O centésimo GP de Jackie Stewart

Poço – parte 2
05/03/2016
Haas e Haas
11/03/2016

As tensões e emoções de Jackie Stewart em seu último fim de semana como piloto de F1

Jackie Stewart foi disputar o GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen, com um segredo que só ele e seu chefe, Ken Tyrrell, sabiam: que este seria seu centésimo e último GP de F1.

O escocês já tinha conquistado na corrida da Itália, em Monza, o título de pilotos – seu terceiro – e tinha decidido em meados do ano que era hora de sair. Ganhando ou perdendo, ele iria parar ao final da temporada.

Como ele confirmaria mais tarde, ele e a esposa Helen numa conversa haviam computado mais de 50 – sim 50 pilotos – amigos, que haviam morrido em acidentes de corrida durante os anos em que ele Stewart estava competindo. Assim, ele decidiu que já era o suficiente. Foram muitos companheiros perdidos e para um cara que havia encampado uma briga pela melhoria da segurança nas pistas, o preço emocional era alto. Era hora de parar de ser piloto.

O plano de Jackie era deixar como sucessor na equipe Tyrrell seu jovem companheiro de equipe, que naquela época era um cara dos mais populares tanto com o público como entre os pilotos e outras equipes, graças a seu temperamento muito simpático e acessível. Ele até hoje também ele é considerado um dos mais belos pilotos da história da Fórmula 1, o francês François Cevert.

Stewart daria a notícia a François depois da corrida de Watkins Glen, quando ele próprio também anunciaria sua aposentadoria, um encerramento de temporada bem estrelar e, convenhamos, merecido pela carreira que Jackie havia construído até então.

A temporada de 1973 havia cobrado de Stewart uma pilotagem e astúcia bem mais refinadas. As Lotus de Emerson Fittipaldi e Ronnie Peterson eram carros dominantes na temporada, só que falhas mecânicas e a falta de uma posição mais clara do chefe Colin Chapman na relação de pista entre os seus pilotos fez a Lotus perder um campeonato certo – mas essa é uma história para outra coluna.

Na Tyrrell, ao contrário, era patente que Cevert em algumas provas comboiava Stewart e, em respeito a sua posição de primeiro piloto, não disputava mais fortemente posição com ele. Foram três as dobradinhas onde nessas ocasiões em que Cevert seguiu Stewart bem próximo. Quando Stewart confirmou a conquista do título de pilotos em Monza, deixou a possibilidade para Ken Tyrrell olhar as demais possibilidades para sua equipe.

O campeonato de pilotos após Monza ficou com a seguinte pontuação: Stewart (campeão) com 69 pontos; Fittipaldi com 48; Cevert com 47; Peterson com 43 pontos. No campeonato de construtores, a pontuação era apertada: a Tyrrell tinha 80 pontos, contra 77 da Lotus.

Vale lembrar que foi em Monza que foi aberta uma ferida na relação entre Emerson e Colin Chapman, por este não ter dado a ordem para Peterson abrir passagem e manter assim Emerson na disputa pelo título.

Olhando a pontuação até ali, o velho Ken vislumbrou tanto a possibilidade de conquistar o vice-campeonato de pilotos com Cevert, como o de conquistar o título de construtores para sua equipe. Era bem factível, dado às circunstâncias daquele momento.

Faltavam duas provas para encerrar o campeonato. A prova seguinte foi no Canadá, em Mosport, e na sequência a Fórmula 1 disputaria seu último GP de 1973 no circuito de Watkins Glen.

Adotando uma estratégia para alcançar seus objetivos, Ken Tyrrel inscreve um terceiro carro para disputar esses dois GPs. A princípio, esse carro seria pilotado por Patrick Depailler, que seria piloto da Tyrrell na temporada de 1974. Mas o francês sofreu um acidente de moto e Ken acabou chamando o experiente Chris Amon, um reforço e tanto para buscar pontos, como também para tirar pontos da Lotus.

A corrida em Mosport foi muito tumultuada devido à chuva, paradas de boxes e habilidades em conduzir no molhado. A corrida marcou o retorno de Jody Scheckter, da McLaren, protagonista da famosa carambola e batida no GP da Grã-Bretanha.

Jody foi um dos pilotos que no início da corrida figurava nas primeiras posições, enquanto as Tyrrells sofriam com a pouca aderência em pista bem molhada. Na volta 17, Peterson sai da pista e bate, abandonando a prova – um a menos para o trio da Tyrrell se preocupar.

À medida que a pista foi secando, Stewart e Cevert começaram a recuperar posições. Na altura da volta 21, alguns pilotos começaram a fazer pit-stops para troca de pneus para pista seca. Emerson era o líder da prova, e enquanto Cevert e Scheckter começam a brigar pela segunda posição, a pista continua a secar.

Na volta 33, Stewart está liderando com Cevert continuando a disputa pelo terceiro lugar com Scheckter, mas aí o sul-africano força a barra (a terceira do ano), tenta passar onde não dá e bate em Cevert, forçando o abandono do francês .

Cevert sai furioso do carro e bate no capacete de Scheckter. Esse acidente deixou François muito abalado. A corrida termina e Emerson, após uma tumultuada situação, é declarado o segundo colocado da corrida, assumindo assim uma confortável diferença de 7 pontos para Cevert. A vitória ficaria com Peter Revson, a bordo de outro carro da McLaren.

Essa diferença não dava o vice a Emerson: uma vitória de Cevert em Glen lhe daria o vice. A Lotus, porém, assumia a liderança do campeonato de construtores, 1 ponto a frente da Tyrrell. Tudo se definiria mesmo na última corrida em Glen.

Stewart, mais tarde, relatou esse período:

Em Mosport, duas semanas antes de Watkins Glen, Cevert acabou envolvido em uma batida com Jody Scheckter e ficou um pouco abatido. Helen e eu íamos ter uma pausa de alguns dias nas ilhas Bermudas – eu pensei que seria uma boa ideia passar algum tempo sozinhos porque ela estava sofrendo muito por causa de tudo o que tinha acontecido em todos aqueles anos.

No Canadá, após o acidente, dissemos a François, ‘Olha, porque você não vem conosco?’ Ele disse, ‘não, não, esse é um tempo de vocês dois’ e assim por diante, mas nós insistimos e ele acabou cedendo – e tivemos um tempo fantástico, só que durante essa semana. Ele ficava perguntando para Helen, ‘será que Jackie vai se para aposentar ou não?’ e Helen é claro, não sabia. Ele também me perguntou, e eu ficava dizendo, ‘ainda não me decidi’. Eu precisava claro comunicar primeiro a Helen, e assim não pude falar para ele da minha decisão.

François então me confidenciou que ele estava recebendo oferta da Ferrari e assim por diante, e eu disse, bem, isso é bom – mas você não precisa decidir até a temporada acabar. Acho que você deveria ficar com o Ken. Ele disse, ‘bem, é que a Ferrari está me dizendo que se eu não assinar, eles vão arranjar outra pessoa’.

Eu disse para dissimular e dissuadi-lo, ‘e quem eles vão pegar que é melhor que você? Pense bem, o carro da Tyrrell do próximo ano vai ser muito bom. François, de qualquer forma, temos que correr em Glen’, e assim terminei a conversa sem falar para ele de minha decisão.

Ken Tyrrell era a única pessoa que sabia que aquela seria a minha última corrida. Na sexta-feira do final de semana da corrida, ele veio conversar comigo e disse, ‘Jackie, você sabe o que seria uma coisa muito legal de fazer? Se vocês estiverem correndo em primeiro e segundo no final, seria bom deixar o François ganhar’.

Eu disse, ‘Ken, esse vai ser o meu último GP – é muito o que você me pede…’. Ele disse ‘Sim, claro que é – mas, você sabe, você é visto como um rei pelo menino, se você fizer isso vai ser muito bom’. Eu disse, ‘Sim, mas se eu fizer da forma errada, como vão olhar para ele ano que vem? Ele será meu substituto e não posso deixar minha sombra atrapalhar a sua carreira’.

O pedido realmente não me incomodou, mas eu disse a Ken, ‘Vamos deixar para ver no domingo – agora vamos nos concentrar na qualificação porque podemos não ser tão rápidos e pode ser que essa situação não ocorra’. Isso era típico Ken, realmente. Ele pensou que seria o correto a fazer – e que fazendo isso me faria parecer grande. Ele sabia muito bem o significado daquele pedido para mim.”

Sábado, dia 6 de outubro, faltam poucos minutos para o final da sessão da manhã, até então dominada por Peterson e sua Lotus. Cevert estava com a quarta posição, quando resolve ir para mais uma volta rápida. Ele conversa com seu mecânico Jo Ramírez, menciona que vai conseguir extrair alguns décimos para melhorar seu tempo, e sai.

Minutos depois, nos esses, o acidente. Cevert perde o controle e bate violentamente contra a barreira e volta para o lado oposto, com o carro virado de cabeça para baixo. Estima-se que ele estava a mais de 200 km/h quando seu carro percorreu o guard-rail algumas dezenas de metros, o que teve ação semelhante ao de uma guilhotina. O corpo do francês foi cortado ao meio e esse acidente até os dias de hoje sucinta em nós, fãs, uma tentativa de explicação do que pode ter acontecido. Mas isso não importa.

Cevert morreu instantaneamente.

Chris Amon parou no local com o terceiro Tyrrell, juntamente com Jody Scheckter. Pouco depois, foi a vez de Stewart parar no local. Ele diria: “Foi realmente chocante. Felizmente Ken nunca viu o que eu vi”.

Quando retornou aos boxes e encontrou com Ken, Stewart encontrou um homem incrédulo ao que estava sendo noticiado. Ele não queria acreditar que François estava morto.

Foi muito para Ken. Até que foi emitida a declaração oficial, nada era certo. Ele estava terrivelmente chocado e ainda teria de telefonar para a família na França, é claro. Na volta, ele reuniu a equipe para discutir a decisão do que tinha de ser feito. Eu não era contra a fazer a corrida – honestamente, quando se entra em uma corrida, algo como que desaparece e sinceramente François em meu lugar aconselharia a equipe e correr. Mas quando Ken disse, ‘O que vamos fazer?’, eu disse, ‘realmente acho que devemos nos retirar em respeito a François’. E essa foi a coisa certa a fazer, não me arrependo.

Antes que a medida fosse anunciada, no entanto, Stewart e Amon saíram novamente na sessão da tarde.

Ken não queria que eu fizesse isso, na verdade, mas eu disse, ‘Olha, nós temos que sair – os nossos rapazes [mecânicos] pensam que é algo a ver com eles’, os mecânicos acreditavam que devia ter sido uma falha mecânica, porque não achavam que François poderia ter cometido um erro no lugar onde aconteceu. Eu tinha uma ideia do que tinha acontecido, mas eles estavam tão aflitos, que eu senti que eu deveria ir treinar para que eles não carregassem a culpa, mesmo sabendo que eu não iria mais participar da corrida.

Uma vez fora do carro, Jackie conversou com Helen e anunciou que agora era um piloto aposentado.

“Ela lidou com isso e muita emoção em um único dia, era seu desejo que eu parasse, mas também foi ela quem teve de arrumar o quarto do François e tudo. Foi na verdade muito horrível”.

Assim, nas circunstâncias mais tumultuadas imagináveis, a parceria entre Ken Tyrrell e Jackie Stewart chegava ao fim. Eles continuaram seus laços de amizade até a morte de Ken Tyrrell, em 2001.

A centésima corrida de Jackie Stewart nunca aconteceu, ao menos estatisticamente. Ele, mesmo recomposto de tanta emoção, preferiu manter o respeito à memória de François Cevert, e não sentou num carro, nem mesmo para cumprir essa centésima participação. No entanto, Jackie deixou a F1 com três campeonatos e com o recorde de 27 vitórias em GPs, superando Juan Manuel Fangio e Jim Clark, recorde só quebrado por Alain Prost 14 anos mais tarde.

Fico aqui pensando… Stewart abriu mão de engrossar uma estatística para manter uma convicção e respeito à alguém que ele mesmo definiu: ‘ele [François] era o meu companheiro, meu protegido, meu amigo, meu irmão mais novo’.

Com essa atitude Stewart alçou para mim, sem sombra de dúvidas, o seu centésimo Grande Prêmio.

Uma boa semana
Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

10 Comments

  1. MarcioD disse:

    Belo Texto Mário!

    Também acompanhei esta temporada de 73 e achei que o Emerson ia levar fácil, afinal nas 4 primeiras provas foram 3 vitorias dele contra 1 do Stewart,ai a partir da Bélgica ele não venceu mais nenhuma e o Stewart ganhou 4…..Eles eram de estilos semelhantes, os chamados “cerebrais”.
    Sinceramente, não entendi o Chapman, O Emerson estava na equipe desde 70, era o Campeão…….O Peterson estreava na equipe. Talvez o Chapman apreciasse mais o estilo velocista do Peterson, numa lembrança do Clark. Foram 9 poles dele contra 1 do Rato.A pressão estava sobre o Stewart bicampeão (69/71) derrotado pelo Rato…..
    Lamentei profundamente a morte do Cevert,ótimo piloto, houve até uma certa “comoção” do publico feminino em virtude da sua juventude e beleza.
    Lembro-me também de que todos os campeões que vieram depois do Stewart, ao se aproximarem dos 100 GP’s, fazia-se a comparação com as 27 vitorias dele.
    Acho que ninguém conseguiu supera-lo, você tem estes dados Mário?

    Abraços,

    Márcio

    • Mário Salustiano disse:

      Márcio

      a situação da Lotus em 73 se resume em dois fatores, Ego e dinheiro, a despeito de Emerson ter conquistado o título de 72, para Chapman o mérito era do carro, quando Emerson começou a tratativa de renovação de seu contrato com a Lotus, Chapman achou absurdo o valor solicitado por ele para renovar. Pensando na lógica daquele ano seria realmente difícil convencer Chapman do contrário, nos 10 anos anteriores a 1973 ele havia conquistado metade dos campeonatos de pilotos, quando o clima azedou uma das apostas de Chapman era que Emerson não teria uma boa opção de equipe para correr no ano seguinte e iria baixar o valor de sua pedida inicial, foi o erro que ele cometeu ao não perceber que as demais equipes já viam Emerson com um potencial bem amplo e assim a Mclaren a partir do GP da Itália faz uma costura de patrocínios com a Texaco e a Marlboro e fecha contrato com o brasileiro, um fator que reforça essa costura é que a Mclaren tinha um contrato com a Yardley que valia para 1974, lembrando que ela manteve uma equipe satélite com o intuito de honrar esse contrato.
      Vou pesquisar a tua dúvida sobre os campeões e seus 99 GPs e posteriormente respondo.
      abraços
      Mário

      • Fernando Marques disse:

        Acho que ficou claro que muito do titulo do Stewart em 73 deveu-se pela união que havia entre os pilotos e a equipe Tyrrel, situação que não existiu por completo na Lotus apesar da boa amizade que existia entre Emerson e Peterson … estaria eu errado?

        Fernando Marques

        • Mário Salustiano disse:

          Fernando

          você está certo, na ocasião e de forma plausível Peterson afirmou não ter aberto a passagem para Emerson por aguardar uma ordem ou sinalização de Chapman, caso Stewart não tivesse pontuado o segundo lugar seria suficiente para manter Emerson com chances matemáticas, no carro o sueco não tinha uma visão do que estava ocorrendo na pista e vale lembrar que Stewart havia caído muito em função de uma parada no inicio da prova para trocar um pneu furado, a amizade entre Peterson e Emerson se manteve intacta após esse episódio

        • Mauro Santana disse:

          Tanto é que quem deu a notícia da morte do Peterson pra sua esposa, foi a Maria Helena Fittipaldi.

  2. Fernando Marques disse:

    Mario,

    mais uma vez uma sensacional coluna … não foi só a garganta do Mauro que deu nó, a minha também ficou engasgada. O relato do J. Stewart é puro e verdadeiro e choca realmente quem o lê …
    As poucas lembranças que tenho da temporada de 1973 é uma mistura de euforia e decepção em dobro. Euforia por parte do começo de temporada do Rato que passou a certeza que poderia dar outro passeio nas pistas como tinha dado em 72. A decepção em dobro foi ver aquela certeza virar uma incerteza com os constantes problemas da Lotus, tanto dentro quanto fora das pistas … e para piorar no fim ver o trágico acidente do F. Cevert …
    Estava claro para mim que a bola da vez para ser campeão era o Cevert … em 73 em varias corridas ele deixou claro que era mais rápido que o Stewart assim como respeitava a hierarquia dentro da equipe … respeitava por que era respeitado e querido pelo escocês e retribuía da mesma forma … a temporada de 1974 seria a sua vez de triunfar … seria ele quem teria o osso roído, o adversário a ser batido … mas o destino não quis … uma pena … fico imaginando ele na pista duelando com a Mclaren do Emerson, com a e a Ferrari do Reggazoni e do Lauda … fora a Lotus do Perterson … ele teria minha torcida, depois de Emerson é claro …
    Não é a toa que Emerson diz que Stewart foi seu adversário mais difícil nas pistas … assim tanto quanto admirável fora … Jackie Stewart foi um verdadeiro campeão …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Mário Salustiano disse:

      valeu Fernando

      sim avaliando a temporada de 73 dá para entender porque até hoje Emerson cita Stewart como um grande adversário

      abraços

      Mário

  3. Mauro Santana disse:

    Que Colunaça Salu!!

    Parabéns!!!

    Olha, conforme eu ia avançando as linhas do belíssimo texto, ia ficando com um nó na garganta, pois foi a primeira vez que tive a oportunidade de ler um relato de Jackie Stewart a respeito da morte de Cevert.

    Incrível os caras continuarem o treino só para que os mecânicos soubessem que eles não tinham culpa do acidente.

    Como aqueles pilotos eram corajosos naquele período, é de ficar impressionado e emocionado.

    Certa vez, li uma entrevista com a Maria Helena Fittipaldi, e ela descreve bem como era essa época na F1.

    Eram outros tempos, tempos estes, dos anos 70, que eu queria ter vivido.

    https://m.youtube.com/watch?v=i4bO74WE5Ak

    Amigo, parabéns mais uma vez!!!

    Grande Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *