sinceramente não entendi o porque desta diferenciação mas respeito a sua opiniao! Um abraço.

  2. wladimir disse:

    Lembremos também outros grandes pilotos que morreram jovens e sem títulos ou vitorias:
    Gilles Villeneuve, Ronnie Peterson (morto em Monza com a mesma idade de Ayrton), François Cevert e Didier Pironi (estes sim dignos de engrandecer a França se tivessem ganho campeonatos), Tom Pryce (vítima de um acidente horrendo que também retalhou o corpo de um mecânico), Mark Donohue (já consagrado no automobilismo norte americano na época) e tantos outros.
    Mas grandes nomes fora dos esportes também devem ser lembrados pelo desaparecimento precoce e por quão grandes ainda poderiam ser:
    Bruce lee (filósofo, teórico das artes marciais, criador do método de combate e filosofia de vida Jeet Kune Do e “artista marcial que atuava”), Brandon Lee (“Ator que lutava”, grande revelação dos filmes de ação dos anos 1990 que certamente enterraria as carreiras de Van Damme e Steven Segal), James Dean (símbolo da juventude transviada dos anos 1950 e ao morrer tornou-se um mito tão poderoso que até Elvis Presley quis ser ator para imitá-lo), john belushi (notável comediante, revelado no Saturday Night Live, imortalizado pelos filmes “os irmãos cara-de-pau” “clube dos cafajestes” e “1941 uma guerra muito louca”).

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