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1993 não tem roteiro estabelecido para se tornar filme, ainda que aquela temporada já tenha sido muito bem retratada no documentário sobre Ayrton. E diferentemente de 1976, não teve uma reviravolta inimaginada no meio da trama, levando a um final surpreendente. Porém, como no filme Rocky, a vitória acabou sendo o que menos importou.

1993 não tem roteiro estabelecido para se tornar filme, ainda que aquela temporada já tenha sido muito bem retratada no documentário sobre Ayrton. E diferentemente de 1976, não teve uma reviravolta inimaginada no meio da trama, levando a um final surpreendente: na verdade, 1993 terminou justamente como se pensava que iria terminar.

Porém, como no filme Rocky, a vitória acabou sendo o que menos importou.

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Eu não sei ler japonês. Muito menos, como diria o grande compositor, poeta e filósofo Djavan, “japonês em braile”. E acredito que muitos dos que frequentam esse site também não o saibam. Porém, todos nós conseguiríamos compreender a linguagem transmitida numa charge publicada no Japão, em 1993: nela, se vê Ayrton Senna cabisbaixo, com o macacão da McLaren na forma de um manto, e o carro MP4/8 na forma de uma cruz.

A Honda havia se retirado da Fórmula 1 ao final de 1992 e, assim, a McLaren, que usava os propulsores desde 1988, e Senna, que vinha trabalhando com os japoneses desde 1987, teriam de usar novos motores. O “escolhido” foi o Ford.

Porém, havia um pequeno problema: a Benetton usava esses motores desde meados dos anos 80, e já era uma “sócia” da empresa. Já a McLaren acabou optando pelos mesmos somente no início do ano. Assim, o time de Ron Dennis ficou com a “versão cliente”, que tinha por volta de 30 cavalos a menos que a “versão sócia” usada pela equipe italiana.

E aí a menção da figura da cruz na charge do jornal: por mais que se diga que o McLaren de 1993 tinha diversas vantagens eletrônicas, não se pode dizer que aquele fosse algo além de o terceiro equipamento do grid.

Mesmo assim, Senna fez toda a diferença. Nas primeiras 6 corridas, venceu três e foi duas vezes segundo. Por quase três meses, liderou um campeonato que, desde o início, tinha as cartas marcadas para uma vitória folgada de Alain Prost e da Williams, quando o francês assinou um contrato durante seu ano sabático (1992) com uma simples cláusula: Senna não podia ser contratado.

httpv://www.youtube.com/watch?v=AXQpEgZuWt4

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Sua vitória no Grande Prêmio da Europa, em Donington Park, é até hoje lembrada como uma das mais fantásticas de sua carreira, e também uma das exibições mais extraordinárias de um piloto na Fórmula 1. A primeira volta, em que sai do 5º para o primeiro lugar, superando carros superiores ao seu – com a exceção da Sauber de Wendlinger, a quem aplicou uma das ultrapassagens mais insanas da F1 moderna – ocupa lugar especial no coração de fãs, críticos, e pilotos de todas as épocas.

Porém, Ayrton teve duas outras exibições tão galantes quanto a de Donington mas que, talvez porque não tenha vencido, são menos lembradas.

A primeira dessas corridas notórias de Senna foi o Grande Prêmio do Canadá, quando conseguiu apenas a 8ª colocação no grid. Porém, logo na largada tratou de pôr as coisas em ordem: naquela primeira volta, passou três pilotos; na segunda, mais dois, e voltas mais tarde superaria também Damon Hill. O show valeu: a ultrapassagem sobre Jean Alesi foi descrita por Murray Walker como sendo “sem dúvida, a melhor manobra do ano”.

httpv://www.youtube.com/watch?v=Eut-9j3B_LQ

Já na metade da corrida, com um ótimo segundo lugar, seu excelente carro quebrou.

Mas talvez a cena mais emblemática daquela temporada foi o GP da Inglaterra. Ayrton largou em 4º, e passou Schumacher e Prost. Passadas algumas curvas, a diferença de carro começou a aparecer, e o francês foi o primeiro a pressionar Senna. Ayrton o segurou o quanto pôde. Essa briga durou seis voltas. Somente ao final da sétima é que Prost ultrapassou Senna.

Depois, foi a vez de Schumacher tentar passar Senna de todas as maneiras. Acabou conseguindo duas voltas mais tarde, curiosamente (ou não) no mesmo lugar em que o Williams superara o McLaren.

De todo modo, aquelas primeiras cincou ou seis voltas ficariam marcadas como uma das grandes demonstrações do talento de Senna e de sua famosa aceleração em curvas (“bombeava o pedal, a um ritmo médio de cinco impulsos por segundo, para não ter de frear forte“, como descrito em ‘Ayrton – Herói Revelado’, p. 232).

httpv://www.youtube.com/watch?v=YR9fRJFZ6Ps&feature=fvwrel

Ayrton estava em terceiro lugar quando, na última volta, sofreu uma pane seca no maravilhoso carro.

Outra exibição acima da média do brasileiro aconteceria no GP da Austrália, onde, pela única vez no ano e a primeira vez nas últimas 25 corridas, um carro que não a Williams faria a pole-position. E a vitória viria, sem ser na chuva – como acontecera em 3 corridas anteriores – ou em Mônaco.

httpv://www.youtube.com/watch?v=6cLCIr7z84A

Pode-se dizer que aquela cena de Senna e Prost juntos no pódio de Adelaide, voltando a se falar depois de um longo inverno, marca o fim definitivo de uma era da F1: teríamos a volta do reabastecimento, a aposentadoria definitiva de Prost e, alguns meses depois, a morte de Senna.

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No apagar da vela de 1993, Senna terminou o campeonato como vice-campeão do mundo, com 73 pontos, 4 a frente da Williams de Damon Hill – que seria seu companheiro de equipe na Williams e maior adversário de Schumacher nos anos posteriores.

Uma imagem bastante ilustrativa sobre 93 aconteceu no Estoril, onde Senna testaria os motores Lamborghini como possível fornecedor para o ano seguinte (a McLaren ficou com os Peugeot). Com o Ford é que não dava p’ra ficar. Ainda mais porque Senna estava de mudança para a Williams.

Mas a melhor definição sobre como foi aquela temporada e o desempenho de Senna foi dada por Jo Ramirez: “Quando tivemos o motor Ford, creio ter sido o melhor ano da carreira dele, mesmo não tendo sido campeão, pois ele realmente mostrou ao mundo o que podia fazer, vencendo carros muito mais potentes e competitivos que o nosso”.

Quem ainda não sabia do que Senna era capaz, ficou sabendo naquele ano.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

14 Comentários

  1. […] daquela que foi a temporada mais espetacular de Senna, o ano de 1993, descrita com precisão por Marcel Pilatti como um roteiro de filme, onde a vitória final foi o que menos […]

  2. Rafael Carvalho de Oliveira disse:

    A temporada 1993 foi sem duvida alguma a melhor temporada do saudoso Ayrton Senna! Ele conseguiu tirar leite de pedra daquele mp4/08 é só olhar os numeros. Com aquele carro ele mostrou ao mundo do que ele era capaz até porque ele praticamente não teve um companheiro de equipe para ajudar no desenvolvimento do carro. O Michael Andretti em 6 corridas conseguiu 1 podio! Então falar o que do cara? Simplesmente o melhor de todos tempos. Este era o Senna!

  3. Júnior disse:

    É, Arlindo, então vamos combinar: Fo… mesmo foi o Schumacher ter conseguido uma vitória e a 4ª posição no campeonato, derrotando seu companheiro, o experiente Patrese, e superando uma McLaren, que era melhor carro que a Benetton!

  4. Arlindo Silva disse:

    Eu discordo da afirmação que o carro da McLaren era o terceiro melhor do grid. Pelo menos no início da temporada a McLaren estava melhor.

    A McLaren começou 1993 com controle de tração e suspensão ativa e a partir do GP da Espanha passou a utilizar um controle de altura no carro.

    A Benetton começou o ano com um chassis que foi trocado a partir de Donington. Em Monaco implementaram o controle de tração, em Montreal implementaram o controle de altura e suspensão ativa (não por coincidência, foi quando Schumacher começou a disputar a liderança com mais frequência, ao mesmo tempo que a McLaren decaiu). A partir de Monza começaram a trabalhar no projeto de 4 rodas esterçantes (com o qual acabaram correndo no Japão e Austrália).

    A partir do GP da Alemanha, a Benetton e a McLaren passaram a correr com o mesmo motor (série 8 da Ford). E mesmo em Silverstone, quando a McLaren passou a usar o motor da série 7, Senna afirmou que a diferença entre o motor da série 6 (que ele usou até Magny Cours) e o da série 7 (que a Benetton usava desde o princípio do ano) não era tão grande assim.

  5. Fabiano Bastos disse:

    A temporada de 93 foi realmente a melhor de Senna. Se o carro tivesse a confiabilidade dos carros de hoje, ele teria sido campeão, mesmo com um carro muito inferior ao de Prost.
    Uma pena tudo ter se acabado na temporada seguinte, ele ainda tinha muita lenha para queimar, muitas corridas para ganhar.

  6. Houve várias flutuações no desempenho dos carros ao longo do ano.
    De fato, a partir da Alemanha a Cosworth forneceu uma nova especificação à Benetton, permitndo que a McLaren recebesse a versão com comando pneumático. Continuava não sendo a versão mais potente ou moderna do Ford – ainda restrita à Schumacher e Patrese -, mas ao menos a velocidade final já era bem melhor que no início do ano.
    A Benetton, por sua vez, só passou a ter o controle de tração a partir de Mônaco, e isso se deveu ao fato de seu controle atuar diretamente sobre o comando de válulas. Esse sistema desenvolvido por Tad Czapski, muito mais complexo, causava menos danos ao motor e era muito mais difícil de rastrear. Por isso mesmo, existem boas razões para se acreditar que Schumacher correu com controle de tração ao longo de 1994, quando o aparato já havia sido proibido.
    Abraços!

  7. Tenho o vídeo oficial da temporada 1993 e foi realmente show e o Senna teve sua melhor temporada. Para quem apenas torceu pelo Senna, nunca irá entender como um ano em que ele perdeu, o brasileiro fez sua melhor temporada na carreira. Mas para quem aprecia F1, basta acompanhar…
    Só discordo de uma coisa. A McLaren poderia ter um carro menos potente do que Williams, Ligier, Ferrari e Benetton, mas em termos de chassi/eletrônica, talvez o carro de Senna só fosse pior do a Williams de Prost.

  8. Leandro disse:

    Eu ainda colocaria mais duas corridas sensacionais em que ele foi além do limite do carro,Gp Africa do Sul em que ele segura o Prost e o Schumacher por mais de 20 voltas e ainda o Gp da Alemanha em que ele se enrosca com o Prost na primeira cincane e cai pra ultima e mesmo com o pobre motor ford ainda termina em 4 lugar não muito longe do 3 lugar.

  9. Mauro Santana disse:

    Olá amigos do GPTotal!

    Gostaria de trazer uma notícia, aproveitando o espaço, que não tem nada a ver com o texto acima, mas que acho super importante na atual situação da F1.

    Segue o link

    http://grandepremio.ig.com.br/formula1/2011/09/19/f1+tem+de+se+preocupar+com+circuitos+e+paises+tradicionais+diz+hill+10500911.html

    Abraço!

  10. Michel disse:

    Venceu e MUITO bem, não é mesmo, Luciano? E o mais engraçado é ver fãs de Schuamcher dizendo que o carro de Senna era MELHOR, porque tinha CONTROLE DE TRAÇÃO… inclusive, usam-se disso para diminuir o feito de Donington!

  11. Luciano disse:

    Só retificando o que o Márcio disse, , a McLaren só passou a ter o motor com as válvulas pneumáticas nas duas ultimas corridas (Suzuka e Adelaide). Por sinal, ele venceu as duas…

  12. Fernando Marques disse:

    Em 93 o Senna não tinha nada a perder … estava fazendo hora para entrar na Willians no lugar do Prost … talvez aí ele ter se divertido muito andando deigual para igual com um carro bem inferior as Willians e Bennetons …

    Fernando marques
    Niterói RJ

  13. Mauro Santana disse:

    Esta temporada foi mesmo fantástica!

    E um detalhe, Senna estava sozinho com a Mclaren contra as duas Williams, as duas Beneton, e as duas Ferrari.

    Abraço!

  14. O motor Ford cliente utilizado por Senna até o GP da Inglaterra não possuía as válvulas pneumáticas, e por isso esbarrava no limite de giros permitido pelas molas, que numa certa altura começavam a flutuar. Silverstone deixou isso muito claro, ao revelar a absurda diferença de velocidade final do McLaren para os rivais Williams e Benetton, mesmo com Senna utilizando muito menos asa que Prost e Schumacher.
    Já em pistas como Mônaco ou Donington, com suas retas curtas, o déficit era menos acentuado, embora ainda bastante sensível.
    Certamente foi a maior temporada de Senna na F1, nem tanto pelos números, mas sim pelos milagres. Tanto assim que o resumo oficial da temporada, que sempre traz alguma referência ai campeão, desta vez falou só dele: “Senna strikes back” – ou Senna contra-ataca.
    Abraços!

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