O camponês na realeza

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“A lembrança é uma forma de encontro”

Khalil Gibran

Algumas das viagens mais interessantes que por vezes costumamos fazer, embarcamos num veículo chamado lembrança, para nos levar cada um de nós tem algo de bom ou não, que fica lá no fundo de um baú de nossa memória, por vezes por tanto tempo esperando ser resgatado que as vezes se perde e nunca mais é encontrado, mas as vezes somos acometidos por flashs que relampejam e trazer à tona momentos já esquecidos, incitando a um passeio por um labirinto cheio de emoções.

Também acho particularmente fascinante, ouvir certas lembranças serem contadas por outras memórias.

Um desses relatos que me impressionou bastante foi sobre um episódio marcante na história da Fórmula 1, envolvendo a primeira vitória da equipe Ferrari.

Era o ano de 1951, a Fórmula 1 entrava em sua segunda temporada, Giuseppe Farina era o campeão vigente e por enquanto único da categoria, a Alfa Romeo dominava de forma incontestável, vencera todas as corridas dos GPs oficiais, exceto as provas das 500 Milhas de Indianapolis, que durante os anos 50 contaram oficialmente para o mundial de F1, a equipe dos quarto trevos alternava essa hegemonia, ora com Giuseppe Farina ora com Juan Manuel Fangio, até então nenhum outro piloto nem outra equipe haviam vencido uma prova oficial no campeonato de Fórmula 1, a temporada de 1951 começou com a hegemonia inconteste da Alfa.

O personagem da nossa história é um argentino, tal qual Fangio, seu nome José-Froilan Gonzalez, também conhecido pelos patrícios argentinos pelo apelido de “Cabezon”, na Europa ganharia um novo apelido e ficaria conhecido como o “Touro dos Pampas” dado o seu porte físico atarracado e seu olhar bem intimidador.

O GP em questão é o da Inglaterra, era sua segunda edição no ano de 1951,sendo a quinta etapa da temporada de 1951.

Gonzalez falou longamente sobre essa corrida em diversas ocasiões, bastava ser provocado a se lembrar, em suas palavras a recordação daquele que seria o primeiro Grande Prêmio vencido por ele e de um carro da Ferrari mostrou uma carga emotiva, que me tocou:

“Muitos anos se passaram desde o Grande Prêmio da Inglaterra de 1951 e, no entanto, parece-me que foi ontem.

É preciso apenas uma palavra casual em uma festa, um amigo ou talvez um jornalista me perguntando: Como foi tudo no começo? Conte-me Pepito? As memórias logo inundam minha mente; lembranças de um garoto cru e inexperiente da Argentina.

Desde então, tenho recebido elogios e palavras de reis, príncipes e estadistas em muitos países.

Eu esqueci de muitas corridas, mas sempre me lembro daquele 14 de julho de 1951.

Que realmente começou alguns anos antes ainda na Argentina, quando eu era, para meus compatriotas locais chamado de ‘Cabezon’, um piloto que se contentava em ganhar em circuitos de terra locais, nem de longe pensando em outros circuitos locais ou competições internacionais.

Quando Don Francisco Borgonovo, presidente do Automóvel Clube da Argentina me telefonou no início de 1950, perguntando se eu me uniria à equipe que o Clube estava enviando para a Europa, sob a liderança do meu grande amigo e compatriota Juan Manuel Fangio.

Eu aceitei, claro, e assim embarquei para a Europa junto a comitiva. Tive muito azar naquele ano e não fiz nada de espetacular.

Só que o clube foi paciente comigo e me selecionou para correr novamente em 1951.

Eu estava em Reims, pronto para correr no Grande Prémio de França de 1951, num Maserati de propriedade do Automóvel Clube da Argentina, quando algo aconteceu que mudou o meu destino.

Nello Ugolini, então diretor da equipe da Ferrari, veio até mim e me perguntou se eu poderia pilotar um dos carros da equipe, porque seu piloto Dorino Serafini havia se machucado na Mille Miglia. O pedido, soube depois, veio do próprio Enzo Ferrari.

Fiquei espantado, como é que eu um simples camponês e com tão pouca experiência pudesse ter chamado a atenção do grande Enzo Ferrari e sua equipe. Todos nós da equipe argentina ficamos maravilhados e imediatamente fui apoiado, me lembro mesmo agora, minha empolgação contida quando concordei.

Eu tinha poucas ilusões sobre minhas chances, mas a partir daquele momento eu parecia estar vivendo no sonho e mesmo quando eles me levaram para a fábrica para tirar as medidas para ajustar assento e pedais eu ainda não podia acreditar que eu daí a pouco estaria a pilotar uma joia mecânica da Ferrari. Eu estava nervoso, feliz e com medo ao mesmo tempo.

Me senti como um camponês que de repente alcança o amor de uma princesa. Achei que o sonho era para ser muito breve.

Mesmo assim eu estava decidido a deixar minha marca em Reims no Grande Prêmio da França e depois de uma dura batalha, eu consegui liderar a corrida. Mas quando parei ao lado dos tanques para reabastecer, Ugolini me disse para entregar meu carro a Alberto Ascari, que havia voltado aos boxes da Ferrari depois que seu carro havia quebrado. Mesmo nos dias de hoje, entendo que era uma atitude compreensível – Ascari era mais experiente que eu nos circuitos dos Grande Prêmios. E, como ele estava ali disponível, era obviamente mais sensato deixar que ele assumisse.

Na época eu fiquei confuso e desanimado. Presumi que de alguma forma havia falhado em um dos misteriosos testes que o comendador Enzo Ferrari costumava fazer em seus pilotos.

Enfim ali deveria estar acabando o meu sonho e a princesa deixaria o camponês para seguir o seu destino majestoso”

No entanto o que Gonzalez e ninguém seria capaz de imaginar é que após essa corrida, Enzo Ferrari enviou um convite para ele voltar a Maranello e fazer uma nova visita.

Confuso e tímido, pois Ferrari era um homem experiente e poderoso, enquanto Gonzalez acabara de chegar na Europa.

Ele não tinha ideia de como abordar o “monstro sagrado” do mundo automobilístico quando foi conduzido ao seu escritório. Após os cumprimentos em espanhol ele ficou ali sem palavras, perguntando a si mesmo por que estava ali e o que fazer a seguir.

Enzo Ferrari, percebendo o constrangimento, abriu um sorriso e apertou a mão do argentino, em seguida o parabenizou pela pilotagem em Reims quando de repente ele pergunta a Gonzalez: “Você gostaria de assinar um contrato para pilotar no time da Ferrari?”

Gonzalez é pego de surpresa, ficou tão emocionado que não respondeu de imediato pois ficara confuso, enquanto o comendador ditava os termos e condições que estavam estipulados no contrato oferecido, que também de forma surpreendente eram iguais aos de Villoresi e Ascari, seus pilotos oficiais.

Nada dos termos daquele contrato importaram para Gonzalez, ele confessou que nem prestou atenção aos detalhes, ele pegou uma caneta e assinou sem pestanejar – na verdade ele estava pronto para assinar qualquer coisa.

Ele só queria correr, para fazer parte do poderoso time italiano, quepara eleera estar atingindo o maior degrau de sua carreira.

Em seguida a equipe se dirigiu a Silverstone para o Grande Prêmio Britânico de 1951, Gonzalez sentindo que realmente pertencia à Escuderia Ferrari, misturando um sentimento de ansiedade com motivação para colocar o poder do seu carro contra os quase invencíveis Alfa Romeo. Ali se encontraria com os maiores ases da época.

Vale lembrar que na década de cinquenta Silverstone era o ponto de encontro de vários estadistas, industriais e milionários internacionais, e boa parte da realeza, já que a família real britânica era quem fazia a entrega do troféu ao vencedor da prova, todos ali estavam à procura de emoção e entusiasmo.

Durante os treinos, Gonzalez surpreende e conquista a Pole, dividindo a primeira fila com as duas Alfas de Fangio e Farina, ele quebra o recorde da pista, dessa vez ele está confiante que se repetir a boa atuação de Reims a equipe não iria tirar seu carro.

A corrida foi disputada em 90 voltas e desde a largada houve uma intensa disputa entre Gonzalez e Fangio. Ciente de que a Alfa de seu rival deveria fazer um reabastecimento Gonzalez deixou Fangio assumir a ponta na volta de número 10 e o seguiu de perto, ele queria se concentrar para não fazer nenhuma bobagem, assim ele volta a ponta na volta 39 liderando até a volta 47 , quando Fangio retomou a ponta, mas foi por um breve momento, na volta 49 Fangio faz a sua parada e Gonzalez lidera agora com quase um minuto de vantagem.

Bastava agora ele controlar essa distância, pois sabia que Fangio faria uma recuperação, seu carro era muito veloz e Fangio já se caracterizava pela especialidade em se recuperar, assim nada estava decidido.

Controlando suas emoções Gonzalez se concentra ao máximo e lidera até a volta final de número 90, terminando com 51 segundos de vantagem para Fangio.

A hegemonia da Alfa estava quebrada, uma nova equipe vencia pela primeira vez, ali tanto Gonzalez como a Ferrari estavam escrevendo seus nomes na história.

De volta ao paddock as emoções afloravam, Gonzalez lembrou que na volta final mesmo com o barulho infernal a torcida presente estava agitada, ele não podia ouvi-los, mas a sua sensação era de que a multidão britânica havia esquecido sua contenção habitual. Eles estavam pulando e acenando.

Novamente as suas palavras sobre aqueles momentos:

“Eu ganhei meu primeiro GrandePrêmio. Eu dirigi até o local destinado ao vencedor e então, perto do meu boxe, vi meus mecânicos pulando, agitando os braços. Os espectadores estavam de pé. Quando eu parei, fui levantado do carro. Minha esposa, Vera, me abraçou e depois amigos correram para me abraçar: estavam lá, Fernando, Guzzi, o embaixador argentino Hogan, Fangio; todos os seus rostos estavam embaçados enquanto eles me cercavam, me cercando para me abraçar. Eram abraços tão fortes que ainda sinto o calor e a umidade de suas lágrimas misturando-as com as minhas.

Tudo à nossa volta era uma confusão e uma excitação. Os Alfa Romeo foram batidos, os mecânicos da Ferrari gritavam enquanto me davam uma bebida e limpavam meu rosto.

Depois de alguns minutos, levaram-me para a frente, um pequeno grupo compacto, à presença da rainha da Inglaterra que me parabenizou. Eu recebi uma coroa de louros e fui coroado.

De todos os lados ouvi gritos que eu não entendi. Vi mãos tentando me alcançar e ouvi palavras em muitas línguas, mas nenhuma em minha própria língua. Era uma música estranha, mas muito agradável ao meu espírito.

Então no pódio do vencedor,tudo ficou quieto. As pessoas ainda estavam olhando para mim. O profundo silêncio foi quebrado pelos primeiros acordes do Hino Nacional Argentino.

Foi a primeira vez que eu fui o centro de uma cerimônia tão tocante: e comecei a chorar quando vi a bandeira do meu país sendo içada para o topo.

Eu era jovem, um menino do campo. E agora tantos anos se passaram. Mas ainda me lembro de julho de 1951 e muitas vezes me encontro novamente naquele tumulto de mãos, vozes e gritos que, se eu fechar meus olhos, ainda posso ver e ouvir ao meu redor”

Gonzalez voltou a vencer em Silverstone em 1954, novamente com uma Ferrari, foi sua segunda e última vitória oficial na Fórmula 1, ele participou de 26 Grandes Prêmios.

Quanto a Ferrari ela continua até hoje nos circuitos da Fórmula 1, já com 238 vitórias e 16 campeonatos conquistados, se tornou a maior das equipes da história.

Os números aqui são o que menos importam, as lembranças contidas nesse depoimento nos fazem lembrar que muitas vezes algumas lágrimas que brotam em nós são de alegria, nesse caso a alegria dada por um camponês entre a realeza.

Abraços,
Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

4 Comments

  1. jean disse:

    Parabéns,
    Emocionante texto.
    Abs.

  2. Rubergil Jr disse:

    Belíssimo texto, emocionante. E que fase boa era esta do automobilismo argentino hein?

  3. Fernando Marques disse:

    Grande Mario,

    não conhecia a história do “Camponês” José-Froilan Gonzalez, a não ser que correu e venceu na Formula 1 nos anos 50 e sim, que era argentino como Juan Manuel Fangio. Um relato emocionante como bem disse o Mauro acima. Fora seu belo texto.
    Incrível como os argentinos, que parece ter mais gasolina no sangue que os brasileiros, não tiveram mais nenhum piloto na piloto de Formula 1 desde a aposentadoria do Carlos Reutman no inicio dos anos 80, o que aliás poderia ser um bom tema a ser debatido aqui no GEPETO. O que se passa por lá?

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Mauro Santana disse:

    Grande Salu!

    Que relato emocionante, e é impossível não imaginar estando no meio daquela multidão que cercava o Touro dos Pampas.

    Parabéns, mais uma excelente texto.

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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