O mestre de Fangio – parte 2

O mestre de Fangio
06/12/2018
O mestre de Fangio – parte 3
17/12/2018

Confira o início clicando aqui.

1929, campeão italiano.

Com os resultados do ano anterior Achille passa a receber apoio da equipe oficial Alfa Romeo assim como Brilli Peri, agora dono da Scuderia Materassi, mais à frente. Nuvolari correu como convidado da Alfa oficial (chefiada por Vittorio Jano, especialista em motores e co-criador da P2) em Mugello e Montenero.  Para Tripoli Achille prepara uma surpresa e aparece com sua P2 com pneus especialmente esculpidos mas tem que abandonar devido a um furo no tanque de combustível. Em dupla com o futuramente lendário projetista de motores Gioacchino Colombo participa da Mille Miglia com uma Alfa 6C 1750 (6 cilindros em linha com compressor), o carro da equipe oficial daquele ano, alcançando um terceiro.

Uma semana depois conquista sua primeira vitória no circuito Grand Prix em Alessandria.

Com a morte trágica de Bordino esse circuito de 32km em estradas de terra em sua região natal passa a ter seu nome. Um ano antes, Pietro Bordino e seu mecânico Pietro Lasagni treinavam nesse circuito no domingo anterior ao da corrida. O carro ia a cerca de 70km/h quando um pastor alemão se chocou contra a frente do carro. O choque danificou o sistema de direção e, com os Pietro praticamente virando passageiros, o carro saiu fora da pista, capotou em uma ravina indo parar em um canal afluente do Rio Tanaro, que corre ao longo da pista. Nessa queda Bordino foi cuspido de seu assento, caiu no curso d’água e foi levado pela corrente por um pequeno trajeto, mas já sem vida. Lasagni morreu pouco depois, devido a uma fratura no crânio.

Os pilotos largavam a cada 30” e Varzi é o primeiro, seguido por Fagioli (Maserati 26 1.5L), seguindo a ordem crescente do número dos carros. Por isso nesta prova Achille lidera desde o inicio, acontecimento pouco comum em sua carreira. O último a largar é Umberto Pugno (Bugatti T35B 2.3L supercharged), nº 70, um minuto e meio antes de Varzi completar a primeira volta. Ele faz isso em 17’24”4, média de 110,26 km/h, melhor volta da prova e novo recorde (o anterior pertencia a Tazio). Explica-se que essa foi a melhor volta da prova mesmo ele largando parado porque foi a única em que não teve uma nuvem de poeira pela frente.

Tazio teve um acidente no dia anterior e não pode largar.

Os cinco primeiros ao fim da primeira volta eram Varzi, Borzacchini (Maserati 26R 1.7L 8 cilindros em linha com compressor duplo), Brilli Peri, Mazzacurati (Bugatti T35C), Ruggeri (Maserati 26 1.5L). Na segunda Varzi aumenta a vantagem (30”) para Baconin Borzacchini que também aumenta a vantagem para Brilli Peri, que ainda corria com uma Talbot 700 (8 cilindros em linha 1,5L supercharged), agora seguido por Ruggeri e Enzo Ferrari (Alfa 6C 1750 SS). Na terceira volta Varzi já abre 2’ sobre Borzacchini, que tinha problemas com as velas. Também por isso Brilli Peri tinha descontado muito de seu atraso e efetivamente passa Baconin na  4a. volta. Ruggeri continua em 4º e Enzo em 5º. Brilli Peri anda rápido e consegue reduzir sua diferença para Varzi para 2’16”. Ghersi (Alfa 6C 1750), Zanelli (Bugatti T35B 2.3L) e Ferrari fazem tempos parecidos, mas por terem largado em diferentes momentos não disputam roda a roda, apenas no cronometro, pelos lugares seguintes a Borzacchini. Na 6a. volta Varzi aumenta novamente a vantagem sobre Brilli Peri (2’34”) e Ernesto Maserati (Maserati 26B, 8 em linha 2.0L supercharged) agora é o 4º, à frente de Zanelli, Ferrari e Ghersi. Achille completa as 8 voltas no tempo recorde (também estava nas mãos de Nivola) em 2h20m40s, média de 109.186km/h. Borzacchini em segundo, Ernesto em terceiro, seguido por Arrigo Sartorio (Alfa 6C 1750), Ghersi, Ruggeri, Pugno/Alloatti (Pugno 2 voltas, Aloatti o resto), Zanelli, Bona (Alfa 6C 1750), Fagioli. Brilli Peri tem o câmbio quebrado na última volta, Ferrari abandona, Ernesto precisou trocar pneus e velas, Ghersi e Bona tiveram problemas de freios, Fagioli de pneus e velas. Apenas 15 carros dos 33 que largaram terminam a prova.

Por que Achille não se preocupava em liderar desde o início, se não tivesse oportunidade ou se não fosse absolutamente necessário? Porque o índice de quebras costumava ser de 50%. Calculista como era, ficava à espreita para dar botes quando as oportunidades apareciam. Convém ressaltar que 33 carros, incluída categoria de cilindrada menor, era um ótimo numero de inscritos, dificilmente alcançado por outro país exceto Italia. O governo fascista via o automobilismo como um bom cartão de visita para sua política. Vitórias de um regime vencedor, deve ter sido a lógica.

Alternando corridas de monopostos e carros esporte Achille vence o GP de Roma, a Coppa Montenero, a prova Trieste-Opicina e Monza.

O GP de Roma era corrido na parte sul de Roma, no Circuito Ostiense ou Circuito Tre Fontane. Terreno levemente montanhoso, basicamente um triângulo com 3 curvas fechadas, 13 km percorridos 30 vezes. A largada era dada na extremidade sul da Via Ostiense, seguia em direção ao norte por uns 4 km, com o Tevere (Tibre) a oeste e uma linha férrea a leste. Aí vinha a primeira curva fechada para a direita. A pista passava sob uma ponte ferroviária e fazia uma longa curva para a esquerda, em subida, pela Via Tre Fontane. Em seguida vinha uma curva de raio longo para a direita, em direção ao sul, seguida por um trecho cheio de subidas e descidas de 4km da Via Laurentina, até a segunda curva fechada. Nesse ponto, conhecido como Bonifica nº 9, a pista seguia em direção oeste em curvas descendentes por cerca de 4 km, cruzando um pequeno riacho. O trecho seguinte era plano, com curvas rápidas ao logo da Via di Decima. Perto do final os carros passavam sob uma segunda ponte ferroviária e atacavam a última curva fechada à direita em direção à chegada.

Esta seria a 5a. edição do Reale Gran Premio di Roma e todas as anteriores tinham sido vencidas por uma Bugatti, o que obviamente incomodava os italianos. Mesmo sendo bem clara a origem de Ettore, ele representava a França.  Por isso o confronto seria serio, com as equipes oficiais da Alfa, Bugatti e Maserati presentes. Eram três categorias: acima de 2000cc, entre 1500 e 2000cc, e abaixo de 1500cc. Varzi entrava na segunda, com sua P2 campeã de 1925. A de Brilli Peri tinha tido o motor aumentado para 2006cc e assim entrava na primeira categoria. 5 Bugatti T35C de 2.0L estavam inscritas, sendo uma a de Tazio, por sua própria equipe, outra para Carlo Tonini, outra para Giulio Foresti e duas oficiais para Albert Divo e William “Williams” Grover-Williams. A Maserati trouxe três carros, um 1.7L para Borzacchini, um 2.0L para Ernesto e um 1.5L p Fagioli.

A ordem de largada era de acordo com o numero do carro, do mais baixo para o mais alto.

Hans Stuck (nº 2, independente, Austro Daimler 3.0L), que largava na primeira fila, aproveitou bem a oportunidade e  saiu na frente com Varzi logo atrás. Bom considerar que as P2, de 2.0L, vendidas pela Alfa quando a formula mudou para 1,5L, continuavam se mostrando muito competitivas. Brilli Peri ultrapassa os dois antes do fim da primeira volta. Borzacchini vem em seguida, e todos os demais vão ficando envolvidos em uma densa nuvem de pó. Os que largavam mais atrás são obrigados a esperar até que a curva fechada logo após a ponte ferroviária esteja novamente visível. Ao fim da terceira volta Varzi já tinha assumido a ponta, com média de 129,779km/h, Brilli Peri em segundo, Stuck (perdendo potência), Borzacchini, com Nuvolari a 30”.

Na quinta volta Varzi e Brilli Peri tinham colocado uma volta no 11º colocado. Atrás deles vinham

Stuck,  Bouriano (Bugatti, independente), Nuvolari, Arcangeli (Talbot), Divo com a única Bugatti oficial. Seu colega “Williams” tinha capotado nos treinos, salvando-se porque pulou do carro no último momento. Por isso Divo adotou um ritmo cauteloso, visando essencialmente completar a prova. No fim dessa volta Stuck pára nos boxes com problemas de vela e lubrificação. Com isso Bouriano e Nuvolari sobem. No 6º giro Borzacchini sai fora da pista ao ultrapassar um retardatário e capota ao cair em uma vala. Do mesmo jeito que “Williams”, sai ileso por ter pulado fora.

Ao cabo de 10 voltas a ordem era: Varzi, Brilli Peri, Bouriano, Nuvolari. Já uma volta atrás dos dois líderes vinham Arcangeli (Talbot), Divo, Caflisch (Mercedes SS 7,1L praticamente de passeio), Fagioli. Na volta 11 Brilli Peri faz a volta mais rápida, a 133,769km/h (record). A partir da 14 todo mundo começou a parar para reabastecimento e pneus. Nuvolari pára na 15 e abandona. Achille pára na 21 e Brilli Peri passa à frente com uma vantagem de 1’30”. Divo está em terceiro mas 9 minutos atrás de Varzi, que aperta o ritmo para alcançar o líder. Todo mundo se pergunta quando Brilli Peri irá parar. Ele só vai fazer isso na volta 28. O mecânico está esperando com um reservatório já sem tampa, que ele vira no bocal sem se preocupar com o que vaza. Não seria necessária cada gota. Essa operação dura apenas 30”, mas é suficiente para Varzi assumir a ponta, ainda que por muito pouco. Começa um duelo feroz, mas gradativamente Achille vai se impondo até cruzar a linha 47” à frente. Ele vence na categoria até 2 litros, Brilli Peri na acima de 2 litros, Divo chega em terceiro, Arcangeli em quarto, vencendo na categoria abaixo de 1,5L.  

12 abandonos sobre 23 inscritos.

Montenero era um circuito de 22,5 km/h perto de Livorno. Brilli Peri larga na frente, com sua P2 mas Varzi o ultrapassa na 4a. volta. Brilli Peri para nos boxes na 8a. volta e assim Achille fica livre para assegurar a vitória. Nuvolari e Campari vem a seguir, com as Alfa 1750, Arcangeli (Talbot) e Brilli Peri completando as 5 primeiras posições. Pastore, o amigo de Nuvolari, chega em sexto com Maserati. 16 carros chegam, seis ficam pelo caminho. Monza era a corrida mais importante da categoria Grand Prix, naquele ano. Convém lembrar que na época não havia um campeonato mundial, mas o italiano era talvez o mais importante, pois Bugatti, Talbot, Delage costumavam participar para valer. Daimler Benz também era representada.

A prova foi realizado no anel de velocidade, em baterias. Na etapa final 9 carros estavam classificados, largando em duas filas. A primeira era composta por Nuvolari (Talbot 700), Arcangeli (Talbot 700), Caflisch (Mercedes SS 7,1L), Momberger (Mercedes SSK 7,1L) e Alfieri Maserati (V4 4L 16 cilindros). A segunda por Varzi, Borzacchini (Maserati 26B 2,0L), Brilli Peri (Alfa P2). Varzi assumiu a ponta, seguido por Borzacchini, Alfieri Maserati, Arcangeli e Nuvolari, separados por menos de 3”. Atrás, em ritmo deliberadamente mais lento vinha Brilli Peri, acossado pelas duas Mercedes.

Na volta seguinte Alfieri ataca e assume a ponta. Vira em 1’21”, 200 km/h de média.

Ele estava psicologicamente abalado, por ter perdido uma vitória que parecia fácil, tal a vantagem que tinha para Momberg com a pesada SSK. Alfieri confiou demais na vantagem que tinha aberto, adotou um ritmo excessivamente cauteloso e foi pego de surpresa pouco antes da chegada. Brilli Peri inicia sua escalada e passa Tazio. Na 3a. volta passa Arcangeli. Na 4a. volta Alfieri está 3,6” à frente de Varzi. A esta altura a ordem era: Alfieri, Achille, Baconin, Brilli Peri, Arcangeli, Nuvolari, Caflisch, Momberger e Ruggeri. Na 6a. volta Achille diminui para menos de um segundo e Brilli Peri ultrapassa Baconin.

Borzacchini e Brilli Peri tem problemas com pneus e precisam ir aos boxes, perdendo muito tempo. Na volta 11 Achille assume a liderança. Em seguida Alfieri vai para os boxes trocar velas. Na volta 12 Varzi está 43” à frente de Arcangeli e 1’52.2 adiante de Tazio, que pilotava brilhantemente, tirando tudo que podia da Talbot da Scuderia Materassi. Brilli Peri está em 7º, virando 5” mais rápido que os mais rápidos e passa as duas Mercedes. Na volta 20 o galliatese põe uma volta sobre o rival mantuano.

A ordem final é Varzi, Nuvolari, Momberger, Brilli Peri (teve que parar nos boxes para fixar um escape solto), Caflisch, Alfieri, Baconin, Ruggeri, tendo Arcangeli abandonado antes. O resultado final não espelha o brilho da nova Maserati 16 cilindros nem o belo trabalho feito por Borzacchini, apesar dos problemas enfrentados. Uma vitória incontestável, tão espetacular que a multidão aplaude delirantemente. Ao final Achille é carregado em triunfo pelo público, já como campeão italiano. A moto agora está em segundo plano mas ele ainda consegue uma vitória em Mantua, terra natal de Nivola, com uma Sunbeam 500 M90 Racer.

Continuaremos essa saga em breve.

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

2 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    boa história e bons videos …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Carlos Chiesa disse:

      Os videos são mérito do Marcel Pilatti. Ele consegue achar raridades extraordinárias, tesouros arqueológicos dignos de um museu internacional de automobilismo.

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