O homem mais rápido sobre rodas

Sentado à beira do caminho
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Campo minado
20/07/2015

A performance de Jim Clark em 1965 é uma das temporadas mais dominantes da história do esporte.

Nossa passagem pela vida é marcada por glórias e cicatrizes, sucesso e derrota.

Não podemos deixar de pensar que essas situações nos deixa um caminho de aprendizado, um caminho de conhecimento, seja para aquele que viveu e vivenciou, seja para quem acompanhou a trajetória de alguém. Nesse ciclo, temos a oportunidade de escolher e recolher pontas das histórias, onde muitas vezes um gênio deixa a sua marca de forma indelével nas linhas do tempo.

Encontrar e juntar cada pedaço para formar um monólito, que tenha um sentido, um significado, é o que podemos muitas vezes chamar de lição de vida.

Nosso personagem deixou um monólito gravado nos anais da Fórmula 1, que lhe confere um ar de herói, tornando ele parte, na verdade, de um clube seleto de super-heróis. Estou me referindo a Jim Clark, uma unanimidade quando se relaciona os Top-10 dos melhores de todos os tempos.

Mesmo na trajetória de um piloto do quilate de Clark, podemos pinçar feitos que beiram o sobrenatural, tal é o grau de proximidade da perfeição.

Revisitando o ano de 1965 encontramos resultados que são impressionantes, não apenas pelos números, mas pela diversidade dos carros que ele pilotou naquele ano.

Jim Clark começou o ano participando do GP da África do Sul de Fórmula 1 em primeiro de janeiro. Não apenas venceu como liderou todas as 85 voltas disputadas.

Como a corrida seguinte da F1 seria o GP de Mônaco, a ser disputado apenas em 30 de maio, ele foi disputar pela primeira vez a Copa da Tasmânia, campeonato de 8 corridas disputadas na Austrália e Nova Zelândia (metade em cada país) entre janeiro e fevereiro.

Era uma competição automobilística muito importante na época, se assemelhava à Fórmula 1 em chassis e aparência. Apenas os motores seguiam os modelos que haviam disputado a Fórmula 1 até 1960. Mesmo assim, essa categoria reunia grandes nomes do automobilismo. Jim foi campeão, vencendo 4 das 8 provas disputadas.

Nos meses de março e abril, Clark participa de três campeonatos, os Britânicos de Turismo (Lotus-Cortina) e o de Carros Sport (Lotus 30) respectivamente, e o campeonato de Fórmula 2, com o Lotus 35. Nesses meses, nessas categorias, ele obtém 7 vitórias.

Para o mês de maio, Jim e o chefe Colin Chapman haviam decidido concentrar seus esforços na disputa das 500 milhas de Indianápolis. Para tal, abre mão de disputar a prova de Mônaco, já que as duas corridas ocorreriam no mesmo fim de semana.

Clark quebrou a hegemonia americana na prova de Indianápolis, que não via um piloto estrangeiro vencer desde 1946. Liderou nada menos que 190 das 200 voltas disputadas, fazendo o seu Lotus ser o primeiro carro com motor traseiro a vencer a prova americana.

De volta à Europa, ele disputa a corrida na Bélgica no circuito de Spa-Francorchamps. Clark deixou claro que não era fã do circuito belga, mas até contrapondo sua opinião, manteve uma relação de perfeita simbiose nessa pista ,tendo vencido 4 vezes nesse circuito ao longo da carreira. A corrida de 1965 foi disputada em 32 voltas, e Clark liderou todas elas, assumindo a liderança do campeonato com 18 pontos, 3 a mais que Graham Hill.

Esse ritmo vitorioso foi mantido na prova seguinte em Clermont-Ferrand, circuito onde foi disputado o GP da França, disputado em 40 voltas. Pole, Clark largou bem e manteve o comando. Durante a segunda volta Jackie Stewart, que pilotava para a BRM, assume a segunda posição e esboça uma tentativa de tomar a liderança. Mas Jim mais uma vez estava guiando numa dimensão diferente e não foi alcançado pelo compatriota.

O Campeonato estava se encaminhando para sua quinta etapa, na Grã-Bretanha, onde a prova seria disputada em Silverstone. Exceto por Monaco, onde ele não correu, Clark chega a Silverstone com 3 vitorias, tendo liderado todas as voltas que havia disputado até então.

A prova britânica seria disputada em 80 voltas. Nos treinos, Clark alcança a Pole e larga na frente. Na largada Ginther pula na frente com seu Honda para a liderança, mas antes de completar a primeira volta, Clark o ultrapassa e assume a ponta.

Clark abre uma larga vantagem sobre o pelotão, bem ao seu estilo, de andar forte para abrir vantagem sobre os demais nas primeiras voltas. Nas últimas voltas, o carro de Clark começou a falhar e a vantagem que ele tinha aberto começou a cair dramaticamente.

As pessoas percebem que, nas curvas ele estava desligando motor. Depois da prova, ele relatou que percebeu a perda de pressão de óleo e resolveu pilotar com cuidado para evitar estourar o motor, conseguindo ficar à frente na linha de chegada com três segundos de vantagem para Hill. Vencia, assim, seu quarto British GP consecutivo – e de ponta a ponta, claro.

A prova seguinte é o GP da Holanda, disputado em Zandvoort, onde a hegemonia de liderar todas as voltas de Clark é quebrada pela primeira vez no ano. Richie Ginther e Graham Hill lideram as cinco primeiras voltas da corrida. Mas Clark reage, e assume a ponta na volta seis e ali permanece até a bandeirada, na volta 80.

Na Alemanha, na desafiadora pista de Nürburgring, a hegemonia volta a se estabelecer e Clark lidera todas as voltas do GP, disputado em 15 voltas. Era sua sexta vitória em seis corridas que disputara na temporada.

Conquistava ali, com impressionantes três provas de antecedência, seus segundo título mundial de Fórmula 1, com a marca impressionante até então de ter liderado 327 voltas de 332 que ele disputou até ali.

Havia mais um detalhe. O regulamento de 1965 estabelecia o sistema de “melhores resultados”. Das dez corridas, apenas os seis melhores resultados valiam. E Clark havia coletado seis vitórias, ou seja, a pontuação máxima possível para o campeonato em pontos válidos. Simplesmente perfeito.

As provas seguintes na Itália, Estados Unidos e México, veem Clark enfrentando problemas mecânicos e ele não obtém nenhum resultado positivo.

O saldo de 1965 na carreira de Jim Clark é espantoso. Ele fecha o ano como campeão da Fórmula 1, como vencedor das 500 milhas de Indianapolis e, somando com outras categorias, obteve vitória em expressivas 23 corridas em 5 categorias diferentes, na Europa, na América do Norte, na Oceania e na África.

Um fato também raro vale o registro: em julho de 1965, Clark foi capa da revista Time, que o classificou como “O homem mais rápido sobre rodas” – The quickest man on wheels.

Pouquíssimos esportistas chegaram a obter esse feito, a grande maioria nascida nos Estados Unidos. Dentre os esportistas, apenas 3 foram automobilistas, e Clark foi o único estrangeiro.

Jim Clark era um tímido, modesto criador de ovelhas da Escócia. Ele também foi o piloto mais dominante de sua época, temido por seus rivais e elogiado por muitos como o piloto mais natural de todos os tempos.

Ele conseguia dirigir todos os tipos de carros e ganhar provas em carros de diversas categorias, bem como de Fórmula 1. Em 72 GPs de Fórmula 1, ele atingiu 33 pole positions e 25 vitórias e sagrou-se Campeão Mundial em 1963 e 1965.

Em uma era marcada por baixa expectativa de vida, ele era tão rápido que às vezes parecia que apenas uma falha mecânica ficaria entre ele e a vitória.

“Jim Clark era tão grande, se equiparando e talvez até superando, os considerados grandes até então: Nuvolari e Fangio, que eu acho que nós sentimos como se ele fosse… invencível.” Teria dito Stirling Moss sobre o escocês.

Moss estava com a razão. Rever os feitos de Clark em 1965 só me faz crer que, de fato, ele era invencível.

Um abraço,
Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

8 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Infelizmente Jules Bianchi faleceu.
    Talvez tenha sido melhor assim … viver em estado vegetativo não era bom … nem para ele e nem para seus familiares … ele teve ao menos a felicidade de fazer aquilo que mais gostava … pilotar carros de corrida … e pilotava muito bem …
    Fica na minha memória o show de pericia e pilotagem que ele deu no kart especialmente na corrida de fim de ano promovida pelo Felipe Massa …
    Que Jules descanse em paz!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Mauro Santana disse:

      Pois é Fernando, você falou tudo.

      É muito triste, mas, devido as condições que ele ficou, foi melhor assim.

      O que da raiva, é numa F1 atual, que se acha o exemplo de perfeição em corridas de carros, ter deixado acontecer uma fatalidade dessas.

      Isso, eu nunca vou aceitar.

      RIP Jules Bianchi

      Mauro Santana
      Curitiba-PR

      • Marcelo C.Souza disse:

        Concordo contigo,Mauro!

        Todos nós sabemos que o esporte motorizado(seja na F-1,na F-Indy,na NASCAR,no WEC,na MotoGP,etc.) sempre foi e sempre será arriscado para todos os que estão nele envolvidos(não só para os pilotos,mas também pros mecânicos do pit lane,espectadores e fiscais de pista),e por mais que a segurança seja melhorada para minimizar este risco,ele sempre estará à espreita nas pistas,de forma implacável e imprevisível.

        Contudo,é realmente irritante saber que essa fatalidade poderia ter sido evitada se a FIA tivesse mandado o diretor de prova acionar a bandeira amarela em todo o circuito ou até mesmo a bandeira vermelha em virtude da forte chuva que caía em Suzuka,evitando que o Bianchi(ou qualquer outro piloto) perdesse o controle do carro e colidisse contra o trator(ou o carro do Adrian Sutil ou,pior ainda,atropelasse um dos fiscais que retiravam o carro dele).

        Infelizmente,a F-1 atual está se “envenenando” a cada ano que passa,sendo vítima da sua própria arrogância e ganância daqueles que a dirigem.

        RIP Jules Bianchi
        1989-2015

        Marcelo C.Souza
        Amargosa-BA

        • Fernando Marques disse:

          Mauro e Marcelo,

          não resta duvidas que pela forma em que se deu o acidente fica difícil entender como FIA e seu regulamento não assuma nenhuma responsabilidade neste episódio.
          Concordo plenamente com vocês …

          Fernando Marques

  2. Mauro Santana disse:

    Grande texto, amigo Mário!!

    Ta aí uma época que eu gostaria muito de ter tido o privilégio de acompanhar.

    Clark era um piloto a frente do seu tempo.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    Mario,

    muito boa a lembrança mais que obrigatória de Jim Clark
    Lamento não tê-lo visto nas pistas. O que sei a história é que conta …
    Posso estar errado, mas acho difícil ver um piloto britânico da atualidade exaustando os feitos do Jim Clark. Hamilton quando fala do passado fala em Senna … nunca vi o Nigel Mansell por exemplo lembrando o Clark … nem Damon Hill … nem Derek Warick …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Ronaldo disse:

      Fernando, tem uma birra clara aí. Ser britânico é uma coisa, ser inglês ou escocês, no entanto, faz toda a diferença…

      • Marcelo C.Souza disse:

        Olá Ronaldo e amigos do GPTotal!

        Os “súditos da Rainha Elizabeth” sempre estiveram muito divididos com relação à unificação dos seus reinos(não só os escoceses,mas também os norte-irlandeses,galeses e até os próprios ingleses),tanto é que em alguns campeonatos esportivos o “quarteto bretão” acaba competindo separadamente(como na Copa do Mundo e nos campeonatos europeus de futebol). Apesar disto,os britânicos que apoiam a tradicionalíssima fusão(que já dura pelo menos 200 anos) são a grande maioria e sabem que uma eventual cisão deles seria economicamente inviável(sobretudo a curto e médio prazo),como ficou comprovado no referendo realizado por lá no ano passado.

        Um forte abraço!!!

        Marcelo C.Souza

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